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Enquadramento Teórico

IV. A Propósito do Raciocínio Sistemático em Novas Situações 16

2. Diferentes conceções acerca da inteligência

Binet defendia uma conceção unidimensional da inteligência. Um dos críticos desta opinião de Binet foi Henri Piéron. Para Piéron, a inteligência era uma constelação de aptidões e cada uma devia ser avaliada independentemente das outras (Huteau & Lautrey, 2006). Esta conceção multidimensional da inteligência apresentada por Piéron vai ser apoiada pelo desenvolvimento de trabalhos utilizando a análise fatorial, principalmente pelos trabalhos de Thurstone.

Para comparar os sujeitos, Binet apoiou-se na abordagem desenvolvimental e na noção de idade mental. Uma outra solução, descoberta sensivelmente ao mesmo tempo por Spearman, consistiu em apoiar-se numa análise

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matemática, a análise fatorial, para definir as dimensões intelectuais sobre as quais os indivíduos podem ser comparados.

Ignorando a natureza dos diferentes fatores suscetíveis de explicar as variações nos desempenhos nos testes de inteligência, os primeiros psicólogos que fizeram a análise fatorial de um conjunto de testes tomaram como ponto de partida as correlações entre os testes. Logo que um ou vários fatores comuns a vários testes foram encontrados, o exame do conteúdo de diferentes testes saturados por um mesmo fator suscitou uma ou mesmo várias interpretações. O primeiro método de análise fatorial foi inventado por Spearman para analisar a tabela de correlações entre as notas obtidas por uma amostra de sujeitos em diversas provas, notas escolares, pequenos testes, estimação da inteligência pelos professores, etc. Com este método de cálculo, Spearman mostrou que a variância nestas notas podia ser dividida em duas partes: um fator de variação geral comum a todos estes resultados e um fator de variação específico de cada um deles (Almeida, 1994). Interpretou este fator comum a todos os testes da sua bateria de provas como um fator geral de inteligência (o célebre fator g) e apresentou o seu método como a forma de o medir. Esta primeira forma de análise fatorial conduziu a uma conceção global da inteligência.

Spearman não fez grandes elaborações teóricas acerca do que representava o fator g. Considerou que correspondia à “energia mental”, sem que esta noção tenha ultrapassado o estatuto de metáfora. Mais tarde, sugeriu que as tarefas mais saturadas em fator geral eram tarefas de edução de relações (inferência) e de edução de correlatos (aplicação).

Foi inspirando-se nesta conceção do que há de comum às atividades intelectuais, o fator g, que surgiram testes como as Matrizes Progressivas de Raven e o Teste de Dominós D48, provas altamente saturadas em fator geral (Almeida, 2002).

Quase no final dos anos trinta do século passado, esta perspetiva unidimensional da inteligência foi posta em questão por Thurstone. Depois de analisar as intercorrelações de um grande conjunto de testes com o método de análise fatorial que apresentou, não encontrou um fator geral mas vários fatores que, segundo ele, correspondiam a aptidões independentes que denominou “aptidões primárias”. O número dessas aptidões primárias variava um pouco conforme a composição dos testes que entravam na bateria, mas as

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mais estáveis foram as seguintes: compreensão verbal (V), fluência verbal (W), aptidão numérica (N), inferência (I), aptidão espacial (S), velocidade percetiva (P) e memória (M).

A partir daqui gerou-se uma polémica entre Spearman e Thurstone sobre a estrutura da inteligência: seria unidimensional, como sugeria o fator geral encontrado por Spearman, ou multidimensional, como sugeriam os múltiplos fatores encontrados por Thurstone?

Veio a verificar-se mais tarde que as diferenças de resultado tinham que ver, por um lado, com o facto destes dois autores terem utilizado técnicas de análise fatorial diferentes e, por outro, com amostras de tarefas e de sujeitos muito diferentes. Foi mostrado que estes dois métodos eram parciais e podiam ser integrados num modelo fatorial hierárquico mais geral (Lautrey, 2001). Quando a análise fatorial de uma bateria de testes de inteligência é feita com um método próximo do de Thurstone encontra-se, como ele, fatores primários. Ou seja, fatores relativamente específicos, comuns apenas a pequenos grupos de testes. Contudo, estes fatores estão correlacionados entre si. Assim, pode-se fazer uma análipode-se fatorial das correlações entre estes fatores primários e obter então fatores de “segunda ordem” mais alargados, que explicam a variância comum a grupos de fatores primários.

Aplicando este método de análise fatorial hierárquica, Raymond B. Cattell encontrou dois fatores de segunda ordem que denominou “fator geral de inteligência fluida” (Gf) e “fator geral de inteligência cristalizada” (Gc). Entretanto, Horn, um discípulo de Cattell, contribuiu para enriquecer este modelo acrescentando-lhe vários fatores primários e novos fatores de segunda ordem.

Esta estrutura foi confirmada e enriquecida também por John B. Carroll. Reanalisando a quase totalidade dos dados de partida das análises fatoriais da inteligência publicados até então (1993),cerca de 460 estudos,Carroll mostrou que estes eram compatíveis com um modelo fatorial hierárquico com três estratos ou níveis (Huteau & Lautrey, 2006; Lautrey, 2001).

No primeiro estrato deste modelo, encontrou quarenta fatores específicos diversamente correlacionados entre si. Efetuando uma análise de segunda ordem das correlações entre estes fatores específicos, encontrou, num segundo estrato, oito fatores alargados que explicam as correlações entre os

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fatores de primeira ordem. Estes oito fatores alargados correspondem, no essencial, aos fatores de segunda ordem que já tinham sido encontrados por Cattell e Horn. Ao efetuar uma análise fatorial das correlações entre estes oito fatores de segunda ordem, Carroll encontrou, no terceiro nível deste modelo hierárquico, um outro fator geral de inteligência, que explica as correlações entre os fatores de segunda ordem.

Pode dizer-se que Spearman e Thurstone tinham ambos razão e estavam ambos errados. A análise fatorial das correlações entre os testes de inteligência permitia extrair um fator geral de variação dos desempenhos, como pensava Spearman, mas também permitia extrair fatores específicos a alguns domínios, como pensava Thurstone. Contudo, estavam ambos errados quando pensavam que estas estruturas eram incompatíveis. De facto, elas podem ser integradas num modelo fatorial hierárquico (Huteau & Lautrey, 2006).

No quadro do modelo hierárquico com três níveis proposto por Carroll, a variância observada nos resultados num teste de inteligência pode ser dividida em quatro partes distintas: uma parte que é específica desse teste; uma parte que é comum a esse teste e a um pequeno grupo de outros testes que cobrem o mesmo campo específico (estrato I); uma parte comum a esse teste e a um conjunto mais alargado de testes que cobrem o mesmo domínio da inteligência (estrato II) e, finalmente, uma parte comum a todos os testes de inteligência (estrato III) (Almeida, 2002).

Em resumo, as conceções acerca da inteligência foram variando desde que foi possível avaliar a inteligência no início do século XX. Desde uma conceção unidimensional, defendida por exemplo por Binet e Spearman, até uma conceção hierárquica, defendida por Cattell, Horn e Carroll, passando por uma conceção multidimensional da inteligência, defendida por Thurstone, vários foram os debates acerca desta temática. Como vimos, as perspetivas unidimensional e multidimensional podem ser integradas num modelo fatorial hierárquico com três níveis.

O teste que escolhemos para avaliar o raciocínio sistemático em novas situações, na investigação que agora apresentamos, é o Teste de Dominós D48. Trata-se de uma prova de inteligência geral, não-verbal, com grande

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saturação em “fator g” (0,86) e escassa “contaminação” de outros fatores específicos (CEGOC-TEA, 2001). Este teste avalia a “inteligência geral fluida” (Gf), segundo a conceção de Cattell17.

Os testes de dominós continuam a ser muito utilizados no âmbito do recrutamento e seleção de pessoal, bem como da orientação escolar e profissional (Godoy & Noronha, 2005; Pitariu, 1984; Touron, 1983).

Há cerca de um século que a Psicologia começou a dar o seu contributo na prática social da orientação / seleção profissional. O marco que assinala esta colaboração é a publicação do livro de Parsons Choosing a Vocation (1909). Esta obra pioneira apresentava um modelo de prática de orientação/seleção profissional em três fases:

1. Verificação ou avaliação das características psicológicas dos indivíduos candidatos aos postos de trabalho (aptidões sensoriais e motoras, inteligência, resistência à fadiga, entre outras). Neste contexto, os testes psicológicos destinados a avaliar várias aptidões ou domínios eram indispensáveis. Assistiu-se assim a um grande desenvolvimento nesta área. Esse desenvolvimento foi também ajudado pela necessidade de recrutar massivamente indivíduos para integrarem o exército americano quando este apoiou os seus congéneres europeus na Primeira Guerra Mundial (Abreu, 2003).

2. Caracterização das diversas profissões, em termos de exigências ao nível das aptidões físicas e psicológicas.

3. Avaliação do ajustamento ou do emparelhamento entre o perfil das aptidões individuais dos trabalhadores e o perfil das aptidões requeridas pelos postos de trabalho (Abreu, 2003).

Refira-se, a título de curiosidade que, no nosso país, este modelo foi posto em prática em primeiro lugar no Instituto de Orientação Profissional, criado em Lisboa, em 1925, pelo Doutor António Faria de Vasconcelos (Abreu, 2003). Aliás, Portugal, no início do século XX, em termos de investigação psicológica,

17 A inteligência fluida (Gf) satura os testes que fazem apelo ao raciocínio e, mais geralmente, a operações mentais controladas com vista à resolução de problemas novos fazendo pouco apelo aos conhecimentos. Ao invés, a inteligência cristalizada (Gc) satura os testes que fazem apelo ao conhecimento da linguagem, da informação e de conceitos específicos de uma cultura e/ou à aplicação desse conhecimento (Huteau & Lautrey, 2006).

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procurava acompanhar o desenvolvimento que acontecia noutros países da Europa. É exemplo disso a criação, em 1912, do primeiro Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade de Coimbra, anexo à Faculdade de Letras (Abreu & Oliveira, 1999; Gomes, 1990). Este espaço, fundado pelo Doutor Augusto Joaquim Alves dos Santos, deveria funcionar como um “auxiliar indispensável dos estudos filosóficos e dos estudos pedagógicos da Escola Normal Superior” (Gomes, 1990, p. 4). Denota-se aqui um interesse em que os conhecimentos da Psicologia científica contribuíssem para melhorar a formação de professores/as.

As experiências realizadas no referido Laboratório tiveram a colaboração de estudantes de várias Faculdades da Universidade. Estas incidiam, por exemplo, sobre: a capacidade de retenção da memória, a psicometria da atenção, a sugestibilidade das crianças, a medida do seu nível intelectual pelo método de Binet e Simon (Escala Métrica da Inteligência), bem como sobre outros problemas das ciências psicológicas e pedológicas (Gomes, 1990)18. Assim, damos conta que o desenvolvimento da Psicometria e da Avaliação Psicológica foi (e é) de grande utilidade tanto na Psicologia Educacional como na orientação e seleção profissional, desde o princípio do século XX. Acresce ainda que verificamos que o nosso país não esteve alheado dos progressos feitos nestas áreas da Psicologia.