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Adam Smith e a mudança da imagem dos pobres

elaboração de leis na comunidade política, e divide essa comunidade em grupos hostis que não se dispões a submeter seus interesses aos de todos, que alimentam um "ódio mútuo entre os cidadãos" e "indiferença à causa comum"107. A desigualdade econômica é, por isso, um obstáculo à verdadeira democracia, já que "Proteger os pobres contra a tirania dos ricos é a mais importante das tarefas do governo, e já é tarde demais para fazer isso quando há pessoas muito ricas e pessoas muito pobres."108. Melhor é, antes de tudo, "impedir a desigualdade extrema de fortunas", e organizar a economia política de maneira que ninguém venha a ser muito pobre.

Nessa esteira, a distribuição de propriedade entra nas preocupações de ROUSSEAU indiretamente, por meio do entendimento que tem ele da cidadania.

Preocupa-se ele com o pobre na medida em que é um cidadão, e não à medida que é simplesmente um ser humano. 109

com ROUSSEAU e KANT, como colaborador à idéia do que hoje denominamos como justiça distributiva.

Dessa forma, o foi pelas recomendações distributivas que fez em "A Riqueza das Nações", onde postula que a riqueza pode ser distribuída ao menos de duas das três maneiras que se pode haver: por meio da transferência direta de propriedade dos ricos aos pobres; através da tributação dos ricos com taxas mais elevadas que aos pobres; ou pelo emprego de receitas fiscais para prover recursos públicos em benefício sobretudo dos pobres. SMITH fez propostas nas duas primeiras linhas. 111

A contribuição mais importante, que também vem de encontro com este nosso presente trabalho, é a defesa da educação pública. Nessa trilha, descreve SMITH112 o entorpecimento mental produzido por certos tipos de trabalho como um dos maiores perigos presentes em uma economia avançada e sustenta que o Estado deve tomar iniciativas no sentido de garantir que os pobres que trabalham tenham uma educação que lhes dê capacidade de julgamento moral e político. Recomenda-o que o Estado sustente escolas locais que ensinem a ler, a escrever e que também ensinem "os rudimentos da geometria e mecânica"113. Mas empregar fundos públicos para dar apoio a instituições como essas significa, na prática, tirar recursos dos ricos e transferi-los aos pobres. 114 Nessa linha, propôs em linhas gerais idéias de tributação que implicariam na transferência de recursos dos ricos aos pobres, como, p.ex., um pedágio mais alto aos veículos de luxo que aos veículos de carga. 115

Dessa forma, como aponta HIMMELFARB116: "era a imagem dos pobres que estava implícita em tais políticas". E mais: "se A Riqueza das nações não foi

111 FLEISCHACKER, Samuel. “Uma breve história da justiça distributiva”, trad. Álvaro de Vitta. São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 92

112 SMITH, Adam. "An inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations". Org. R. H. Campbell, A.S. Skinner e W.B. todd. Oxford: Oxford University Press, 1976. Trad. bras. "A riqueza das nações", são Paulo, Martins Fontes, 2003, p. 782-788

113 Id ibidem, p. 785

114 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 92

115 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit., p. 93

116 HIMMELFARB, Gertrude. "The Idea of Poverty". New York: Alfred A. Knopf, 1984, p. 62

tão original em suas teorias do dinheiro, comércio ou valor, essa obra foi genuinamente revolucionária em seu modo de ver a pobreza e em sua atitude em relação aos pobres"117.

Adam SMITH mudou nossa noção do que a questão da pobreza é, seus predecessores a viam como o problema de como lidar com os vícios e a criminalidade das classes inferiores.118 Até o fim do século XVIII, a maioria dos cristãos acreditava que Deus havia ordenado uma organização hierárquica da sociedade, com pessoas verdadeiramente virtuosas ocupando e dispondo de posições de riqueza e poder e, abaixo,

"os pobres e inferiores"119. Entendia-se a caridade como um meio de redenção, e a existência de pessoas pobres como parte do plano divino para a vida humana. Como ilustra as palavras do humanitarista Isaac WATTS: "o grande Deus sabiamente ordenou que entre a humanidade houvesse alguns ricos e alguns pobres: e a mesma Providência designou aos pobres os serviços menores"120.121

Nessa toada, SMITH122 foi um adversário ferrenho da idéia de que os pobres, em algum sentido, são inferiores aos ricos, repetidas vezes em "A Riqueza das Nações", alfineta a vaidade que sustenta uma imagem desdenhosa das virtudes e habilidades dos pobres. Apresenta-o os pobres como pessoas que possuem as mesmas aptidões naturais que quaisquer outras pessoas. De forma que: "As diferenças de talentos naturais em homens diferentes são, na realidade, muito menores do que estamos cientes".

O hábito e a educação contribuem para a maior parte daquela lacuna supostamente grande

117 Id ibidem, p. 46

118 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p 94

119 Id ibidem

120 BAUGH, Daniel A.."Poverty, Protestantism and Political Economy: English Attitudes toward the Poor, 1660-1800". Em: "England´s Rise to Greatness", Org. Stephen Baxter. Berkeley: University of California Press, 1983., p. 80

121 Nas palavras de BAUGH: "(...)A atitude dominante (em 1750) supunha que jamais se deveria tirar os pobres da miséria, nem encorajar seus filhos a olhar para além do arado ou do tear. essa atitude refletia noções tradicionais de hierarquia social e era reforçada por teorias econômicas sobre o trabalho e a motivação. A outra atitude derivava principalmente da ética cristã. Ela sustentava ser dever dos ricos tratar os pobres com bondade e compaixão, e ajudá-los em tempos de adversidade. essa atitude benevolente não oferecia uma base apropriada para elaborar planos de ação política(...)lembrete de que as massas trabalhadoras imundas e mal-vestidas(..)eram igualmente criaturas de Deus, a quem a comunidade não podia excluir nem ignorar."

BAUGH, ob. cit. p. 83

122 FLEISCHACKER, Samuel. “Uma breve história da justiça distributiva”, trad. Álvaro de Vitta. São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 96

que existe entre o filósofo e o carregador de rua comum, ainda que "a vaidade do filósofo não está disposta a reconhecer quase nenhuma semelhança"123.

Desse modo, SMITH nos apresenta uma idéia notavelmente dignificadora dos pobres, na qual fazem escolhas que em tudo são tão respeitáveis quanto às de seus superiores sociais, portanto, na qual não há, em absoluto, pessoas verdadeiramente superiores e inferiores. Propõe-nos a vermos a pessoa pobre como nossos amigos, parentes ou a nós próprios, iguais a todos os seres humanos em inteligência, virtude, ambição e interesses, e assim, iguais em direitos, méritos e dignidade.124

Na da moderna noção de justiça distributiva, é essencial que se acredite que os pobres merecem certos tipos de auxílio, e, neste sentido, o retrato que SMITH faz dos pobres ajudou a dar origem a esta noção moderna.125 Assim, sua concepção dos pobres e do que os pobres merecem contribuiu para o surgimento da noção tipicamente moderna de que para o Estado é um dever, e não um ato de graça, aliviar ou abolir a pobreza.126