2.3 Responsabilidade civil do empregador no acidente de trabalho
2.3.1 Acidente de trabalho e responsabilidade subjetiva do empregador
De acordo com a teoria da responsabilidade subjetiva, nos acidentes de trabalho caberá indenização civil somente nos casos em que estiverem presentes a culpa ou dolo do empregador, associadas ao dano e o nexo de causalidade entre este e o evento acidentário.
Importante salientar que o empregador é responsável por proporcionar aos seus empregados um ambiente de trabalho seguro, de acordo com as normas de higiene e segurança no trabalho, constantes na CLT. Assim, nos casos de aplicação da responsabilidade
subjetiva nos acidentes de trabalho, são observadas, de acordo com o previsto no artigo 933 do Código Civil, a culpa in eligendo e in vigilando. De acordo com Santos (2008, p. 55) “a culpa in vigilando cabe nos casos de acidente de trabalho por negligência patronal em exigir, verificar e acompanhar se os equipamentos de segurança estão sendo efetivamente utilizados pelos empregados.”
Belfort (2010, p. 87/88), acerca da distinção entre a indenização previdenciária e a postulada na esfera civil, esclarece que:
A existência de culpa na ocorrência de acidente de trabalho só passa a ser relevante se o acidentado ou os seus dependentes pleitearem, junto às empresas, o pagamento de indenização com base na regra das formas de responsabilidade acima elencada. Essa se funda na existência de culpa da empresa (por isso é subjetiva), independentemente do recebimento de benefício acidentário (vale dizer, pode ser cumulada com este) e não visa ao recebimento de prestações previdenciárias, mas, sim, de verdadeira indenização pelos danos causados pelo acidente.
Ademais, conforme já mencionado anteriormente, nos casos em que apurada a culpa do empregador na ocorrência do evento acidentário, é possível que o órgão previdenciário ajuíze ação regressiva, a fim de ressarcir os cofres públicos do prejuízo ocasionado.
Nesse contexto, trazemos a seguir os seguintes precedentes jurisprudenciais acerca da aplicação da responsabilidade subjetiva nos acidentes de trabalho:
RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DO TRABALHO. NEXO CAUSAL. A responsabilidade do empregador em acidente do trabalho será sempre subjetiva, dependendo da prova do dolo ou culpa, por força do art. 7º, XXVIII , da Constituição Federal . Caso o acidente envolva as circunstâncias de que tratam os artigos 927 , parágrafo único , e 932 , inciso III , ambos do Código Civil, a responsabilidade do empregador será objetiva, mas em razão de tais circunstâncias e não do acidente em si. Nesses casos a reparação seria devida pelo empreendimento mesmo sendo a vítima um terceiro sem qualquer vínculo, bastando a configuração das hipóteses tratadas nos dispositivos legais. A socialização do dano da vítima de que trata a doutrina civilista sobre responsabilidade civil já está realizada no caso dos acidentes do trabalho, por força do seguro obrigatório pago pelos empregadores e que é gerido pelo INSS. Não evidenciado o nexo causal entre as lesões apresentadas pela trabalhadora em virtude da natureza das moléstias, de forma a descaracterizar a doença ocupacional, são indevidas a reintegração no emprego e a condenação da reclamada ao pagamento de indenização por danos morais e materiais. (TRT 4ª Região – Recurso Ordinário – RO 00000166120135040292 – Publicado em 25/09/2013)
RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DO TRABALHO. INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. REPARAÇÃO DEVIDA. A indenização decorrente de acidente de trabalho encontra assento constitucional (art. 7º, XXVIII, da CF) e infraconstitucional (art. 186, 187 e 927, parágrafo único, do Código Civil). Para a sua fixação, via de regra, é imperiosa a comprovação da lesão, do ato omissivo ou comissivo do empregador e do nexo de causalidade. No caso dos autos, a prova produzida comprovou que a autora sofreu acidente do trabalho (corte na cabeça) por culpa do empregador, cujo evento lhe causou diversos danos, ainda que passageiros. Nessa esteira, os elementos da responsabilidade civil foram evidenciados, de modo que se torna imperiosa a obrigação da ré em indenizar o dano moral causado à obreira. (TRT-23 - RO: 321201103723006 MT 00321.2011.037.23.00-6, Relator: Desembargador Edson Bueno, Data de Julgamento: 07/08/2012, 1ª Turma, Data de Publicação: 16/08/2012) Nas hipóteses acima verifica-se que nos Tribunais Regionais do Trabalho a orientação é pela aplicação da responsabilidade civil subjetiva, ressalvados os casos em que há risco inerente à atividade exercida pelo trabalhador. Ademais, nos casos em que há culpa exclusiva do empregado ao negligenciar cuidados mínimos necessários para evitar acidentes na realização de determinadas atividades, resta afastada a culpa do empregador e, portanto, indevida a indenização, como no julgado a seguir:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE
REVISTA.RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO. CULPA EXCLUSIVA DO EMPREGADO. NÃO PROVIDO. A Corte Regional, após analisar o conteúdo fático probatório dos autos, concluiu que o acidente de trabalho ocorreu por culpa exclusiva do empregado, que habilitado para o desempenho da função de eletricista, olvidou dos cuidados mínimos necessários a troca do fusível, como o desligamento da chave do painel do equipamento. Além disso, não estava utilizando a ferramenta adequada para a troca do fusível, potencializando o risco de lesão. A Corte Regional afastou a culpa patronal na ocorrência do infortúnio. Entendimento em sentido diverso implica a incursão nas provas dos autos, impossível no recurso extraordinário, a teor do enunciado contido na Súmula 126 do TST. Agravo de instrumento não provido. (TST – Agravo de instrumento em Recurso de Revista – AIRR 11259520105150135 – Publicado em 05/06/2015)
No entanto, há casos em que é reconhecido o não atendimento ao dever de cautela por parte do empregador e, portanto, ao se verificar a culpa, associada aos demais pressupostos da responsabilidade civil, surge o dever de indenizar:
RECURSO DE REVISTA. RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO. Considerando o contexto fático delineado pelo Regional, observa-se que a Recorrente não foi diligente ao proporcionar meios materiais para prevenir e evitar acidentes do trabalho. Configurada a culpa por violação do dever geral de cautela, submetendo o Reclamante a riscos pela ausência de medidas protetivas, atraiu para si a obrigação de indenizar
pelos danos morais e materiais sofridos, não se constatando a alegada ofensa ao art. 186 do Código Civil. INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS. BASE DE CÁLCULO. O objetivo da indenização por danos materiais é ressarcir o patrimônio ou as despesas provenientes de uma ação ou omissão que resulte em incapacidade ou diminuição da capacidade de trabalho da parte ofendida. Portanto, a indenização visa a recomposição da situação patrimonial existente anteriormente à lesão, isto é, o valor correspondente à importância do trabalho para o qual se inabilitou. Levando-se em consideração a legislação acerca do tema, a melhor exegese que se faz é a de que a base de cálculo da indenização por danos materiais deve levar em consideração os efetivos rendimentos mensais do ofendido. Recurso de Revista parcialmente conhecido e não provido. (TST – RECURSO DE REVISTA – RR 393001920095170013 – 39300-19.2009.5.17.0013. Data da publicação: 27/09/2013)
A seguir, verifica-se uma hipótese em que coube aplicação da culpa in vigilando da empregadora, mesmo diante da culpa confessada do empregado, a qual não foi suficiente para excluir a responsabilidade da empresa:
RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO.
Evidenciado nos autos que o reclamante sofreu acidente de trabalho, no âmbito da empresa reclamada, resultando na incapacidade permanente no percentual de 20% e que não houve a efetiva fiscalização do uso dos EPI`s por parte da empresa, sendo, inclusive, punidos os seus prepostos pela atitude negligente, resta caracterizada a culpa "in vigilando" da reclamada, fundamentada no art. 932 , III , e 933 do Código Civil . As orientações que teriam sido dadas ao autor, de como proceder em seu trabalho, assinando a ordem de serviço de fls. 735/736, a qual, inclusive, não se encontra datada, não se mostra suficiente para desincumbir a empresa da responsabilização pelo acidente de trabalho ocorrido. Deste modo, estando presentes os requisitos necessários à atribuição de responsabilidade civil, impõe-se a reparação dos danos materiais, morais e estéticos sofridos pelo reclamante, sem se olvidar, na fixação dos valores, a culpa confessada do empregado, que não exclui a responsabilidade da empresa, mas autoriza a redução da indenização. Inteligência do art. 955, do C.Civil.Recurso conhecido e parcialmente provido. (TRT – 7ª REGIÃO – RECURSO ORDINÁRIO – RO 364882010507005 – CE 0000364-882010507005. Data de publicação: 24/04/2012)
Por fim, mais um julgado que aborda a culpa in vigilando, incumbindo ao empregador não apenas fornecer os equipamentos de segurança adequados para as atividades desenvolvidas pelo empregado, mas também de fiscalizar a efetiva utilização dos mesmos. Além disso, o julgado abaixo colacionado corrobora a hipótese de cumulação entre o benefício previdenciário a o pensionamento no âmbito civil, por tratar-se de verbas de natureza distintas.
RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO. Resta incontroverso nos autos que a lesão sofrida pelo reclamante, que o tornou cego de um olho, foi decorrente de um acidente de trabalho que poderia ter sido evitado se ele estivesse utilizando óculos de proteção. Cabendo à empregadora realizar a fiscalização do uso dos equipamentos de proteção individual, houve omissão ao permitir que o reclamante trabalhasse sem a sua utilização, expondo-se aos riscos daí decorrentes. Estando presentes os requisitos necessários à atribuição de responsabilidade civil, impõe-se a
reparação dos danos. PENSÃO VITALÍCIA. Não há "bis in idem" entre o benefício previdenciário recebido pelo reclamante e a pensão vitalícia imposta pela sentença. A própria Constituição prevê a natureza distinta de tais verbas (art. 7º, XXVIII), o que também é realizado pelo art. 121 da Lei dos Planos de Benefícios da Previdência Social (8.213/91). Entendimento consagrado na súmula 229 do STF. QUANTIFICAÇÃO DO DANO MORAL. À míngua de previsão legal quanto à forma de cálculo, o valor da indenização por dano moral há de ser arbitrado pelo juiz. O arbítrio, entretanto, não deve ser absoluto, entendendo este juízo que o valor da condenação fixado na sentença é compatível com casos mais graves que o presente. Para a fixação da quantia, cabe ao julgador considerar vários elementos, entre eles, o grau da culpa e de entendimento do ofensor, a extensão do dano causado ao ofendido e a situação econômica de cada parte, de modo a que a indenização não sirva de enriquecimento sem causa para o ofendido, mas tenha caráter punitivo e educacional para o ofensor, evitando que novos casos ocorram. Cabível, portanto, a redução do valor da indenização, para quantia mais adequada ao dano sofrido pelo reclamante, no sentido de fixar em R$75.000,00 a indenização por danos morais pela perda de visão de um olho por acidente de Trabalho. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. Mantida a condenação, visto serem devidos honorários advocatícios de 15% pelo sucumbente, mormente quando o autor é declaradamente pobre. Inteligência do art. 20 , do CPC , c/c art. 11 , § 1º , da Lei nº 1.060 /50. A assistência judiciária pelo sindicato é encargo a ele atribuído, não prevendo a Lei 5.584 /70 qualquer exclusividade que afaste a possibilidade de indicação de advogado pela própria parte. Recurso conhecido e parcialmente provido. (TRT 7ª Região – RECURSO ORDINÁRIO - RO 1227006420065070028 CE 0122700-6420065070028 – data da publicação: 23/03/2012)
Pois bem. Nas decisões acima citadas é possível verificar a menção ao artigo 7º, inciso XXVIII da Constituição Federal para fins de aplicação da teoria da responsabilidade subjetiva do empregados nos casos de infortúnio laboral. Verifica-se ainda a observação da culpa in vigilando e in eligendo nos casos em o empregador não comprova que velou pelo efetivo cumprimento das medidas de segurança do trabalho por parte do empregado.