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32 A VONTADE E OS FLUÍDOS 

No documento Portal Luz Espírita (páginas 136-140)

Os ensinos que dos Espíritos recebemos a respeito de suas condições depois  da morte fazem­nos melhor compreender as regras segundo as quais se transforma e  progride o perispírito ou corpo fluídico.  Assim, como já em outra parte indicamos 97 , a mesma força que leva o ser,  em sua evolução através dos séculos, a criar, para as suas necessidades e tendências,  os  órgãos  precisos  ao  seu  desenvolvimento;  por  uma  ação  análoga  e  paralela,  também  o  Incita  a  aperfeiçoar  suas  faculdades,  a  criar  para  si  novos  meios  de  manifestar­se, apropriados a seu estado fluídico, intelectual e moral. 

O invólucro fluídico do ser depura­se, ilumina­se ou obscurece­se, segundo  a  natureza  elevada  ou  grosseira  dos  pensamentos  em  si  refletidos.  Qualquer  ato,  qualquer  pensamento  repercute  e  grava­se  no  perispírito.  Daí  as  consequências  inevitáveis  para  a  situação  da  própria  alma,  embora  esta  seja  sempre  senhora  de  modificar o seu estado pela ação continua que exerce sobre seu invólucro. 

A vontade é a faculdade soberana da alma, a força espiritual por excelência,  e  pode  mesmo  dizer­se  que  é  a  essência da  sua  personalidade.  Seu  poder  sobre  os  fluídos é acrescido com a elevação do Espírito. No meio terrestre, seus efeitos sobre  a matéria são limitados, porque o homem se ignora e não sabe utilizar­se das forças  que  estão  em  si;  porém,  nos  mundos  mais  adiantados,  o  ser  humano,  que  já  tem  aprendido  a  querer,  impera  sobre  a  natureza  Inteira,  dirige  facilmente  os  fluídos,  produz  fenômenos,  metamorfoses  que  vão  até  ao  prodígio.  No  espaço  e  nesses  mundos,  a  matéria  apresenta­se  sob  estados  fluídicos  de  que  apenas  podemos  ter  uma  ideia  vaga.  Assim  como  na  Terra  certas  combinações  químicas  se  produzem  unicamente sob a influência da luz, assim também, nesses meios, os fluídos não se  unem nem se ligam senão por um ato da vontade dos seres superiores. 

Entretanto,  a  ação  da  vontade  sobre  a  matéria  entrou  no  domínio  da  experiência  científica,  graças  ao  estudo  dos  fenômenos  magnéticos,  feito  por  numerosos fisiologistas sob as denominações de hipnotismo e de sugestão mental. Já  se  têm  visto  experimentadores,  por  um  ato  direto  da  vontade,  fazerem  aparecer  chagas e estigmas sobre o corpo de certos indivíduos, fazerem daí correr sangue ou  humores  e,  em  seguida,  operarem  o  curativo  por  uma  volição  contrária.  Assim,  a  vontade  humana  destrói  e  repara  a  bel­prazer  os  tecidos  vivos;  pode  também  modificar  as  substâncias  materiais  a  ponto  de  comunicar­lhes  propriedades  novas, 

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provocando a ebriedade com água simples, etc. Atua mesmo sobre os fluídos e cria  objetos, corpos, que os hipnotizados vêem, sentem, tocam, e que, para eles, têm uma  existência  positiva  e  obedecem  a  todas  as  leis  da  óptica.  É  isso  o  que  resulta  das  pesquisas e dos trabalhos dos Drs. Charcot, Dumontpeilier, Liébault, Bernheim, dos  professores Liégeois, Delbffiuf, etc., cujas demonstrações podem ser lidas em todas  as revistas médicas. 

Ora,  se  a  vontade  exerce  tal  influência  sobre  a  matéria  bruta  e  sobre  os  fluídos rudimentares, tanto melhor se compreenderá seu império sobre o perispírito e  os progressos ou as desordens que nele determina, segundo a natureza de sua ação,  tanto no curso da vida como após a desencarnação. 

Todo  ato  da  vontade,  já  o  dissemos,  reveste  uma  forma,  uma  aparência  fluídica, que se grava no invólucro perispirítico. Torna­se evidente que, se esses atos  fossem  inspirados  por  paixões  materiais,  sua  forma  seria  material  e  grosseira.  As  moléculas  perispirituais,  impregnadas,  saturadas  dessas  formas,  dessas  imagens,  materializam­se  ao  seu  contacto,  espessam­se  cada  vez  mais,  aproximam­se,  condensam­se.  Desde  que  as  mesmas  causas  se  reproduzam,  os  mesmos  efeitos  acumulam­se,  a  condensação  acelera­se,  os  sentidos  enfraquecem­se  e  atrofiam­se,  as  vibrações  diminuem  de  força  e  reduzem­se.  Por  ocasião  da  morte  acha­se  o  Espírito  envolvido  por  fluídos  opacos  e  pesados  que  não  mais  deixam  passar  as  impressões  do  mundo  exterior  e  tornam­se  para  a  alma  uma  prisão  e  um  túmulo.  Esse é o castigo preparado pelo próprio Espírito; essa situação é obra sua e somente  cessa  quando  aspirações  mais  elevadas,  o  arrependimento,  a  vontade  de  melhorar,  vêm romper a cadeia material que o enjaula. 

Efetivamente,  se  as  paixões  baixas  e  materiais  perturbam,  obscurecem  o  organismo  fluídico,  os  pensamentos  generosos,  em  um  sentido  oposto,  as  ações  nobres  apuram  e  dilatam as  moléculas  perispiríticas.  Sabemos  que  as  propriedades  da matéria aumentam com seu grau de pureza. As experiências de William Crookes  demonstraram que a rarefação dos átomos produz o estado radiante. A matéria, sob  este  aspecto  sutil,  Inflama­se,  torna­se  luminosa,  Imponderável.  O  mesmo  sucede  com  a  substância  perispiritual,  pois  esta  é  ainda  matéria,  porém  em  grau  mais  quintessenciado.  Rarefazendo­se,  ganha  sutileza  e  sensibilidade;  seu  poder  de  irradiação e sua energia aumentam proporcionalmente e permitem­lhe que escape às  atrações  terrestres.  O  Espírito  adquire,  então,  sentidos  novos,  com  cujo  auxílio  poderá penetrar em meios mais puros, comunicar­se com seres mais etéreos. Essas  faculdades,  esses  sentidos, que  franqueiam  o acesso  das regiões  felizes,  podem  ser  conquistados e desenvolvidos por qualquer alma humana, visto todas possuírem os  seus  germes  imperecíveis.  As  nossas  vidas  sucessivas,  cheias  de  trabalhos  e  de  esforços, têm por alvo fazer desabrochar em nós essas faculdades. Já neste mundo as  vemos despontar em certos indivíduos que, por seu intermédio, entram em relações  com  o  mundo  oculto.  Os  médiuns  em  geral  estão  neste  caso.  Sem  dúvida,  o  seu  número  aumentará  com  o  progresso moral  e  a  difusão  da  verdade.  Pode­se  prever  que, um dia, a grande maioria dos entes humanos será apta a receber diretamente os  ensinos desses seres Invisíveis cuja existência ainda ontem negava. 

Essa  evolução  paralela  entre  a  matéria  e  o  Espírito,  pela  qual  o  ser  conquista  seus  órgãos,  suas  faculdades;  pela  qual  se  constrói  a  si  mesmo  e  se  aperfeiçoa  sem  cessar,  mostra­nos  ainda  a  solidariedade  que  liga  as  forças

universais,  o  mundo  das  almas  e  o  mundo  dos  corpos.  Mostra­nos  principalmente  riquezas,  inesgotáveis  recursos  que  o  ser  pode  criar  por  um  uso  metódico  e  perseverante da vontade, pois esta é a força suprema, é a própria alma exercendo seu  império sobre as potências inferiores. 

Para  regular  o  nosso  adiantamento,  preparar  o  nosso  futuro,  fortificarmo­  nos  ou  nos  rebaixarmos,  é  bastante  fazer  uso  da  vontade.  Não  há  acaso  nem  fatalidade,  mas,  sim,  forças  e  leis.  Utilizar,  governar  umas,  observar  outras,  eis  o  segredo  de  toda  a  grandeza  e  elevação.  Os  resultados  produzidos  entre  nós  pela  vontade  perturbam  a  imaginação  dos  mundanos  e  provocam  a  admiração  dos  sábios 98 .  Tudo  isso  é,  entretanto,  pouca  coisa  ao  lado  dos  efeitos  obtidos  nesses  meios superiores em que, por determinação do Espírito, todas as forças se combinam  e  entram  em  ação.  E  se,  nessa  ordem  de  ideias,  elevássemos  ainda  mais  o  nosso  pensamento,  não  chegaríamos,  por  analogia,  a  entrever  como  a  vontade  divina,  atuando sobre a matéria cósmica, pode formar sóis, traçar as órbitas do mundo, criar  os universos? 

Sim, tudo pode a vontade exercida no sentido do bem e de acordo com as  leis  naturais.  Muito  também  pode  para  o  mal.  Nossos  maus  pensamentos,  nossos  desejos  impuros,  nossos  atos  culpáveis,  corrompem,  por  neles  se  refletirem  os  fluídos  que  nos  rodeiam,  e  o  contacto  destes  produz  mal­estar  e  impressões  desagradáveis  nas  pessoas  que  de  nós  se  aproximam,  pois  todo  organismo  sofre  a  influência dos fluídos ambientes. Do mesmo modo, sentimentos de ordem elevada,  pensamentos  de  amor,  exortações  calorosas  vão penetrar  os  seres  que  nos  cercam,  sustentá­los e  vivificá­los. Assim se explica o império exercido sobre as multidões  pelos grandes missionários e pelas almas eminentes. Embora os maus também assim  possam  exercer a  sua influência  funesta,  podemos  sempre conjurar  esta  última  por  volições em sentido inverso e através de resistência enérgica da nossa vontade. 

Um conhecimento mais completo das potências da alma e da sua aplicação  deverá  modificar  totalmente  as  nossas  tendências  e  os  nossos  atos.  Sabendo  que  todos os fatos da nossa vida se inscrevem conosco, testemunham pró ou contra nós,  dirigiremos  a  cada  um  deles  uma  atenção  mais  escrupulosa.  Esforçar­nos­emos  desde  então  por  desenvolver  os  nossos  recursos  latentes  e  por  agir  por  nosso  intermédio  sobre  os  fluídos  espalhados  no  espaço,  de  modo  a  depurá­los,  a  transformá­los para o bem de todos, a criar em torno de nós uma atmosfera límpida e  pura,  inacessível  aos  fluídos  viciados.  O  Espírito  que  não  age,  que  se  deixa  levar  pelas influências materiais, fica débil e incapaz de perceber as sensações delicadas  da  vida  espiritual.  Acha­se  em  uma  inércia  completa  depois  da  morte;  as  perspectivas do espaço não oferecem a seus sentidos velados senão a obscuridade e  o  vácuo.  O  Espírito  ativo,  preocupado  em  exercer  suas  faculdades  por  um  uso  constante, adquire forças novas; sua vista abrange horizontes mais vastos, e o círculo  de suas relações alarga­se gradualmente. 

O  pensamento,  utilizado  como  força  magnética,  poderia  reparar  inúmeras  desordens,  destruir  muitas  chagas  sociais.  Projetando,  resoluta  e  freqüentemente,  nossa  vontade  sobre  os  perversos,  sobre  os  desgarrados,  poderíamos  consolar, 

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A  ordem de um  magnetizador  para  que  se realize um ato  qualquer  em certo  tempo  dado  grava­se na  memória do sonâmbulo, e, no dia e hora fixados, essa ordem executa­se fiel e automaticamente.

convencer,  aliviar,  curar.  Por  esse  exercício  obter­se­iam  não  só  resultados  extraordinários  para  o  melhoramento  da  espécie,  mas  também  se  poderia  dar  ao  pensamento uma acuidade, uma força de penetração incalculáveis. 

Graças a uma combinação íntima dos bons fluídos, sorvidos no reservatório  ilimitado  da  Natureza,  consegue­se,  com  a  assistência  dos  Espíritos  invisíveis,  restabelecer  a  saúde  comprometida,  restituir  a  esperança  e  a  energia  dos  desesperados.  Pode­se  mesmo,  por  um  impulso  regular  e  perseverante  da  vontade,  agir a distância sobre os incrédulos, sobre os cépticos e sobre os maus, abalar a sua  obstinação, atenuar seu ódio, fazer penetrar um raio de verdade no entendimento dos  mais hostis. Eis aí uma forma ignorada da sugestão mental, dessa potência invisível  de  que  se  servem  a  torto  e  a  direito,  mas  que,  utilizada  no  sentido  do  bem,  transformaria o estado moral das sociedades. 

A  vontade,  exercendo­se  fluidicamente,  desafia  toda  vigilância  e  todas  as  opressões.  Opera  na  sombra  e  no  silêncio,  franqueia  todos  os  obstáculos,  penetra  todos  os  meios.  Mas,  para  que  produza  efeitos  totais,  é  mister  uma  ação  enérgica,  poderosos  impulsos,  uma  paciência  que  não  esmoreça.  Assim  como  uma  gota  d’água  cava  lenta­mente  a  mais  dura  pedra,  assim  também  um  pensamento  incessante e generoso acaba por se insinuar no espírito mais refratário. 

A vontade insulada pode muito para o bem dos homens, mas que não seria  de  esperar  de  uma  associação  de  pensamentos  elevados,  de  um  agrupamento  de  todas  as  vontades  livres?  As  forças  intelectuais,  hoje  divergentes,  esterilizam­se  e  anulam­se  reciprocamente.  Daí  vêm  a  perturbação  e  a  incoerência  das  ideias  modernas;  mas,  desde  que  o  Espírito  humano,  reconhecendo  sua  força,  agrupe  as  vontades  esparsas  em  um  feixe  comum  a  flui  de  convergi­las  para  o  Bem,  para  o  Belo,  para  o  Verdadeiro,  nesse  dia  a  Humanidade  avançará  ousadamente  para  as  culminâncias eternas, e a face do mundo será renovada!

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