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III – O ARTIGO 1829 DO CÓDIGO CIVIL E SUA INTERPRETAÇÃO

3.3. A Vontade do Legislador X Posicionamento Doutrinário

Muito se discute acerca da real intenção do legislador se observarmos a inovação trazida pelo Código Civil de 2002, podemos observar que a intenção do mesmo foi proteger o cônjuge sobrevivente para que o mesmo não saísse do matrimônio, deixando os bens que antes usufruía em conjunto de sua família, para os herdeiros sem ter participação nos mesmos. Dessa forma, não podemos deixar de mencionar que o legislador, foi infeliz na redação do artigo, isso porque se o mesmo não tivesse tantas imprecisões não geraria tantos posicionamentos na doutrina.

O dispositivo traz sua principal dúvida com referência a comunhão parcial de bens, e é onde se encontra a grande divergência doutrinária, visto que na comunhão universal de bens, temos o entendimento doutrinário de que os bens não se comunicam, isso porque o cônjuge sobrevivente já recebeu sua meação sobre a integralidade do patrimônio, assim não há motivos para que se exista a concorrência com os herdeiros.

Na questão da separação total de bens, embora exista entendimento contrário, em se tratando da escolha dos nubentes, o patrimônio particular, ou seja, sua integralidade, visto a escolha do regime de bens o cônjuge sobrevivente concorre com os herdeiros.

O ponto mais controvertido do dispositivo legal é a questão da concorrência no regime da comunhão parcial de bens, sendo que no regime da comunhão parcial, conforme é sabido, temos que somente os bens adquiridos onerosamente na constância do casamento são divididos em caso de partilha por divórcio. Ocorre que o dispositivo que trata da concorrência trouxe três correntes doutrinárias conforme apontamos acima no presente capítulo.

Ocorre que, se a intenção do legislador ao trazer a concorrência do cônjuge com os herdeiros foi de impedir que o mesmo não ficasse sem nenhum bem com o falecimento do seu cônjuge, com a interpretação dada pela 1ª, e 2ª, corrente doutrinária que o mesmo concorrerá nos bens particulares do falecido, estaremos diante de uma flagrante modificação de regime de bens após a morte do cônjuge.

Assim, o posicionamento da Doutrinadora Maria Berenice Dias, defensora da 3ª corrente que diz que se por acaso o De Cujus não tiver deixado bens particulares, serão partilhados seu patrimônio comum (50% meação) e sobre os outros 50% terá o autor o direito de concorrer com os herdeiros.

Ocorre que se por acaso o autor da herança não tiver com o cônjuge sobrevivente nenhum patrimônio comum o cônjuge não concorrendo com os herdeiros novamente ficaria desamparado.

Assim, se a intenção do legislador foi de acolher o cônjuge sobrevivente sem para tanto modificar o regime de bens escolhido em vida, sua redação imprecisa, tem ocasionado diferentes jurisprudências bem como entendimentos doutrinários conforme podemos notar. Jurisprudencialmente a tendência tem sido decisões inovadoras no STJ, que mencionam acerca da importância de se respeitar a vontade dos cônjuges ainda com o falecimento de um deles, sendo mais acertada a decisão no sentido de que o patrimônio que o cônjuge sobrevivente ajudou a construir terá direito tanto a meação, quando a concorrência na parte caberia ao De Cujus em conjunto com os herdeiros do mesmo.

CONCLUSÃO

Diante de tudo que ficou explicitado no presente trabalho, vimos que o Código Civil de 2002, trouxe inúmeras inovações, principalmente consolidou a igualdade garantida constitucionalmente, dando aos cônjuges deveres para com os filhos de forma igualitária, bem como deveres conjugais na administração de patrimônio inclusive.

Vimos também sobre a importância de uma análise mais aprofundada acerca da escolha entre os regimes de bens existentes em nosso ordenamento, de forma a optar pelo regime que ambos acharem mais justo para a partilha de seus bens, posteriormente.

É válido mencionar que cada um dos regimes de bens, possui consequências jurídicas, bem como patrimoniais de grande importância, não apenas em acontecendo o a separação ou divórcio, mas principalmente quando se trata de sucessão.

Sobre a sucessão, conforme vimos, pode decorrer ela de disposição legal, obedecendo a ordem do rol apresentado no Código Civil, onde o grau mais próximo exclui o mais remoto. Vale consignar também que a sucessão também poderá decorrer de disposição testamentária, caso em que deverá ser observado minuciosamente as formalidades do testamento para que o mesmo não venha ser invalidado, todavia, sabe-se que em havendo herdeiros necessários, não poderá ser disposto em testamento valor maior do que 50%do total do patrimônio.

Podemos notar que o legislador, buscou a proteção do cônjuge sobrevivente, de forma a permitir que o mesmo tenha um local para residir após a partilha dos bens.

Assim, o legislador ao dispor no artigo 1829, inciso I sobre a concorrência do cônjuge sobrevivente com os descendentes, quis de forma evidente proteger o patrimônio adquirido pelos cônjuges, favorecendo o cônjuge sobrevivente.

Entretanto, não podemos deixar de observar que a precária redação do artigo 1829, ins. I do Código Civil se mostra bastante confusa gerando inúmeros posicionamentos divergentes tanto na doutrina quanto na jurisprudência atual.

Doutrinariamente, conforme já vimos, quando o regime de bens é o da comunhão universal não há dúvida acerca da não concorrência do cônjuge com os descendentes, visto que o patrimônio total já foi amealhado. Sendo esse o entendimento das 3 correntes doutrinárias que discutem sobre o assunto.

Com relação ao regime da separação de bens, temos doutrinariamente o entendimento de que a concorrência ou não, irá depender se o regime da separação total de bens decorre de dispositivo legal, ou seja, separação obrigatória, ou se decorreu da vontade das partes, ou

seja,separação convencional de bens, nesse caso as três correntes doutrinária também concorda que, sendo separação obrigatória de bens, não se concorre com os herdeiros, visto que se fossem se separar de igual forma não concorreriam.

Entretanto se a separação for convencional de bens, temos que existirá a concorrência de forma a não deixar o cônjuge sobrevivente desprovido de bens.

E a grande discussão doutrinaria encontra-se na questão da concorrência quando o regime for o da comunhão parcial de bens, temos nesse sentido posicionamentos divergentes em cada uma das correntes doutrinárias.

A primeira corrente entende que a herança é uma universalidade, dessa forma o cônjuge sobrevivente terá direito a 50% do patrimônio a título de meação e concorrerá com os descendentes nos outros 50%.

A segunda corrente entende que a concorrência apenas será sobre o patrimônio particular do De Cujus, visto que esse patrimônio não compôs a meação.

E por fim a corrente defendida pela doutrinadora Maria Berenice dias entende que a vontade dos cônjuges não pode ser desrespeitada após sua morte, assim, o cônjuge sobrevivente recebe sua meação e sobre os outros 50%, concorrendo com os descendentes nos outros 50% caso o de cujus não tenha deixado bens particulares, porque se o mesmo tiver deixado bens particulares, não haverá concorrência.

Vimos também no presente trabalho que jurisprudencialmente encontraremos decisões no sentido de todos os entendimentos, entretanto, não podemos deixar de analisar o código civil como um todo, assim, não parece ter muito sentido o próprio legislador estabelecer os regimes de bens e suas consequências patrimoniais, caso a partilha seja feita em vida e favorecer o cônjuge sobrevivente em caso de herança.

O que tem acontecido devido à má redação do dispositivo legal, é uma verdadeira modificação do regime de bens, após a morte do cônjuge, visto que se o mesmo quisesse deixar o seu patrimônio ao cônjuge sobrevivente poderia ter feito isso em vida, modificando o regime de bens, ou até mesmo com disposição testamentária.

Forçoso é acreditar que as partes de comum acordo ou decorrente de obrigatoriedade legal, tenham feito a opção por um regime de bens, que em decorrência do falecimento de um deles acarretará sua modificação, de forma a beneficiar o cônjuge sobrevivente em detrimento dos herdeiros.

Acreditar e defender essa mudança, tanto no regime da separação total de bens convencional, ou no da comunhão parcial de bens, quando houver bens particulares, é um desrespeito à vontade das partes e sua autonomia na escolha do regime de bens, feita

anteriormente, que poderia ter sido modificada pela vontade dos cônjuges ainda que em momento posterior e não o foi.

Assim, podemos concluir que embora o dispositivo legal tenha falhas em sua redação, não podemos deixar de interpretar de forma sistêmica, não permitindo, todavia, que um dispositivo de cunho patrimonial, altere consequências de um contrato, como é o do casamento. Jurisprudencialmente estamos caminhando para um entendimento atual de que a vontade dos cônjuges deve ser mantida, principalmente quando um deles (o de cujus) já não pode mais opinar pela concorrência ou não do cônjuge sobrevivente e seus descendentes.

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SUGESTÃO DE ALTERAÇÃO DO ARTIGO 1829, INCISO I

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