CAPITULO II – EDUCAÇÃO, EETI, POBREZA E VULNERABILIDADE SOCIAL:
2.1 POBREZA e VULNERABILIDADE SOCIAL
2.1.2 A Vulnerabilidade Social
Geralmente associada à pobreza - como sua causa ou consequência – ou como uma condição que vem associada à pobreza, a temática da vulnerabilidade social também tem sido muito debatida na atualidade. Esse debate procura identificar as suas causas, orientando-se para os processos e as estratégias que as famílias utilizam para enfrentar as circunstâncias advindas da situação de pobreza. Assim, a relação entre pobreza e vulnerabilidade social, é geralmente expressa nas justificativas políticas e teóricas que fundamentam os programas e projetos sociais públicos, sobretudo nas últimas décadas.
Esse debate vincula-se diretamente com o campo da proteção social,com o papel das políticas públicas no fortalecimento das capacidades de indivíduos, famílias e regiões para a prevenção, o enfrentamento e a superação da condição de pobreza, permitindo uma ponte mais direta com o campo das políticas públicas (CARNEIRO, 2005).“A vulnerabilidade é marcada pelas violências simbólicas e físicas, em uma sociedade desigual, na qual as possibilidades de acesso à ciência, à cultura e à tecnologia estão vinculadas ao pertencimento étnico, de classe, gênero e orientação sexual” (MOOL, 2012, p. 23).
Os primeiros trabalhos ancorados na perspectiva da vulnerabilidade social foram desenvolvidos na perspectiva de abordar não somente o fenômeno da pobreza, mas também as diversas modalidades de desvantagem social. Estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) sobre essa questão na América Latina adota o enfoque de vulnerabilidade como o resultado negativo da relação entre a disponibilidade dos recursos materiais ou simbólicos dos atores, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais, econômicas, culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade (VIGNOLI, 2001; FILGUEIRA, 2001; ABRAMOVAY, 2002).
Na América Latina, a abordagem da vulnerabilidade social ganhou consistência como paradigma e metodologia sistemática a partir dos trabalhos de Caroline Moser, especialista em política social e antropologia social urbana, que trabalhou no Banco Mundial. Moser ressalta a importância dos ativos das famílias. Os ativos (recursos materiais ou simbólicos, humanos, físicos, financeiros e sociais), bem como as estratégias de uso, condicionam a capacidade de resposta de indivíduos e comunidades e a mobilização desses ativos é condição para acesso às oportunidades do entorno (FILGUEIRA, 2001).
A concepção de vulnerabilidade de ativos não parte da renda como variável determinante para caracterizar a pobreza, mas busca uma compreensão abrangente das realidades locais, com o objetivo de identificar a interação entre os diferentes tipos de ativos, que, por sua vez, podem produzir reações diferentes à vulnerabilidade (CARNEIRO, 2005).
Os ativos incluem atributos individuais ou coletivos, materiais ou relacionais, tais como capacidade de trabalho, relações familiares e até capital social, que é uma composição de vários elementos sociais que promovem a ação individual e coletiva. Os indicadores de capital social se baseiam na participação em organizações sociais, atitudes cívicas, cooperação e sentido de confiança entre os membros da comunidade (ABRAMOVAY, 2002).
O reconhecimento da multiplicidade de aspectos presentes das situações de vulnerabilidade exigem respostas, do ponto de vista da proteção social, capazes de fazer-lhes frente. O não- acesso a determinados insumos (educação, trabalho, saúde, lazer e cultura) diminui as chances de aquisição e aperfeiçoamento dos eventuais recursos materiais ou simbólicos que são fundamentais para que as populações vulnerabilizadas aproveitem as oportunidades oferecidas pelo Estado, mercado e sociedade para ascender socialmente (CARNEIRO, 2005).
A concepção de vulnerabilidade articula-se com a ideia de risco e esses termos frequentemente são abordados de forma conjunta. A partir de categorias pós-estruturalistas, há uma abordagem crítica ao conceito de risco social, entendendo que, historicamente, foi se configurando a equação: infância + pobreza = vulnerabilidade = risco = perigo e que a introdução da noção de vulnerabilidade veio abrir espaço para a possibilidade de intervenção por meio de ações visando a diminuir o risco e, consequentemente, o perigo (HUNING, 2007; SPINK, 2000, 2001).
Nessa abordagem crítica, a noção de perigo/risco acarreta a formação de instituições de sequestro que têm como finalidade o controle exercido por meio da prevenção e da exclusão. Assim, os projetos sociais fomentados pelas políticas públicas de atenção à infância na sociedade contemporânea, operariam integrações sobre crianças/adolescentes empobrecidos e funções de educação/disciplina/proteção para produzir o “menino do projeto”, forma sobre a qual se produz o discurso sobre o risco social e pessoal (TAVARES, 2009).
As temáticas da pobreza e da vulnerabilidade social se articulam organicamente com a questão da cidadania, sobretudo porque essas questões dizem respeito diretamente à educação
e à EETI. Historicamente, o projeto de escola liberal tem inscrita como uma das suas funções sociais mais destacadas a preparação para a cidadania, que, embora se vinculasse ao princípio da propriedade, progressivamente foi sendo ampliado aos não proprietários, em face da Revolução Francesa e da Revolução Industrial – que socializou a produção – e à pressão do movimento operário e sindical (BUFFA, 1988).
A partir da clássica distinção de Marshall (1967), as análises costumam desdobrar a cidadania em direitos civis, políticos e sociais, seguindo uma sequência lógica e cronológica – sequência invertida no Brasil, já que aqui primeiro vieram os direitos sociais, implantados por um ditador popular; depois, vieram os direitos políticos que se ampliaram na ditadura militar e, hoje, muitos direitos civis continuam inacessíveis à maioria da população. Entretanto, o próprio Marshall destaca uma exceção na sequência dos direitos, ao enfatizar a importância da educação pública como um direito social pré-requisito para a expansão dos outros e como um instrumento que permite o conhecimento dos direitos e a luta por eles. “A ausência de uma população educada tem sido sempre um dos principais obstáculos à construção da cidadania civil e política” (CARVALHO, 2004, p. 11).
No Brasil, o longo caminho da cidadania no sec. XX passou pela complexa conjuntura do coronelismo na Primeira República, dos governos populistas e nacionalistas das décadas de 1930 a 1960 e por duas ditaduras. Na década de 1980, no esforço de construção/reconstrução da democracia brasileira, houve uma grande efervescência dos movimentos populares, em que os segmentos subalternos avançaram significativamente na capacidade organizativa e na construção de estratégias. Esse processo de participação instaurou uma nova racionalidade social, que ampliou qualitativamente o conceito de cidadania.
Esse processo de participação instaurou uma nova racionalidade social, que ampliou qualitativamente o conceito de cidadania, gerando em enorme espaço para a voz dos não governantes e possibilitando a construção de uma nova postura da sociedade civil (GOHN, 1992).
Como temos evidenciado até aqui, transitamos num terreno tenso e movediço. Os analistas críticos apontam que as políticas de combate à pobreza propostas, implementadas e acompanhadas pelos organismos internacionais – sobretudo o BM – são de caráter compensatório,constituem um “assistencialismo focalizado” (BEHRING; BOSCHETTI, 2007, p. 59), dissociando a desigualdade de renda e a de capacidades. Assim, a categoria
classe social se desvanece e o alvo das políticas são indivíduos atomizados: os competitivos e os incapazes ou pobres (UGÁ, 2004; MAURIEL, 2008)
Nesse contexto, a utilização do conceito “pobreza” enfraquece o de “cidadania social”, que se esvazia, pois a cidadania sempre esteve relacionada à garantia de direitos universais e não com programas compensatórios. Ela pressupõe um pacto social realizado pela sociedade como um todo, a partir do que se define que o Estado deve garantir uma proteção social – por meio dos direitos sociais – a todos os cidadãos, independentemente de sua renda, simplesmente pelo fato de serem cidadãos (UGÁ, 2004).
Para Leite (2011), as desigualdades a que Marshall se refere não são relativas ao âmbito das classes sociais, mas ao exercício da cidadania em sua esfera social, que, segundo o pesquisador, apresenta-se cindida: uma “cidadania protagonista”, em segmentos socioeconomicamente mais elevados, e uma “cidadania passiva”, em populações pobres. Isso resulta de dois fatores interligados: um deles é que se mantém, na atualidade, a ideia de uma suposta passividade dos pobres e, o outro resulta de uma das formas hegemônicas de tratamento da questão social na contemporaneidade capitalista: sua re-filantropização (LEITE, 2011).
Assim, as propostas neoliberais de combate à pobreza são focalizadas e compensatórias e colocam-se em oposição a uma concepção de proteção social universal. Leite (2011) entende que, para o enfrentamento resoluto das precárias condições em que vive parcela muito expressiva da população, são requeridas políticas sociais de caráter público, além de uma clara atuação estatal como garantidor de direitos universais.
A nosso ver, essa tensão entre políticas focalizadas versus política universais, como já dissemos, é uma das questões mais desafiantes e complexas na conjuntura atual do Brasil, em que a concessão de benefícios sociais com a marca de seleção do acesso pela renda, ao invés da necessidade ou da segurança a ser alcançada, provoca uma tensão ainda não resolvida. Enquanto uma posição defende que a proteção deve ser vinculada com a miséria, propondo ações focalizadas nos necessitados16, outra abordagem sustenta que o vínculo da proteção
16A Secretaria Nacional de Renda de Cidadania (Senarc), do Ministério de Desenvolvimento Social,
disponibiliza o Aplicativo do Índice de Desenvolvimento da Família (IDF), desenvolvido por pesquisadores do Ipea, que permite o acompanhamento das famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais do
deve ter atenções baseadas em direitos, com perspectiva universal frente a uma determinada necessidade (SPOSATI, 2009).
Além disso, como já analisamos no capítulo anterior, os indicadores evidenciam que o PBF se amplia e se consolida, demonstrando, por exaustivas análises e pesquisas, um grande impacto no Brasil e uma característica de permanência.17Pesquisa recente com mais de 1,2 milhão de casos analisados aponta indícios de que o benefício do Bolsa Família eleva a taxa de aprovação entre crianças que, em geral, estavam nas famílias mais pobres do cadastro (BRASIL, 2013).
2.2 EDUCAÇÃO, POBREZA E VULNERABILIDADE SOCIAL: INTENÇÕES E