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3.3 Nasceu a República: nova?

3.3.3 O Golpe Militar de 1964: a longa noite

A história de autoritarismo é mais comum do que se pode imaginar. Em algumas situações esse autoritarismo ocorreu por consenso; em outras por coerção e repressão explícita, com desrespeito às garantias dos direitos individuais. Foi assim com o golpe de 1964 e continua sendo assim com a “onda ainda não quebrada” do golpe de 2016. Portanto, a sociedade brasileira vive sob o signo do autoritarismo. A educação brasileira é uma arena de conflitos. Ocorreu que esse campo de disputa foi montado nas sombras. A despeito da ampla maioria da sociedade, a elite brasileira soube que a escola teria um papel decisivo na orientação de um caminho; restou a essa elite acomodar suas intenções e práticas num único sentido, o de exploração dos necessitados.

Não foi diferente com a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei 4024/1961, que fez uma transição superior a uma década, avançando e retrocedendo entre os bastidores do parlamento brasileiro. De um lado, os católicos e, do outro, os escolanovistas e, em meio, as divisões e interesses. Em assim sendo, os professores, os alunos e um projeto de sociedade foram condenado ao atraso. E por traz das instituições participantes estavam os interesses pelo controle das práticas e pela gestão do conhecimento. A educação por si só não

é capaz de transformar as relações. Há um limite e este limite reside na lógica do Estado capitalista que funda suas relações nas condições de produção da escola. É importante destacar que a Lei 4024/1961 estabeleceu novos conceitos e apontou os fins de um outro projeto para a educação nacional. Pelo texto da Lei a educação tem como princípios: a liberdade e a solidariedade (Art. 1º). Nos demais incisos que são ordenados por letras do alfabeto (de “a” a “g”) reafirma-se o comprometimento com o desenvolvimento da cidadania, da unidade nacional, da identidade brasileira, da dignidade, da participação social. Enfim, princípios que prezavam pelo bem-estar comum.

A realidade dos anos de 1960 chegou a um ponto de tensão tal, que as elites não aceitavam quaisquer concessões, tendo em vista as pressões advindas da Guerra Fria e o terror onipresente com a Revolução Cubana de 1959. Nisto, a operação para intervir no Brasil começou por volta de 1961. O Departamento de Estado americano, naquele ano, principiara a diligenciar ao Itamaraty vistos para cidadãos americanos, que entravam no país, sob as mais distintas camuflagens (religiosos, jornalistas, comerciantes, organizações pela paz etc.), conduzindo a maioria para as regiões do Nordeste e do Norte.

O caminho para o “golpe” estava aberto. Era só uma questão de tempo. Este chegou em 1964. Desde então, a educação brasileira sofreu profunda mudança de rota e no campo ideológico, servindo ao capital. Em outros termos, o ensino conservador e a hegemonia estão com os empresários da área. Em depoimento11 à Comissão da Verdade, o professor Cunha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelou:

Quero tratar de um ponto, creio que é importante para o primeiro aspecto e para o segundo aspecto, que é tratar de um dos vetores da política educacional da ditadura que estão presentes neste momento e que estão ativos. Eu usei a expressão “vetor” numa metáfora matemática. Mas, se por acaso algum dos presentes quiser usá-la no sentido da epidemiologia, por exemplo, de um inseto que leva vírus para contaminar outras populações, também está funcionando, também cabe essa metáfora. Eu selecionei para tratar hoje um dos vetores, não é o único, um dos vetores das políticas educacionais da ditadura que estão ativos, estão presentes. A ditadura não inventou a dualidade setorial público/privada na educação, tampouco inventou a simbiose Estado/capital na economia. O que ela fez foi intensificar essa dualidade fundante da educação brasileira e combiná-la, de modo peculiar, com os níveis de ensino, o superior e o básico.

O “golpe” final na educação pública, retirando a responsabilidade do Estado na oferta, manutenção e preservação da mesma, transferindo para a inciativa privada, ocorreu por meio

11 Depoimento de Luis Antônio Cunha durante a 126ª audiência pública da Comissão da Verdade do estado de São

da legislação. O Estado brasileiro, quando legaliza a privatização da educação, desresponsabilizou-se da sua obrigação de fornecer uma educação de qualidade, abalizado no cultivo de uma ideologia de que o público é ineficiente e de que o privado é eficiente. Ao não investir em educação pública, dificultou o acesso e a permanência da população na educação formal. Quanto ao trabalho docente, foi, cada vez mais, sendo precarizado, vez que a desvalorização ocorreu por dois meios centrais: desqualificação do corpo docente e achatamento salarial.

O movimento de sucateamento da educação pública foi permanente, por mais de quatro décadas, com o Brasil chegando ao final do século XX com um dos piores índices educacionais. O “Golpe” está sob a linha de interpretações estruturalistas e funcionais, fundamentada no processo econômico, social e político que conduz à tomada de poder pelas Forças Armadas Nacionais, com o apoio de parcela de grupos sociais civis econômicos poderosos. Esses grupos dominam o país, numa linha histórica de longa duração. Essa é uma vertente analítica da pesquisa histórica desenvolvida por Braudel (2005) que defende a dialética das durações, cuja ideia é o de ligar, de relacionar, de articular os desiguais tempos da história. Esse conceito é fundamental para o trabalho por mim realizado, pelo simples fato da peculiaridade histórica brasileira. Daí a necessidade de se dar maior importância à história da longa duração. Nas palavras de Braudel (2005, p. 72),

De fato, as durações que distinguimos são solidárias umas com as outras: não é a duração que é tanto assim criação de nosso espírito, mas as fragmentações dessa duração. Ora, esses fragmentos se reúnem ao termo de nosso trabalho. Longa duração, conjuntura, evento se encaixam sem dificuldade, pois todos se medem por uma mesma escala. Do mesmo modo, participar em espírito de um desses tempos, é participar de todos.

O processo de industrialização tardia atingiu um ponto crítico tal que acabou por gerar conflitos, cujo domínio se fez por meio da regulação autoritária do Estado. Daí que a democracia é quase uma quimera, os “golpes” políticos revelam as contradições do modelo agrário-exportador e desenvolvimentista, assim como dos pactos populistas, que originaram concentração de renda, à dependência econômica internacional do País e o acirramento do conflito social (político-ideológico). Há uma ideia da inevitabilidade do “Golpe”, ocasionado pelas mudanças no padrão de acumulação de capital, como se está a presenciar hoje.

Compreender como os discursos dominantes acerca da educação e do trabalho docente foram produzidos durante os “golpes” de Estado é uma tarefa fundamental para se pensar o papel da educação, em meio a essa conjuntura, que se processa à sombra dos ditames do sistema capitalista.

É necessário colocar o que significa a palavra “golpe”. Mais do que uma palavra ou uma expressão, “golpe” é um acontecimento caracterizado por uma ruptura conjuntural de grandes proporções que afeta o campo da economia, da política, das políticas sociais, educacionais e culturais. Um ato unilateral que se manifesta na ausência de solidificação democrática. Um mecanismo de força utilizado para ampliar privilégios e/ou suprimir direitos. Dispositivo que busca dar legitimidade a governos autoritários e sem a representação do povo. Para Lombardi e Lima (2017, p. 1) “golpe” é:

A derrubada de um governo constitucionalmente legítimo, podendo ser violento ou não. É golpe porque promove uma ruptura institucional, contrariando a normalidade da Lei e submetendo o controle do Estado a alguém que não foi legalmente designado para o cargo. É golpe mesmo quando o impedimento estiver previsto na Lei maior de um país, mas as condições formais para tanto não forem respeitadas pelos poderes do Estado – executivo, legislativo ou judiciário – como ocorrido em vários países da América Latina, ontem e hoje.

A palavra “golpe” vem do latim Colpus, deriva de colaphus que significa movimento de força. Esse movimento pode ter outros sentidos, ou significar uma ação de governos, de grupos ou de pessoas para tomar o poder. Independente de onde for empregada essa estratégia tem características que não se coadunam com práticas de um Estado caracterizado pela democracia.

As circunstâncias e a forma como se desenvolvem esses movimentos são importantes para a definição da palavra “golpe”. Uma das características é a presença de um Estado que concentra suas ações em suas instituições e, em regra, por meio das armas e com o uso desmedido da força. No bojo do processo de implantação do “golpe” é o Estado, ou parte dele, a serviço de uma classe que subjuga e que faz da exceção a regra.

Não é demasiado lembrar que “golpes” de Estado ocorreram na maior parte dos países, que estão no processo germinal democrático. Geralmente ocorre em Estados com fendas nas estruturas democráticas, impedindo o funcionamento dos mecanismos democráticos de direito. Segundo Lombardi e Lima (2017, p. 2),

[...] no caso do Brasil, os golpes não foram mera disputa no campo das ideias, ou de uma cultura golpista como herança maldita de um passado colonial. Como ocorre em grande parte da periferia capitalista, certamente que é uma ação política que vem desde os tempos da Colônia; entretanto, não se pode esquecer que o golpismo tem uma profunda base material, econômica, e que no plano social e político expressa a luta entre classes e frações de classe.

Na atualidade, a história tem mostrado que, de tempos em tempos, o capital, que vem de uma profunda crise desde os anos 20 do século XX, tem-se utilizado dos espaços democráticos para manutenção de suas premissas básicas de funcionamento, todas elas ancoradas no princípio da exploração da classe trabalhadora. Os “golpes” de Estado têm-se repetido com alguma frequência, na forma de rupturas, camufladas pela história contada pela classe dominante. É possível fazer uma outra leitura desse contexto histórico. A esse respeito afirmam Lombardi e Lima (Idem, p. 2),

[...] na Colônia eram os senhores (metropolitanos) x indígenas e/ou negros (escravos) e depois os homens livres da terra. No império a estrutura social pouco mudou, mas a luta já se passava nos quadros de uma monarquia nacional com feições lusitanas.

As elites brasileiras consideraram que os que vivem do trabalho não passam de uma massa de manobra, e é por meio dos pleitos eleitorais, do clientelismo, do fisiologismo e da cooptação que se processa o discurso ideológico dominante e busca convencer parte da sociedade de que as rupturas institucionais ocorreram para o bem de todo povo. Como é possível perceber no editorial do jornal “O Globo” do dia 02 de abril de 1964,

Ressurge a Democracia! Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir- se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a Lei e a ordem.

Convencer os trabalhadores de que eles fazem parte dos espaços de decisões é uma tarefa inglória. Não se pode esquecer de que há frações de estruturas como sindicatos, as ligas, os movimentos sociais que se contrapõem a mecanismos de controle, e buscam provar a existência da luta de classes, dissimulada pelo fetiche da ideologia burguesa dominante.

Sob o discurso da necessidade de garantir a ordem e a segurança para o progresso e o desenvolvimento do país, o que significa, garantir a segurança e o funcionamento do Estado burguês, no passado e no presente, os donos do poder, representados pelas forças repressivas, atuaram e atuam para criminalizar e conter as organizações da sociedade. Quando lhe é conveniente, a burguesia se utiliza das instituições do Estado para destruir e descaracterizar as instâncias de lutas e desmobilizar os anseios sociais por meio das polícias, da justiça e até as forças armadas.

Tornou-se evidente que, para o capital garantir o controle dos efeitos de sua crise estrutural e por não poder solucioná-la, na sua gênese, pelo processo de decadência do modo de produção faz-se necessária a utilização de mecanismos de controle, contenção, organização

e defesa dos seus interesses. Alguns desses mecanismos estão dispostos nas Leis e principalmente nas Constituições das nações.

O capital, em benefício da burguesia, investiu-se do poder a ele disposto nas estruturas jurídicas para garantir sua manutenção. Quando esse ordenamento legal não funciona ou cria impedimentos para o seu fluxo de exploração, quaisquer que sejam os motivos, o controle das instâncias de poder e as Leis são alteradas. Quando os mecanismos não estão previstos, forjam- se outros meios, para se atingir seus desígnios, e um desses acontecimentos são os “golpes” de Estado”. A esse respeito diz Lombardi; Lima (2017, p. 3),

Num estado de Direito, nesse momento, entram em funcionamento processos democráticos de alteração da Carta Magna do Estado–Nação, quer seja através de Emendas Constitucionais ou de uma ampla Constituinte. Em Estados débeis e frágeis, característicos da periferia do mundo capitalista, sob o Imperialismo e a hegemonia de um capital monopolista, controlado pelo capital financeiro internacionalizado, realiza–se a quebra do ordenamento jurídico, através de um golpe de Estado. (Grifos dos autores).

Os “golpes” de Estado estão associados às crises econômicas e, aos ditames da classe dominante e do sistema financeiro internacional. Ao menor sinal de perda de lucro, as institucionais financeiras e as que deêm o modo de produção, donas de grande parte das representações políticas, arquitetam rupturas no seio do frágil Estado democrático. Há uma característica evidenciada na postulação dos “golpes”, uma espécie de justificativa, uma motivação para que tudo possa ser executado. Em 1964, ano da consumação do golpe militar e empresarial, frações da sociedade brasileira, afetadas pelo discurso dominante, atribuíam ao comunismo as tragédias do mundo. O ponto de partida para se justificar as mortes, as torturas e o desprezo pela democracia foi a luta contra os comunistas e a restauração da “ordem e do progresso”.