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2. AS RESISTÊNCIAS SILENCIOSAS

2.2 Migração e ajustamento

Quando se é migrante, como é o caso da maioria das nossas companheiras a coisa fica pior, pois se chega em um lugar desconhecido e inicialmente sempre se vai morar em lugares entulhados de gente. Na hora das refeições é um verdadeiro desespero: é tanta gente pra comer, dormir, tomar banho... não é vida! E não demora a mulher também precisa procurar um trabalho pra ajudar o marido e tentar nova vida. Precisa tanta coisa pra começar a trabalhar!... Só arrumar o emprego é a maior dificuldade porque se é desconhecido, não se conhece o serviço, é um Deus nos acuda!... Arrumando o serviço vai precisar de roupas, calçado, ferramentas, garrafão de água, mochila, chapéu e tudo mais113.

Quando Ana chegou a Guariba, o irmão de seu pai foi receber a família na rodoviária. A grande quantidade de cartazes no local despertou sua curiosidade e pediu ao tio que explicasse o que estava escrito. Tratavam-se de anúncios de postos de trabalho em turmas de corte de cana, direcionados ao maior público-alvo: migrantes, recém-chegados na cidade. Ela passou a ouvir também esse mesmo tipo de divulgação nas rádios locais e quando era dito que o contratante “pega meio salário”, entendia imediatamente que também se admitia mulheres, pois era prática pagar menos a elas e ainda menos às crianças.

Em sua vivência, no período da entressafra, o serviço delegado às mulheres era distinto daquele delegado aos homens. Era mais comum, por exemplo, que elas realizassem a carpa, enquanto eles limpavam um novo terreno e essa divisão sexual do trabalho justificava a diferença na remuneração, ainda que, de acordo com Ana, o esforço fosse o mesmo. Nesse ponto, Maria Ignez Paulilo (1987) analisa uma gama de funções desempenhadas por mulheres e crianças no trabalho rural, consideradas leves em comparação com as assumidas por homens, que realizavam o trabalho pesado. Na medida em que variam geograficamente as tarefas tidas como femininas e masculinas e permanecem os adjetivos de “leve” e “pesado”, referenciados no sexo e na idade, além de demandarem o mesmo grau de esforço, tempo e/ou distinta habilidade, a autora conclui que a qualificação e a valoração do trabalho se dá não por suas características, mas em função de quem o realiza. A baixa remuneração na agricultura e o desnível entre os sexos também aparece de maneira contundente nos dados da época, na medida em que 60,6%

113 Trecho de relato intitulado “A mulher boia-fria no mundo do trabalho”, atribuído às trabalhadoras rurais e militantes sindicais Maria do Carmo, Clarice e Graça, de Dobrada e Santa Ernestina, em documento de 1989, encontrado no acervo da Pastoral do Migrante de Guariba, localizado no Centro de Estudos Migratórios, em São Paulo.

das mulheres e 35% dos homens empregados na agricultura no estado de São Paulo recebiam até um salário mínimo em 1976 (IBGE).

Como muitos recém-chegados, a família de Ana, que incluía os pais e oito filhos, ficou um tempo hospedada na casa do tio, no Bairro Alto, o popular “João-de-Barro”. Assim que conseguiram recursos, alugaram uma casa na Vila Amorim, que contava com energia elétrica, mas não possuía água encanada, nem rede de esgoto. O banheiro era um buraco protegido por uma estrutura de madeira, feito “no mato”, nas proximidades da casa. Quando a fossa enchia, abria-se outro buraco e realocava-se a proteção. A água encanada logo foi “puxada” da vizinha, mas o fato de terem encontrado soluções, ainda que precárias, para acessar a água não significava um gasto a mais, o que mudaria com a chegada do saneamento básico ao seu bairro, promovido pela Sabesp, em conjunto com a Prefeitura, alguns anos mais tarde.

A Sabesp, um dos principais alvos de protestos na greve de 1984, fechou contrato com o município em 1976 (MARTINS, 1996, p. 181), sob administração do prefeito Antônio Louzada, da ARENA, que foi precedido e sucedido por Paulo Mangolini, do mesmo partido, à frente do município até 1982. Ainda que um dos diretores do jornal A Comarca de Guariba também fosse membro da ARENA114, tenha sido assessor de Mangolini na prefeitura115 e tenha assumido “alto cargo nos quadros da Sabesp”, após promoção, em 1980116, o periódico publicou uma série de reclamações e problemas ligados aos serviços prestados pela companhia tanto em bairros periféricos quanto centrais da cidade: o racionamento compulsório de água, no período da tarde117; a falta de água118; o aumento da cobrança, sem a ampla cobertura119; a demora para

114 Luiz Barichello Netto foi o delegado, representante do diretório de Guariba, na convenção partidária da ARENA, em 1978 (MARTINS, 1996, p. 182).

115 “Coronel Erasmo Dias visitou Guariba”, A Comarca de Guariba, 6 ago. 1978, p. 1.

116 “Neto Barichello”, seção “Notas e Comentários”, A Comarca de Guariba, 22 nov. 1980, p. 3. 117 “Sabesp”, seção “Notas e Comentários”, A Comarca de Guariba, 1 nov. 1980, p. 3.

118 “A respeito da falta de água, fala o gerente da Sabesp”, A Comarca de Guariba, 28 ago. 1982, p.1. 119 “Sabesp (II)”, seção “Notas e Comentários”, A Comarca de Guariba, 1 nov. 1980, p. 3.

fechar buracos de obras nas ruas120; a falta de tampões e bandejas de esgoto, e valetas abertas121; o mal cheiro causado pela água correndo nas sarjetas122. Dentre as reclamações, uma chama particular atenção: o fato de que muitas pessoas não entendiam como funcionava o sistema de cobrança da companhia123. A publicação explica que a medição era feita a cada dois meses e essa fatura era dividida em dois boletos, a serem pagos nos meses seguintes. Assim, o longo tempo entre o mês de consumo e a cobrança, o cálculo feito pela média – sem a distinção mensal –, e a deficiência na comunicação certamente dificultaram o controle dos gastos e alimentaram a desconfiança dos usuários.

Quando Antônio Louzada concorreu novamente à Prefeitura Municipal, em 1982, o jornal também publicou suas respostas a perguntas de leitores insatisfeitos com o serviço da Sabesp124. Eles questionavam o porquê de as tarifas serem tão caras e se seria possível anular o contrato da cidade com a companhia. Mesmo que a palavra tenha sido dada a Louzada para apresentar números positivos e justificativas em prol da atuação da Sabesp, o espaço de quase uma página dedicada a estas questões, aliado às constantes reclamações, indicam relevância e amplitude do descontentamento, mesmo entre a classe média local que, em conjunto com o patronato agroindustrial, formavam o principal foco da cobertura do jornal. Na eleição, Louzada não foi eleito e venceu Evandro Vitorino, do MDB.

120 “Nossos bairros”, seção “Notas e comentários”, A Comarca de Guariba, 1 de mar. 1980, p. 3; “Queixas e reclamações”, A Comarca de Guariba, 6 jun. 1981, p. 2.

121 “Sabesp”, seção “Queixas e reclamações”, A Comarca de Guariba, 6 jun. 1981, p. 6; “Mesa da câmara critica a Sabesp”, A Comarca de Guariba, 11 out. 1980, p. 1; “Falta a bandeja nos esgotos público”, A Comarca de Guariba, 8 mai. 1982, p. 1.

122 “Queixas e reclamações”, A Comarca de Guariba, 6 jun. 1981.

123 “Sabesp”, seção “Notas e Comentários”, A Comarca de Guariba, 25 abr. 1981.

124 “Os leitores perguntam sobre a Sabesp, ao candidato a prefeito, Toni Louzada”; “Nem em 50 anos a Prefeitura faria o que a Sabesp fez em 5”, A Comarca de Guariba, 23 out. 1982, p. 1 e 4.

Figura 5: Obra de pavimentação, na Vila Amorim, em 1980.

Fonte: A Comarca de Guariba125

No bairro onde Ana morava, as obras de pavimentação e saneamento ocorreram por volta de 1980, com alguns transtornos para os moradores, devido à morosidade na conclusão126 e, pela primeira vez, a família teria que pagar pelo consumo de água. Ela se lembra de já ser “mocinha” quando passaram a ter chuveiro e vaso sanitário, e ri ao se lembrar do medo que teve de cair dentro do vaso, ao se sentar. Na época, o pai também conseguiu, acha que por doação, uma televisão com imagem preta e branca, que ele trancava com cadeado, quando saía para trabalhar e, ao retornar, ligava para assistir ao noticiário. Ela, assim, costumava “fugir” para a casa da vizinha para assistir a novelas. A geladeira foi um item que demoraram a conseguir. Ana se lembra que acordava cedo para buscar gelo na casa da vizinha para colocar no garrafão do pai, que gostava de água gelada, além de pegar pão e leite em um lugar que os distribuía aos mais

125 “Vila Amorim recebe melhoramentos”, A Comarca de Guariba, 22 mar. 1980, p.1.

126 De acordo com reclamação divulgada em nota no jornal A Comarca de Guariba, buracos abertos por obra da Sabesp na Vila Amorim e no Jardim Monte Alegre não haviam sido fechados. “Nossos bairros”, seção “Notas e comentários”, A Comarca de Guariba, 1 de mar. 1980, p. 3.

pobres. Nesses primeiros anos, Ana ressalta que a família contou com muita solidariedade de vizinhos e parentes, além de doações que não sabe precisar a origem. Procuraram também retribuir aos que chegavam à cidade em situação pior, na medida em que circulavam no bairro notícias sobre os mais necessitados.

Ainda que essa solidariedade “do passado” seja marcante na fala de Ana e Nina, registros do jornal A Comarca de Guariba, assim como o trabalho de Silva (1999), indicam também a existência de relações conflituosas entre vizinhos e parentes nos bairros periféricos de Guariba nesse período de rápido crescimento populacional, como pontuado no capítulo 1. A nostalgia a respeito de uma união própria de “antigamente”, em especial da vida na terra, também aparecem em relatos feitos a Stolcke (1986) e ao mesmo tempo em que expressam uma visão romântica também informam sobre mudanças nas relações sociais. Para a autora, as dificuldades materiais, na cidade, restringiram as esferas de colaboração entre vizinhos, tornando “(...) fonte de tensão o próprio princípio de reciprocidade que havia moldado no passado as relações sociais entre iguais segundo o qual tampouco se deveriam pedir favores a menos que possam ser retribuídos” (STOLCKE, 1986, p. 363).

No Paraná, os colchões eram feitos de palha por sua mãe e só se comia arroz no Natal, alimento que, junto com uma garrafa de “Tubaína”, era dado pelo fazendeiro, marcando a data na memória de Ana. Em Guariba, o arroz se tornou mais comum em sua dieta e não passaram mais fome, na medida em que, além do trabalho dos membros da família, conseguiam doações de comida e também de roupas, camas, colchões e até alguns eletrodomésticos antigos, pelo menos nesta fase de adaptação.

Assim, sua fala indica que um pouco da solidariedade costumeira em sua vivência rural foi reproduzida nos primeiros anos que viveu na cidade, mas ela conta que a vida social fora do trabalho se tornava mais vinculada aos laços familiares, pois a convivência e o compartilhamento de bens apresentavam maiores restrições no ambiente urbano. A eventual ida à casa de um parente, em Guariba, contrasta com a memória de todas as mulheres juntas, ralando mamão para fazer doce, ou preparando a comida em um dia de celebração, na fazenda. Mesmo a ida à igreja e às festividades católicas, como quermesses, permaneceu como uma atividade frequente apenas do pai, e ela justifica dizendo que nem sempre os demais membros da família possuíam “roupas bonitas” para essas ocasiões, realizadas na Igreja ou na praça.

Quando o pai morreu, Ana e alguns irmãos passaram a frequentar uma igreja evangélica, fé que exerce ativamente até hoje, assim como Nina, que possibilitou o desenvolvimento de outros laços comunitários nos bairros onde residiam.

Diferentemente de Ana, a vida social de Nina sempre foi mais ligada à família, na medida em que nasceu em uma propriedade familiar e passou parte da infância em uma área em que o os pais dividiam com o tio, na zona rural de Guariba. Ainda assim, como Ana, ela se refere constantemente à saudade da união entre os conviventes no ambiente rural.

Em 1981, a família de Nina foi morar na recém-inaugurada Cohab127, conjunto habitacional com 482 casas populares que fundou um novo bairro na periferia da cidade, onde até então havia um canavial128, um crescimento urbano certamente insuficiente para abarcar o acelerado ritmo migratório. Pela primeira vez, a família teve acesso a serviços de água e esgoto e pouco tempo depois veio a primeira geladeira, que o pai trancava para que o consumo da família fosse por ele controlado. Fazendo “rolo”, o pai adquiriu uma televisão antiga, cujo acesso também era restrito. Quando possível, Nina gostava de assistir a programas infantis, como “Xuxa”, “Balão Mágico” e “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, seu favorito. Da época, Nina escolheu dizer que as pessoas ocupavam mais as ruas, conversavam e se ajudavam nas necessidades que envolviam essa nova forma de vida.

As falas de Nina e Ana, assim como o processo que culminou na greve de 1984, remetem à noção de economia moral129, cunhada por E. P. Thompson (2016)130. Ainda que este historiador apresente a ideia como fruto do estudo de um caso específico, James Scott (1977), ao estudar

127 “Na Cohab, a festa foi um sucesso”, A Comarca de Guariba, 4 jul. 1981, p. 1.

128 “Um obstáculo chamado cana-de-açúcar”, A Comarca de Guariba, 29 de março de 1980, p. 1.

129 Uma reflexão mais detalhada destas questões é limitada pela memória das entrevistadas e pelo fato de não se tratar de uma pesquisa antropológica, como em Scott (1977), nem da pergunta central do trabalho, como em Thompson. Ainda assim, a relevância da noção de economia moral na pesquisa se apresentou na forma com que as entrevistadas organizam suas trajetórias e justificam suas ações e de seu grupo social, bem como na análise de outras fontes.

130 Ao analisar rebeliões populares pela subsistência na Inglaterra do século XVIII. Interessado na cultura política dos próprios agentes, ele considera insatisfatória a análise de que se tratariam de motins motivados pela fome, ou seja, ações ocasionais e pouco conscientes em resposta apenas a estímulos econômicos. Para ele, os atos de revolta estariam relacionados a uma série de expectativas e costumes, ligados à tradição paternalista, quebrados no contexto do livre mercado, como as rotinas de emergência para artigos de primeira necessidade, em períodos de escassez.

camponeses asiáticos, amplia a noção, afirmando que há um conjunto de percepções morais próprias da economia camponesa que, mesmo variando em seu conteúdo nos diferentes contextos, podem ser organizadas a partir de duas ideias constitutivas do senso de justiça: a expectativa de reciprocidade das elites; e a subsistência como um direito. Em suma, essas questões qualificam o sentido da dependência, nas relações de classe rurais, enquanto colaboração (legítima) ou exploração (ilegítima). Na percepção do exercício ilegítimo ou abusivo do poder, a partir da quebra de expectativas, acionam-se práticas de resistência, orientadas por um código moral, que são testadas no cotidiano das relações de poder131.

Mesmo que, à observação externa, a remuneração feita exclusivamente por meio de uma parcela da produção – caso da família de Ana, no Paraná – possa ser percebida, em si, como exploratória, enquanto havia fartura na colheita e reciprocidade por parte do proprietário – seja na distribuição de pão, manutenção de escola e igreja, concessão de terras para plantio próprio – havia a compreensão de certo equilíbrio nas relações de poder e dependência, como afirma, “era melhor depender do fazendeiro”. Na época de escassez, no entanto, práticas como o recolhimento de alimentos do chão, durante a colheita, a retirada de sal dos coxos e a própria migração emergem como formas de tencionar pelo reequilíbrio dessas relações. Nesses momentos, a união e solidariedade entre os iguais aparece como elemento fundamental em sua memória, de modo que se estabelece o compartilhamento total dos alimentos, priorizando a subsistência do grupo social, em oposição aos ganhos individuais ou até mesmo do núcleo familiar.

Na chegada a Guariba, ainda que sob imensas dificuldades, parte dessas expectativas parecem ter sido cumpridas, na distribuição de pão e leite, na doação de bens e alimentos e na

131 No ensaio “Economia moral revisitada”, Thompson (2016) refere-se às obras The moral economy of the peasant e Weapons of the weak de Scott (1977, 1985) e afirma que há pontos de semelhança com seu estudo, ainda que sem comparações aprofundadas, no que diz respeito à emergência de “movimentos revolucionários” na ameaça a certas instituições e normas. Para ele, o que distingue o trabalho de Scott em relação a outros estudos que sugerem certa ampliação ou generalização na ideia de economia moral é que o autor vai além de descrições de atitudes morais e, uma vez que “(...) para os camponeses a subsistência depende do acesso à terra, o que está no centro da análise, mais do que a venda de alimentos, são os costumes relativos ao uso da terra e ao direito de acesso aos seus produtos. E o costume é visto (contra um pano de fundo de memórias da fome) como algo que perpetua imperativos de subsistência e protegem a comunidade contra riscos” (THOMPSON, 2016, p. 259). No entanto, ele considera que uma análise comparativa do que é “a moral” nos diferentes contextos deve ser parte da agenda investigação para essa ampliação do termo.

solidariedade entre vizinhos, mesmo que o trabalho fosse árduo, mal remunerado e as condições de vida fossem precárias. No entanto, em períodos de entressafra – quando havia menos postos de trabalho –, e também de inflação, de arrocho salarial, de ampliação dos gastos – como para serviços como água e esgoto –, e na quebra dos padrões contratuais estabelecidos – passagem de cinco para sete ruas no regime de trabalho132 –, a percepção da exploração é latente. Parece simbólico, nesse sentido, que Nina tenha aberto processos trabalhistas contra empregadores motivada pela impossibilidade de alcançar, naquelas ocasiões, as condições mínimas de subsistência com seu salário, não pelo descumprimento das normas trabalhistas.

Ainda que a greve seja tema do capítulo 3, cabe pontuar a articulação entre a noção de economia

moral e os acontecimentos de maio de 1984. Em sua dissertação de mestrado, Barone (1996)

faz essa relação, buscando compreender de que maneira as tradições, ligadas às formas de vida, construíram o comportamento político dos canavieiros de Guariba. Ele defende, assim, que são notáveis os códigos morais identificados na expectativa de reciprocidade e benevolência das autoridades com os pobres, e que, em sua negativa, gerou revolta. Assim, as condições para uma ruptura da economia moral se dão sobretudo porque

(...) o camponês rico, metamorfoseado em empresário, não mais reage de forma solidária aos clamores sociais, já que os mecanismos de exploração propostos (...) serão cada vez mais estritamente econômicos, ditados pelas regras do mercado (...). Perdida a ajuda do seu patrão benfeitor, o camponês volta-se para o Estado, cuja capacidade de assistência estará diretamente relacionada com a situação fiscal, ou os condicionamentos macroestruturais da economia nacional. (BARONE, 1996, p. 28).

Nesse sentido, ainda que reivindicações trabalhistas tenham sido bandeiras do movimento, a sua radicalidade se materializou sobretudo no saque de supermercado e na destruição do escritório local da Sabesp. Em diálogo com o autor, Andréa Vettorassi afirma que a questão aparece também “(...) na identidade adotada pelos grevistas, que não se reconheceram enquanto tal levando apenas em conta condições econômicas, mas se perceberam nos espaços em comum de sociabilidade (...)” (2006, p. 32).

Inspirada no mesmo conceito, Penteado (2000) remonta a narrativa da greve de 1984 a partir do Inquérito Policial instaurado. Cruzando os depoimentos, ela desmonta as formas de

132 A passagem do regime de cinco para sete ruas, na safra de 1983, tornou o serviço mais penoso e provocou queda de rendimento para os trabalhadores.

explicação do movimento encontradas nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de São Paulo: uma espécie de revolta da fome, espontânea e descontrolada, provocada pelo desespero, em que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) seria a liderança por trás da multidão. Sua apuração revela uma movimentação anterior, nos bares e nos bairros de Guariba, auto-organizada pelos trabalhadores e localiza a lógica de auto-representação desses agentes.

Para Silva, a saída da terra, a partir da migração, produziu uma metamorfose nas identidades, na medida em que o modo de vida e os espaços de sociabilidade mudaram. Enfática nos danos causados, ela afirma que “(...) a ‘acumulação primitiva deste proletariado’ conduziu à formação de um mercado de trabalho caracterizado pelo desenraizamento sociocultural e pela diferenciação social (...)” (1999, p. 74). Em diálogo com a autora, Vettorassi, por sua vez, destaca o processo na chave de um reenraizamento por parte dos migrantes que se estabeleceram na cidade, na medida em que estes “(...) aprenderam que o modo de vida camponês, que mantinham em suas terras natais, pode também ser reproduzido na ‘moderna’