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2.4 INSTITUCIONALIZAÇÃO DE HÁBITOS E ROTINAS ORGANIZACIONAIS E

2.4.2 Abordagem evolutiva no comportamento organizacional

Em anos recentes, os economistas comportamentalistas têm pesquisado a introdução de introspecções comportamentais e aspectos cognitivos e psicológicos na economia, nestes estudos conduziu a rejeição do positivismo, a recusa em aceitar o raciocínio dedutivo individual, as análises de estática do equilíbrio e objeções aos modelos econômicos simplistas do comportamento econômico racional (SCAPENS, 1994).

A teoria da estruturação de Anthony Giddens concebe a integração das idéias das ciências da natureza, das ciências sociais e das filosofias cognitivas, ao mesmo tempo em que rejeita as limitações do positivismo (CAPRA, 2002).

Para Scapens (1994), a teoria institucional dá ênfase ao comportamento baseado em regras, mas não nega que as pessoas têm uma razão para fazer coisas. Embora os atores individuais não possam consistentemente perseguir escolhas racionais, suas ações são guiadas por suas intenções (SCAPENS, 1994). Para o autor, os indivíduos podem apenas ter razões depois das regras. Assim, embora as regras (e as rotinas) possam dar estrutura e coerência às ações individuais, as regras surgem com as ações (SCAPENS, 1994). Os economistas institucionais consideram o relacionamento no ambiente social complexo e construído somente a partir das ações e do comportamento baseado em regras (SCAPENS, 1994).

Após as ações e a formação das regras pode resultar a evolução institucional. As instituições influenciam as ações e elas são o resultado daquelas ações (SCAPENS, 1994). Não se pode afirmar que as instituições determinam as ações, nem que as ações criam instituições, somente que há uma dualidade entre instituições e ações (SCAPENS, 1994).

Neste contexto, a teoria da estruturação de Anthony Giddens é destacada por Capra (2002, p. 90) como integradora das noções de estrutura social e atividade humana:

foi elaborada para explorar as interações entre as estruturas sociais e a atividade humana de modo a integrar as idéias do estruturalismo e do funcionalismo, por um lado, e das sociologias interpretativas, por outro. Para tanto, Giddens emprega dois métodos de investigação diferentes mas complementares. A análise institucional é o método que ele usa para estudar as estruturas e instituições sociais, ao passo que a análise estratégica é usada para estudar de que maneira as pessoas fazem uso das estruturas sociais quando buscam a realização de seus objetivos estratégicos.

A teoria de Giddens revela a capacidade transformadora da atividade humana e Capra (2002, p. 91) cita que:

não consiste numa série de atos separados, mas num fluxo contínuo de conduta. Do mesmo modo, uma rede metabólica viva encarna um processo vital contínuo. E assim como os componentes da rede viva transformam ou substituem continuamente outros componentes, assim também as ações que constituem o fluxo da conduta humana têm, segundo a teoria de Giddens, uma “capacidade transformadora”.

O trabalho de Nelson e Winter (1982) fornece uma maneira útil de relacionar o comportamento de atores individuais e a formação das instituições (SCAPENS, 1994). Propõem que as habilidades individuais têm um papel importante na rotinização do comportamento organizacional. Embora ainda envolvendo escolhas, as habilidades são

geralmente programadas e baseadas no conhecimento tácito que o indivíduo adquire com a monitoração reflexiva do comportamento cotidiano (SCAPENS, 1994). Neste exame, o ator fundamenta-se nos hábitos e nas rotinas que provaram eficiência no passado. Entretanto, Scapens (1994) afirma que tais rotinas podem ter suas origens nas escolhas explícitas feitas no passado que se tornaram subseqüentemente institucionalizadas. Para esta finalidade as rotinas necessitam de procedimentos organizacionais altamente formalizados (SCAPENS, 1994).

As rotinas têm origem na coerência social da atividade humana, tais rotinas fornecem uma base para o comportamento regular e previsível (SCAPENS, 1994). Nelson e Winter (1982) entendem que as regras e as rotinas são os processos com que os traços organizacionais são transmitidos com o tempo. Em conseqüência, as organizações são tipicamente lentas, por que mudam conforme suas próprias rotinas (SCAPENS, 1994).

Para o entendimento das transformações sociais, Capra (2002, p. 94) sugere a aplicação da compreensão sistêmica da vida ao domínio social:

as redes sociais são antes de mais nada redes de comunicação que envolvem a linguagem simbólica, os limites culturais, as relações de poder e assim por diante. Para compreender as estruturas dessas redes, temos de lançar mão de idéias tiradas da teoria social, da filosofia, da ciência da cognição, da antropologia e de outras disciplinas. Uma teoria sistêmica unificada para a compreensão dos fenômenos biológicos e sociais só surgirá quando os conceitos da dinâmica não-linear forem associados a idéias provindas desses outros campos de estudo.

Para Scapens (1994), nas organizações as redes sociais são compostas pelas atividades rotinizadas e são consideradas como contraposições das habilidades individuais. As regras e as rotinas fornecem uma memória organizacional que é base para a evolução do comportamento organizacional. Podem ser consideradas como genes em processos biológicos. Entretanto, neste sentido a evolução não significa que é a criação do comportamento ideal, mas meramente a reprodução (e adaptação possível) dos comportamentos com o tempo. Ou seja, embora as organizações evoluam, não produzem necessariamente o comportamento ideal preconizado pela teoria econômica atual (SCAPENS, 1994).

O ponto central do desempenho organizacional produtivo é a coordenação, os membros individuais sabendo de seus trabalhos corretamente, interpretam e respondem às mensagens que recebem (SCAPENS, 1994). Neste sentido, a informação produzida pelas rotinas organizacionais é armazenada primeiramente nas memórias dos membros da organização. O conhecimento que uma organização possui é reduzida ao conhecimento de seus membros individuais (SCAPENS, 1994).

Analisar a memória organizacional inteiramente nos termos das memórias dos membros individuais é negligenciar ou subestimar as memórias individuais por experiências compartilhadas no passado. As experiências que estabeleceram o sistema de comunicação extremamente detalhado e específico que fundamenta o desempenho rotineiro (SCAPENS, 1994).

Scapens (1994) alerta que as rotinas requerem habilidades de cada membro da organização. Isto envolve a superação do conflito intra-organizacional. Esta superação é concebida por meio de uma trégua ao conflito organizacional, a qual tende a causar uma cultura simbólica compartilhada pelas partes. Assim, as rotinas proporcionam a coesão da organização (SCAPENS, 1994).

Uma das características mais marcantes do conflito é a sua relação com o poder. Galbraith (apud CAPRA, 2002, p. 99-100) revela que:

o exercício do poder, a submissão de um ser humano à vontade de outro ser humano, é inevitável na sociedade moderna; nada, em absoluto, se realiza sem isso... O poder pode ser maligno do ponto de vista social; mas, do mesmo ponto de vista, também é essencial. O papel essencial do poder na organização social está ligado aos inevitáveis conflitos de interesses. Em virtude da nossa capacidade de afirmar nossas preferências e determinar por elas as nossas escolhas, os conflitos de interesses surgem inevitavelmente em qualquer comunidade humana; o poder é o meio pelo qual esses conflitos são resolvidos.

Galbraith (apud CAPRA, 2002, p. 100) distingue três espécies de poder:

o poder coercitivo garante a submissão pela imposição de sanções, efetivas ou só enquanto ameaças; o poder compensatório, pelo oferecimento de incentivos ou recompensas; e o poder condicionado, pela mudança das crenças mediante a persuasão ou a educação. A arte da política está em encontrar a medida certa de cada um desses três tipos de poder em vista de resolver conflitos e promover o equilíbrio entre os interesses opostos.

Contudo, para Scapens (1994), mesmo com a presença dos conflitos e a disputa pelo poder, não significa que as organizações são inteiramente estáticas, as mudanças ocorrem. Como exemplo, o autor cita uma indústria do ramo de eletrônica, sua tecnologia de produção muda rapidamente, as suas rotinas podem envolver procedimentos muito informais e exige funcionamento considerável da equipe, mais que os procedimentos formalizados e hierárquicos. As empresas necessitam responder às mudanças em seu ambiente (SCAPENS, 1994). Para o autor, é importante não ver o ambiente como algo completamente separado dos processos organizacionais. O ambiente pode penetrar a organização, criando as formas em

que os atores vêem o mundo e fazem o sentido de sua própria atividade organizacional (SCAPENS, 1994).

É neste contexto de mudança organizacional que se deve distinguir a mudança evolucionária da rotina, da mudança crítica revolucionária (SCAPENS, 1994). A primeira envolve a adaptação evolucionária, por exemplo, a replicação, a contração e a imitação (SCAPENS, 1994). Com tais processos evolucionários as rotinas organizacionais começam a serem modificadas em resposta às mudanças institucionais, que Giddens (1984) chama de estruturação (SCAPENS, 1994).

Para o entendimento da influência dessas variáveis na evolução das organizações sociais, Capra (2002, p. 102) faz uma análise sistêmica da estrutura social:

o elemento central de qualquer análise sistêmica é a noção de organização, ou padrão de organização. Os sistemas vivos são redes autogeradoras, o que significa que o seu padrão de organização é um padrão em rede no qual cada componente contribui para a formação dos outros componentes. Essa idéia pode ser aplicada ao domínio social, desde que as redes vivas de que estamos falando sejam identificadas como redes de comunicações.

A mudança revolucionária, entretanto, envolve um rompimento significativo de rotinas estabelecidas, é necessário estabelecer novas rotinas para fazer sentido a esta nova atividade organizacional (SCAPENS, 1994).

A concepção da teoria institucional rejeita a base da teoria neoclássica, que é a idéia da firma em que os indivíduos economicamente racionais fazem escolhas ideais (SCAPENS, 1994). No entanto, concebe uma organização que compreende os comportamentos rotineiros, que fornecem uma maneira de trabalhar em um mundo complexo e incerto, e que permitem atores individuais de fazer o sentido de suas próprias ações e de outras (SCAPENS, 1994).

Scapens (1994) destaca que para continuar a funcionar em uma base cotidiana, os atores necessitam saber que rotinas executar e deve haver uma suspensão do conflito interorganizacional. As rotinas fornecem a coerência social às atividades organizacionais e os genes que permitem que os traços organizacionais sejam transmitidos com o tempo (SCAPENS, 1994). Com as rotinas os processos institucionais evoluem nas circunstâncias específicas da firma e de seu ambiente (SCAPENS, 1994).