Enquadramento Teórico
III. A Propósito da Noção de Satisfação com a Vida
4. Abordagens hedónica e eudemonista: rumo à complementaridade Pelo que acima expusemos, podemos concluir que a qualidade de vida, além
de aspetos circunstanciais e ambientais, inclui dimensões internas, relativas a cada pessoa, que correspondem ao bem-estar psicológico e ao bem-estar subjetivo. Cada um destes tipos de bem-estar radica numa perspetiva filosófica diferente. O bem-estar subjetivo está vinculado ao hedonismo, concebendo o bem-estar como a felicidade subjetiva e a procura de experiências de prazer ou o equilíbrio entre a afetividade positiva e negativa. Neste contexto, a satisfação com a vida corresponde à componente cognitiva do bem-estar subjetivo.
Por seu lado, o bem-estar psicológico radica na perspetiva eudemonista, que encara o bem-estar como realização do potencial humano. Adicionalmente, de acordo com esta perspetiva, o bem-estar psicológico encontra-se associado ao ser em mudança, ao exercício do esforço e à procura do crescimento e desenvolvimento pessoal (Oliveira, Lima & Simões, 2007).
Todavia, como alguns autores importantes no domínio do bem-estar reconhecem (por exemplo, Ryan e Deci), a perspetiva hedónica - ligada às noções de bem-estar subjetivo e de satisfação com a vida - e a perspetiva eudemonista - ligada à noção de bem-estar psicológico - não são perspetivas antagónicas. Em algumas áreas têm visões divergentes e noutras têm visões complementares (Ryan & Deci, 2001). Há, inclusive, investigações que integram variáveis de ambas as perspetivas. Um exemplo disso é a investigação recente de Teixeira (2013) acerca dos preditores de bem-estar no contexto da crise económica portuguesa.
Esta investigação tinha como finalidade estudar a relação entre recursos internos (resiliência), recursos sociais (satisfação com o suporte social), recursos económicos (escalão de rendimento) e o bem-estar (subjetivo e psicológico), mediante a ocorrência de acontecimentos de vida adversos, com destaque para o contexto de crise económica que o país atravessa,
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considerando o impacto negativo pessoal e/ou profissional. Participaram no estudo 238 pessoas com idades entre os 18 e os 61 anos.
Os resultaram mostraram que as pessoas que sentiram o impacto negativo da crise económica (pessoal e/ou profissional) relataram uma menor satisfação com a vida e mais afetos negativos do que aquelas que não foram afetadas pela crise económica. Adicionalmente, entre os/as participantes que sentiram a crise económica, as variáveis que se destacaram como preditoras da satisfação com a vida foram o sentido atribuído à vida, a satisfação com as amizades e um rendimento mais elevado. A serenidade foi o melhor preditor do afeto positivo. A perseverança e intimidade foram preditoras de menor afeto negativo. Finalmente, a serenidade, a perseverança, o sentido atribuído à vida, a satisfação com as amizades e com as atividades sociais foram os melhores preditores de um maior bem-estar psicológico. Desta forma, a resiliência, o suporte social e o rendimento auferido mostraram-se importantes preditores das medidas subjetivas e psicológicas de bem-estar nas pessoas que relataram sentir crise económica nas suas vidas pessoais e/ou profissionais (Teixeira, 2013).
Em suma, podemos considerar duas grandes perspetivas acerca do bem-estar: a perspetiva hedónica (associada ao bem-estar subjetivo) e a perspetiva eudemonista (associada ao bem-estar psicológico). A noção de satisfação com a vida está vinculada à perspetiva hedónica e é definida como a componente cognitiva do bem-estar subjetivo.
Vários estudos têm verificado que a satisfação com a vida se relaciona com variáveis como extroversão, autoestima, conscienciosidade, o alcançar de objetivos de vida, possuir vínculos pessoais próximos, sentir-se apoiado/a e ser otimista perante a vida, por exemplo.
Uma das áreas onde a noção de bem-estar subjetivo tem sido particularmente estudada é no âmbito da Psicologia da Saúde. Citamos, a título de exemplo, a investigação recente de Carneiro, Humboldt, & Leal (2014) onde se procurou averiguar se os dois grupos amostrais de idosas, com e sem cancro da mama em remissão, apresentam diferenças significativas nos totais de Bem-Estar Subjetivo (BES) e das suas dimensões afetiva e cognitiva. A amostra era
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composta por 387 idosas, não institucionalizadas, com idades compreendidas entre os 75 e os 100 anos (M = 85,27; DP = 6,59; intervalo 75-100) e que foram distribuídas em dois grupos: com cancro da mama em remissão e sem cancro da mama. Foram aplicados: um Questionário Demográfico, a Escala de Satisfação com a Vida (ESV) e a Escala de Afeto Positivo e de Afeto Negativo (PANAS). O grupo com cancro da mama em remissão apresentou resultados médios da escala e subescalas de BES superiores aos resultados médios do grupo sem cancro da mama, principalmente na subescala dos Afeto Positivo (AP). Estas diferenças foram estatisticamente significativas. Em face dos resultados, os autores concluíram que, apesar do diagnóstico do cancro da mama representar uma ameaça importante ao BES das idosas, estas participantes apresentaram um total significativamente mais elevado o que as restantes (Carneiro, Humboldt, & Leal, 2014).
Contudo, autores, como Ryan e Deci (2001), argumentam que a noção de bem-estar subjetivo parece não abranger a totalidade do fenómeno do funcionamento psicológico positivo. Neste âmbito é considerado muito relevante o contributo da perspetiva eudemonista que, entre outros aspetos, apresenta seis componentes do bem-estar psicológico.
Atualmente, estas duas perspetivas acerca do bem-estar são encaradas sobretudo como complementares, tendo como objetivo comum uma melhor compreensão do funcionamento psicológico ótimo e das formas mais eficazes de o promover.
No nosso caso, optámos por estudar a satisfação com a vida (dimensão cognitiva do bem-estar subjetivo) pois sabíamos da existência, no nosso país, de uma escala validada para a avaliar (a Escala de Satisfação com a Vida – SWLS), assim como de numerosos trabalhos de investigação publicados. Acresce ainda que, ao tempo da construção do nosso projeto de Doutoramento (2009), se tratava de um constructo amplamente divulgado no âmbito da “Psicologia Positiva”, movimento que nos suscitou particular interesse por se centrar nas características positivas do funcionamento humano.
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