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A visão utilitarista da pobreza e desigualdade

1.3 Críticas a uma única dimensão da pobreza e desigualdade

1.3.1 A visão utilitarista da pobreza e desigualdade

De acordo com Laderchi et alli (2003), os estudiosos pioneiros da pobreza com base em uma única dimensão foram Booth no século XIX e Rowntree no século XX. Destes autores, três elementos centrais22 ainda partilham opiniões da maioria dos economistas na atualidade. “First, they believed their assessment was an objective one [...]. Secondly, their assessment was an external one [...] thirdly, they took an individualistic view of poverty [...]” (LADERCHI et alli, 2003, p. 8).

Muitos economistas estão de acordo com visão da pobreza em uma única dimensão, porque para eles, a abordagem monetária é compatível com o pressuposto microeconômico neoclássico de maximização do comportamento utilitário.

The welfare of individuals is represented by utility, usually understood as desire fulfillment or preference satisfaction. Although there is some debate on the exact properties and characterisation of the notion of utility, there is general agreement that utility as used in economics is a unidimensional concept. In applied welfare economics utility is routinely measured by monetary variables (KUKLYS, 2005, p. 12).

Esta visão utilitarista pode ser dividida em consequencialismo, welfarismo, e ranking pela soma (SEN, 2000). O consequencialismo implica que todas as escolhas sejam julgadas pelas suas consequências, isto é, através dos resultados que geram. Como o bem-estar social é função do nível de utilidade individual, no welfarismo, “[...] so that any two social states must be ranked entirely on the basis of personal utilities in the respective states (irrespective of the non-utility features of the states)” (SEN, 1979, p. 538).Deste modo, desconsidera questões como a fruição ou a violação de direitos e deveres. No ranking pela soma, as utilidades de diferentes indivíduos são apenas somadas conjuntamente para se alcançar um valor agregado,

22 Ver Laderchi et alli (2003).

não levando em consideração as distribuições desse total pelas pessoas (COMIN et alli, 2006).

Conforme Sen (1980), o objetivo da teoria utilitarista é maximizar a utilidade total independentemente da distribuição. Para isso, requer igualdade de utilidade marginal23 para todos os indivíduos. De acordo com esta interpretação, a igualdade marginal incorpora a igualdade de tratamentos. Contudo, as pessoas diferem entre si.

O utilitarismo não consegue capturar o interesse geral das condições de igualdade, uma vez que não reconhece as diversidades dos seres humanos. Então, esta vertente é desastrosa e limitada e não permite diferenciar ricos de pobres. “Can we identify the rich through the observation that they have more utility than the poor?” (SEN, 1979, p. 544). Evidentemente que a resposta para esta questão é não. Isto porque, esta abordagem não admite comparações interpessoais. Por conseguinte, não se preocupa com as desigualdades na distribuição de utilidades (SEN, 1980).

São exemplos de críticas ao utilitarismo: “a indiferença distributiva; descaso com os direitos, liberdades e outras considerações desvinculadas da utilidade; adaptação e condicionamento mental” (COMIN, et alli, 2006, p. 28). A utilidade, então, pode ser resumida como a representação do comportamento de escolhas do indivíduo.

Nas abordagens em geral, sejam unidimensionais ou multidimensionais, freqüentemente a pobreza é definida como uma deficiência abaixo de um nível mínimo de corte denominado linha de pobreza. Sendo assim, de maneira genérica pobreza pode ser definida como uma deficiência abaixo de algum nível mínimo de recursos (LADERCHI et alli, 2003). Deste modo, para se determinar o grau de pobreza é necessário definir uma linha de pobreza.

Em se tratando de pobreza unidimensional, pela ótica utilitarista, vale reafirmar, as variáveis monetárias representam o bem-estar. Este é o caso da renda. Sendo assim, a abordagem monetária da pobreza a identifica geralmente renda ou consumo abaixo de uma linha de pobreza. Sen (2001) acrescenta sobre esta abordagem:

23Sendo a utilidade marginal, a utilidade incremental que cada pessoa recebe a partir de uma unidade adicional.

[...] abordagem dominante de identificação de pobreza especifica uma ‘linha de pobreza’ divisória, definida como o nível de renda abaixo do qual as pessoas são diagnosticadas como pobres. [...] A medição da pobreza pode ser vista como consistindo em dois exercícios porém inter-relacionados: (1) a identificação dos pobres, e (2) a agregação dos parâmetros estatísticos com respeito aos identificados como pobres para derivar um índice global de pobreza (SEN, 2001, p. 165).

Segundo Laderchi et alli (2003), a pobreza monetária é melhor representada pelo consumo que pela renda, em virtude principalmente das flutuações de curto prazo a que esta última está submetida. Então, na tentativa de preencher as limitações da renda, muitos estudos utilizam o consumo em alternativa para suprir lacunas como a estimação da renda do setor informal e dos trabalhadores por conta própria. Contudo,

[...] a substituição da renda pelo consumo na definição das linhas de pobreza não resolve o problema. A insuficiência de indicadores simples como poder de compra ou disponibilidade de alimentos para a análise da qualidade de vida – e por conseguinte da pobreza – é notória (KAGEYAMA e HOFFMANN, 2006, p. 86).

Outras maneiras de se definir a pobreza são: através da “ingestão energética alimentar”, que se baseia em uma linha de pobreza nutricional; e por meio do “custo das necessidades básicas24”, neste caso a linha de pobreza é determinada inicialmente com necessidades alimentares, adicionando-se um componente não-alimentar, ou com uma lista de necessidades básicas, e seu custo. Todavia, segundo Laderchi et alli (2003), esta abordagem além de se referir ao conceito de nível mínimo de utilidade, em si, não é bem definida.

É, teoricamente, possível incorporar às medidas de pobreza monetária, dados sobre bens e serviços não-comercializáveis. Entretanto, na prática isto não acontece, omitindo-se das estimativas uma variedade de bens e serviços públicos. Consequentemente, isto pode levar a um viés nas escolhas políticas em favor da geração de renda privada e contra a provisão de bens públicos, logo um viés na resolução do problema (LADERCHI et alli, 2003).