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Kant e o valor igual entre os seres humanos

que existe entre o filósofo e o carregador de rua comum, ainda que "a vaidade do filósofo não está disposta a reconhecer quase nenhuma semelhança"123.

Desse modo, SMITH nos apresenta uma idéia notavelmente dignificadora dos pobres, na qual fazem escolhas que em tudo são tão respeitáveis quanto às de seus superiores sociais, portanto, na qual não há, em absoluto, pessoas verdadeiramente superiores e inferiores. Propõe-nos a vermos a pessoa pobre como nossos amigos, parentes ou a nós próprios, iguais a todos os seres humanos em inteligência, virtude, ambição e interesses, e assim, iguais em direitos, méritos e dignidade.124

Na da moderna noção de justiça distributiva, é essencial que se acredite que os pobres merecem certos tipos de auxílio, e, neste sentido, o retrato que SMITH faz dos pobres ajudou a dar origem a esta noção moderna.125 Assim, sua concepção dos pobres e do que os pobres merecem contribuiu para o surgimento da noção tipicamente moderna de que para o Estado é um dever, e não um ato de graça, aliviar ou abolir a pobreza.126

A justiça pública consistiria na "justiça protetora", na "justiça comutativa" e na "justiça distributiva". De forma que se poderia supor que as duas primeiras dividem o trabalho feito pela "justiça corretiva" aristotélica, ou da "justiça expletiva" de GRÓCIO, enquanto a terceira corresponderia à "justiça distributiva" de ARISTÓTELES ou à "atributiva" grociniana; porém o que ele faz é proceder como frequentemente o faz, com base no modelo das tricotomias epistemológicas introduzido na sua "Crítica da razão pura", de sorte que os três tipos de justiça corresponderiam, respectivamente, à "possibilidade", à "realidade" e à "necessidade" da lei.127

A "justiça protetora" deveria nos dar a forma da lei - o que torna a lei possível -, a "justiça comutativa" o conteúdo da lei - sua realidade-, já a "justiça distributiva" o mecanismo pelo qual as leis se fazem cumprir - se tornam "necessárias - coercitivamente. Esta, "distributiva", consiste no uso dos tribunais para aplicar leis e casos específicos, e a presença da "justiça distributiva", assim, é o que assinala a diferença entre ter governo e viver no estado de natureza128; a "justiça distributiva" é coercitiva na imposição de leis, assinalando por tal alcunha que os tribunais "distribuem" a cada um de nós os direitos que, de outra forma, só teríamos em princípio129.

Como nos aponta FLEISCHACKER, o único predecessor de KANT que assim se utiliza da expressão "justiça distributiva é Thomas HOBBES: "a justiça distributiva, a justiça de um árbitro, é o ato de definir o que é justo", rejeitando assim a distinção comutativa/distributiva, sendo alegada pelo jurista de Chicago como evidência de que ele não conhecia ou não levava em consideração a literatura corrente da tradição do direito natural130.

No tocante à "igualdade", todo ser humano teria um direito igual às coisas boas que a natureza propicia, devendo a caridade ser vista como uma dívida de

127 KANT, Immanuel. "The Metaphysics of Morals". Trad. Mary Gregor, introdução de Allen Wood.

Cambridge: Cambridge Universit Press,p. 120. FLEISCHACKER, Samuel. “Uma breve história da justiça distributiva”, trad. Álvaro de Vitta. São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 100-101

128 KANT, Immanuel. "The Metaphysics of Morals". p. 121

129 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 101

130 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit., p. 222

honra, e não como uma exibição de bondade ou generosidade, com efeito, como uma compensação pela dívida que temos para com os outros.131 KANT defenderia que os benefícios aos pobres fossem fornecidos pelo Estado; onde o Estado cobra impostos para prover aos pobres, todos passam a ter uma obrigação de contribuir, e o auxílio aos pobres se torna um direito132 e não um favor.

Aliada à questão do auxílio aos pobres, em que KANT recomendava que o Estado propiciasse uma outra maneira de ajudá-los que não a caridade privada, estaria incluído no contrato social que o governo "obrigue os ricos a prover os recursos de subsistência àqueles que não têm como satisfazer suas necessidades naturais básicas"133.

De maneira mais clara e explícita do que seus predecessores, KANT proclamou o valor igual de todos os seres humanos; todo ser humano, todo ser racional,

"existe como um fim em si mesmo e não somente como um meio"134, tem um "valor absoluto"135, e por essa razão, um valor igual. Assim, estabelece-se a premissa para a justiça distributiva/social, para a qual vimos ser muito difícil no pensamento aristotélico;

não mais as pessoas tem valor porque têm "virtudes", mas sim porque são humanas e são igualmente merecedoras de uma vida boa, e ajudá-las para que ao menos tenham o mínimo de bens de que precisam para exercitar suas vontades racionais, agora passa a ser visto como um dever, e não um ato de bondade.136 No mais, o dever de ajudar outros seres racionais é o quarto dos seus exemplos de "ação moral", constante na "Fundamentação.."137

131 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit., p. 106

132 "Obrigação esta que pode ser igual a todos - em termos absolutos -, como uma proporção da renda, ou como uma proporção da renda disponível, isto é, daquela que não é empregada em gastos necessários. O segundo desses dois tipos de igualdade abre lugar para a progressividade na tributação". In:

FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 225

133 KANT, Immanuel. "The Metaphysics of Morals". Trad. Mary Gregor, introdução de Allen Wood.

Cambridge: Cambridge Universit Press, p. 136. In: FLEISCHACKER, Samuel. “Uma breve história da justiça distributiva”, trad. Álvaro de Vitta. São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 107

134 KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York:

Macmillan, 1959, p. 428

135 KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York:

Macmillan, 1959, p. 428, p. 435

136 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 108

137 KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York:

Macmillan, 1959, p. 423

Ademais, KANT interpreta a natureza humana de modo que todos temos um conjunto de potenciais para a ação plenamente livre que só podemos realizar se vivemos em condições naturais e sociais favoráveis.138 Nessa trilha, o terceiro exemplo de ação moral que se nos apresenta KANT em sua "Fundamentação.."139, fala-nos da obrigação que todos temos de desenvolver nossos talentos ou dons, o que fornece fundamento para o que - na sua "Crítica do juízo", ele chama de Cultur: realização de todas as capacidades humanas, por meio do progresso político, econômico e educacional em sua forma mais plena.140

Dessa forma, considerando-se que o desenvolvimento das potencialidades humanas pode exigir um grande número de bens materiais e instituições sociais, de forma a desenvolver e realizar livremente um rico "plano de vida" que lhes seja próprio, no qual possam praticar todas as capacidades que julguem valiosas, diz-se assim, que tal idéia tem grande importância para a justiça distributiva.141 Ainda que não desenvolva plenamente esse pensamento, sustenta KANT142 que o processo de promover em nós uma "perfeição maior", de fazer com que se realize tudo o que em nós é potencialmente excelente, constituiria algo que nos é moralmente exigido.

Portanto, percebe-se na proposta kantiana de desenvolvimento de nossos talentos, uma concepção de vida humana boa, qual, poderá requerer muito da sociedade, influenciando à frente as filosofias políticas de RAWLS e SEN.143

138 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 108

139 KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York:

Macmillan, 1959, p. 423

140 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 108

141 Id ibidem, p. 109

142 KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York:

Macmillan, 1959, p. 430

143 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 110

1.7. O nascimento da noção moderna de Justiça Social: Babeuf e Fichte - o direito