ADRIANA REIS BRUN
A RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR NO ACIDENTE DE TRABALHO
Ijuí (RS) 2015
ADRIANA REIS BRUN
A RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR NO ACIDENTE DE TRABALHO
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS- Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientador: MSc. João Maria Oliveira Mendonça
Ijuí (RS) 2015
O presente trabalho tem como objetivo traçar um estudo sobre a responsabilidade civil do empregador no acidente de trabalho. Buscamos inicialmente uma abordagem sobre a teoria da responsabilidade civil: seu conceito, pressupostos e classificações. Posteriormente passamos à análise do acidente de trabalho, buscando traçar aspectos históricos referentes à proteção do trabalhador, bem como pontos relativos ao conceito de acidente de trabalho, de doenças ocupacionais e hipóteses de equiparação. Verificamos que a legislação previdenciária se ocupa dos infortúnios laborais e, havendo comprovação de nexo causal entre a lesão sofrida e a atividade exercida, bem como sendo constatada a incapacidade laboral do trabalhador, este estará, inequivocamente, amparado pelo benefício previdenciário pertinente. Além do seguro social, o empregado também terá direito à indenização na esfera cível, a depender das circunstâncias em que o acidente e/ou doença ocupacional foram ocasionados. Com relação à essa indenização, vimos que há duas posições teóricas, uma que entende que a responsabilidade civil do empregador na infortunística laboral é subjetiva, devendo ser comprovado o dolo ou a culpa, e outra vertente que entende que com o Código Civil de 2002 abriu-se espaço para a aplicação da responsabilidade civil objetiva, ou seja, independente de culpa ou dolo, em especial nos casos em que a atividade do trabalhador oferece risco à sua saúde e/ou integridade física.
This paper aims to draw up a study on the liability of the employer in the workplace accident. Initially sought a discussion of the theory of liability: its concept, assumptions and ratings. Later we move to the analysis of occupational accidents, in order to describe historical aspects relating to worker protection, as well as issues relating to the concept of occupational accidents, occupational diseases and assumptions Match. We found that social security legislation is concerned the labor woes and having proof of causation between the injury suffered and the activity performed, as well as found the incapacity of the employee, this is unequivocally supported by the relevant social security benefit. In addition to the social insurance, the employee will also be entitled to compensation in the civil sphere, depending on the circumstances of the accident and / or occupational diseases were caused. With regard to this compensation, we saw that there are two theoretical positions, one that understands that the civil liability of the employer accident in labor is subjective and should be proven deceit or guilt, and another side that understands that with the Civil Code of 2002 opened space for the application of objective liability, ie regardless of fault or fraud, particularly in cases where the worker's activity provides risk to their health and / or physical integrity.
1 INTRODUÇÃO ... 06
1 DA RESPONSABILIDADE CIVIL... 08
1.1 Evolução histórica da responsabilidade civil ... 08
1.2 Conceito ... 10
1.3 Pressupostos da responsabilidade civil... 11
1.3.1 Ação ou omissão ... 12
1.3.2 Culpa ... 13
1.3.3 Relação de causalidade... 14
1.3.4 Dano ... 16
1.4 Espécies de responsabilidade civil... 17
1.4.1 Reponsabilidade civil e responsabilidade penal ... 17
1.4.2 Responsabilidade contratual e extracontratual... 19
1.4.3 Responsabilidade subjetiva e objetiva ... 20
2 DO ACIDENTE DE TRABALHO... 23
2.1 Aspectos históricos ... 23
2.2 Conceito ... 26
2.3 Responsabilidade civil do empregador no acidente de trabalho... 30
2.3.1 Acidente de trabalho e responsabilidade subjetiva do empregador ... 31
2.3.2 Extensão da teoria do risco no acidente de trabalho... 35
CONCLUSÃO... 41
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como objetivo traçar um estudo sobre a responsabilidade civil do empregador no acidente de trabalho. Acredita-se que os temas relativos à responsabilidade civil são sempre pertinentes para o estudioso e profissional do Direito, uma vez que tratam diretamente das possibilidades de responsabilização por atos lesivos, em busca da restauração de um equilíbrio desfeito. De acordo com José Antonio Nogueira, “o problema da responsabilidade é o próprio problema do direito, visto que ‘todo o direito assenta na ideia da ação, seguida da reação, de restabelecimento de uma harmonia quebrada’” (apud GONÇALVES, 2012, p.22). Além disso, este estudo trata de outro tema relevante na sociedade, qual seja, a tutela do direito do trabalhador. Nesse sentido, investigar como a evolução da legislação, doutrina e jurisprudência vem tratando a problemática da responsabilidade civil atrelada ao acidente de trabalho é um tema que vem ao encontro de nossos interesses não só enquanto operadores do direito, mas também enquanto cidadãos.
Com esse objetivo, foi realizado, no primeiro capítulo, um apanhado doutrinário sobre o instituto da responsabilidade civil, através de um estudo sobre sua evolução histórica, conceito, pressupostos e espécies.
No segundo capítulo, passa-se à abordagem do acidente de trabalho, realizando um estudo sobre aspectos históricos, no que diz respeito à evolução da proteção ao trabalhador, abordamos o conceito de acidente de trabalho, de doenças ocupacionais e de hipóteses de equiparação a acidente de trabalho. Em um segundo momento, passa-se ao estudo propriamente dito da responsabilidade civil aplicada aos casos de acidente de trabalho. Verificamos as teorias que defendem a aplicabilidade da responsabilidade civil subjetiva, pautada especialmente no inciso XXVIII, artigo 7º da Constituição Federal de 1988, bem como os entendimentos baseados na teoria do risco, possibilitando a aplicabilidade da
responsabilidade civil objetiva. Por fim, foram realizados breves comentários acerca de alguns julgados, a partir dos quais verifica-se como os conceitos teóricos acerca da responsabilidade civil subjetiva e objetiva têm sido aplicados aos casos concretos de acidente de trabalho.
1 DA RESPONSABILIDADE CIVIL
O termo “responsabilidade” tem origem etimológica no verbo latino respondere, levando à ideia de obrigação de assumir as conseqüências jurídicas de qualquer atividade humana. Contém ainda a raiz latina spondeo, a qual no Direito Romano vinculava o devedor nos contratos verbais.
A responsabilidade, portanto, está ligada ao surgimento de uma obrigação derivada, um dever jurídico sucessivo, em função da ocorrência de um fato jurídico em sentido amplo. Assim, nas palavras de Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho (2012, p. 47):
Responsabilidade, para o Direito, nada mais é, portanto, que uma obrigação derivada – um dever jurídico sucessivo – de assumir as consequências jurídicas de um fato, conseqüências essas que podem variar (reparação dos danos e/ou punição pessoal do agente lesionante) de acordo com os interesses lesados.
Os temas relativos à responsabilidade civil são sempre pertinentes para o estudioso e profissional do Direito, uma vez que tratam diretamente das possibilidades de responsabilização por atos lesivos, em busca da restauração de um equilíbrio desfeito. De acordo com José Antonio Nogueira, “o problema da responsabilidade é o próprio problema do direito, visto que ‘todo o direito assenta na idéia da ação, seguida da reação, de restabelecimento de uma harmonia quebrada’.” (apud GONÇALVES, 2012, p.22).
Feitas essas primeiras colocações, pertinente esclarecer que o presente capítulo tem por objetivo explorar o tema da responsabilidade civil, fazendo um estudo sobre seu conceito, sua evolução histórica, pressupostos e espécies, para posteriormente aplicar tais estudos na análise mais específica da responsabilidade do empregador no acidente de trabalho.
1.1 Evolução histórica da Responsabilidade Civil
As raízes históricas do instituto da Responsabilidade Civil encontram-se no Direito Romano. Nos primórdios da humanidade o dano provocava reação imediata, instintiva e brutal do ofendido. Não havia regras nem limitações. Nessa fase da história da humanidade ainda não operava o direito, a regra era a vingança privada, a famosa pena de talião, “olho por olho, dentre por dente”. Após esse período, surge a possibilidade de substituição da vingança
(vindita) pela compensação econômica, a critério da vítima, porém ainda não se pensava sobre a culpa. (GONÇALVES, 2012)
Superada essa fase, quando historicamente surge uma autoridade soberana, passa a ser vedado à vítima fazer justiça pelas próprias mãos. A compensação econômica, que antes se dava a critério da vítima, passa a ser obrigatória e, além disso, tarifada. Assim, o ofensor passa a pagar uma certa quantia por um membro sequelado, por um escravo morto ou por um homem livre. De acordo com Gonçalves (2012, p. 25), são essas tarifações “antecedentes históricos das nossas tábuas de indenizações preestabelecidas por acidentes de trabalho.” Essa época remonta ao Código de Manu e à Lei das XII Tábuas.
A ideia de compensação econômica ganha força com a Lex Aquilia de dammo, a qual disciplinava que aquele que causasse um dano era obrigado a repará-lo. De acordo com Maria Helena Diniz (2003, p.10):
A Lex Aquilia de dammo estabeleceu as bases da responsabilidade extracontratual, criando uma forma pecuniária de indenização do prejuízo, com base no estabelecimento de seu valor. [...] Todavia, mais tarde, as sanções dessa lei foram aplicadas aos danos causados por omissão ou verificados sem o estrago físico e material da coisa. O Estado passou, então, a intervir nos conflitos privados, fixando o valor dos prejuízos, obrigando a vítima a aceitar a composição, renunciando à vingança. Essa composição permaneceu no direito romano com o caráter de pena privada e como reparação, visto que não havia nítida distinção entre a responsabilidade civil e a penal.
Alvino Lima (apud GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012, p.55-56) assim sintetiza a evolução da Responsabilidade Civil no Direito da Antiguidade:
Partimos, como diz Ihering, do período em que o sentimento de paixão predomina no direito; a reação violenta perde de vista a culpabilidade, para alcançar tão somente a satisfação do dano e infligir um castigo ao autor do ato lesivo. Pena e reparação se confundem; responsabilidade penal e civil não se distinguem. A evolução operou-se, consequentemente, no sentido de se introduzir o elemento subjetivo da culpa e diferençar a responsabilidade civil da penal. E muito embora não tivesse conseguido o direito romano libertar-se inteiramente da idéia da pena, no fixar a responsabilidade aquiliana, a verdade é que a idéia de delito privado, engendrando uma ação penal, viu o domínio de sua aplicação diminuir, à vista da admissão, cada vez mais crescente, de obrigações delituais, criando uma ação mista ou simplesmente reipersecutória. A função da pena transformou-se, tendo por fim indenizar, como nas ações reipersecutórias, embora o modo de calcular a
pena ainda fosse inspirado na função primitiva da vingança; o caráter penal da ação da lei Aquília, no direito clássico, não passa de uma sobrevivência. A inclusão da culpa como elemento da responsabilidade civil aquiliana foi incorporada no Código Civil de Napoleão, o qual influenciou diversas legislações no mundo, inclusive o Código Civil Brasileiro de 1916. No entanto, como a teoria da culpa não encontrava solução para diversos casos práticos em que não se conseguia comprovar esse elemento anímico, o próprio sistema jurídico, num fenômeno dialético, passou a vislumbrar uma ampliação do conceito de culpa, bem como a acolher excepcionalmente novas teorias dogmáticas que propunham a reparação do dano decorrente do risco criado (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012).
Nesse mesmo sentido, Diniz (2003) destaca que a responsabilidade civil apresenta uma evolução em várias dimensões, uma delas diz respeito ao fundamento, ou seja, à razão pela qual alguém deve ser obrigado a reparar um dano. Nesse sentido, houve uma ampliação da responsabilidade civil quando se passa à possibilidade de exigir a reparação do dano não somente nos casos em que há culpa (responsabilidade subjetiva), mas também nos casos em que há risco de ocorrência do dano (responsabilidade objetiva). Tais conceitos serão abordados mais detalhadamente no decorrer do presente trabalho, sendo pontos chave para a problemática da aplicação da responsabilidade civil nos casos de acidente de trabalho.
1.2 Conceito
Contextualizada historicamente a evolução do instituto da responsabilidade civil, passa-se agora à definição de seu conceito.
A responsabilidade civil é um dos ramos da ciência jurídica, sendo sua característica fundamental a busca da recomposição do equilíbrio afetado, através da indenização do dano causado (SCHMITT, 2010).
Gonçalves (2012) faz uma distinção entre obrigação e responsabilidade. De acordo com esse autor, a obrigação é um dever jurídico originário, o qual, se não cumprido, gera a responsabilidade, dever jurídico sucessivo. Com relação à função da responsabilidade, o jurista refere que “Destina-se ela a restaurar o equilíbrio moral e patrimonial provocado pelo
autor do dano. Exatamente o interesse em restabelecer a harmonia e o equilíbrio violados pelo dano constitui a fonte geradora da responsabilidade civil” (GONCALVES, 2012, p. 19).
Nas palavras de Gagliano e Pamplona Filho (2012, p. 53), “[...] a responsabilidade civil deriva da agressão a um interesse eminentemente particular, sujeitando, assim, o infrator, ao pagamento de uma compensação pecuniária à vítima, caso não possa repor in natura o estado anterior das coisas.”
Como se pode notar, o conceito de responsabilidade civil formulado por diversos doutrinadores leva sempre em conta a existência do dano, a sua causa, o dever de indenizar e o conseqüente restabelecimento do equilíbrio afetado. À primeira vista parece um conceito muito simples, porém cada um dos pressupostos apresenta particularidades que serão mais profundamente analisadas nos próximos itens.
Antes, porém, pertinente trazer o conceito formulado por Diniz (2003, p. 36), o qual, a nosso ver, é bastante abrangente:
[...] poder-se-á definir a responsabilidade civil como a aplicação de medidas que obriguem alguém a reparar dano moral ou patrimonial causado a terceiros em razão de ato do próprio imputado, de pessoa por quem ele responde, ou de fato de coisa ou animal sob sua guarda (responsabilidade subjetiva), ou, ainda, de simples imposição legal (responsabilidade objetiva). Definição esta que guarda, em sua estrutura, a idéia da culpa quando se cogita da existência de ilícito e a do risco, ou seja, da responsabilidade sem culpa.
Assim, estabelecidas as ideias básicas sobre a conceituação do instituto da responsabilidade civil, necessário abordar seus pressupostos, quais sejam: ação ou omissão, culpa, relação de causalidade e dano.
1.3 Pressupostos da Responsabilidade Civil
A Responsabilidade Civil requer a existência de uma ação, comissiva ou omissiva, a ocorrência de um dano moral ou patrimonial causado à vítima e o nexo de causalidade entre o dano e a ação. A regra básica é de que a obrigação de indenizar, pela prática de atos ilícitos, advém da culpa, podendo esta ser analisada como um dos pressupostos do instituto. No entanto, verifica-se a seguir que há hipóteses em que se desvincula o ressarcimento do dano
da idéia de culpa, deslocando-se para a teoria do risco, a qual será também abordada no presente trabalho.
1.3.1 Ação ou omissão
A responsabilidade civil é, inequivocamente, expressão obrigacional da atividade humana. Um fato da natureza, embora possa igualmente causar dano, jamais geraria responsabilidade civil. “Apenas o homem, portanto, por si ou por meio das pessoas jurídicas que forma, poderá ser civilmente responsabilizado” (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012, p. 73).
Diniz (2003, p. 39) conceitua o pressuposto ação como:
[...] elemento constitutivo da responsabilidade, vem a ser o ato humano, comissivo ou omissivo, ilícito ou lícito, voluntário e objetivamente imputável, do próprio agente ou de terceiro, ou o fato de animal ou coisa inanimada, que cause dano a outrem, gerando o dever de satisfazer os direitos do lesado.
Diante de tais conceitos, verifica-se que o núcleo fundamental da noção de conduta humana é a voluntariedade. É necessário que a atitude (comissiva ou omissiva) tenha sido resultante da liberdade de escolha do agente imputado, o qual deve ter ainda discernimento e consciência daquele ato praticado. No entanto, a voluntariedade não deve ser confundida com deliberação ou vontade de causar prejuízo, pois este é elemento definidor do dolo (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012).
Importante salientar que a omissão somente torna o omitente responsável quando este tem o dever jurídico de agir, de praticar um ato para impedir o resultado. Esse dever pode advir da lei, do negócio jurídico ou de uma conduta anterior do próprio omitente, criando o risco da ocorrência do resultado, devendo, por isso, agir para impedi-lo. Nesse sentido, cabe o exemplo dos pais que, exclusivamente, respondem civil e penalmente pela omissão alimentar dos filhos, uma vez que cabe a eles o dever legal de alimentá-los (CAVALIERI FILHO, 2012).
O Código Civil Brasileiro reconhece, nos artigos 932 e 936 a 938, respectivamente, a responsabilidade civil indireta, por ato de terceiro ou por fato do animal ou da coisa. Veja-se:
Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:
I – os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia;
II – o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições;
III – o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;
IV – os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos;
V – os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia.
Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior.
Art. 937. O dono de edifício ou construção responde pelos danos que resultarem de sua ruína, se esta provier de falta de reparos, cuja necessidade fosse manifesta.
Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo dano proveniente das coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido. (BRASIL, 2015)
De acordo com Gagliano e Pamplona e Filho (2012), ainda nesses casos existe conduta voluntária, pois em tais situações se observam omissões ligadas a deveres jurídicos de custódia, vigilância ou má eleição de representantes.
1.3.2 Culpa
A culpa pode ser analisada como pressuposto da Responsabilidade Civil nos casos em que se trata da responsabilidade subjetiva. O artigo 186 do Código Civil prevê que o ato ilícito ocorre quando alguém, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, viola direito ou causa dano, ainda que exclusivamente moral. Nesse caso, fica evidente que o agir com culpa (negligência, imprudência ou imperícia), causando dano a outrem, será responsabilizado pelos prejuízos causados.
Diniz (2003, p. 42) leciona que:
O dolo é a vontade consciente de violar o direito, dirigida à consecução do fim ilícito, e a culpa abrange a imperícia, a negligência e a imprudência. A imperícia é falta de habilidade ou inaptidão para praticar certo ato; a negligência é a inobservância de normas que nos ordenam agir com atenção, capacidade, solicitude e discernimento; e a imprudência é precipitação ou o ato de proceder sem cautela. Não há responsabilidade sem culpa, exceto disposição legal expressa, caso em que se terá responsabilidade objetiva.
No entanto, o Código Civil de 2002 prevê expressamente casos em que o dano deve ser reparado independentemente da existência de culpa. Assim, de acordo com o parágrafo único do art. 927 do Código Civil: “Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.” (BRASIL, 2015)
1.3.3 Relação de causalidade
Nexo causal é a relação entre a ação e o dano provocado. Não há que se falar em Responsabilidade Civil sem a existência da relação de causalidade. De acordo com Diniz (2003), não é necessário que o dano seja resultado imediato do fato que o produziu, bastando verificar-se que o dano não ocorreria se o fato não tivesse acontecido. Pode ocorrer também o dano indireto, como no caso, por exemplo, de alguém que quebre a vitrina de uma loja e como conseqüência ocorra o furto/saque das mercadorias do estabelecimento. Nesse caso, o autor do fato deverá indenizar o dono não somente pelo vidro quebrado, mas também pelas demais mercadorias furtadas. Na lição de Diniz (2003, p. 101), “A obrigação de indenizar, em regra, não ultrapassa os limites traçados pela conexão causal, mas o ressarcimento do dano não requer que o ato do responsável seja a única causa do prejuízo.” Cabe ao autor da demanda provar o nexo de causalidade entre a ação e o dano.
Existem certas situações que interferem nos atos ilícitos como causas excludentes do nexo causal. As principais excludentes são: o estado de necessidade, a legítima defesa, exercício regular de direito e estrito cumprimento do dever legal; a culpa exclusiva da vítima, o fato de terceiro, o caso fortuito ou força maior.
O estado de necessidade e a legítima defesa estão expressamente previstos no art. 188, incisos I e II do Código Civil. A legítima defesa diz respeito a situações em que o agente, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. O estado de necessidade ocorre quando alguém deteriora ou destrói coisa alheia ou causa lesão em pessoa, a fim de remover perigo iminente. No entanto, referidas excludentes nem sempre excluem o dever de indenizar. No caso do estado de necessidade, Gagliano e Pamplona Filho (2012) citam o exemplo do sujeito que desvia o carro
de uma criança, para não atropelá-la e atinge o muro de uma casa, causando danos materiais. Nesse caso, embora o agente tenha atuado em estado de necessidade, haverá dever de indenizar caso o terceiro atingido não seja causador da situação de perigo. O causador do dano poderá propor ação regressiva contra o verdadeiro culpado, no caso, o pai da criança que não agiu com o devido zelo. Tais situações encontram-se positivadas nos artigos 929 e 939 do Código Civil. No caso da legítima defesa, “a desnecessidade ou imoderação dos meios de repulsa poderá caracterizar o excesso, proibido pelo Direito” (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012, p. 152).
A exclusão da responsabilização civil no caso de o agente atuar no exercício regular de direito está prevista no art. 188, I, segunda parte, do Código Civil. Ocorre, por exemplo, quando promovemos o desmatamento controlado de determinada área rural com a devida autorização do Poder Público. O estrito cumprimento do dever legal também é causa excludente da responsabilidade civil, como no caso, por exemplo, do policial que arromba uma residência para cumprimento de uma ordem judicial.
A exclusiva atuação culposa da vítima também rompe o nexo de causalidade e exime o agente da responsabilidade civil. O exemplo clássico da doutrina é o do sujeito que, dirigindo seu veículo segundo as regras de trânsito, depara-se com alguém que, na tentativa de suicidar-se, arremessa-a diante do carro. Nesse caso, o evento não poderá ser atribuído ao agente (motorista) e sim à própria vítima.
No caso da excludente fato de terceiro, interessa saber se o comportamento de um terceiro – que não seja o agente do dano e a vítima – rompe o nexo causal, excluindo, assim, a responsabilidade civil. De acordo com Gagliano e Pamplona Filho (2012), não há texto expresso de lei que conduza a um entendimento pacífico. Nesse caso, desde que haja a atuação causal de um terceiro, sem que se possa imputar participação do autor do dano, o elo de causalidade estaria rompido.
Cessa também a responsabilidade por fatos de força maior ou caso fortuito, os quais eliminam a culpabilidade, por serem inevitáveis. “O caso fortuito e a força maior se caracterizam pela presença de dois requisitos: o objetivo, que se configura na inevitabilidade do evento, e o subjetivo, que é a ausência de culpa na produção do acontecimento” (DINIZ, 2003, p. 105). A força maior é causada por um fato da natureza, como um raio, uma geada ou
inundação, eventos os quais provocam algum dano. No caso fortuito, o acidente que gera o dano decorre de causa desconhecida ou de fato de terceiro.
1.3.4 Dano
Não se pode falar em responsabilidade civil ou em dever de indenizar se não houve ocorrência de dano. Nesse sentido, o dano é pressuposto do instituto da Responsabilidade Civil.
Este estudo delimita-se, neste item, ao conceito e de dano, sem passar à análise mais detalhada sobre as diversas espécies de dano, a fim de não estender um tema que não é o objeto principal deste trabalho.
A idéia de indenizar está diretamente ligada à reparação do dano à vítima, no sentido de se restaurar o equilíbrio atingido, o “status quo ante”. No entanto, como na maioria dos casos torna-se impossível tal restauração, a solução encontrada está na compensação, em forma de pagamento de uma indenização monetária (GONÇALVES, 2012).
Assim, de acordo com Agostinho Alvim (apud GONÇALVES, 2012, p. 357):
Dano, em sentido amplo, vem a ser a lesão de qualquer bem jurídico, e ai se inclui o dano moral. Mas, sem sentido estrito, dano é, para nós, a lesão do patrimônio; e patrimônio é o conjunto das relações jurídicas de uma pessoa, apreciáveis em dinheiro. Aprecia-se o dano tendo em vista a diminuição sofrida no patrimônio. Logo, a matéria do dano prende-se à da indenização, de modo que só interessa o estudo do dano indenizável.
Enquanto o conceito clássico de dano está ligado à diminuição do patrimônio, outros autores o definem como diminuição ou subtração de um bem jurídico, que abrangem não só o patrimônio, mas a honra, a saúde, a vida. Destaque-se que o dano patrimonial deve abranger aquilo que efetivamente se perdeu e ainda o que se deixou de lucrar: o dano emergente e o lucro cessante.
O dano é, sem dúvida, o grande vilão da responsabilidade civil. Não haveria que se falar em indenização, nem em ressarcimento, se não houvesse o dano. Pode haver responsabilidade sem culpa, mas não pode haver responsabilidade sem dano. A obrigação de indenizar só ocorre quando alguém pratica ato ilícito e causa dano a outrem. O dano encontra-se no centro da regra de responsabilidade civil. O dever de reparar pressupõe o dano e sem ele não há indenização devida. Não basta o risco do dano, não basta a conduta ilícita. Sem uma conseqüência concreta, lesiva ao patrimônio econômico ou moral, não se impõe o dever de reparar.
A doutrina aborda, ainda, os requisitos mínimos necessários para que o dano seja indenizável. São eles: a violação de um interesse jurídico patrimonial ou extrapatrimonial de uma pessoa física ou jurídica e a certeza do dano, uma vez que somente o dano certo, efetivo, será indenizável, não havendo obrigação de compensar a vítima por um dano abstrato ou hipotético (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012).
1.4 Espécies de Responsabilidade Civil
As espécies de responsabilidade civil podem ser classificadas de acordo com a perspectiva em que se analisa o caso concreto. Os principais critérios para sua classificação são a origem do dever jurídico violado e o elemento subjetivo da conduta violadora. Passa-se agora à abordagem das principais espécies de responsabilidade civil.
1.4.1 Responsabilidade civil e responsabilidade penal
No ilícito penal, o interesse lesado pertence à sociedade, enquanto no ilícito civil prepondera o direito privado, cabendo à vítima e não ao Estado pleitear a reparação do dano sofrido. O ilícito civil é um resíduo do ilícito penal, pois este protege bens sociais de maior relevância (SCHMITT, 2010).
De acordo com Cavalieri Filho (2012, p.15), “[...] a única diferença entre a ilicitude penal e a civil é somente de quantidade ou de grau; está na maior ou menor gravidade ou imoralidade de uma em cotejo com outra.”
Importante ressaltar que uma mesma conduta pode incidir em violação à lei civil e penal, caracterizando dupla ilicitude, dependendo da gravidade do ato. Exemplo reiteradamente citado pelos doutrinadores é o caso de um acidente de trânsito que pode
resultar em responsabilidade civil do culpado, surgindo a obrigação de reparar os eventuais danos materiais e/ou morais provocados e, caso tenha provocado lesão ou óbito da vítima, pode-se configurar algum dos crimes previstos no Código Penal. Nesse caso, uma ação ou omissão do agente, pode gerar responsabilidade civil e penal acumuladamente.
De acordo com Aguiar Dias (apud GONÇALVES, 2012, p. 42):
Assim, certos fatos põem em ação somente o mecanismo recuperatório da responsabilidade civil; outros movimentam tão somente o sistema repressivo ou preventivo da responsabilidade penal; outros, enfim, acarretam, a um tempo, a responsabilidade civil e a penal, pelo fato de apresentarem, em relação a ambos os campos, incidência equivalente, conforme os diferentes critérios sob que entram em função os órgãos encarregados de fazer valer a norma respectiva.
A responsabilidade civil e a penal distinguem-se também sob outros aspectos. A responsabilidade penal é pessoal e intransferível, sendo que o réu pode responder até mesmo com privação de liberdade, motivo pelo qual o processo penal deve observar todas as garantias contra o Estado. Na responsabilidade civil, em que muitas vezes é a vítima quem enfrenta entidades poderosas como grandes empresas e o próprio Estado, o próprio legislador e a jurisprudência têm buscado mecanismos para oferecer garantias à vítima e possibilitar que esta obtenha o ressarcimento do dano. Enquanto a responsabilidade penal pode comportar pena de privação de liberdade, na responsabilidade civil é o patrimônio do devedor que responde por suas obrigações. Assim, se o causador do dano não tiver bens, a vítima permanecerá irressarcida. (GONÇALVES, 2012).
Outra diferença marcante está na tipicidade, que é um dos requisitos do crime, sendo necessário que haja perfeita adequação entre o fato concreto e o tipo penal. Já na esfera cível, qualquer ação ou omissão pode gerar dever de ressarcimento, caso viole direito e cause prejuízo a alguém. Quanto à imputabilidade, somente os maiores de 18 anos podem responder, civil e criminalmente, porém, na esfera cível, a teor do parágrafo único do art. 928 do Código Civil, admite-se que os menores de 18 anos sejam responsabilizados, de modo equitativo, se as pessoas encarregadas de sua guarda e vigilância não puderam fazê-lo, desde que não fiquem privados do necessário. (GONÇALVES, 2012).
Essas são as principais diferenças entre a responsabilidade civil e penal, passa-se agora à análise da responsabilidade contratual e extracontratual.
1.4.2 Responsabilidade contratual e extracontratual
A diferença entre a responsabilidade contratual e extracontratual está na fonte de onde deriva a relação obrigacional. Na responsabilidade civil contratual o indivíduo deve cumprir um determinado dever por força de um determinado dever por força de um negócio jurídico prévio estabelecido entre as partes, o qual pode ser bilateral, como no caso do contrato, ou unilateral, como na promessa de recompensa (SCHMITT, 2010).
A responsabilidade contratual encontra-se expressa no artigo 389 do Código Civil: “Não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e danos, mais juros e atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, e honorários de advogado.”
Já a responsabilidade extracontratual não deriva de contrato, nesse caso nenhum vínculo jurídico existe entre a vítima e o causador do dano, quando este pratica o ilícito. Há previsão legal no artigo 186 do Código Civil, segundo o qual todo aquele que pratica ato ilícito, causando dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. A responsabilidade decorrente de ilícito extracontratual também é chamada de aquiliana. (GONÇALVES, 2012).
Cavalieri Filho (2012, p. 17) assim define a questão:
Em suma: tanto na responsabilidade extracontratual como na contratual há a violação de um dever jurídico preexistente. A distinção está na sede desse dever. Haverá responsabilidade contratual quando o dever jurídico violado (inadimplemento ou ilícito contratual) estiver previsto no contrato. A norma convencional já define o comportamento dos contratantes e o dever específico a cuja observância ficam adstritos. E como o contrato estabelece um vínculo jurídico entre os contratantes, costuma-se também dizer que na responsabilidade contratual já há uma relação jurídica preexistente entre as partes (relação jurídica, e não dever jurídico preexistente, porque este sempre se faz presente em qualquer espécie de responsabilidade). Haverá, por seu turno, responsabilidade extracontratual se o dever jurídico violado não estiver previsto no contrato, mas sim na lei ou na ordem jurídica.
Ainda de acordo com este autor, no sistema civil brasileiro há uma verdadeira simbiose entre responsabilidade contratual e extracontratual, uma vez que as regras legais previstas para a responsabilidade contratual (artigos 393,402 e 403 do Código Civil) também são aplicáveis à responsabilidade extracontratual (CAVALIERI FILHO, 2012).
Há uma crítica acerca dessa dualidade de tratamento, uma vez que os efeitos da responsabilidade civil serão uniformes em ambos os casos. No entanto, no Código Civil Brasileiro tem sido acolhida a tese dualista ou clássica, embora bastante criticada (GONÇALVES, 2012).
Gonçalves (2012) aponta que uma das diferenças mais significativas entre a responsabilidade contratual e a extracontratual diz respeito ao ônus da prova. Na responsabilidade contratual o credor só está obrigado a demonstrar que a obrigação foi descumprida e o devedor só poderá se eximir da obrigação se comprovar alguma das excludentes admitidas na lei: culpa exclusiva da vítima, caso fortuito ou força maior, do qual lhe incumbe fazer a prova. Já no caso da responsabilidade extracontratual, o autor da ação, no caso, a vítima, tem o ônus de comprovar que o fato se deu por culpa do agente. O autor refere ainda que, no que diz respeito à capacidade do agente, a responsabilidade meramente contratual sofre limitações, uma vez que o contrato válido exige agente plenamente capaz ao tempo da celebração, sob pena de nulidade e de não produzir os efeitos indenizatórios. Já na hipótese da obrigação extracontratual, derivada de um delito, o ato do incapaz pode dar origem à reparação pelos responsáveis legais.
1.4.3 Responsabilidade Subjetiva e Responsabilidade objetiva
A diferença entre a Responsabilidade Subjetiva e Objetiva está pautada na aferição ou não da existência de culpa na conduta causadora do dano.
A teoria clássica, também chamada de teoria da culpa, ou subjetiva, pressupõe a existência de culpa (seja por negligência, imprudência ou imperícia) como fundamento da responsabilidade civil, não havendo culpa, não há responsabilidade. Nesse caso, a prova da culpa do agente é pressuposto necessário para que o dano seja indenizável (GONÇALVES, 2012).
Por outro lado, a responsabilidade objetiva é reconhecida independentemente da prova da culpa, bastando que haja relação de causalidade entre a ação e o dano sofrido, conforme leciona Gonçalves (2012, p. 48):
A classificação corrente e tradicional, pois, denomina objetiva a responsabilidade que independe de culpa. Esta pode ou não existir, mas será sempre irrelevante para a configuração do dever de indenizar. Indispensável será a relação de causalidade entre a ação e o dano, uma vez que, mesmo no caso de responsabilidade objetiva, não se pode acusar quem não tenha dado causa ao evento. [...] Na responsabilidade objetiva prescinde-se totalmente da prova da culpa. Ela é reconhecida, como mencionado, independentemente de culpa. Basta, assim, que haja relação de causalidade entre a ação e o dano. Essa espécie de responsabilidade encontra justificativa na teoria do risco:
Para essa teoria, toda pessoa que exerce alguma atividade cria um risco de dano para terceiros. E deve ser obrigada a repará-lo, ainda que sua conduta seja isenta de culpa. A responsabilidade civil desloca-se da noção de culpa para a idéia de risco, ora encarada como “risco proveito”, que se funda no princípio segundo o qual é reparável o dano causado a outrem em conseqüência de uma atividade realizada em benefício do responsável (ubi emolumentum, ibi ônus); ora mais genericamente como “risco criado”, a que se subordina todo aquele que, sem indagação de culpa, expuser alguém a suportá-lo. (GONÇALVES, 2012, p. 49).
O Código Civil Brasileiro filiou-se, em regra, à teoria subjetiva, como se pode verificar no art. 186 que prevê a existência de dolo e culpa como fundamentos para a obrigação de reparar o dano. No entanto, convivem com essa teoria várias outras possibilidades de verificação de responsabilidade objetiva. Como exemplo, citam-se os seguintes artigos do Código Civil de 2002:
Art. 927, parágrafo único: Haverá obrigação de reparar o dano, independente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.
Art. 936: O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior.
Art. 937: O dono de edifício ou construção responde pelos danos que resultarem de usa ruína, se esta provier de falta de reparos, cuja necessidade fosse manifesta.
Art. 938: Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo dano proveniente das coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido.
Art. 933: As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos. (BRASIL, 2015).
Além disso, a responsabilidade civil objetiva foi sancionada em diversas leis esparsas, tais como na Lei de Acidentes de Trabalho, no Código Brasileiro de Aeronáutica, na Lei n. 6.938/81, que trata dos danos causados ao meio ambiente e no Código de Defesa do Consumidor. (GONÇALVES, 2012).
No âmbito do Direito do Trabalho, o principal argumento dos juristas que entendem que a responsabilidade objetiva do empregador não se aplica nos casos de acidente de trabalho está pautado na Constituição Federal, em seu art. 7º inciso XXVIII, o qual estabelece como pressuposto da indenização a ocorrência de dolo ou culpa. Já a corrente doutrinária defensiva da responsabilidade civil objetiva do empregador argumenta no sentido de que “o disposto no inciso XXVIII do art 7º da CF deve ser interpretado de forma harmônica com o que estabelece o "caput" do mesmo artigo” (OLIVEIRA apud AFFONSO, 2013). O tema da responsabilidade civil aplicada ao acidente de trabalho será abordado mais detalhadamente no próximo capítulo do presente trabalho.
2 DO ACIDENTE DE TRABALHO
No presente capítulo realizar-se-á uma abordagem inicial sobre a conceituação de acidente de trabalho, princípios de proteção ao trabalhador, bem como sobre aspectos históricos referentes à evolução da proteção ao trabalhador. Após, segue a análise do principal foco do presente estudo, as teorias sobre responsabilidade civil aplicadas ao direito trabalhista no que diz respeito à responsabilidade civil do empregador no acidente de trabalho. 2.1 Aspectos históricos
A proteção ao trabalhador é direito garantido constitucionalmente. De acordo com o artigo 7º, inciso XXII da Constituição Federal de 1988, “São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: (...) XXII - redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança.” No entanto, nem sempre a sociedade teve esse direito assegurado, ou pelo menos previsto em sua legislação.
Historicamente, o ser humano passou a atender às suas necessidades por meio do trabalho, além de construir bens que sustentam as bases da vida material no que se refere às esferas econômica, política, social, religiosa e cultural. O trabalho, assim como qualquer outra atividade humana, apresenta riscos relacionados aos diversos tipos de atividades realizadas pelo homem. Desde os tempos mais remotos, as atividades humanas ligadas ao trabalho, ou ao modo de conseguir seu próprio sustento, como a caça e a coleta, traziam riscos de acidentes.
De acordo com Belfort (2010, p. 71):
Os acidentes de trabalho rememoram as primeiras atividades do homem voltadas à sua sobrevivência: a caça e a coleta. Os primitivos ancestrais do homem passavam por toda forma de penúria para conseguirem seu sustento. As caçadas eram atividades perigosas e extremamente arriscadas, com risco tanto de apanhar e matar uma presa quanto de serem, eles próprios, devorados. As coletas também exigiam, não raro, habilidades para escalar em árvores de grande porte, sem qualquer proteção.
Desde a Idade da Pedra, há mais de 2,5 milhões de anos, os seres humanos já fabricavam e utilizavam instrumentos para facilitar a execução de seus trabalhos. Eram manuseados instrumentos cortantes e perfurocortantes, o
que confirma as habilidades intelectuais dos seres primitivos. Mas tais instrumentos, por certo, eram causa de diversos acidentes.
Este autor refere que foi a partir da Revolução Industrial que o processo de degradação do meio ambiente natural e humano se intensificou, fazendo com que a exposição dos seres humanos aos riscos decorrentes do trabalho aumentasse. Sustenta que nem mesmo a substituição da mão de obra humana por máquinas foi capaz de diminuir a ocorrência de acidentes de trabalho, uma vez que “os empresários, em vez de proporcionarem diminuição dos esforços físicos dos seus empregados, não o fizeram, e a ganância de obter lucros maiores, exigindo mais e mais esforço daqueles, fez crescer o infortúnio laboral.” (BELFORT, 2010, p. 71).
Conforme observa Capelari (2009), a intervenção do Estado nas relações de trabalho se fez necessária no decorrer da história, uma vez que a dominação dos fortes, ou seja, do detentor do capital sobre os mais fracos, obrigava o trabalhador, muitas vezes, a submeter-se a condições desumanas.
A autora aponta que foram as Constituições os primeiros textos legais a assegurarem alguma proteção ao trabalhador:
Em 1824 a Constituição do Império aboliu as corporações de ofício; em 1891 a Constituição Federal institui a liberdade de associação. A Constituição de 1934 foi a primeira Constituição Federal a tratar de Direito do Trabalho (liberdade sindical, salário mínimo, isonomia salarial, proteção ao trabalho de mulheres e menores, repouso semanal e férias anuais), a de 1946 trouxe a participação dos trabalhadores nos lucros, estabilidade e direito de greve. E por fim, a atual Constituição da República de 1988, colocou os direitos dos trabalhadores incluído no capítulo dos direitos sociais e garantias individuais. arts 5o a 11.
A Constituição de 1988 demonstrou grande preocupação com o trabalhador. A inovação acentuada do atual texto constitucional foi o deslocamento dos direitos trabalhistas que antes pertenciam ao capítulo “Da Ordem Econômica e Social”, que geralmente figurava no final das constituições anteriores, para uma posição de destaque logo no início do novo Diploma Constitucional, no capítulo “Dos Direitos Sociais”, artigos 6º a 11. (CAPELARI, 2009)
Atualmente, embora a proteção ao trabalhador seja uma garantia constitucional, e ainda que algumas empresas tenham implementado normas de segurança e medicina do trabalho, o número de acidentes ainda é muito alto (BELFORT, 2010).
Süssekind (apud Belfort, 2010) aponta que o modo de produção neoliberal transnacional produz uma situação paradoxal, pois ao mesmo tempo que as empresas buscam se enquadrar nos critérios de qualidade total em equipamentos, máquinas, produção e prestação de serviços, para obtenção de Certificados como o ISO 9.000 e ISSO 14.000, a grande competitividade decorrente desse modo de produção coloca parte dos trabalhadores, em especial aqueles que não possuem qualificação necessária para atuar nesse mercado, no campo da informalidade, situação em que ficam totalmente vulneráveis, sem atendimento a qualquer direito básico, dando início ao que o eminente jurista chama de “flexibilização selvagem”.
De acordo com dados do Ministério da Previdência Social, em 2012 foram registrados 705.239 acidentes de trabalho no Brasil, que resultaram em 2.731 mortes. No Rio Grande do Sul ocorreram 55.013 casos, com 166 óbitos. Destaque-se que integram esses índices estatísticos apenas os acidentes ocorridos com trabalhadores formais, segurados da Previdência Social, não havendo, portanto, qualquer parecer com relação aos acidentes sofridos pela enorme massa de trabalhadores que em nosso país ainda atuam na informalidade.
Belford (2010, p. 74) aponta as causas indiretas do aumento do número de acidentes e doenças do trabalho no Brasil, entre elas:
(...) a complexidade das máquinas, a automação e a informatização, a crescente exposição aos ruídos, ao calor e às substâncias tóxicas (condições insalubres, perigosas e penosas), ausência de efetividade das normas protetoras do ambiente laboral, a preferência apenas pela redução à eliminação dos riscos, a deficiência nos sistema de inspeção do trabalho, o excesso de horas extras (que é uma das principais causas mediatas de acidentes laborais e do aumento do índice de desemprego), o sistema inadequado de compensação de quadro de horários e dos turnos de revezamento, a ausência de conscientização, a desmotivação, as exigências rigorosas nos processos de seleção combinadas com deficiência de formação profissional, as dificuldades para atualizar os conhecimentos e acompanhar o desenvolvimento tecnológico para assegurar o direito ao trabalho digno, o temor ao desemprego, a precarização dos direitos dos trabalhadores, o trabalho informal, a fadiga física e a tensão mental do trabalhador.
Nesse contexto, a segurança no trabalho foi concebida a fim de prevenir os acidentes que possam vir a ocorrer e a atingir de forma direta ou indireta o trabalhador, através da segregação ou eliminação dos riscos criados devido às condições do local de trabalho e ainda
pelas tecnologias empregadas, de modo a promover medidas para a prevenção não só de acidentes, mas também de doenças e otimização das condições e do ambiente de trabalho.
Assim, a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT prevê, em seus artigos 163 e 164, que será obrigatória a constituição de Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA -, a qual será composta de representantes da empresa e dos empregados, de acordo com critérios adotados pelo Ministério do Trabalho. (BRASIL, 2015)
Ainda de acordo com a legislação trabalhista, conforme o artigo 157, cabe à empresa cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho, instruir os empregados, através de ordens de serviço, quanto às precauções a tomar no sentido de evitar acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais, adotar medidas que lhe sejam determinadas pelo órgão regional competente e facilitar o exercício da fiscalização pela autoridade competente.
Já aos empregados, incumbe o dever de observar as normas de segurança e medicina do trabalho, constituindo ato faltoso do empregado a recusa injustificada à observância das instruções expedidas pelo empregador e ao uso dos equipamentos de proteção individual fornecidos pela empresa (artigo 158 da CLT – BRASIL, 2015).
A lei 8.213/91, por sua vez, em seu artigo 120, prevê que a Previdência Social proporá ação regressiva contra os responsáveis nos casos de negligência quanto às normas padrão de segurança e higiene do trabalho indicadas para a proteção individual e coletiva.
2.2 Conceito
O conceito de acidente de trabalho pode ser encontrado na legislação previdenciária. De acordo como o que dispõe o artigo 19 da Lei nº 8.213/91:
Acidente de trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do artigo 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. (BRASIL, 2015)
a contingência que ocorre pelo exercício de trabalho a serviço do empregador ou pelo exercício de trabalho dos segurados especiais, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.
Nesse sentido, o autor salienta que para estar configurada a contingência acidente de trabalho deve haver uma tríplice conexão entre o efetivo exercício do trabalho, o acidente e a lesão que seja capaz de gerar, no mínimo, incapacidade. Sem um desses elementos não há que se falar em acidente de trabalho. De acordo com o autor, “mesmo que haja lesão, mas que esta não venha a deixar o segurado incapacitado para o trabalho, não haverá direito a qualquer prestação acidentária.” (MARTINS, 2005, p. 406).
Importante esclarecer, ainda, que para que se configure o acidente de trabalho não é necessário que o mesmo ocorra no local/ambiente de trabalho, mas sim em decorrência do trabalho. Nesse aspecto, conclui-se que os chamados acidentes in itinere, ou seja, aqueles ocorridos no trajeto entre a residência e o local de trabalho do segurado também são integrantes do conceito, assim como aqueles sofridos em trabalhos externos. Com relação ao acidente de trajeto, a jurisprudência tem entendido que não é necessário que o segurado tenha percorrido o caminho mais curto entre a residência e o local de trabalho, sendo aceitos os pequenos desvios de percurso, como quando o trabalhador entra em um estabelecimento comercial para adquirir um produto, não desconfigura o nexo causal entre o acidente e o retorno do trabalho para cada (CASTRO e LAZZARI, 2010, p. 575).
Castro e Lazzari (2010, p. 578) referem também que
o elemento objetivo para a caracterização do acidente de trabalho é a existência de lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. Lesão corporal é aquela que atinge a integridade física do indivíduo, causando um dano físico-anatômico, enquanto a perturbação funcional é a que, sem aparentar lesão física, apresenta dano fisiológico ou psíquico, relacionado com órgãos ou funções específicas do organismo humano. Com relação ao elemento subjetivo caracterizador do acidente de trabalho, trata-se de elemento irrelevante para fins previdenciários. Ou seja, no âmbito da previdência social o trabalhador (empregado, trabalhador avulso ou segurado especial) que sofrer acidente de trabalho, ficando incapacitado, fará jus ao benefício pertinente, independentemente da existência de dolo ou culpa. No entanto, o elemento subjetivo será de grande importância para
fins de apuração da responsabilidade civil, como veremos adiante. (CASTRO E LAZZARI, 2010)
Além da definição de acidente de trabalho típico, expressa acima, as doenças profissionais e/ou ocupacionais equiparam-se a acidentes de trabalho. Dessa forma, de acordo com o artigo 20 da Lei 8.213/91, considera-se acidente de trabalho:
I - doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social;
II - doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relação mencionada no inciso I. (BRASIL, 2015)
A lei traz ainda um rol de patologias que não são consideradas doenças do trabalho, a saber: doenças degenerativas, doenças inerentes a grupos etários, como osteoporose, esclerose, etc., doenças que não produzem incapacidade laborativa e doenças endêmicas, salvo, no último caso, se houver comprovação de que a exposição ou contato direto ocorreu devido à natureza do trabalho.
As doenças ocupacionais dividem-se entre doenças profissionais e doenças do trabalho. Doenças profissionais são aquelas comuns aos integrantes de determinada categoria profissional, previstas no Decreto 3.048/99, anexo II ou aquela reconhecida pela Previdência, independentemente de constar no rol previsto no decreto, desde que comprovado o nexo causal entre a doença, a profissão e a lesão, através de perícia médica realizada pelo INSS. Já as doenças do trabalho, são aquelas adquiridas ou desencadeadas em função das condições em que o trabalho é realizado, condições estas também previstas no anexo II do Decreto 3.048/99. Nesses casos, as empresas e/ou empregadores devem desenvolver formas de prevenção das referidas moléstias, através de limitação do tempo de exposição aos agentes causadores, adequação dos instrumentos de trabalho para que tenham o menor impacto possível na saúde do trabalhador, utilização de Equipamentos de Segurança, entre outras medidas cabíveis. (CASTRO E LAZZARI, 2010)
A diferença entre as doenças ocupacionais e os acidentes de trabalho típicos está no fato de que referidas doenças são em sua maior parte previsíveis, não dependendo do evento
violento e súbito característico do acidente tipo. A Previdência Social deve reconhecer o acidente de trabalho sempre que restar comprovada que a doença foi desencadeada pelos fatores de risco a que o trabalhador estava exposto durante o exercício de suas atividades. (CASTRO E LAZZARI, 2010)
Na sequência, o artigo 21 da Lei 8.213/91, relaciona as hipóteses de equiparação a acidente de trabalho, casos em que uma lesão guarda alguma relação com a atividade laboral do empregado:
Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei:
I - o acidente ligado ao trabalho que, embora não tenha sido a causa única, haja contribuído diretamente para a morte do segurado, para redução ou perda da sua capacidade para o trabalho, ou produzido lesão que exija atenção médica para a sua recuperação;
II - o acidente sofrido pelo segurado no local e no horário do trabalho, em conseqüência de:
a) ato de agressão, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou companheiro de trabalho;
b) ofensa física intencional, inclusive de terceiro, por motivo de disputa relacionada ao trabalho;
c) ato de imprudência, de negligência ou de imperícia de terceiro ou de companheiro de trabalho;
d) ato de pessoa privada do uso da razão;
e) desabamento, inundação, incêndio e outros casos fortuitos ou decorrentes de força maior;
III - a doença proveniente de contaminação acidental do empregado no exercício de sua atividade;
IV - o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário de trabalho:
a) na execução de ordem ou na realização de serviço sob a autoridade da empresa;
b) na prestação espontânea de qualquer serviço à empresa para lhe evitar prejuízo ou proporcionar proveito;
c) em viagem a serviço da empresa, inclusive para estudo quando financiada por esta dentro de seus planos para melhor capacitação da mão-de-obra, independentemente do meio de locomoção utilizado, inclusive veículo de propriedade do segurado;
d) no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do segurado.
§ 1º Nos períodos destinados a refeição ou descanso, ou por ocasião da satisfação de outras necessidades fisiológicas, no local do trabalho ou durante este, o empregado é considerado no exercício do trabalho.
§ 2º Não é considerada agravação ou complicação de acidente do trabalho a lesão que, resultante de acidente de outra origem, se associe ou se superponha às conseqüências do anterior. (BRASIL, 2015)
Até o momento tratamos do conceito de acidente de trabalho, de doenças ocupacionais e das hipóteses que se equiparam aos acidentes de trabalho. Em todas essas situações, havendo comprovação de nexo causal entre a lesão e a atividade exercida, bem como sendo constatada a incapacidade laboral do trabalhador, este estará, inequivocamente, amparado pelo benefício previdenciário pertinente, caso seja segurado do Regime Geral de Previdência Social. No entanto, além do seguro social, o empregado também terá direito a indenização na esfera cível, a depender das circunstâncias em que o acidente e/ou doença ocupacional foram ocasionados. É o que passaremos a analisar a partir de agora.
2.3 Responsabilidade Civil do Empregador no Acidente de Trabalho
No primeiro capítulo tratamos do conceito, pressupostos e classificação da responsabilidade civil. A partir de agora passaremos a tecer outras considerações sobre a teoria da responsabilidade civil aplicada aos casos de acidente de trabalho, em suas diversas acepções.
A norma trazida pelo parágrafo único do artigo 927 do Código Civil, a qual acolhe a responsabilidade civil objetiva, impondo a obrigação de reparar o dano independentemente de culpa do agente causador nos casos previstos em lei ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem, tem sido interpretada de diferentes formas, no que diz respeito à sua aplicabilidade no contexto dos acidentes de trabalho. Duas são as correntes doutrinárias que se estabelecem no ordenamento jurídico brasileiro.
Os doutrinadores que defendem a aplicabilidade da responsabilidade civil objetiva nos casos de acidente de trabalho, argumentam que o disposto no inciso XXVIII do artigo 7º da Constituição Federal, que garante aos trabalhadoresseguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa, deve ser interpretado em harmonia com o seu caput, observando que é possível que a lei ordinária amplie os direitos ali existentes ou acrescente outros que possibilitem melhores condições sociais aos trabalhadores. Argumentam, ainda, que o disposto no artigo 121 da Lei 8.213/91 prevê que o pagamento, pela Previdência Social, das prestações acidentárias, não exclui a responsabilidade civil da empresa ou de outrem. Asseveram que o artigo 7º, inciso XXVIII da Constituição Federal não pode ser interpretado
de forma isolada e que, nesse sentido, o parágrafo 3º do artigo 225 da Carta Magna assegura a responsabilidade objetiva por danos ao meio ambiente, incluído o do trabalho. (BELFORT, 2010)
Em contraponto a esse entendimento, há doutrinadores que entendem que o parágrafo único do artigo 927 do Código Civil não pode ser aplicado aos casos de acidente de trabalho, uma vez que a Constituição Brasileira estabelece que somente nos casos de culpa do empregador seria devida indenização. Argumentam que “se os pressupostos da culpa forem afastados, aquele que age corretamente, tomando todas as medidas recomendáveis para evitar os danos, receberia o mesmo tratamento do outro que atua displicentemente.” (Mazeaud e Mazeaud, apud BELFORT, 2010).
De acordo com o posicionamento de Castro e Lazzari (2010, p. 589):
A nosso ver, não há sentido lógico em se excluir a aplicação da regra do art. 927, parágrafo único, do Código Civil nas hipóteses de acidentes do trabalho e doenças ocupacionais. Há que se ter em conta que a responsabilidade civil tem seu regramento na lei civil, e os parâmetros para a proteção da vítima de danos são elencados ali, indistintamente, para todas as hipóteses em que ocorra lesão a direitos patrimoniais ou morais.
Fere o bom senso, com a devida vênia, imaginar que num acidente causado, por exemplo, pelo uso de explosivos ou inflamáveis, o empregado vitimado pelo acidente seja menos protegido que o cidadão que, não tendo relação de trabalho, também seja atingido em algum de seus direitos.
Pois bem. Como se verifica, a questão da responsabilidade civil do empregador se estabelece entre dois polos, um objetivo, amparado pela teoria do risco, e um subjetivo, amparado pela teoria da culpa.
2.3.1 Acidente de trabalho e responsabilidade subjetiva do empregador
De acordo com a teoria da responsabilidade subjetiva, nos acidentes de trabalho caberá indenização civil somente nos casos em que estiverem presentes a culpa ou dolo do empregador, associadas ao dano e o nexo de causalidade entre este e o evento acidentário.
Importante salientar que o empregador é responsável por proporcionar aos seus empregados um ambiente de trabalho seguro, de acordo com as normas de higiene e segurança no trabalho, constantes na CLT. Assim, nos casos de aplicação da responsabilidade
subjetiva nos acidentes de trabalho, são observadas, de acordo com o previsto no artigo 933 do Código Civil, a culpa in eligendo e in vigilando. De acordo com Santos (2008, p. 55) “a culpa in vigilando cabe nos casos de acidente de trabalho por negligência patronal em exigir, verificar e acompanhar se os equipamentos de segurança estão sendo efetivamente utilizados pelos empregados.”
Belfort (2010, p. 87/88), acerca da distinção entre a indenização previdenciária e a postulada na esfera civil, esclarece que:
A existência de culpa na ocorrência de acidente de trabalho só passa a ser relevante se o acidentado ou os seus dependentes pleitearem, junto às empresas, o pagamento de indenização com base na regra das formas de responsabilidade acima elencada. Essa se funda na existência de culpa da empresa (por isso é subjetiva), independentemente do recebimento de benefício acidentário (vale dizer, pode ser cumulada com este) e não visa ao recebimento de prestações previdenciárias, mas, sim, de verdadeira indenização pelos danos causados pelo acidente.
Ademais, conforme já mencionado anteriormente, nos casos em que apurada a culpa do empregador na ocorrência do evento acidentário, é possível que o órgão previdenciário ajuíze ação regressiva, a fim de ressarcir os cofres públicos do prejuízo ocasionado.
Nesse contexto, trazemos a seguir os seguintes precedentes jurisprudenciais acerca da aplicação da responsabilidade subjetiva nos acidentes de trabalho:
RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DO TRABALHO. NEXO CAUSAL. A responsabilidade do empregador em acidente do trabalho será sempre subjetiva, dependendo da prova do dolo ou culpa, por força do art. 7º, XXVIII , da Constituição Federal . Caso o acidente envolva as circunstâncias de que tratam os artigos 927 , parágrafo único , e 932 , inciso III , ambos do Código Civil, a responsabilidade do empregador será objetiva, mas em razão de tais circunstâncias e não do acidente em si. Nesses casos a reparação seria devida pelo empreendimento mesmo sendo a vítima um terceiro sem qualquer vínculo, bastando a configuração das hipóteses tratadas nos dispositivos legais. A socialização do dano da vítima de que trata a doutrina civilista sobre responsabilidade civil já está realizada no caso dos acidentes do trabalho, por força do seguro obrigatório pago pelos empregadores e que é gerido pelo INSS. Não evidenciado o nexo causal entre as lesões apresentadas pela trabalhadora em virtude da natureza das moléstias, de forma a descaracterizar a doença ocupacional, são indevidas a reintegração no emprego e a condenação da reclamada ao pagamento de indenização por danos morais e materiais. (TRT 4ª Região – Recurso Ordinário – RO 00000166120135040292 – Publicado em 25/09/2013)
RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DO TRABALHO. INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. REPARAÇÃO DEVIDA. A indenização decorrente de acidente de trabalho encontra assento constitucional (art. 7º, XXVIII, da CF) e infraconstitucional (art. 186, 187 e 927, parágrafo único, do Código Civil). Para a sua fixação, via de regra, é imperiosa a comprovação da lesão, do ato omissivo ou comissivo do empregador e do nexo de causalidade. No caso dos autos, a prova produzida comprovou que a autora sofreu acidente do trabalho (corte na cabeça) por culpa do empregador, cujo evento lhe causou diversos danos, ainda que passageiros. Nessa esteira, os elementos da responsabilidade civil foram evidenciados, de modo que se torna imperiosa a obrigação da ré em indenizar o dano moral causado à obreira. (TRT-23 - RO: 321201103723006 MT 00321.2011.037.23.00-6, Relator: Desembargador Edson Bueno, Data de Julgamento: 07/08/2012, 1ª Turma, Data de Publicação: 16/08/2012) Nas hipóteses acima verifica-se que nos Tribunais Regionais do Trabalho a orientação é pela aplicação da responsabilidade civil subjetiva, ressalvados os casos em que há risco inerente à atividade exercida pelo trabalhador. Ademais, nos casos em que há culpa exclusiva do empregado ao negligenciar cuidados mínimos necessários para evitar acidentes na realização de determinadas atividades, resta afastada a culpa do empregador e, portanto, indevida a indenização, como no julgado a seguir:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE
REVISTA.RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO. CULPA EXCLUSIVA DO EMPREGADO. NÃO PROVIDO. A Corte Regional, após analisar o conteúdo fático probatório dos autos, concluiu que o acidente de trabalho ocorreu por culpa exclusiva do empregado, que habilitado para o desempenho da função de eletricista, olvidou dos cuidados mínimos necessários a troca do fusível, como o desligamento da chave do painel do equipamento. Além disso, não estava utilizando a ferramenta adequada para a troca do fusível, potencializando o risco de lesão. A Corte Regional afastou a culpa patronal na ocorrência do infortúnio. Entendimento em sentido diverso implica a incursão nas provas dos autos, impossível no recurso extraordinário, a teor do enunciado contido na Súmula 126 do TST. Agravo de instrumento não provido. (TST – Agravo de instrumento em Recurso de Revista – AIRR 11259520105150135 – Publicado em 05/06/2015)
No entanto, há casos em que é reconhecido o não atendimento ao dever de cautela por parte do empregador e, portanto, ao se verificar a culpa, associada aos demais pressupostos da responsabilidade civil, surge o dever de indenizar:
RECURSO DE REVISTA. RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO. Considerando o contexto fático delineado pelo Regional, observa-se que a Recorrente não foi diligente ao proporcionar meios materiais para prevenir e evitar acidentes do trabalho. Configurada a culpa por violação do dever geral de cautela, submetendo o Reclamante a riscos pela ausência de medidas protetivas, atraiu para si a obrigação de indenizar