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Maldidier, Normand & Robin (1997, p. 82) descrevem o discurso como “uma prática resultante de um conjunto de determinações reguladas, em um momento dado, por um feixe complexo de relações com outras práticas discursivas e não discursivas”. Esse conjunto de determinações reguladas, em um momento dado, por um complexo feixe de relações é o que se denomina acontecimento, definido por Bakhtin (2014, p. 54.) como “evento de curta ou longa duração, em seu contexto imediato, convocando uma memória histórica das lutas de classe.”

Os processos discursivos são constituídos de acontecimentos, num determinado momento histórico, produzindo sentidos determinados. O estudo das práticas discursivas exige a análise da relação do discurso produzido num momento histórico específico, com outros discursos com os quais dialoga, retomando, refutando, ressignificando-os, no jogo contraditório

no qual se realiza a articulação entre língua, história e ideologia. Há que se levar em consideração o momento histórico em que se está vivendo, no momento da produção do discurso e a memória que ele evoca. A esse respeito diz Indursky (2011, p. 68),

A reflexão sobre a memória sempre esteve presente no quadro da teoria da Análise do discurso, muito embora, nos textos fundadores, esta nomeação ainda não tivesse tido lugar. Pensava-se sobre memória, mas sob outras designações, como, por exemplo, repetição, pré-construído, discurso

transverso, interdiscurso. Estas noções foram formuladas no âmbito da

Análise do discurso e encontram-se reunidas em Semântica e Discurso (Pêcheux 1975[1988]). Todas remetem, de uma forma ou de outra, à noção de memória. Mas exatamente, trata-se de diferentes funcionamentos discursivos através dos quais a memória se materializa no discurso.

Courtine (2014, p. 53) defende que, “a noção de memória discursiva diz respeito à existência histórica de enunciados, no seio de práticas discursivas”. E, se a memória evoca a história, ela somente se concretiza a partir das lembranças que são preservadas na consciência dos sujeitos (ZANDWAIS, 2011). De modo geral, a memória discursiva é, então, o conjunto de formulações de saberes discursivos que tornam possíveis novos “dizeres”. Cabe destacar que a memória convocada pela Análise do discurso é social, visto que, o sujeito, ao anunciar o seu discurso, o faz no mecanismo da repetição, sendo que o produz sob os efeitos dos esquecimentos e, por isso, tem a impressão que é fonte do saber. Como afirma Indursky (2011, p. 71),

[...] se há repetição é porque há retomada /regularização de sentidos que vão construir uma memória que é social, mesmo que essa se apresente ao sujeito do discurso revestida da ordem do não-sabido. São os discursos em circulação, urdidos em linguagem e tramados pelo tecido sócio-histórico, que são retomados, repetidos, regularizados.

Robin (2016) estuda essa temática. Na primeira parte de sua principal obra Memórias Saturadas, Robin (2016) destaca o tema “repetições” e afirma que vivemos em um mundo obcecado pelo passado. A presença do passado e seus movimentos no presente e no futuro se dão de forma complexa. Para a autora, os discursos da memória agregam controvérsias e sentidos que são mobilizados em distantes lugares. Consoante Robin (2016, p. 31),

O passado não é livre. Nenhuma sociedade o deixa à mercê da própria sorte. Ele é regido, gerido, preservado, explicado, contado, comemorado ou odiado. Quer seja celebrado ou ocultado, permanece uma questão fundamental do presente. Por esse passado, normalmente distante, mais ou menos imaginário, estamos prontos para lutar. [...] nós o apagamos, esquecemos, remetemos, em função das exigências do momento e de outros acontecimentos.

O passado que se disputa está ancorado na memória. Memória é um espaço que guarda as manifestações sociais, fatos e acontecimentos de uma sociedade, a identidade de um povo. A classe dominante criou espaços de guarda desse passado e mantém controlado o seu acesso. Por não ser homogêneo, o passado escapa e se faz revelar, diante da interdição e do controle da classe dominante. Não importa o quão distante esteja, o passado, quando manipulado, tem o poder de mudar o presente e o futuro de uma sociedade. Ele se movimenta na memória individual e coletiva, sendo o ponto de encontro que autoriza ou não o discurso.

O ponto de contato entre a memória e o presente é o acontecimento discursivo, um conceito importante na obra de Pêchêux (2009) que criou o termo para dar conta da variação de sentido, obtida por enunciados, após sua prática. O tema foi trabalhado como parte de um estudo para dar conta de compreender o discurso, enquanto objeto que transita entre estrutura e acontecimento, para explicar que não é possível delimitar as alterações semânticas de um discurso e identificar onde ocorrem as rupturas que o transformam. Pêcheux (2008, p. 62) entende que o acontecimento se situa “no ponto de encontro de uma atualidade e uma memória”.

O Acontecimento Discursivo surge no encontro da atualidade com a memória que produz ressignificação. Pêcheux (1999) conceitua de fato o Acontecimento Discursivo e o coloca como ruptura da memória. A tentativa da memória, em manter uma regularização das séries enunciativas, pode ruir quando encara um Acontecimento Discursivo. Conforme Pêcheux (1999, p.53),

A memória tende a absorver o acontecimento, como uma série matemática prolonga-se conjeturando o termo seguinte, em vista do começo da série, mas o Acontecimento Discursivo, provocando interrupção, pode desmanchar essa “regularização” e produzir retrospectivamente uma outra série sob a primeira, desmascarar o aparecimento de uma nova série que não estava constituída enquanto tal e que é assim o produto do acontecimento; o acontecimento, no caso, desloca e desregula os implícitos associados ao sistema de regularização anterior.

O Acontecimento Discursivo é capaz de provocar novas possibilidades de sentidos, sem é claro, apagar os anteriores. É uma relação tensa com a memória que a todo custo busca adequar o Acontecimento Discursivo à ordem da repetição. É nesse ponto de encontro de acontecimentos que atualizam uma memória que vêm as aproximações, retomadas e ressignificações de discursos que circulam sobre o trabalho docente. É a partir desse referencial que pretendemos analisar os discursos sobre o trabalho docente na educação brasileira. Antes, porém, de iniciar a próxima etapa, entendemos ser necessário trazer Bakhtin/Volóchinov (1981, pp. 42-43) que afirmam:

[...] as relações de produção e a estrutura sócio política que delas diretamente deriva, determinam todos os contatos verbais possíveis entre indivíduos, [...] no trabalho, na vida política, na criação ideológica. [...] Cada época e cada gruposocial tem seu repertório de formas de discurso.

Assim, para analisar qualquer discurso, é necessário entender as condições históricas e políticas da conjuntura que possibilitou a produção desse discurso. Por isso, passaremos a seguir a apresentar as diversas conjunturas políticas e ideológicas que forjaram os supracitados discursos. Considero que as Leis são, nelas mesmas, um acontecimento discursivo. Local de encontro de uma atualidade e uma memória. Elas intervêm no real do sentido, no qual, o discurso não é independente das redes de memória e dos fluxos sociais. São efeitos de filiações históricas que se deslocam para possibilitar as transformações no cotidiano das pessoas.

Para Indursky (2003), a probabilidade de reprodução de um enunciado se deve à existência de uma estrutura vertical, o interdiscurso. É nessa estrutura que a formação discursiva se dá e afeta o sujeito. Num patamar horizontal, encontra-se a estrutura do intradiscurso que pode ser considerada como uma prática discursiva do sujeito, sua formulação imediata; é a ação de enunciar no presente.

A existência anterior de um enunciado se faz de estruturas verticalizadas e horizontalizadas, garantindo assim sua renovação. É nesse ponto, onde estruturas vertical e horizontal encontram-se, que se dá a fala de um sujeito do discurso. É, nesse caso, que se dão o interdiscurso e intradiscurso. Este é o lócus onde a memória e a atualidade se encontram para significar. É o lugar no qual o enunciado sofre a atualização, a repetição; ou é ressignificado ou é rememorado. Nessa perspectiva, vamo,s a seguir, tratar do conceito das condições de produção do discurso, formações ideológicas e formações discursivas.