INFERÊNCIA E A FUTURA LINHA DE CUIDADO
4.2. Método de inferência
4.2.2. Acasos e a Tomada de decisão
As circunstâncias fortuitas ou acasos acontecem aleatoriamente e contrariam a regra de projeção, impactando no mecanismo de tomada de
acontecer com certo êxito ou fracasso pode não surgir de uma grande habilidade ou competência, e sim de circunstâncias fortuitas, ou melhor, acasos, ou ainda aleatoriedade.
Para Mlodinow (32), nadar contra a corrente da intuição é uma tarefa difícil, pois a mente humana foi educada para identificar uma causa definida para cada acontecimento, podendo assim ter bastante dificuldade para aceitar a influência de fatores aleatórios ou não-relacionados. Por isso a ciência da administração estuda a gestão estratégica diante da administração da incerteza. Para tanto, necessita de sistema de inferência que se revele um instrumento útil para servir de guia na tomada de decisão, sendo mais preciso e mais claramente formulado e rigoroso do que o sistema entendido intuitivamente, pois pretende ter a capacidade de prever o futuro, em ambientes que envolvem múltiplos fatores que levam às incertezas.
No estudo dos fenômenos saúde-doença, múltiplos fatores, além dos controlados pela pesquisa, afetam o desfecho, sendo amplamente citados nas pesquisas em saúde, tais como os fatores socioeconômicos, biológicos, clínicos e mais recentemente os organizacionais. Sendo assim, nas linhas de cuidado oferecidas aos consumidores há infinitas oportunidades de ocorrência de circunstâncias fortuitas que afetam a normalidade esperada.
Sabe-se que todos os processos estão sujeitos a eventos comuns e a eventos raros, também conhecidos como eventos especiais. São clássicos os exemplos de tomada de decisão com base em eventos raros. Muitas vezes, eles afetam de tal forma nossa percepção que se esquece dos inúmeros “eventos comuns” e apenas se lembra dos poucos “eventos raros” (32).
É verdade que os princípios básicos da aleatoriedade surgem da lógica cotidiana. Por exemplo, é de se supor que a uniformidade de um processo cirúrgico permita ao cirurgião prever os resultados futuros de suas cirurgias. Dia após dia ele opera pacientes que na maioria das vezes são levados a desfechos
devido a um evento raro, que contrariará as predições formuladas. O evento raro poderá, ou não, ser percebido. Se não percebido, o cirurgião não entenderá o que o futuro reservou para seu paciente. Se percebido, o cirurgião poderá fazer a relação de causa e efeito. Por exemplo, um raciocínio biunívoco do tipo bisturi infectado e o fracasso da cirurgia. Devido à gravidade das consequências poderá exigir a demissão dos responsáveis.
No entanto, se o evento comum for paciente livre de infecção cirúrgica, independentemente das ações punitivas exigidas pelo cirurgião, o próximo paciente tem alta probabilidade de não ser infectado por um bisturi contaminado, independentemente de ter ou não havido a intervenção supostamente corretiva do erro: a demissão. Ou seja, a ação punitiva apenas precede o evento comum bisturi desinfetado, porém não o causa, pois o evento comum bisturi desinfetado é causado pela normalidade do processo.
Em estatística, esse fenômeno é chamado de regressão à média, que atesta em qualquer série de eventos aleatórios uma alta probabilidade de um evento raro (bom ou ruim) ser seguido por um evento comum, em virtude puramente do acaso (32). Diante de eventos raros e ruins, muitas vezes associados ao azar, ou diante de eventos raros e ótimos, associados à sorte, pode-se decidir, ilusoriamente, por ações que de nada mudarão os resultados futuros. Para Tversky (33), mesmo entre pessoas ilustradas, quando se lida com processos aleatórios, as crenças e a intuição muitas vezes as levam a ações equivocadas ou sem nenhum efeito causal.
Pelo exposto, suspeitas sobre eventos comuns ou eventos raros, sempre que possível, devem levar às intervenções estruturais. No exemplo da cirurgia, supondo que a série histórica da taxa de infecção cirúrgica mostrou uma normalidade em torno de 6%, um estudo das causas estruturais poderá levar à compra de mais bisturis, permitindo um tempo adequado do instrumental na desinfetadora, que poderá resultar na diminuição da taxa de infecção cirúrgica para 3% nas cirurgias futuras. Esse exemplo ilustra uma decisão sistêmica, muito
diferente daquela pontual que causou simplesmente a demissão de um profissional.
As ações sistêmicas e estruturais são muito menos visíveis do que as ações pontuais. Infelizmente, muitas vezes, as ações pontuais levam a maiores dividendos políticos e são mais fáceis de ser realizadas do que as ações estruturais (32). No Método PELC, deve-se buscar elaborar o planejamento epidemiológico da linha de cuidado com ações estruturais e sistêmicas formuladas com base nas evidências apresentadas pelos modelos de inferência criados para cada um dos múltiplos desfechos de interesse.
As escolhas que embasam a tomada de decisão dependem da cultura organizacional que pode evoluir de forma mais rápida à medida que suas práticas de gestão se tornem mais científicas. Ampliar as chances de resultados exitosos depende de habilidade, preparação e esforço. Todavia, não é fácil determinar qual proporção de um resultado se deve à habilidade, à preparação e ao esforço e qual se deve ao acaso (32).
Por um lado, as linhas de cuidado são influenciadas pelo acaso, pois são percorridas por consumidores livres para fazerem o que quiserem, por profissionais de saúde com variadas habilidades e responsabilidades e em diversos serviços de saúde com diferentes estágios organizacionais. Por outro lado, apresentam uma regularidade na maioria das vezes que são oferecidas aos pacientes. A linha de cuidado deve ser bem-estruturada, permitindo uma alta previsibilidade sobre o encadeamento adequado de suas etapas e ações e sobre a utilização das melhores práticas. Esta percepção depende da formulação de juízos de valor.
Para diminuir os efeitos do acaso nas observações clínicas Fletcher et al (31) alertam que os clínicos deveriam basear suas observações, sempre que possível, em princípios científicos sólidos descritos em diretrizes de normas e condutas, conforme será tratado no capítulo 7.