3.3 Nasceu a República: nova?
3.3.2 O Estado Novo: o que tem de novo?
Outra vez, o adjetivo “novo” reapareceu no dicionário político brasileiro. Dessa vez, aparece designando uma forma de Estado – o Estado Novo. O que vem a ser o Estado Novo? Bem, esse foi o período da história brasileira, compreendido entre os anos de 1937 a 1945, em que o país foi governado pelo líder da Revolução de 1930, Getúlio Dornelles Vargas, sob um regime ditatorial. A culminância dessa situação política é o resultado de um intenso momento prenhe de conflitos sociais: movimentos populares, convulsões sociais, afloramento de questões sociais, formação das primeiras organizações de luta da classe trabalhadora e uma gama enorme de descontentamento social, que vinha de todos os lados da realidade social, colocando a elite brasileira, mais uma vez, em situação de terror. Qual o medo? Perder seus privilégios desde a fundação da Colônia.
Foram oito anos em que as instituições políticas, educacionais, culturais, policiais, jurídicas e econômicas encontraram-se controladas, de modo autoritário, pelo Estado Novo, assim conhecido em 10 de novembro de 1937, conforme publicado, no Diário Oficial da União. Com ele, veio a Nova Constituição, promulgada no dia em que se institucionalizou a repressão e o terror de Estado, afiançado pelo poder absoluto ao Presidente. Para Lombardi e Lima (Idem, p. 12),
[...] o golpe de 1930 não foi apenas uma tomada do poder por uma determinada classe social, num quadro social e político heterogêneo. Ocorreu como que uma troca das elites no poder sem grandes rupturas, resultando na queda dos quadros oligárquicos tradicionais, ascendendo no cenário político os militares, os técnicos diplomados, jovens políticos e os industriais.
É possível compreender o momento histórico para desvelar as intenções da elite brasileira - que apenas trocou as vestes e Vargas foi capaz de ajudar a vesti-la com um movimento conhecido como “golpe” apoiado pela classe dominante. Mudou as regras, fazendo uso da força. Em outubro de 1930, Washington Luiz, Presidente da República, foi destituído do poder por movimentos armados - que se iniciaram no sul do país - e teve o apoio de outras regiões importantes. A retirada do Presidente do poder foi a conclusão de um processo de crise, caracterizado como revoluções, que se iniciaram no ano de 1920. Romanelli (2012, p. 49) explica que:
O que se convencionou chamar de revolução de 1930 foi o ponto alto de uma série de revoluções e movimentos armados que, durante o período compreendido entre 1920 e 1964, se empenharam em promover vários rompimentos políticos e econômicos com a velha ordem social oligárquica. Foram esses movimentos que, em seu conjunto e pelos objetivos afins que possuíam, iriam caracterizar a Revolução Brasileira, cuja meta maior tem sido a implantação do capitalismo no Brasil.
Essas rupturas caminharam para o assentamento das colunas da economia e da política, por meio de acordos que visavam garantir o mercado. Não há como esquecer que o mundo enfrentava, naquele momento da história, um reordenamento na estrutura de acomodação do sistema capitalista. E nada mais eficaz do que uma crise para readaptar o roteiro de consolidação dos elementos de controle e regulação de produção, capitaneadas pelo Estado a serviço do capital. No período anterior à revolução de 1930, marcado pela acumulação primitiva do capital, o mercado brasileiro não pode ser sustentado via empréstimos, pelo capital internacional.
A crise de 1929 derrubou as principais bolsas do mundo e estrangulou os mercados dependentes; foi o apogeu de um processo econômico decadente. A estrutura produtiva brasileira - que era baseada na superprodução de modelo agrário exportador - chegou ao seu ápice. Um excedente de produção sem controle e desnecessário fez com que a economia brasileira mergulhasse em crise. Getúlio Vargas foi capaz de se adaptar a cada mudança do cenário internacional naquele período histórico. Em verdade, o Estado Novo, resultou da consolidação da Revolução de 1930 e do fortalecimento do papel do Estado no desenvolvimento do capitalismo nacional, incrementando a industrialização.
Foi o período da conciliação entre o capital e o trabalho. A resposta que o Estado modernizante/conservador capitalista brasileiro deu às inúmeras revoltas das classes trabalhadoras da época. As mudanças foram estruturais e se consolidaram de forma tardia: o capitalismo brasileiro, à sombra da proteção do Estado. Foi um golpe político em que se perderam as poucas garantias individuais e como tal instituiu-se a Lei de Segurança Nacional, que autorizava o governo a prender qualquer pessoa sem mandado judicial, sem qualquer tipo de inquérito. Opositores ao regime foram presos, torturados e alguns levados à morte. A pena de morte passou a existir e a liberdade de imprensa foi revogada.
O Estado foi aparelhado para garantir o funcionamento de determinadas políticas públicas, com especial atenção à educação (ensino pré-vocacional e profissional). Foram criados o Ministério da Educação e Saúde (MES), o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), a União Nacional dos Estudantes (UNE), o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), o Serviço
Nacional de Radiodifusão Educativa (SNRE), o Departamento Nacional da Criança (DNC) e o Serviço de Assistência a Menores (SAM), além da Consolidação das Leis de Trabalho. Com essas políticas públicas, Getúlio Vargas, apesar das controvérsias que o cercam, entrou para a história como “pai dos pobres”, expressão que o manteve no imaginário popular.
O campo de disputa em torno da escola pública e da prática dos professores ganhou força nos anos de 1930, por influência do movimento da Escola Nova. Para Xavier (1980, p.18): “O escolanovismo veio apenas justificar e reafirmar esse compromisso da educação brasileira com a ordem estabelecida, no momento em que algumas alterações se verificam nessa mesma ordem, com a ascensão da nova burguesia industrial”. Naquele primeiro quarto de século havia poucas escolas no Brasil. As bandeiras do acesso e da permanência foram levantadas, naquele momento, pelos expoentes do Manifesto dos Pioneiros (1932) que exigiam, entre outras questões relevantes, as mudanças no cenário educacional brasileiro.
Em 1930 uma nova etapa da educação brasileira se iniciou. Os processos educacionais, impregnados dos direcionamentos à elite latifundiária, agora passam a ter a seletividade como fundamento. O modelo imposto à classe trabalhadora era baseado na flexibilidade do acesso, culminando nos altos índices de evasão e de repetência dos alunos filhos dos pobres. Antes, os pobres não tinham acesso à educação, ocorreu que, nesse momento, o acesso foi permitido, os mecanismos de controle e exclusão se fortaleceram numa escala ascendente e acompanharam as práticas e as relações de ensino.
Os elementos essencias para implantação e consolidação do Estado mínimo no contexto neoliberal estavam em pleno processo de ressignificação desde o início do século XX. O Estado brasileiro apenas corroborou com a entrega da educação pública e com a tentativa de caracterização de um viés conflituoso entre público e privado. No contexto educacional, as mudanças estavam relacionadas às necessidades do processo de industrialização, que tomava o país e o mundo. O analfabetismo precisava ser erradicado, com a pretensão de preparar o trabalhador urbano para o mercado de trabalho. Feito sob medida para atender à elite, o sistema educacional não correspondia aos interesses do momento.
Era preciso escolarizar o trabalhador, adestrá-lo para o manuseio das máquinas de produção em escala e para o convívio na cidade. Para os trabalhadores que não aprenderam a ler e a escrever foi implementado o ensino supletivo. Para os filhos dos trabalhadores, a escola dos pobres. Uma outra escola para os ricos e outra para os filhos da classe média. A elite, na primazia do acesso e condições para estudar e adquirir conhecimentos ilimitados; e, finalmente, chegar até a universidade. Aos trabalhadores restava a condição de adestramento mecânico, para o aprendizado limitado às operações básicas.
A reforma Francisco Campos trouxe acontecimentos importantes que merecem destaque: a criação do Conselho Nacional de educação; do Estatuto da Universidade Brasileira; a reforma do Ensino Secundário. Destaque para o ensino superior, em detrimento à ausência de representatividade dos níveis primário e profissional. A ênfase no ensino superior faz parte da estrutura seletiva da escola primária e, também, da secundária. A reforma Gustavo Capanema, com as suas Leis orgânicas e a organização do ensino técnico profissional e do ensino Industrial Básico, promoveu profundas transformações na sociedade, na educação e no trabalho docente. O primeiro ciclo do Ensino Secundário passou a se chamar Ginasial e o segundo ciclo a ser chamado de Colegial, identificados como Clássico e Cientifico. O Ensino Superior continuou com a mesma estrutura e recebendo integralmente a atenção.
Entre caminhos e descaminhos, a educação brasileira seguia o seu curso, para viver outras transformações. Entre 1946 e 1964 o povo brasileiro presenciou um período evidenciado pela democratização. Isso não significou a ascensão dos direitos ou a ampliação das garantias coletivas. A controvérsia que acompanha a sociedade brasileira está presente no discurso. O ato adicional, assinado por Getúlio Vargas em 1945, convocando eleições diretas e informando a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, fez eclodir os setores políticos e uma movimentação foi possível. Para Francisco Filho (2014, p.100),
O continuísmo estava desenhado, ‘todos conheciam Vargas’. Os comunistas e o PTB lançaram o ‘Queremismo’, isto é, queriam que Vargas continuasse no poder. Houve articulação dos grupos que não concordavam com os rumos da política e, em 29 de outubro de 1945, Vargas foi deposto pelos militares. O General Eurico Gaspar Dutra disputou as eleições pelo PTB e PSD, contra o Brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, ambos participaram do governo Vargas e ajudaram a derrubá-lo. (Grifos do autor).
A nova Constituição foi promulgada em 1946. Getúlio Vargas ressurgiu nas eleições seguintes e é eleito com o apoio de segmentos diversos e de interesses opostos. Momentos conturbados se aproximam. Vargas, acuado por uma série de denúncias, comete suicídio. Sucederam Getúlio Vargas, três Presidentes, num breve espaço de tempo, até a chegada de Juscelino, que governou sob o jugo das forças militares e para o interesse dos Estados Unidos. Romanelli (2012, p. 53) explica que é difícil chegar a um consenso sobre o que representou o Estado Novo para a vida nacional,
Para uns, ele foi o golpe de morte nos interesses dos latifundiários e o favorecimento dos interesses da burguesia industrial. Para outros, ele favoreceu as camadas populares, com amplo programa de Previdência Social e Sindicalismo. Para outros, ainda, ele foi o resultado da união de forças entre
o setor moderno, setor arcaico e o capital internacional, contra os interesses das classes trabalhadoras.
No campo educacional viviam-se, no Brasil, as tendências da Escola Nova que tinham como alicerce as teorias de Rousseau (1712 a 1778) e de outros filósofos liberais. As ideias influenciaram o educador americano Dewey (1859 a 1952) e chegaram ao Brasil trazidas por Teixeira (1967). No cenário mundial as potências bélicas EUA e URSS, apostavam no Behaviorismo que forneceu o campo epistemológico e metodológico da educação. Era a prática de condicionar comportamentos. Skinner (1904 a 1990) nos Estados Unidos e Pavlov (1849 a 1936) na União Soviética influenciavam, com ênfase para as escolas militares.
A educação no Estado Novo constituiu-se um campo mediador para dirimir os conflitos sociais e conformar a população à ordem social nascente. Para os estudantes originários das camadas médias e altas da sociedade, a ideia era cursar o primário, o secundário em seus dois ciclos (ginásio e colégio) e a profissionalização no ensino superior. Para os filhos das camadas baixas da população restava, quando muito, cursar o primário e entrar no ensino secundário profissionalizante em dois ciclos (o primeiro de quatro anos e o segundo de três anos). As estudantes que fizessem o Ensino Normal, por exemplo, só poderiam frequentar o Ensino Superior em um dos cursos da “Faculdade de Filosofia”.
Essa educação atendia a um novo processo de desenvolvimento econômico que requeria um novo perfil da força de trabalho urbana, o que necessitou de um certo tipo de escolarização. O sistema S foi necessário e profissionalizou, de forma aligeirada, a massa trabalhadora. Todo o sistema S era coordenado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). Enfim, a educação no Estado Novo possuía um carácter propedêutico, para aqueles de melhor posição na pirâmide social e um caráter “profissionalizante precoce” para as classes menos favorecidas, atendendo, assim, aos desejos da classe empregadora, sancionando a ordem dominante. O setor educacional foi um dos principais meios para que o Estado Novo atingisse seu intento. Essa conjuntura foi marcada por uma sucessão de crises políticas, entrelaçadas com outras de natureza econômica e social que culminaram na deposição de Getúlio Vargas do poder em 1946, no seu retorno em 1950, em sua saída definitiva, em 1951, com seu ato de atentado à própria vida.
Com o fim do Estado Novo, a Constituição de 1946 retomou, em linhas gerais, o capítulo sobre educação e cultura da Carta de 1934, iniciando-se assim o processo – que durou 15 anos de discussão - do que viria a ser a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Nesse período, segundo Montalvão (2010), dois grupos disputavam qual seria a filosofia por trás da primeira LDBN. De um lado estavam os estatistas, ligados principalmente aos partidos
de esquerda. Do outro, os liberalistas, de centro e de direita. Os primeiros defendiam que os recursos do Estado deveriam ser empregados na manutenção e na expansão das escolas oficiais, que deveriam ministrar um ensino obrigatório, gratuito e laico. Os segundos argumentavam que esses recursos deveriam ser transferidos às instituições particulares, que ministrariam o ensino, conforme as orientações ideológicas das famílias, cabendo ao Estado apenas ocupar o espaço não preenchido pela iniciativa privada. Nessa disputa, as ideias dos liberalistas se impuseram sobre as dos estatistas, na maior parte do texto aprovado pelo Congresso.
No entanto, é importante destacar que a Lei 4024/1961 estabeleceu novos conceitos e apontou os fins de outro projeto para a educação nacional. Pelo texto da Lei, a educação tem como princípios: a liberdade e a solidariedade (Art. 1º). Nos demais incisos que são ordenados por letras do alfabeto (de “a” a “g”) reafirma-se o comprometimento com o desenvolvimento da cidadania, da unidade nacional, da identidade brasileira, da dignidade, da participação social. Enfim, princípios que prezavam pelo bem-estar comum. Entre 1937 e 1945, o que se viu foi uma ditadura desencadeada por um “golpe” de Estado, que instituiu a Constituição do Estado Novo, cujas premissas foram voltadas para a repressão das liberdades políticas, defesa da ordem social e perseguição aos opositores. A história se repetirá em 1964.