Foto 10 Crianças e adolescentes brincando na praia
1 DIFERENTES PERSPECTIVAS SOBRE A INFÂNCIA E
1.5 ECA e o abrigamento institucional como medida de proteção: a
1.5.1 Família(s) e abuso sexual contra crianças e adolescentes: um
Parafraseando as avessas Cristopher Lasch ( 1991), a família nem sempre pode ser considerada apenas como um reduto de amor, segurança e proteção “num mundo sem coração”, mas sim, de conflito, tensão e violência, principalmente, a violência sexual contra crianças e adolescentes. A face abusiva e violenta da família, outrora ignorada nos contextos acadêmicos, hoje, não é mais considerada um “santuário” no mundo das relações familiares, em oposição a um mundo externo público, inseguro e ameaçador.
A instituição família, enquanto lócus privilegiado de socialização e espaço social dinâmico, no qual a divisão sexual e os papeis sexuais estão a priori, socialmente “pré-determinados” (pai, mãe, filhos), também se constitui como um “espaço regulador das relações sexuais, determinando quem pode e quem deve ou não ter relações sexuais com quem” (THERBORN, 2006, p.12). Porém, nem sempre essas fronteiras (regras sociais e morais) estão claramente demarcas, sendo passíveis de transgressões, e são muitas vezes violadas, visto que, o “sexo e o poder não são mundos distintos um do outro, mas estão entrelaçados um no outro” (Ibid., p. 11).
A importância da sexualidade na sociedade humana adquiriu uma centralidade no pensamento de Lévi-Strauss (1972). O autor argumenta que “em todas as sociedades, em todas as épocas, existiam regras que regulamentam a relação entre os sexos” (Ibid., p.27). A partir daí, Lévi-Strauss desenvolve o tema da família tendo como um marco a separação entre natureza e cultura, que se dá com a instituição do tabu do incesto, um fenômeno universal, e que varia de sociedade para sociedade.
Na sociologia brasileira contemporânea, a discussão sobre o tabu do incesto tem como sua maior expoente a feminista Heleieth Saffioti. Apresentando como aporte teórico a perspectiva de gênero, a autora busca enfatizar que incesto e abuso sexual incestuoso são fenômenos distintos, embora ambos tenham em comum a questão do parentesco consangüíneo ou
afim dos membros do par. Para Saffioti [ca. 1995] o incesto trata de uma “ relação par” , ou seja, entre iguais, caracterizado pela semelhança de idade. No tocante a questão da idade, Saffioti acentua que não é a idade cronológica em si que importa, mas a relação de autoridade, de poder. Quanto ao abuso sexual incestuoso, este se caracteriza por ser uma relação díspar, não-par, permeada pelo exercício da coerção e do poder de um adulto ou do mais velho, sobre a criança ou do mais novo.
A violência sexual, de um modo geral, é uma agressão para a qual convergem muitas variáveis englobando as situações de abuso sexual (intrafamiliar e extra-familiar) e exploração sexual (turismo sexual, tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, entre outros). A distinção dessas categorias não constitui apenas uma questão de terminologias, mas de uma questão epistemológica. As formas de prevenção são diferentes, os agressores, as motivações, a dinâmica da violência são decorrentes de fatores e contextos diversos, os espaços físicos, as políticas de enfrentamento, entre outros.
Sobre a produção literária referente ao abuso sexual, internacionalmente falando, é bastante extensa e profícua. Em nível nacional, a violência sexual contra crianças e adolescentes no âmbito doméstico é definida por Azevedo e Guerra (1988), para fins operacionais, como:
Todo ato ou jogo sexual, relação heterossexual ou homossexual entre um ou mais adultos que tenham para com ela uma relação de consanguinidade, afinidade e/ou mera responsabilidade, tendo por finalidade estimular sexualmente a criança ou utilizá-la para obter uma estimulação sexual sobre a sua pessoa ou a de outra pessoa. (Ibid., p. 28)
No panorama nacional e internacional, a violência sexual é uma realidade dramática que atinge milhares de crianças e adolescentes em todo o mundo. Considerada como um problema de saúde pública, a Organização Mundial de Saúde (2007) afirma que “uma em cada cinco mulheres é vítima de abuso sexual antes de completar 15 anos de idade em todo o mundo”. No Brasil, dados do Sistema de Informação para a Infância e Adolescência (SIPIA), registraram entre os períodos de 1999 a 2007, 16.802 casos de abusos sexuais em todo o país.
Em relação ao estado da Bahia, a situação também é alarmante. Dados do Ministério Público da Bahia indicam uma evolução constante no número de denúncias sobre violência sexual (ANEXO C). Somente em 2011, foram registrados cerca de 1.629 casos de violência sexual em Salvador (386 casos de abuso sexual e 106 de exploração sexual) e no interior (803 casos de abuso sexual e 334 de exploração sexual).
Vale lembrar, que o Estado da Bahia possui 417 municípios, e a capital Salvador, responde por aproximadamente 32,46% das denúncias de abuso sexual (MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA, 2011). Em relação ao primeiro semestre de 2012, o estado da Bahia já alcançou o primeiro lugar no ranking de denúncias sobre abuso sexual contra crianças e adolescentes, deixando para trás São Paulo e Rio de Janeiro (ANEXO D). Os dados em tela atuam como um indicativo da gravidade do problema social. Contudo, a literatura especializada ressalta a existência de uma cifra oculta referente aos casos de abusos sexuais que não são denunciados. Essa (in)visibilidade encobre outras características como nos casos que atingem crianças e adolescentes de classe média, alta e do gênero masculino. Por isso, a análise das estatísticas sobre violência sexual requer um empenho constante de vigilância sobre o que cada número efetivamente reflete ou oculta do objeto que se pretende recortar.
Diante da (in)visibilidade do fenômeno, o abuso sexual ainda permanece sendo o delito menos denunciado em nossa sociedade. Estimativas indicam que apenas 10% dos casos de violência sexual no Brasil sejam denunciados. Nos casos em que o agressor pertence à família da vítima, esse percentual cairia para 2% (VIODRES, 2007). Desse modo, a síndrome do silêncio tende a ser o principal óbice para que exista um retrato claro e fidedigno sobre esse fenômeno social.
A inibição da revelação e seu possível enfrentamento podem estar atrelados a múltiplos fatores, a saber: a) dependência financeira ( no qual o agressor é o principal provedor da família); b) dependência afetiva e emocional ( o medo de perder o seu companheiro); ausência de apoio por parte dos familiares ( já que as crianças e adolescentes são desacreditados, alegam que estão mentindo ou fantasiando); c) muitas mulheres/mães não dispõem de uma rede de apoio social e afetiva com a qual podem contar; d) o receio de expor a
sua família perante a comunidade (o social); e) ameaças por parte do agressor; f) insatisfação com o atendimento das redes de proteção e etc (SILVA, D. ,2006, 2009; INOUE, 2007).
Por outro lado, quando há registro da denúncia por parte da vítima e/ ou de seus responsáveis legais aos órgãos afetos a investigação e apuração , iniciam-se também os óbices para a apuração do crime e responsabilização do agressor13. Os estudos de Débora Silva (2006) apontaram como alguns dos entraves à ausência de materialidade visível no corpo da vítima que possibilite a construção dos laudos periciais que comprovem a existência da violência; existência de um flagrante ou testemunhas, assim como a relação ambígua entre a demanda e a prioridade elencadas do ponto de vista da instituição policial.
Não menos importante que o registro da denúncia, observa que a exposição de um crime que ocorre predominantemente no espaço doméstico a um público institucionalizado, tende a provocar consequências nas relações familiares, jurídicas e sociais. Trata-se de incriminar o companheiro, marido, pai, avô e filhos na condição de agressor, e não de um desconhecido, daí reside à complexidade de romper a barreira do silêncio. Assim, as políticas de enfrentamento ao abuso sexual carecem da incorporação de outras perspectivas de intervenção que não apenas um caso de polícia, pois contraditoriamente, “se por um lado, a exigência de denúncia da violência contribui para a notificação e maior visibilidade da problemática, por outro, impede que muitas vítimas e familiares recebam atendimento apropriado quando optam por não denunciar a violência sofrida” (INOUE, 2007, p. 91).
1.5.2 Sexo e poder. Desvelando o abuso sexual contra crianças e