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Foto 10 Crianças e adolescentes brincando na praia

1 DIFERENTES PERSPECTIVAS SOBRE A INFÂNCIA E

1.3 O olhar da família sobre a FEBEM: o manejo da

Outras pesquisas (RIZZINI e RIZZINI, 2004; FONSECA, 1995) apontaram para uma nova face do processo de institucionalização de crianças e adolescentes protagonizados pelos seus familiares, tratando como uma

6 Esse contexto deve ser entendido sob a lente durkeiminiano da anomia social definido como

um estado de desregramento social - perda de uma unidade moral disciplinadora dos comportamentos sociais que prescrevem como o sujeito deve conduzir-se em determinadas circunstâncias (DURKHEIM, 1975).

estratégia importante no cotidiano de uma considerável parcela da população brasileira, e como um suporte fundamental na garantia de sobrevivência de seus filhos. As autoras Irma Rizzini e Irene Rizzini (2004) apontaram que após a promulgação do Código de Menores de 1927, houve uma intensa procura de familiares para a institucionalização de seus filhos, e em alguns casos, eram as próprias crianças e adolescentes que procuraram esse serviço.

A grande maioria das motivações partia de mães sem companheiros, e cerca de 80% destas, eram empregadas domésticas. A demanda pela institucionalização tornou-se um suporte alternativo de garantia de cuidados e educação aos filhos da população empobrecida. Com a intenção de analisar melhor as motivações para o internamento nesse período, as autoras em tela recorreram a um estudo publicado em 1941, realizado na Escola de Aprendizes em Manaus, que pesquisou 350 aprendizes e seus pais. Através do levantamento de 82 famílias, constatou que as motivações para a procura desse serviço estavam atreladas à questão da alimentação, e posteriormente a educação.   “A   maioria   dos   pais   era   formado   por   operários,   e   das   mães,   por   empregadas  domésticas  criando  os  filhos  sozinhas”  (ibid.,  p.  32).

Em 1964, com a criação da FUNABEM no auge da ditadura militar, as famílias   passam   a   dominar   a   ‘tecnologia   do   internamento’,   interferindo,   manejando e adquirindo benefícios do sistema. A busca pela institucionalização continuava sendo demandada por motivos relacionados às condições básicas de produção e reprodução da vida social. As principais motivações do internamento realizado pelas famílias estavam atreladas à busca por um local “seguro”   onde os filhos pudessem ter acesso a uma educação escolar e profissionalizante, assim como acesso a alimentação, vestuário e um ambiente “onde  possam  se  tornar  gente”.  Das  382  instituições  pesquisadas  no  país  pela   FUNABEM em 1966, 58% desta população de menores institucionalizados estavam na faixa etária de sete a treze anos de idade, ou seja, em idade escolar (RIZZINI e RIZZINI, 2004).

A promulgação do Código de Menores, em 1979, veio reforçar o discurso disfuncional e patológico das famílias mais pobres em criar e educar seus filhos. Pautado numa visão ideológica e valorativa da nuclearização da família propagada pela elite letrada, essas famílias eram rotuladas de incapazes, insensíveis, desestruturada e negligente. A construção de

representações negativas sobre as famílias dos mais pobres nasceu juntamente com o processo de construção da assistência à infância no Brasil, e a trajetória do processo de tutelarização estatal implicava, principalmente, na ideia de proteção da infância contra a própria família (RIZZINI e RIZZINI, 2004). O estudo da antropóloga Claudia Fonseca (1995) realizado na década de 1980, numa Vila de Invasão da cidade de Porto Alegre, mostrou a importância do papel da FEBEM no imaginário dessa população, constituindo uma extensão da rede de sociabilidade acionada como o objetivo de assegurar melhores condições de vida para as crianças. Segundo a autora, a FEBEM surge como um processo de circulação na vida das famílias mais pobres devido a fatores relacionados como: a) saturação da rede familiar; b) estratégia de sobrevivência (fome); c) punição (filhos desobedientes); d) rejeição do novo marido/companheiro para com os filhos da mulher, ou seja, os enteados, e dentre outros. Sua pesquisa coaduna com a perspectiva de análise das autoras Irma Rizzini   e   Irene   Rizzini   quando   ponderam   que   o   “manejo”7 da

institucionalização respondia a ausência de programas assistenciais que visassem à inclusão social daqueles que viviam em condições de penúria.

Para Fonseca, as mães que colocavam seus filhos na FEBEM para receberem boa educação ou serem afastados de influências questionáveis na Vila, entre outros, eram vistas pelos moradores, vizinhos e parentes como uma prova da preocupação materna para como o bem-estar desta criança ou do adolescente, diferentemente do olhar criminalizador do aparato jurídico-estatal, que via nesta atitude uma prova de abandono, negligência, e de desestruturação familiar.

É possível observar com Fonseca, como as opiniões sobre os vínculos e a moral familiar entre as mães e a FEBEM eram antagônicas. Estes acusavam moralmente essas famílias de utilizar a FEBEM como um tipo de internato particular onde podiam deixar e recuperar seus filhos quando desejassem tudo de graça. Todavia, a institucionalização não era percebida por estas mães, que na maioria das vezes criavam seus filhos sem ajuda do companheiro e da rede

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Em   outras   palavras,   o   “manejo”   significa   a   forma   com   as   famílias   passaram   a   dominar   a   “tecnologia  do  internamento”,  alegando  rejeição  do  padrasto,  maus  tratos, fomentando motivos para que seus filhos tivessem acessos a educação, alimentação e vestuários oferecidos pela instituição.

de parentesco, como uma espécie de abandono, pelo contrário, era uma espécie de afastamento temporário até que suas vidas fossem restabelecidas.

Entretanto, o Estado valeu-se da condição de penúria e vulnerabilidade social,   assim  como  os  discursos  e  “práticas  de  desqualificação  realizados  por   técnicos do judiciário - psicólogos   e   assistentes   sociais”   (AYRES,   2001   apud   CRUZ et all, 2005, p. 45) para seqüestrar a tutela dos pais decretando a sentença do abandono através da destituição do poder familiar, tornando-os agora, filhos do Governo.

Contrário a esse complexo institucional, a década de 1980 é marcada pelo arcabouço teórico de normativas internacionais que tiveram influência preponderante sobre a nova categoria social de infância. Em 1985, surge a edição das Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude - Regras de Beijing-Pequim. Este documento apresenta princípios norteadores à aplicação de medidas aos jovens infratores combatendo qualquer tipo de arbitrariedade pelo Estado, a fim de assegurar os direitos sociais destes sujeitos.

A normatização de maior importância no bojo dos direitos da infância foi a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989 adotada pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Este documento profere uma série de direitos fundamentais à infância, dentre eles: direitos econômicos, culturais, sociais e políticos. Além disso, esta normativa foi fulcral para a construção de um novo paradigma pautado na doutrina da proteção integral.

Por fim, em 1990 foram promulgadas as Regras das Nações Unidas para a Proteção dos Menores Privados de Liberdade, que versam sobre a proteção dos direitos e ao bem-estar dos jovens, pautados nos princípios dos direitos humanos. Neste mesmo ano, outro documento que veio acrescentar o rol das normativas internacionais, foi a edição das Diretrizes das Nações Unidas para Prevenção da delinquência Juvenil - Diretrizes de Riad, que tinha como escopo a elaboração de políticas que visassem à prevenção da delinquência juvenil através de uma assistência efetiva desde a primeira infância que garantissem o bem-estar, os direitos e interesses dos jovens,assegurando, principalmente, àqueles jovens em situação de insegurança social, oferecendo-lhe proteção especial.

Portanto,   essa   “produção   em   série”   de   legislações   permitiu   a   Bobbio   (2004)  afirmar  que  “a  nossa  era  é  a  era  dos  direitos. Todavia, o autor reafirma incansavelmente que os direitos humanos são algo desejável, mas ainda não foram  efetivados  na  prática,   haja   vista,   que  “o   problema  filosófico  dos  direitos   do homem não pode ser dissociado do estudo dos problemas históricos, sociais, econômicos, psicológicos, inerentes à sua realização: o problema dos fins   não   pode   ser   dissociado   do   problema   dos   meios”   (Ibid.,   p.   24). Nesta perspectiva, os dispositivos legais constituem nada mais que um meio para alcançá-lo, e não um fim em si mesmo.

1.4 Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). Da doutrina da situação