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2. AS RESISTÊNCIAS SILENCIOSAS

2.1 A vida na terra e o caminho para a cidade

Nina nasceu em Várzea Nova, no centro-norte da Bahia, em 1966. Sua mãe, dona Rosa, chegara à região ainda criança, no início dos anos 1950, quando sua família, junto com algumas outras, saíram de Pernambuco para uma longa jornada, feita a pé e em traseiras de caminhões, após um período de seca. Na Bahia, a família de Rosa conseguiu morada em uma propriedade familiar e a moça foi orientada pelos pais a se casar com um dos filhos do dono, José – que em Guariba se tornaria o “Zé Baiano”. Nina foi a primeira de oito irmãos a nascer e, por isso, desde muito cedo ajudou a mãe no roçado da família e no serviço doméstico, enquanto o pai trabalhava “para fora”, na produção de sisal. Se lembra que a mãe costumava levar os filhos para a roça e encontrava sempre uma sombra para deixa-los enquanto trabalhava. Outra opção era que ficassem com a avó, na casa ao lado.

As múltiplas migrações também fazem parte da história da família de Ana. Ainda que não se lembre de muitos detalhes, sabe que seus pais nasceram em Varginha, Minas Gerais, e que naquele estado foram moradores de fazenda até por volta de 1955, quando migraram para Cambira, no Paraná, por ouvirem dizer que lá a terra era boa e que havia fartura. Eles conseguiram trabalho em uma fazenda, provavelmente como parceiros, pois Ana acredita que recebiam como pagamento apenas uma parte da colheita, vendida pelo pai a feirantes de cidades

próximas. Entre as produções da fazenda, ela cita café, arroz, feijão e soja. O proprietário também fornecia “aquele pedaço mais sujo, que ele não ia perder tempo de cuidar” para a família fazer o seu próprio roçado. Lá, plantavam inhame, milho, hortaliças e mandioca, que Rosa, a mãe de Ana, utilizava para fazer farinha e biju, tanto para consumo próprio, quanto para venda, responsáveis pelo “ganhinho a mais” da família.

Muitas famílias trabalhavam na fazenda, formando uma espécie de vila, com uma igreja e uma escola. As famílias mais antigas ocupavam as casas de sapê e as demais, que aos poucos chegavam, construíam suas habitações com madeira e lona. Ana ressalta constantemente a união e a solidariedade entre os moradores, que dividiam os alimentos, principalmente em momentos de festa e de dificuldade. Periodicamente, freiras também visitavam as famílias para doar roupas, pesar as crianças e orientar sobre questões de saúde e higiene. Ana se lembra que elas sempre precisavam tirar bichos-de-pé, pois grande parte das crianças da fazenda não possuía calçados.

A Igreja Católica ocupava um grande espaço da vida das famílias, pois, além de ser o lugar a recorrer em momentos de dificuldades, nas figuras do padre e das irmãs, era um espaço de socialização para além do trabalho, seja na missa aos domingos, na reza do terço – cada dia em uma casa – ou em festividades. Nos períodos de seca, as famílias também organizavam uma novena e caminhavam em procissão para jogar água em uma cruz, mantida no topo de um morro. “Íamos longe... juntava aquela fila de gente andando com água na cabeça, desde os pequenininhos que não aguentavam andar, até os mais velhos (...), fazendo penitência para chover, (...) cantando e rezando”, descreve.

Ana não frequentou escola na infância, pois a família só conseguia fornecer lápis e papel para os dois filhos mais velhos, e ela fora a quarta a nascer. Os pais guardavam o papel que embrulhava o pão, fornecido pelo fazendeiro, para ser utilizado como material escolar. A borracha era feita pelo pai, José Guido, extraída de uma seringueira que havia no quintal, e o lápis – um para cada estudante – era o único item comprado. Todas as manhãs, Ana via as crianças partirem juntas, a pé, em direção ao colégio e tentava imaginar o que acontecia no local de destino.

Por volta de 1973, aos cinco anos, Ana começou a assumir tarefas para contribuir com o trabalho da família. Sua função era cuidar da irmã – que era mais velha, mas sofria de desmaios – e do irmão mais novo – que ainda amamentava –, além de esquentar a comida e levar marmitas para os que trabalhavam na roça – geralmente a mãe, o pai, a irmã e o irmão mais velhos. Para alcançar a panela no fogão a lenha, precisava subir em um banquinho de madeira improvisado por dona Rosa. No inverno, Ana também era responsável por esquentar água para o banho dos que chegavam da roça, ao anoitecer. Em dias quentes, os homens tomavam banho no rio e as mulheres e as crianças menores, em casa, enquanto a mãe preparava o jantar. Quando não havia comida, Rosa também colhia algo no roçado da família, geralmente inhame, mandioca ou mamão.

Cada membro da família possuía funções a serem realizadas para contribuir com o sustento coletivo. O pai distribuía as tarefas, era o responsável pelo trabalho na lavoura da fazenda e vendia os produtos a feirantes. A mãe se dividia entre a lavoura da fazenda, o roçado familiar, o cuidado com animais de pequeno porte, o preparo das refeições, e era responsável pela produção doméstica (farinha, biju, conservas, utensílios, costura, etc.) tanto para uso e consumo próprio, quanto para venda. Os filhos mais novos que já conseguiam buscavam lenha e água; os filhos e as filhas mais velhos auxiliavam o pai na lavoura da fazenda; as filhas também contribuíam nas tarefas domésticas e no cuidado dos irmãos pequenos. Na época de colheita, as crianças também eram responsáveis por recolher os alimentos que sobravam no chão, estratégia utilizada para aumentar os ganhos e melhorar a alimentação da família, principalmente em períodos de escassez.

Ainda que distante geograficamente, a organização familiar descrita por Ana assemelha-se à análise de Garcia, Garcia Jr. e Heredia (1984)105 sobre as relações sociais no interior das unidades domésticas entre pequenos produtores ligados à plantação açucareira no Nordeste do país. Para os autores, naquele contexto, não se considera que os filhos e a esposa trabalhem, mas apenas “ajudam” o pai no trabalho da lavoura. O trabalho para consumo próprio – na casa ou no roçado familiar – também não eram considerados trabalho. A oposição casa-roçado, assim, delimita as áreas de “trabalho” e “não-trabalho”, e os lugares masculino e feminino

105 É importante admitir aqui que a comparação feita é em grande medida superficial, pois, obviamente, não contou com observação in loco e é limitada ao que me revelou Ana, que na época era criança.

presentes nessa divisão, nas unidades familiares de produção camponesa – ideia presente também em Garcia (1983) e Heredia (1979). Ainda que a percepção de Ana, hoje, não seja exatamente essa – na medida em que afirma os esforços femininos, em especial os de sua mãe, como trabalho – não significa que esta não fosse a compreensão, dentro e fora da família, naquelas circunstâncias, dada a importância da autoridade paterna e da delimitação de funções e lugares femininos e masculinos em seu relato. O papel das crianças, no entanto, é nomeado por ela como “ajuda” e, por isso, tem dificuldade de precisar o momento em que começou a trabalhar. Refletindo sobre a pergunta, em um dado momento, Ana concluiu: “eu sempre trabalhei”.

Do mesmo modo, Nina tem dificuldade de se lembrar quando começou a participar das tarefas na casa e na lavoura, apenas sabe que quando a família começou a ir para Guariba, no período de safra, em 1970, sua contribuição passou a ser mais necessária, já que a mãe não conseguia mais olhar os filhos enquanto trabalhava. Estimulada pelo tio paterno, que já vivia no município, a família passava sete meses no interior de São Paulo – onde o pai e a mãe trabalhavam nas safras de laranja, amendoim ou cana – e depois voltava para a Bahia – onde ficava durante outros cinco meses do ano. Eles fizeram esse trajeto cerca de três vezes, até decidirem se mudar para Guariba de forma definitiva.

Chegaram ao município por volta de 1974 e conseguiram morada na zona rural, em uma fazenda de laranja, onde o tio era vivia e trabalhava. Lá, se instalaram em uma casa abandonada até construírem outra, de taipa. Nessa época, Nina começou a estudar, mas teve dificuldade em aprender por conta do cansaço, já que precisava acordar cedo, deixar a comida pronta para os irmãos e tirar água do poço, antes de caminhar por uma hora e meia para chegar à escola ao meio dia. Decidiu parar de estudar quando a professora, dona Marli, perto do Natal, levou alguns presentes para as crianças, mas não havia nada para ela. Magoada, não voltou mais ao colégio e diz que aprendeu a ler, mas tem dificuldade para escrever. Fora da escola, Nina começou a trabalhar com a mãe na colheita de laranja, até que, em 1980, a família teve que deixar a fazenda, pois a propriedade que aos poucos vinha sendo arrendada para a plantação de cana foi vendida. Assim, não viram outra opção a não ser morar na cidade.

A mudança de Ana para Guariba foi em 1977, mas afirma que, se houvesse dinheiro para comprar passagens, a família teria ido em 1975, ano em que, além de ter sido promulgado o

Proálcool, ocorreu a “geada negra”106, atingindo principalmente o norte do Paraná. O dano a quase todas as plantações na região marcou um período de fome, em que até o sal consumido pela família precisava ser retirado do coxo do gado, pois não havia dinheiro para comprar itens básicos. Ana se lembra que passava por baixo de uma cerca, auxiliada pela mãe, corria até o meio do pasto e erguia o vestido para conseguir carregar um pouco de sal até a casa. Desse trajeto, ainda tem marcas dos arranhões nas costas, pelo contato com a cerca.

Ainda em 1975, seu irmão mais velho foi para Guariba – onde já morava um tio – para fazer uma safra de café e assim conseguiu mandar dinheiro para que o pai e outros dois irmãos se juntassem a ele na safra da cana do ano seguinte. Foi dessa maneira que a família finalmente conseguiu reunir recursos para migrar. Para a viagem, as crianças ganharam chinelos do padre, que os considerou fundamentais apenas no momento em que se mudariam para uma cidade. Uma amiga também deu pano para que a mãe de Ana costurasse roupas novas.

De Cambira, a família partiu de jipe para São João do Ivaí e, de lá, seguiram em caminhão jardineira até Londrina, onde pegaram um ônibus de linha até Guariba. Do trajeto, Ana ressaltou o medo que teve ao subir no caminhão e a emoção de ver as luzes da cidade à noite, quando chegaram à rodoviária de Londrina, pois, até então, só conhecia a iluminação do fogo e do lampião. O estranhamento com a luz elétrica foi tanta que, nos primeiros dias em Guariba, Ana e um de seus irmãos tiveram que ser hospitalizados, por não conseguirem abrir os olhos. Foi também a primeira vez que ela conheceu um médico, aos nove anos de idade.

Já em 1977, começou a trabalhar com o pai, esporadicamente, em lavouras de cana, café, laranja e amendoim. José Guido precisou cortar o cabo da enxada para que a menina conseguisse segurá-la e Ana se lembra que, nessa época, os caminhões – chamados de “pau de arara” – não

106 A “geada negra” é um evento climático que provoca o congelamento da seiva de plantas devido à incidência de ventos muito gelados e do ar seco. No inverno de 1975, este fenômeno atingiu todo o estado do Paraná com efeitos devastadores, especialmente na região norte, onde predominava a cafeicultura. Na madrugada do dia 16 de julho, os termômetros chegaram a marcar 9 graus negativos na relva, dando início a um período de noites geladas, que culminaram na destruição de plantações, hortas e pastagens, que ficaram com o aspecto escuro, de “queima”, na manhã do dia 18. Em trecho do jornal da cidade natal de Ana, Cambira em Foco, de 20 de julho de 1975, reproduzido por Sandra de Cássia A. Pelegrini e João Paulo P. Rodrigues (2017), o clima de desolação é latente: “(...) mais uma vez o lavrador, e com ele todos que da lavoura dependem, fica ao Deus dará”. Os autores apontam que, como consequência, as grandes fazendas da região, que até então empregavam mais de 500 trabalhadores, foram praticamente abandonadas, desencadeando uma profunda reorganização social, espacial, econômica e ambiental em toda a região.

possuíam sequer assento e cobertura. Assim, os trabalhadores eram transportados na parte traseira e se sentavam em cima do garrafão de água, enquanto as crianças costumavam acomodar-se no chão. Na maior parte dos dias, no entanto, Ana cuidava dos irmãos, enquanto a mãe trabalhava e, por isso, criou vínculo quase que materno com o mais novo, o nono filho, o único nascido em Guariba. Quando a mãe adoeceu, ela passou a trabalhar em seu lugar e acabou assumindo seu posto.

Na mesma época, por volta de 1980, Nina aprendia a cortar cana com o pai, que colhia três ruas de cana e deixava duas para a menina: “ele chegava lá no final [do eito107], fazia uma cama,

dormia e me deixava lá cortando”, conta. Apesar do sofrimento no período de adaptação ao trabalho e do incômodo com a grande quantidade de abelhas no canavial, ela não demorou a assumir um eito sozinha. Com mais um braço na casa, seu Zé Baiano decidiu parar de trabalhar, ao passo que dona Rosa seguiu na lavoura de cana até 1993, quando sofreu um infarto no meio do canavial e precisou parar, por conta dos problemas cardíacos.

Ainda que as histórias de vida de Ana e Nina, assim como outros relatos108, sejam permeadas pelo trabalho desde a infância – delas e das mulheres à sua volta –, a aparente subvaloração da participação feminina nos dados sobre trabalho rural, principalmente antes dos anos 1990, é uma dificuldade enfrentada na compreensão da trajetória desse grupo social, problemática evidenciada também por outras pesquisas109. De acordo com a PNAD, em 1976 as mulheres eram 18,4% dos ocupados na agricultura no estado de São Paulo. Em 1985, houve um modesto aumento para 18,7%. Um ponto relevante mostrado pelos dados é que, entre os empregados agrícolas com carteira assinada o percentual de mulheres era ainda menor, de 14,6%, em 1976 e 16,25%, em 1985 (IBGE, 1976, 1985), indicando que mesmo as mulheres contabilizadas eram mais frequentemente contratadas em condições precárias.

107 O eito é a área constituída por cinco ruas de cana, designada a cada trabalhador, na colheita.

108 Além dos demais entrevistados para este trabalho, foram consultados relatos de cinco trabalhadoras rurais de Dobrada e Santa Ernestina, municípios próximos a Guariba, encontrados no acervo da Pastoral do Migrante, no Centro de Estudos Migratórios, além das fontes bibliográficas, em especial aquelas que tem como fonte entrevistas com trabalhadoras rurais da região.

109 Ver, por exemplo, Paola Capellin e Lena Lavinas (1991), Vera Ferrante e Heleieth Saffioti (1986), Heredia e Cintrão (2006).

Pensando um pouco nas razões dessa subvaloração, Saffioti e Ferrante (1986) se baseiam em dados da PNAD para mostrar que, em 1976, 79,4% das mulheres consideradas Pessoa Economicamente Ativa (PEA) na agricultura eram consideradas força de trabalho familiar, no Brasil, ao passo que apenas 20,6% eram empregadas. Os dados nacionais contrastam com os do estado de São Paulo, onde, no mesmo ano, 68,5% das mulheres PEA agrícolas eram empregadas, percentual que cresceu em 1985, tanto no estado quanto no país. Para as autoras, a disparidade seria um indicativo de que, em São Paulo, a transição do trabalho familiar para o assalariamento (permanente ou temporário) foi mais acelerada, em comparação com o resto do país, e que o processo atingiu particularmente as mulheres.

De fato, vários autores110 apontam uma acentuada migração de trabalhadores rurais do interior das fazendas para as zonas urbanas de pequenas cidades, no interior do estado, desde os anos 1950, com a paulatina transformação nas formas de contratação. No entanto, é importante pontuar algumas nuances, para evitar a percepção de que se trata de uma ruptura homogênea e isolada do resto do país, até porque São Paulo contou com um elevado fluxo de migrantes temporários, ou seja, boa parte da mão de obra presente nas grandes colheitas precisava ter outras formas de subsistência durante o resto do ano, no local de origem, muitos como moradores de fazenda, pequenos produtores, arrendatários, parceiros ou diaristas. Além disso, é notável a diferença no número de homens e mulheres entre os considerados PEA, no estado de São Paulo, entre os habitantes da zona rural, pela PNAD de 1976. Mesmo em 1985, quando há um aumento no número absoluto de mulheres rurais consideradas PEA, 65,27% não são consideradas economicamente ativas (IBGE, 1985). Em, 1992, ainda que haja um aumento na estimativa de participação feminina na mão de obra agrícola, elas aparecem como apenas 28,96%111, além de serem maioria entre os trabalhadores para consumo próprio. Chama particular atenção o fato de 63,7% das mulheres que se declararam ocupadas na agricultura no estado terem afirmado não possuírem rendimentos (IBGE, 1992).

O sindicalista Wilson Rodrigues da Silva – que migrou do interior do Paraná para Guariba em 1979, para trabalhar nos canaviais – diz que também era comum que mãe e filhos trabalhassem

110 Stolcke (1986), Silva (1999), Ianni (2004), Cappellin e Lavinas (1991), entre outros.

111 Percentual de mulheres entre as pessoas de 10 anos ou mais, ocupadas na semana de referência, com trabalho principal na agricultura (IBGE, 1992).

no lugar de um homem contratado em turmas de corte de cana, de modo que a colaboração familiar no trabalho de certa forma persistiu e contribuiu também para manter invisível o trabalho de mulheres e crianças. Do mesmo modo, são recorrentes os indícios de que filhos acompanhassem o pai ou a mãe na lavoura, para aprenderem o ofício e também como forma de aumentar o rendimento familiar, durante a safra.

Assim, ainda que gradual e heterogêneo, o processo de proletarização realmente atingiu particularmente as mulheres, pois elas foram absorvidas em grande medida através do trabalho eventual, mais precário e mais difícil de ser contabilizado. Mesmo que todas as quatro entrevistadas para esta dissertação tenham trabalhado por períodos relativamente longos nas lavouras de cana, elas também passaram por períodos consideráveis de trabalho eventual. Além disso, é possível supor que, nesse ponto, se tratem de experiências atípicas.

A invisibilidade nos dados também pode estar relacionada à própria forma como boa parte das mulheres se via, mais identificada com as responsabilidades domésticas e com a criação dos filhos, que conciliavam com o trabalho – mais ou menos – esporádico fora de casa, reflexão que aparece em Olinda Noronha (1986), Verena Stolcke (1986), Paola Cappellin e Lena Lavinas (1991). Essa percepção se deslocou consideravelmente, se levamos em consideração as falas das entrevistadas para o presente trabalho, que, ao contrário, afirmam de forma contundente uma identidade trabalhadora. No entanto, a conciliação entre o trabalho doméstico e o “para fora” é algo que permanece na transição de unidades familiares de produção agrícolas para o assalariamento, ainda que de modo diferente e com novas questões.

Se no trabalho agrícola de base familiar a autoridade masculina e a divisão sexual do trabalho eram acentuadas, havia também uma maior identidade de interesses na unidade doméstica. Cada membro da família tinha um papel delimitado a cumprir, a cada dia, para contribuir com a subsistência coletiva – buscar água, cuidar de animais, carpir, plantar, fazer farinha, conservas, sabão, etc., além do trabalho “para fora” ou para o proprietário da fazenda. Na medida em que moravam no local de trabalho, as mulheres conseguiam conjugar mais facilmente os cuidados – com filhos, enfermos e idosos – e as demais demandas, dentro ou fora de casa. A fronteira entre o trabalho para a família e o trabalho para o patrão era mais tênue, e o saber ligado à indústria doméstica, transmitido pela mãe e pela avó, cumpria um papel fundamental na obtenção e na otimização dos ganhos.

Antes de avançar nas histórias de Ana e Nina, assim como nas intepretações, é importante deixar claro que não tenho a pretensão de apresentar as quatro informantes do presente trabalho como uma amostra representativa da experiência de mulheres que trabalharam nas lavouras de cana, no contexto pesquisado. Do mesmo modo, os relatos aqui descritos não devem ser apreendidos como exemplares, ou como um conjunto de vivências comuns partilhadas por um grupo social. As fontes orais sem dúvida são permeadas por limites, assim como as escritas,