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Capítulo 1. O herói mítico: Enquadramento teórico

1.3. O percurso do herói

1.3.4. A viagem do herói de David Leeming

Como referimos brevemente no início deste capítulo, David Leeming, especialista em mitologia e literatura comparadas, baseia-se no trabalho de Joseph Campbell para escrever várias obras nas quais aborda o mito do herói. Embora seja uma continuidade, a sistematização que este autor apresenta assume-se, por um lado, como a mais recente proposta teórica sobre o mito do herói; por outro, e nas palavras do próprio autor, como uma forma simplificada do “monomyth” de Campbell. O autor identifica oito etapas distintas, embora a mesma personagem não tenha necessariamente de passar por todas para ser considerado um herói. Para Leeming, a fase fundamental para esta definição é a demanda.90

87 Vd. Idem, pp. 167-170. 88 Cf. Idem, p. 189.

89 LEEMING, D., “Monomyth” in LEEMING, D. (ed.), op. cit., p. 1124. 90 Vd. LEEMING, D., Mythology. The voyage of the hero, p. 7.

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Importa, então, escalpelizar estes diferentes estágios, com vista a compreender-se melhor a sua posição.

a) Concepção miraculosa, nascimento e ocultação da criança:

A maioria dos heróis tem um nascimento miraculoso e extraordinário, o que faz deles um ser diferente dos outros logo a partir do momento em que nascem. Leeming considera que um dos elementos fundamentais – ainda que não esteja presente em todos os mitos de herói – é a concepção imaculada.91

Segundo o autor, o local do nascimento do herói reveste-se de uma enorme carga simbólica, já que: “The association of the hero’s birth with the unknown is further expressed in the theme of the hidden place where the child is born or placed soon after birth.”92 Estes espaços isolados podem ser entendidos como símbolo do útero da mãe

universal. O rio (elemento aquático) é outro símbolo que marca esta primeira etapa da vida do herói, representando a vida, o renascimento e a salvação. Por outro lado, o perigo é uma realidade na vida do herói logo no seu nascimento. Uma das formas de representar esse perigo é colocando o herói em contacto com a Natureza.93

b) Infância, iniciação e sinais divinos:

É nesta etapa que o herói, ainda criança ou bastante jovem, toma consciência de si próprio e da sua identidade. Para que tal aconteça, é necessário que enfrente os seus medos, numa palavra, o desconhecido, por forma a passar por um renascimento que permita a entrada na vida adulta. Para deixar de ser uma criança, o herói tem provar as suas capacidades, tal como os jovens têm de se afirmar perante a sua comunidade.94

c) Preparação, meditação, afastamento e recusa:

Esta é uma etapa menos comum que surge, sobretudo, em mitos do Extremo Oriente ou de religiões animistas, embora também esteja presente no Cristianismo. Apesar disso, Leeming defende que esta pode aparecer em mitos do Próximo Oriente –

91 Cf. Idem, p. 39. 92 Idem, ibidem. 93 Vd. Idem, p. 40. 94 Cf. Idem, p. 65.

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especialmente nos de épocas mais recuadas – não sendo, assim, um motivo ignorado pela civilização a que nos dedicamos. O afastamento deve ser entendido como uma etapa positiva na viagem do herói, pois ao ficar isolado, este pode reflectir sobre o seu papel, o que lhe permite que se descubra a si próprio.95

d) Testes e demanda:

“The quest myth in one sense is the only myth – that is, all other myths are a part of the quest myth. (…) the birth, childhood, withdrawal, death, underworld, rebirth, and apotheosis myth are really only aspects of the central quest.”96 Para Leeming, a demanda

é, assim, o elemento fundamental do mito do herói, pois a sua existência e obrigação de ser cumprida é o que justifica a necessidade de criar um herói. Esta, por mais variada que possa ser, normalmente corresponde a arquétipos, como a busca por algo perdido, uma descida ao Inframundo ou a luta contra forças malévolas.97

Ainda que possa ser vista como parte de um todo na viagem do herói, esta etapa caracteriza-se pela realização da demanda principal, pois é aqui que o herói tem a oportunidade de pôr em prática os conhecimentos que foi adquirindo ao longo da sua jornada.98 Deve ser salientado que tanto existem demandas legítimas como ilegítimas,

sendo as primeiras marcadas pelo sucesso. As segundas normalmente fracassam, embora, ao falhar, o herói receba algo que se revela útil para si e para a sua comunidade.

e) Morte e bode expiatório:

Esta etapa relata a morte do herói, que é geralmente violenta e, por vezes, auto- infligida. A sua morte corresponde a um período de infertilidade e escassez mas ao mesmo tempo simboliza a possibilidade de surgir uma nova vida: “The hero faces death and dies for us. In so doing he holds out a promise of new life through his sacrifice. He thus also teaches us something of the positive nature of death as the catalyst for a new birth through the spirit.”99

95 Cf. Idem, p. 97. 96 Idem, p. 152.

97 Vd. LEEMING, D., “Quest” in LEEMING, D. (ed.), op. cit., pp. 1455-1456. 98 Cf. LEEMING, D., Mythology. The voyage of the hero, p. 152.

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f) Descida ao Inframundo:

Continuação da etapa anterior, nela o herói deambula pelo domínio dos mortos, onde tem uma função a cumprir. Esta pode ser a recuperação de algo ou alguém que se encontra neste plano, sendo que na maior parte dos casos, o herói é bem sucedido na sua tarefa. Segundo Leeming, a descida ao Inframundo afirma-se como um novo rito de passagem que tem por objectivo tornar o herói num novo ser – fazê-lo renascer – ao quebrar a sua ligação com o mundo temporal e físico, durante um determinado período de tempo.100

g) Ressurreição e renascimento:

Esta etapa fecha um ciclo caracterizado pela morte, viagem ao Inframundo e renascimento e expressa o desejo universal de ressurreição, da vida após a morte. Segundo Leeming, o renascimento é uma repetição simbólica do nascimento miraculoso, que se expressa com a transposição do herói de um estado de não-vida para um estado de vida, com o herói a conquistar a morte e a alcançar a ressurreição.101

h) Ascensão, apoteose e expiação:

Uma das formas de apoteose é a transformação do herói num deus. O herói que era humano e mortal passa a ser divino e imortal.102 Quanto ao herói histórico, este

normalmente desaparece, integrando-se no Cosmos. Tal acontece para que ele possa deixar de fazer parte do mundo do tempo e da História e passe a fazer parte do mundo do mito103:

The myth of the apotheosis is the logical conclusion to the hero’s adventures. He is taken out of the cycle of life and given a permanent status in recognition of his inherent divinity – his real self. As he has been miraculously conceived of the void, so must he be returned to the creator and to that void.104

100 Vd. Idem, pp. 213-214. 101 Cf. Idem, p. 239.

102 Cf. MILLS, A., “Apotheosis and return” in LEEMING, D. (ed.), op. cit., pp. 104-105. 103 Vd. LEEMING, D., op. cit., p. 257.

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A partir do resumo das diferentes etapas propostas por Leeming que acabámos de expor, facilmente se percebe o trabalho de sistematização e organização, baseando-se no caminho trilhado por Campbell. Notamos, também, a influência dos estudiosos do mito do herói que o antecederam. O seu modelo assume-se, então, como uma base de trabalho teórica sólida sobre a qual a presente dissertação pretende alicerçar-se.