• Nenhum resultado encontrado

Capítulo IV – Análise dos filmes: Os Cafajestes, A Falecida e O Desafio

4.1. Os cafajestes

4.1.1. A violência contra a mulher

Adotando a perspectiva segundo a qual todo objeto artístico pode ser submetido a múltiplas e variadas interpretações, aponto para uma série de reflexõesformuladas a respeito de Os cafajestes, que contemplam desde análises mais elaboradas, àquelas menos complexas ou menos esmeradas. Refiro-me a opiniões que identificam, nesse filme, ao tratamento humilhante dispensado pelos homens às mulheres; a violência exercida contra elas; as cenas de sexo com exploração comercial: “o filme revela o mau caráter do protótipo do carioca, na sua versão marginal (Jece Valadão) e na sua versão pequeno-burguesa (Daniel Filho), associados no deboche, no engano e na violação das mulheres” (PARANAGUÁ, 2000, p. 288). “Os Cafajestes tem resultados discutíveis e (apresenta) coitos de vários tipos e uma seqüência dedicada a Norma Benguell nua” (BERNARDET, 1978, p. 108).

A despeito de concordar com essas idéias ou posições, pretendo acrescentar outros elementos que me permitirão aprofundar essas leituras. Nesse sentido, não vou me deter apenas no enredo – dois homens se reúnem e traçam um plano que visa humilhar e violentar uma mulher – mas, minha análise, também estará dirigida para os diálogos, assim como para a composição das imagens, para os sons, para o movimento de câmera, que, ao escolher focalizar determinados gestos, olhares, tem como pressuposto expressar um significado específico. Nessa perspectiva, lanço mão do esquema adotado por Xavier que interroga sobre o processo de construção do filme, e a forma através da qual vão se constituindo e se organizando as suas diversas partes: “Como se conta a história? Por que os fatos estão dispostos deste ou daquele modo? O que está implicado na escolha de um certo plano ou movimento de câmera? Por que este enquadramento aqui, aquela música lá?” (XAVIER, 1983, p. 12).

Neste filme estão presentes representações que evocam, de um lado, as diferentes maneiras de os indivíduos vivenciarem suas experiências, seus dramas íntimos, e, de outro, o modo pelo qual são representados “os dramas sociais” que têm, como uma de suas referências, uma sociedade cujo valor maior é o dinheiro, o

consumo, e que elege como símbolo de status o “ter” bens materiais. É possível vislumbrar, também, representações de laços familiares esgarçados, assim como, uma representação específica do feminino que se distancia de outras representações encontradas à época.

Dessa forma, se à época da realização desse filme, estava presente, em determinados segmentos sociais, um ideário de “vida feminina” caracterizado pelas conquistas de liberdade e autonomia para as mulheres, é possível afirmar, num primeiro momento, que o filme reforça a posição de dominação a que se encontram submetidas as mulheres. Trata-se, na verdade, de um filme que representa práticas de homens que usavam de violência contra as mulheres e reforça as relações desiguais entre os sexos. Entretanto, não encontro no filme imagens estereotipadas, evocando o “bem” e o “mal”, de forma maniqueísta, colocando, de um lado, “mulheres boas” e, do outro, “mulheres más”, assim como, não existem personagens masculinos “totalmente bons”, nem “totalmente maus”.

Assim, no meu estudo, examino Os cafajestes não somente como um discurso unívoco sobre comportamentos de homens que adotam atitudes de irreverência e de desrespeito em relação às mulheres. Não se trata, também, de mais um filme que ousa nas cenas de sexo, expondo o corpo feminino ao olhar do voyeur. Ou mesmo, de mulheres subordinadas aos caprichos dos homens. É possível identificar, no próprio desenrolar do enredo, nas cenas, nas imagens e nos diálogos, uma série de indícios através dos quais são veiculadas idéias que tornaram mais complexos os perfis de homens e mulheres, muitas vezes acrescentando contradições às suas práticas. Aqui, cito alguns exemplos que ilustram essa minha perspectiva. Dentre eles, a queixa de Jandir (personagem central) sobre sua pobreza, expressa em um tom de voz que faz desaparecer toda uma arrogância manifesta em outras cenas e que, de certa forma, o “humaniza”. A seqüência em que ele perde sua potência sexual, o que contribui para depreciá-lo em sua masculinidade. A outra personagem, Vavá, é humilhada pela prima, por quem nutre antiga paixão, sendo acusado de covarde. (O próprio nome – Vavá – é um atributo que o diminui). Diante de circunstâncias difíceis, ambos fazem uso de entorpecentes, demonstrando fraqueza quando as situações exigem coragem. Em

algumas seqüências, o filme se encarrega de denegrir a imagem das personagens masculinas.

Examino, agora, seqüências nas quais identifico, também, os momentos em que o perfil de mau-caráter das personagens masculinas é nuançado, aflorando outros traços que os revestem de atitudes vacilantes e incoerentes. No que se refere às personagens femininas, aponto para outras situações nas quais é possível perceber não somente a representação de como foram agredidas física e moralmente; de como agem de forma subjugada e submissa. Mas, para além dessa representação, as personagens femininas não se comportam como meras vítimas, agindo passivamente diante dos homens: algumas reagem e, em certas ocasiões, podem até resistir ao poder masculino, o que expressa as contradições nas relações de poder.

Baseada nesses pressupostos e com o intuito de analisar o filme, faço um retrospecto no qual procuro descrever o encadeamento da narrativa, escolhendo algumas imagens, diálogos e sons que possibilitem uma descrição clara e precisa do enredo, na medida em que a trama não é tecida de forma bem articulada. Utilizo, dessa forma, alguns artifícios, tais como, dividir o filme em “blocos narrativos”, de modo a apresentar uma interpretação mais coerente daquela que se coloca na tela, visto que os constantes cortes abruptos e secos dificultam a compreensão do espectador. Em outras palavras, fazer uma análise da macro-estrutura do filme, na qual a sua divisão em vários planos-seqüência se dê em função de sua unidade temática ou informativa. Trata-se de um procedimento necessário, considerando-se que, muitas vezes, as seqüências não estão articuladas de forma coerente1. Muitas vezes, a composição das

imagens poderia contribuir para desvendar algumas dúvidas colocadas pela adoção dessa estrutura narrativa, mas aqui, também, elas servem mais para confundir do que para esclarecer.

1 O procedimento de dividir o filme em “blocos narrativos”, tomado de empréstimo a Xavier, se, por um lado, possibilita uma melhor compreensão do texto fílmico, por outro, apresenta limites, pois “o alisamento da superfície (...) escamoteia a verdadeira textura de imagem e som. Entretanto, esse modo de proceder se faz necessário, considerando que muitas informações são passadas de forma atravessada, sendo necessário examinar como se processam certas ligações e como são realizadas certas separações; como as coisas podem se confundir ou ficar claras” (XAVIER, 1983, p. 27).