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Foto 10 Crianças e adolescentes brincando na praia

1 DIFERENTES PERSPECTIVAS SOBRE A INFÂNCIA E

1.5 ECA e o abrigamento institucional como medida de proteção: a

1.5.3 Abuso sexual contra crianças e adolescentes: a caminho da

Além das consequências biopsicossociais na vida das vítimas e de seus familiares, a situação do abuso sexual também implica em um discurso jurídico sobre a defesa dos princípios de proteção integral postulados pelo ECA. Em alguns casos, ocorre o afastamento da vítima de abuso sexual da covivência familiar e comunitária, mediante medidas jurídicas de proteção as vítimas, passando a viver em abrigo institucional enquanto não haja possibilidade de permanecer no meio a que pertence. Paralelamente, inicia tramites processuais de responsabilização penal do agressor.

A aplicação das medidas de proteção em casos de ameaças ou violações dos direitos é contemplada por vários Artigos, Parágrafos e Incisos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) atribuindo ao Conselho Tutelar enquanto órgão permanente, autônomo e não jurisdicional a obediência ao Art. 101 até o inciso IX20 que prevê medidas de proteção, dentre estas, a colocação em abrigo institucional (Art. 101, inciso VII), mediante uma guia de acolhimento expedida pela autoridade judiciária, até que possam retornar ao seio familiar, ou até mesmo obter inserção em famílias substitutas mediante guarda, tutela

20 Art. 101. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 98, a autoridade competente

poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas: VII - acolhimento institucional. § 1o O

acolhimento institucional (grifo nosso) e o acolhimento familiar são medidas provisórias e excepcionais (grifo nosso), utilizáveis como forma de transição para reintegração familiar ou,

não sendo esta possível, para colocação em família substituta, não implicando privação de liberdade [...] Art. 19, § 2o A permanência da criança e do adolescente em programa de acolhimento institucional não se prolongará por mais de 02 (dois) anos (grifo nosso)., salvo comprovada necessidade que atenda ao seu superior interesse, devidamente fundamentada pela autoridade judiciária. (Incluído pela Lei nº 12.010, de 2009).

ou adoção. A legislação enfatiza veementemente que o acolhimento institucional deve ser de caráter excepcional e provisório a fim de preservar o direito à convivência familiar e comunitária.

Os principais órgãos que são afetos a aplicação da medida protetiva de encaminhamento para entidade de acolhimento institucional são: Conselho Tutelar, Ministério Público e Juizado da Infância e Juventude21. Cabe aqui destacar algumas considerações sobre as principais atribuições e competências dos integrantes da rede de garantias de direitos, e das entidades que desenvolvem a modalidade abrigo institucional, a fim de entender como as crianças e adolescentes chegam às instituições.

O Conselho Tutelar está prescrito no Estatuto como órgão não- jurisdicional de constituição autônoma que atua na comunidade como um agente responsável pela defesa e efetivação dos direitos da criança e do adolescente (Art. 131). Suas principais atribuições estão relacionadas à solicitação de serviços públicos nas áreas de saúde, educação, serviço social, trabalho; assessorar o poder executivo local na elaboração de proposta orçamentária para planos e programas de atendimento dos direitos das crianças e adolescentes; encaminhar ao Ministério Público notícia de fato que constitua infração administrativa ou penal contra os direitos das crianças e adolescentes; atender e aconselhar os pais ou responsável, aplicando as medidas previstas no art. 129, I a VII e entre outros22.

Por outro lado, além do Conselho Tutelar, compete ao Ministério Público promover e acompanhar os procedimentos de suspensão e destituição do poder familiar além de oficiar em todos os demais procedimentos da

21 Em casos excepcionais a própria entidade pode acolher crianças e adolescentes em

situação de vulnerabilidade pessoal e social, devendo comunicar aos órgãos judiciais no prazo de 24 horas.

22 Entretanto, pesquisa tem apresentado inúmeros obstáculos encontrados para a promoção e

defesa dos direitos das crianças e adolescentes. Com o escopo de conhecer o cotidiano do Conselho Tutelar, dada a sua inarredável importância para a sociedade, uma pesquisa nacional, “Conhecendo   a   Realidade” (2007) realizada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) constataram que os Conselhos Tutelares enfrentam inúmeras dificuldades que abrangem questões precárias de infraestrutura à insuficiência de equipamentos disponíveis para realização do trabalho tais como papel, linhas telefônicas, fax, acesso a Internet, veículos, entre outros. Sobre os aspectos e condições trabalhistas, recentemente, houve uma série de conquistas de direitos trabalhistas dessa categoria decretado pelo Congresso Nacional brasileiro, sancionado pela lei nº. 12.696, de 25 de julho de 2012, que altera os artigos 132, 134, 135 e 139 do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990).

competência da justiça da Infância e Juventude; fiscalizar as entidades que desenvolvem   programas   de   acolhimento   institucional;;   e   acima   de   tudo,   “zelar   pelo efetivo respeito aos direitos e garantias legais asseguradas às crianças e adolescentes promovendo as medidas judiciais e extrajudiciais  cabíveis”  (  Art.   201).

E, por fim, cabe ao Juizado da Infância e Juventude, dentre as diversas competências, o afastamento de crianças e adolescentes do convívio familiar para ser encaminhado para o programa de acolhimento institucional, como uma medida de caráter privativa e exclusiva das autoridades judiciais e o acompanhamento de cada sujeito institucionalizado que teve seus direitos violados. Todos os órgãos mencionados são responsáveis pela fiscalização da qualidade e eficiência das ações desenvolvidas pelas entidades que desenvolvem o programa de acolhimento institucional.

Essas   breves   considerações   refletem   o   “complexo   institucional”   destinado àqueles que se encontram em situações de vulnerabilidades. Busca- se ressaltar que para os procedimentos executados por esses órgãos serem efetivos na garantia e preservação dos direitos da criança e do adolescente à convivência familiar e comunitária, pressupõe-se uma intersetorialidade que, como veremos no transcorrer da dissertação, mostra-se inoperante em suas práticas cotidianas.

Por outro lado, além de nomear as atribuições desses órgãos, o ECA também menciona os princípios que devem nortear as ações das entidades. No Art. 92, prevê entre outras ações: a preservação dos vínculos familiares; preparação gradativa para o desligamento; participação na vida da comunidade local; atendimento personalizado e em pequenos grupos, entre outros, desativando o modelo operativo dos antigos internatos de outrora. Essa legislação ainda menciona que o dirigente da entidade é equiparado ao guardião para todos os efeitos de direitos.

Conforme anunciado, a nova gestão tutelar passa a estar respaldada numa   série   de   princípios   que   devem   nortear   esse   “complexo   institucional”   representado pelo Conselho Tutelar, Ministério Público, Juizado e as entidades em prol de promover e assegurar os direitos sociais e a proteção integral.

2. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO