2.3 Responsabilidade civil do empregador no acidente de trabalho
2.3.2 Extensão da teoria do risco no acidente de trabalho
A responsabilidade civil objetiva presente no Código Civil de 2002 está amparada, inegavelmente, pela teoria do risco. A exemplo da teoria do risco administrativo, segundo a qual para que surja a responsabilidade civil do Estado basta um simples ato lesivo e injusto causado a particular por parte do Estado, também nas atividades regidas pelo direito privado a teoria do risco pode ser aplicada em várias situações, inclusive aos acidentes de trabalho. A seguir, algumas das teorias que amparam a aplicação da responsabilidade civil objetiva no âmbito do direito do trabalho, de acordo com Castro e Lazzari (2010):
1) A teoria do risco pelo fato da coisa: considera que, sendo o empregador proprietários dos meios de produção que acarretam os acidentes (máquinas, instrumentos, etc) deve responder pelo fato/risco de possuir o objeto perigoso, portanto, se usufrui do benefício de possuir tais bens e lucrar com o trabalho alheio, também detém o ônus de responsabilizar-se caso ocorra algum acidente com o objeto em questão.
2) A teoria do risco profissional: considera que a produção industrial, ao expor o trabalhador ao risco de acidentar-se, também gera o ônus ao empregador de indenizar eventuais acidentes que venham a ocorrer, independentemente da existência de culpa.
3) A teoria do risco social: de acordo com esta teoria, quem deve arcar com os riscos da produção industrial é toda a sociedade, uma vez que toda ela é beneficiada, devendo arcar, portanto, com os riscos gerados. Estão incluídas nessa teoria as prestações acidentárias concedidas aos segurados da Previdência Social nos casos de acidente de trabalho, uma vez que a seguridade social é regida pelo princípio da solidariedade e a proteção social passa a ser responsabilidade coletiva.
Importante salientar, nesse momento, que a prestação acidentária, garantida pela Previdência Social aos seus segurados e a reparação civil são acumuláveis. A primeira decorre do evento acidente de trabalho, o qual deve ser enquadrado nas regras de proteção previdenciária. A segunda decorre do dever de indenizar e visa à restituição do dano. Ademais, o empregador também pode responder civilmente, em ação regressiva, perante a Previdência, nos casos de negligência à aplicação de fiscalização das normas de segurança do trabalho (CASTRO e LAZZARI, 2010).
De acordo com o art. 120 da Lei nº 8.213/91, “Nos casos de negligência quanto às normas padrão de segurança e higiene do trabalho indicados para a proteção individual e coletiva, a Previdência Social proporá ação regressiva contra os responsáveis” (BRASIL, 2015).
Com relação ao direito à indenização civil decorrente dos infortúnios laborais, em observação à teoria do risco, chega-se à conclusão de que o parágrafo único do artigo 927 do Código Civil aplica-se a todas as atividades consideradas perigosas pela lei trabalhista, bem
como para as atividades com alto risco de morte, a exemplo das empresas de vigilância, segurança e transporte de valores. Ademais, as doenças ocupacionais também podem ser passíveis de reconhecimento da responsabilidade civil objetiva, uma vez comprovada a ineficiência das medidas de proteção implementadas pelo empregador (CASTRO e LAZZARI, 2010).
Nesse sentido, trazemos os seguintes precedentes:
INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS. DOENÇA PROFISSIONAL. PERDA AUDITIVA. A prova pericial demonstra o nexo de causalidade entre a doença do reclamante e as atividades desenvolvidas junto à reclamada, estando configurada a perda auditiva. Ante a responsabilidade objetiva da reclamada, decorrente do risco da atividade, nasce o dever de indenizar. Reparação que se arbitra em pensionamento vitalício, em percentual correspondente à perda laborativa irreversível. Recurso do reclamante parcialmente provido.
DANO MORAL. A prova demonstra que o reclamante sofreu dano à sua honra pessoal perpetrado pela reclamada, quando, ao prestar serviços ao longo de três contratos de trabalho sofreu diminuição em sua capacidade laborativa por perda auditiva decorrente da negligência do empregador em cumprir os deveres de cuidado atinentes à segurança e medicina do trabalho e, quando buscou o ex-empregador para ser contratado pela quarta vez, foi descartado porque era portador da referida doença ocupacional. Configurada lesão à honra pessoal, é devida indenização por dano moral. (Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região - 3ª Turma. Relator o Exmo. Juiz Hugo Carlos Scheuermann. Processo RO 00628-2001-741-04-00-5. Publicação em 06.03.2006)
Na ementa supramencionada verifica-se a aplicação da responsabilidade civil objetiva em decorrência do risco da atividade desenvolvida pelo trabalhador. No entanto, o relator observa também a negligência do empregador em cumprir os deveres de cuidado atinentes à segurança e saúdo do trabalhador, o que ensejou, além da condenação a pensionamento vitalício, a indenização por dano moral.
A seguir, decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, que ao verificar a exploração de atividade de risco pela empresa empregadora determina a aplicação da responsabilidade civil objetiva, mesmo com o fornecimento dos Equipamentos de Segurança completo e em perfeito estado, por entender que a simples exposição do trabalhador a atividade insalubre ou perigosa pode ensejar a obrigação de indenizar.
RECURSO ORDINÁRIO. RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO. TEORIA DO RISCO CRIADO. O mau funcionamento e/ ou
o mau uso de máquinas e equipamentos, bem assim a imperícia dos empregados na utilização dos referidos maquinários, é hipótese sempre presente nas empresas de exploração de petróleo, de modo que o risco de acidentes graves é previsível e intrínseco à natureza das atividades da empresa. O fato ainda é agravado quando trata-se de equipamento que oferece alto risco de operação, como é o caso do guindaste que causou o acidente que lesionou o reclamante. Nestes casos, nem mesmo o fornecimento de EPI completo e perfeito, como óculos, luvas, capacete protetor e botas é capaz de anular completamente a possibilidade de ocorrência de um acidente de trabalho que vitime os empregados. Dito doutro modo: tais equipamentos não impediriam por completo que o autor fosse atingido em virtude do mau uso do equipamento por outro empregado. Nessa hipótese, o novo Código Civil abandonou a teoria da culpa e consagrou a teoria do risco. Não é somente a quebra do dever de vigilância (conduta pessoal, subjetiva) que autoriza a condenação reparadora; o simples exercício continuado de atividade que, em si mesma, é potencialmente prejudicial ou perigosa é capaz de ensejar a obrigação de indenizar (teoria do risco criado).(TRT-1 - RO: 00935004220075010481 RJ , Relator: Marcelo Augusto Souto de Oliveira, Data de Julgamento: 17/12/2013, Oitava Turma, Data de Publicação: 08/01/2014)
RECURSO ORDINÁRIO. RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO. TEORIA DO RISCO CRIADO. As atividades da empresa Reclamada envolvem necessariamente o manuseio e/ou a movimentação de equipamentos e máquinas pesadas. O mau funcionamento, a má utilização, ou a utilização das máquinas pesadas de forma imprudente (como parece que aconteceu no caso dos autos, onde a retroescavadeira invadiu o local onde o de cujus e outros operários estavam laborando), é hipótese sempre presente nas empresas que manuseiam máquinas pesadas, como tratores, escavadeiras e retroescavadeiras. Tal fato obriga às empresas do setor que municiem-se das mais amplas e modernas técnicas de fiscalização que impeçam acidentes que podem ser gravíssimos. Deste modo, tem-se que o risco de acidentes graves, como o sofrido pela vítima, é previsível e intrínseco à natureza das atividades da empresa. Nestes casos, nem mesmo o fornecimento de EPI completo e perfeito, como óculos, luvas, capacete protetor e botas não é capaz de anular completamente a possibilidade de ocorrência de um acidente de trabalho que vitime os empregados. Dito doutro modo: tais equipamentos não impediriam por completo que o autor falecesse em virtude do atropelamento pela retroescavadeira. (TRT 1ª Região – RECURSO ORDINÁRIO – RO 00165008920065010322 – Data da publicação: 19/11/2013)
Já no âmbito do Tribunal Superior do Trabalho, firmou-se entendimento de que a teoria da responsabilidade objetiva aplica-se somente nos casos em que se comprove que o empregado realiza atividades de risco. Na hipótese, ante a não comprovação de que havia risco inerente às atividades exercidas pelo trabalhador, o Tribunal Superior do Trabalho determinou o retorno dos autos à origem para manifestação acerca da existência de culpa do empregador no acidente ocorrido.
AGRAVO DE INSTRUMENTO - DANOS MORAIS - RESPONSABILIDADE CIVIL - ACIDENTE DE TRABALHO - TEORIA DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA INAPLICÁVEL Constatada aparente violação ao art. 927 do Código Civil, dá-se provimento ao Agravo de Instrumento para processar o recurso denegado. RECURSO DE REVISTA - RESPONSABILIDADE CIVIL - ACIDENTE DE TRABALHO - TEORIA DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA INAPLICÁVEL 1. Firmou-se no âmbito desta Corte o entendimento de que somente é cabível a aplicação da Teoria da Responsabilidade Objetiva nas hipóteses em que constatado o desempenho pelo trabalhador de atividade que possa ser inquinada de risco. Precedentes. 2. Na hipótese dos autos, conforme relatado no acórdão regional, o Reclamante, ao passar pelo portão de saída da empresa, fora atingido por este, no momento em que fora fechado eletronicamente. Em decorrência disto, desencadeou um processo inflamatório crônico nos quadris. 3. Assim, à míngua de elementos de prova que conduzam à conclusão de que o infortúnio decorreu de risco inerente às atividades desempenhadas pela empresa, o Eg. TRT entendeu aplicável a Teoria da Responsabilidade Objetiva e declarou a responsabilidade civil da Reclamada pelos danos causados ao trabalhador. 4. Faz-se necessário o retorno dos autos à origem, para que o Eg. Tribunal Regional se manifeste acerca da existência de culpa da Reclamada no acidente ocorrido. Recurso de Revista conhecido e provido. (TST - RR: 867001320065010261, Data de Julgamento: 23/04/2014, Data de Publicação: DEJT 05/05/2014)
Por fim, um julgado do Tribunal Regional do Trabalho da 2 Região no qual, embora reconhecida a responsabilidade objetiva em vista do exercício de atividade de risco pelo empregado, o dever de indenizar restou afastado em vista da interpretação de que houve culpa exclusiva da vítima.
RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO. TEORIA DO RISCO. ATIVIDADE DE MOTOBOY/MOTOENTREGADOR E SIMILARES. Pelo art. 927, parágrafo único, de acordo com a atividade normalmente por ele exercida e os riscos dela decorrentes, o agente será responsável pelos danos causados. O dever de reparar o dano ocorre em função da atividade desenvolvida pelo lesado em situações de risco acentuado ou excepcional. Considerando as condições do trânsito brasileiro, tem-se que o exercício da atividade de motoboy/motoentregador, ou similares, representa risco acentuado. Acidente de trânsito ocorrido durante entrega de bem do empregador. Acidente de trabalho caracterizado. Responsabilidade civil do empregador. CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA. No caso dos autos, o único documento a relatar o acidente aponta que o Reclamante: "(...) perdeu o controle da moto colidiu com uma caçamba de entulho que estava estacionada na via pública (...)".Logo, a Ré em nada contribuiu para o acidente, o qual decorreu de culpa do Autor. A culpa exclusiva da vítima afasta a responsabilização da Empregadora. Recurso do
Reclamante a que se nega provimento. (TRT-2 - RO:
00004433620125020070 SP 00004433620125020070 A28, Relator: FRANCISCO FERREIRA JORGE NETO, Data de Julgamento: 27/03/2014, 14ª TURMA, Data de Publicação: 04/04/2014)
De acordo com as jurisprudências colacionadas, conclui-se que é predominante o entendimento de que aplica-se a responsabilidade objetiva nos casos de acidentes de trabalho envolvendo atividades de risco. Nos demais casos, será aplicada, em regra, a teoria da responsabilidade civil subjetiva.
CONCLUSÃO
As ponderações contidas no presente estudo, fundadas em pesquisas bibliográficas, fruto de reflexões e ensinamentos dos doutrinadores citados, permitem chegar à conclusão de que a evolução da legislação no campo da reparação civil foi lenta e certamente insatisfatória no que diz respeito à possibilidade de reparação dos danos causados aos trabalhadores nas várias situações que vivenciam em sua rotina, em especial quanto à ocorrência de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais.
Outro ponto que ainda traz dificuldades para os trabalhadores em nosso país é o fato de que somente os segurados da Previdência Social, ou seja, aqueles abrangidos pelo trabalho formal, têm a garantia de que, no caso de sofrer um infortúnio laboral, se comprovada a incapacidade para o trabalho, farão jus ao benefício previdenciário pertinente, independente de culpa ou dolo. No entanto, grande parte dos trabalhadores que infelizmente ainda precisam se sujeitar à situação de informalidade, sequer têm assegurado esse direito, uma vez que não estão tutelados pela Seguridade Social.
Com relação à responsabilidade civil, a teoria da culpa nunca agasalhou de forma necessária os infortúnios laborais enfrentados pelos trabalhadores, uma vez que em muitas situações é praticamente impossível comprovar que o empregador agiu com culpa, até mesmo pela situação de vulnerabilidade em que o trabalhador se encontra quando comparado ao empregador.
Um avanço a ser mencionado é que atualmente, a reparação civil é incontestavelmente devida e cumulável com a reparação previdenciária, pois nasceram de naturezas jurídicas diferentes, não havendo que se falar em compensação à reparação civil e previdenciária.
Por fim, observamos que faz-se necessário e urgente que o Estado tome providências no sentido de melhor fiscalizar os ambientes de trabalho para fins de garantir segurança a todos os trabalhadores e minimizar os efeitos dos agentes insalubres próprios de determinadas atividades. Seguramente nenhuma compensação material será suficiente para indenizar certas situações decorrentes de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais, pois nesses casos o restabelecimento do equilíbrio muitas vezes é impossível, uma vez que as vítimas são atingidas em seus bens mais preciosos, como a saúde e a vida.
REFERÊNCIAS
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