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Em muitas obras da terceira onda, artistas retomam assuntos de protesto como principais temas. Sendo ainda um assunto recorrente na arte contemporânea e na produção de arte feminista, a exploração do corpo feminino, o uso deste como liberdade de expressão, e assuntos relacionados à sexualização e objetificação feminina são muito presentes.

Com codinomes de grandes feministas do século XX como Frida Kahlo e Gertrude Stein, e suas famosas e ilustres máscaras de gorilas – que reforçam seus anonimatos de maneira que isso as ajuda a se manterem focadas nas questões principais, e não em quem elas são ou podem ser -, que denunciam preconceitos raciais e de gênero nas artes, o grupo Guerrilla Girls surgiu junto com a emergente terceira onda do feminismo, composto de mulheres que não revelam seus verdadeiros rostos ou nomes, e, em conjunto, protestam contra discriminações de todos os tipos e corrupção, e abusam de humor e da cultura pop em peças visuais que compõe suas colagens com críticas a estereótipos de gênero e objetificação do corpo. “Nós também fazemos projetos e exibições em museus, atacando-os pelo seu péssimo comportamento e práticas discriminatórias em suas próprias paredes [...]”

(GUERRILA GIRLS, 2018, n.p.).

Um de seus pôsteres mais notáveis e conhecidos, “Do women have to be naked to get into the Met. Museum?” (1989) (As mulheres têm de estar nuas para entrar nos museus dos EUA?) se volta para uma das questões mais abordadas pelas primeiras ativistas da segunda onda a respeito das mulheres serem vistas apenas como assistentes e musas artísticas, e, embora retratadas como belas e puras nessas obras, sua nudez e sexualidade sempre foi tratada como um grande tabu na realidade. Enquanto artistas homens e suas obras-primas cheias de sensualidade feminina ganhavam a sociedade e espaço em museus, as mulheres, como artistas e criadoras, eram deixadas de lado na arte.

Figura 19 - Do women have to be naked to get into the Met. Museum? (1989)

Fonte: Tate (2018, n.p.)

Acompanhada da pergunta, a seguinte estatística: “Menos de 5% dos artistas na seção de arte moderna são mulheres, mas 85% dos nus são femininos”, completando a crítica com uma colagem de uma imagem clássica de uma pintura de um nu feminino, cuja cabeça fora substituída pelo maior símbolo das Guerrilla Girls – a máscara de gorila, ocultando sua verdadeira face. A questão abordada pelas artistas nessa obra é extremamente relevante em qualquer época: ainda que as mulheres tenham ganhado espaço na arte contemporânea desde os primeiros protestos na década de 1970, as mulheres na arte, segundo os olhos da sociedade, ainda são vistos como na época em que os nus femininos eram sobre uma sensualidade proibida – o público aceita obras em que mulheres estão nuas apesar do tabu existente, mas reagem negativamente às obras feitas por mulheres quando estas tentam resgatar sua natureza feminina e se libertar utilizando-se do nu e da expressão corporal.

Pense nisso desta maneira: um estereótipo é uma caixa, normalmente muito pequena, a qual é embutida em uma garota. Um arquétipo é um pedestal, geralmente alto demais, ao qual ela é erguida. Alguns arquétipos podem ser estereótipos, como a Madre Teresa ou uma Bombshell (símbolo sexual feminino). Mas existem vários estereótipos que nunca seriam considerados arquétipos: esposa troféu, vadia, interesseira, etc. Estereótipo ou arquétipo, raramente a escolha é da própria garota. É um rótulo que outra pessoa te dá para fazer de você mais ou menos do que você realmente é.

(GUERRILLA GIRLS, 2003, p. 7-8).

Uma das obras mais importantes para o movimento feminista e para a figura feminina produzida pelas Guerrilla Girls acabou não sendo uma obra visual propriamente dita, ou uma de suas instalações ou performances, mas um livro cheio de conceitos e críticas a respeito do lugar da mulher na sociedade, e de sua representação por parte desta. A objetificação feminina não é um tema novo para as artistas que sempre tentam buscar maneiras inovadoras de ir contra uma sociedade que faz com que as mulheres se sintam sexualizadas e objetificadas em conteúdos explícitos em diversos lugares, e os estereótipos existentes para cada tipo de mulher, inventados para rotular características semelhantes, não deixam de ser uma maneira de transformar mulheres em objetos facilmente etiquetados.

Estereótipos são colocados nas mulheres enquanto crianças e não importa o que aconteça ou o que elas façam, existe um rótulo que as seguirão pelo resto de suas vidas: filhinha do papai, vadia, santa, interesseira, moleque, loira burra, e tantos outros, criados pela sociedade e escolhidos a dedo para cada tipo de mulher como algum tipo de verdade universal. Bitches, Bimbos and Ballbreakers (2003) disseca

todos os clássicos estereótipos femininos, explica e questiona suas origens com humor e exemplos, e ainda traz reflexões sobre a cultura de uma sociedade que sente a necessidade de etiquetar a tudo e todos.

Figura 20 - Página do livro Bitches, Bimbos and Ballbreakers

Fonte: Bitches, Bimbos and Ballbreakers (2003, p. 84)

Baseada nesses estereótipos ainda presentes na sociedade sobre a mulher, Ana Teresa Fernandez cria pinturas a óleo que abordam as fronteiras entre as muitas facetas das mulheres, em um nível físico, psicológico e emocional. Seus retratos representam mulheres em atividades que, desde sempre, foram pré-definidas como femininas, de maneira crítica quanto ao papel social imposto às mulheres. Suas pinturas com bases em performances, ela explora os territórios desses estereótipos, apresentando a dualidade da mulher perante a sociedade.

Meu trabalho investiga como as mulheres identificam suas forças e sensualidade ao realizar um trabalho no qual não há nenhum valor econômico ou social visível, e que é frequentemente considerado “sujo”. [...]

Vestindo esse símbolo da prosperidade americana e feminilidade (vestido preto), a protagonista dança esse dilema intangível com suas performances na fronteira entre Tijuana e San Diego – um lugar que eu mesma tive que atravessar para estudar e viver nos Estados Unidos. (FERNANDEZ, [200-], n.p.).

Uma de suas primeiras séries de pinturas hiperrealistas baseadas em performances se chama Pressing Matters, nas quais uma mulher usando uma vestimenta de tango realizando atividades de limpeza em espaços públicos e privados – e assim como no tango, ela duela com seu parceiro, o ambiente. O corpo retratado é um símbolo para a exploração da mulher, em uma atividade associada ao feminino, enquanto a “dança” refere-se à luta contra as noções de gênero e as expectativas em relação ao próprio empoderamento e os instintos.

Os homens querem uma dama na mesa e uma puta na cama” foi uma frase que eu escutei aos quinze anos, e isso ainda permanece em meus ouvidos.

Para as mulheres contemporâneas, é difícil reconciliar as imagens ambíguas de uma virgem e uma puta em nossa cultura: limpa versus suja. É uma linha tênue que se torna o ponto de demarcação para as mulheres que dançam em volta disso. (FERNANDEZ,).

Ablution ([200-]) é uma série de pinturas de performances que submerge corpos em diferentes locais, relacionando aos rituais de limpeza e focados no gênero, raça e sexualidade. Fernandez se utiliza de uma metáfora com a água para retratar a pureza do corpo, mergulhando em performances religiosas e históricas originadas no paganismo. A água, como um símbolo de fertilidade e força, torna-se um elemento religioso de purificação. Esse conjunto de obras reflete a busca por formar sua própria identidade e por seu próprio corpo através de ações repetitivas, a sociedade sempre distorcerá isso, por causa das percepções individuais de cada pessoa.

Figura 21 - Pressing Matters ([201-])

Fonte: Ana Teresa Fernandez (2018, n.p.)

Inspirada pelo desaparecimento de quarenta e três jovens estudantes de Ayotzinapa, México, Fernandez honra essas pessoas confrontando as histórias contemporâneas que são censuradas, acusando a falta de justiça quanto ao desaparecimento podendo ser intencional, graças aos governos que não protegem os indivíduos e não os valorizam. Empoderando aqueles que não são vistos através de sua arte, ela pinta todo o seu corpo de preto em Erasure ([200-]), até que somente vislumbres da cor apareçam. Esse conjunto de obras é uma representação do corpo político sendo divido.

Sua performance mais conhecida, no entanto, trata-se da Borrando La Frontera (Erasing the Border), que ocorreu nos limites de San Diego, Estados Unidos, e Tijuana, México, em 2012 (FERNANDEZ, 2018, n.p.). O muro se torna uma representação agressiva da subjugação do México e sua população, especialmente para as mulheres mexicanas que atravessam a fronteira para trabalhar nos Estados Unidos e construírem uma vida melhor para si e suas famílias, e Fernandez pinta esse muro, fazendo com que se pense que este desapareceu.

Figura 22 - Erasing the Border (2012)

Fonte: Ana Teresa Fernandez (2018, n.p.)

Mesmo com as dificuldades de se protestar no ocidente em alguns casos, muitas artistas encontraram liberdade de expressão através de obras que falavam e ainda falam por muitas mulheres, mas as complicações no oriente, tais como a guerra entre o Irã e o Iraque e a Revolução Islâmica mudaram completamente a vida de muitas pessoas, e transformaram a vida de muitas mulheres muçulmanas. Foi diante de seus dilemas e questionamentos pessoais a respeito desses acontecimentos que a artista Shirin Neshat buscasse expor os sentimentos e as vidas das mulheres iranianas diante de suas realidades tão diferente do ocidente.

A artista deixou o Irã aos 17 anos e se mudou para os Estados Unidos para estudar, e enquanto vivia no exterior, a reforma política instalou um Estado teocrático em seu país, o que a impediu de retornar por muitos anos. Ao finalmente conseguir voltar, deparou-se com um país completamente diferente do que havia deixado, e isso a comoveu a mostrar a realidade vivida especialmente pelas mulheres muçulmanas em meio à guerra e ao extremismo.

Figura 23 – Rebellious Silence (1994)

Fonte: Obvious (2003, n.p.)

Em seus trabalhos mais famosos e impactantes, Women of Allah (1993-1997), Neshat buscou mostrar a realidade das mulheres iranianas e o envolvimento feminino na guerra do Irã, utilizando armas para fazer a alusão aos combates, dando ênfase nas mulheres veladas e seus olhares hipnotizantes – enquanto a composição de suas fotografias são simetricamente pensadas, utilizando contrastes entre claros

e escuros em tons de cinzas que recortam as figuras em véus escuros que causam uma certa tensão sombria de seus fundos brancos, cujas armas interrompem a simetria causando desconforto, a artista representa o silêncio das mulheres muçulmanas envolvidas nos conflitos armados do país, em poucos símbolos trazidos com extrema intensidade aos olhos do espectador.

Figura 24 - Faceless (1994)

Fonte: Khan Academy (2018, n.p.)

A delicadeza e sutileza trazida nas obras que compõem Women of Allah causam tamanho impacto em quem as vê, trabalhando a intensidade de uma realidade que, para muitos, é um mistério intrigante, mesclando a violência com a mensagem marcante das mulheres muçulmanas que emocionam com suas histórias contadas em um silêncio profundo através de um único olhar em uma única foto de Neshat, que retrata de maneira emocionante as faces violentas da guerra como as pessoas geralmente não enxergam.

Um tema muito recordado na terceira onda que chama atenção por ser muito utilizado desde as primeiras artistas relaciona-se com a autoimagem e a aceitação de si mesma, e as deformações corporais em decorrência da aprovação da sociedade. Incorporando elementos da cultura pop em suas obras, Ellen Gallagher, por meio de pinturas, colagens e videoarte, examina, investiga e critica estereótipos afro-americanos muito comuns, e os preconceitos ligados às origens destes. Em sua série intitulada DeLuxe (2004-2005), a artista junta recortes de propagandas de produtos cosméticos indicados inicialmente para mulheres afro-americanas, tais como alisadores e clareadores, e analisa o conceito desses produtos e materiais a partir de uma narrativa mais ampla – em se tratando de raça e de como esse tipo de cosmético é utilizado na sociedade.

Figura 25 - DeLuxe (2004-2005)

Fonte: Tate (2018, n.p.)

Na obra #YoSoySomos da brasileira Angélica Dass, a artista junta diferentes panoramas de mulheres migrantes que dividem suas narrativas com os espectadores. Essas mulheres apresentadas em seu conjunto de fotografias busca valorizar suas identidades individuais, mas suas histórias, como a artista se refere, podem pertencer a qualquer um. Esses relatos se tornam intercambiáveis, e quebram preconceitos e estereótipos sobre migrantes e imigrantes, compartilham experiências de pessoas que viveram situações que muitos conseguem se espelhar, e as prestigiam como mulheres fortes.

Figura 26 - Yo Soy Somos (2015)

Fonte: Angélica Dass ([201-], n.p.)

Em outro de seus trabalhos, a artista brinca com a escala de tons de pele mundial baseada na tabela Pantone de cores para mostrar e valorizar a grande

variedade de etnias humanas, colocando-as lado a lado, homens e mulheres de todas as idades, como uma maneira de empoderar todos os seres humanos, fazer com que a humanidade comece a desafiar o mito de raça e erradicar equívocos relacionados ao assunto – e propagar tolerância sobre a discriminação e os preconceitos relacionados às etnias.

Figura 27 - Humanae Project (2017)

Fonte: NSS Magazine (2017, n.p.)

Apesar de muitas artistas ainda produzirem arte em cima de temas relacionados em cima de movimentos sociais, preconceitos e discriminação, o foco de muitas mulheres que ganharam acesso às escolas de arte e ao estudo de qualidade se voltou para as técnicas que, em grande parte da história, fora algo masculino. A valorização do corpo humano volta a ser um tema muito apreciado na arte contemporânea, especialmente no século XXI, com o grande acesso à informação, e as mulheres escapam de temáticas e narrativas sociais para trabalhar com obras que ressaltam a beleza feminina e a expressão.

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