2. Concepção Moderna
2.1. Politização da pobreza e reflexos na questão distributivista
Depois de BABEUF, o conceito de justiça social distributiva passou a fazer parte do discurso político, mas por algum tempo permaneceu às margens da respeitabilidade, não sendo muito difundida até depois da Segunda Guerra Mundial.
A politização da pobreza começou na Grã-bretanha na época da Revolução Francesa, incentivada não apenas pelo exemplo francês, mas também por uma crise severa na oferta local de alimentos, que culminaram com saques populares de grãos durante a crise de 1794-1796, quando os trabalhadores formaram comitês para exigir ou fornecer ajuda os famintos. Ademais, em 1795 foi adotado o sistema de "Speenhamland", uma reforma na “Poor Law” inglesa, cujo ponto central consistia em fazer com que a quantidade de auxílio aos pobres, incluindo os pobres "capazes" - enquanto a “poor law”
elisabetana não permitia que esses recebessem qualquer auxílio - dependesse do preço do pão e do tamanho da família.159 Esse sistema esteve no centro das atenções por um bom tempo, na Inglaterra e nos EUA, com MALTHUS e RICARDO, até as recentes discussões sobre esquemas de renda mínima160.
Nessa linha, o auxílio que antes devia e que ainda deveria ser solicitado como um favor, aponta Arthur YOUNG161 em 1797, agora é frequentemente exigido como um direito. O que demonstra a difusão rápida de uma ideologia segundo a qual os pobres devem ter um direito legal a melhores condições econômicas, e não meramente um direito a sobreviver ao lado de uma reivindicação moral pela caridade das pessoas ricas.
159 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit., p. 118
160 Nota de Álvaro DE VITTA
161 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 119. Na linha da absurda proposta do "deixem que os pobres morram"( FLEISCHACKER, ob. cit.,p. 125), este mesmo Arthur YOUNG - o que nos causa espanto - declarava que seria preferível que os pobres morressem na guerra em vez de ficarem "se proliferando constantemente e permanecer como um peso morto para os que são industriosos...e a minha humildade me predispõe a essa idéia, pois percebo que a população sofreria menos no primeiro caso que no segundo."
FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit, p. 123-124. Essa postura é abordada por FLEISCHACKER, inclusive passando por SPENCER que cunhou a locução "vivência do mais apto" (FLEISCHACKER, ob. cit., p. 126-127)"sendo por nós deixada de lado. Para SPENCER(FLEISCHACKER, ob. cit., p. 130) a justiça não somente não requer como proíbe o auxílio aos pobres gerido pelo Estado, sendo que para ele o governo pode ser utilizado para evitar danos, mas não para promover o bem.
Nessa toada, nos EUA, o juiz David BREWER162, da Suprema Corte do Kansas, declarou em 1875 que "o auxílio aos pobres - o cuidado que se deve dedicar àqueles que são incapazes de cuidar de si próprios - está entre os objetos inquestionados do dever público.
Ainda sobre os EUA, o "New Deal" de Franklin Delano ROOSEVELT propiciava seguro social a todo cidadão acima de uma certa idade, bem como o "Aid to families with dependent children" oferecia recursos para pessoas que ainda não haviam obtido tais recursos pelo trabalho. ROOSEVELT propôs, em 1944, um segundo
“bill of rights”, que incluiria um direito à moradia, ao emprego adequadamente remunerado, à assistência médica, a uma boa educação, bem como uma proteção adequada contra os temores econômicos da velhice, doença, acidente e desemprego; sendo que sua viúva, Eleanor, ajudou a elaborar a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, que incluía direitos ao seguro social, aos bens econômicos, sociais e culturais indispensáveis à dignidade e ao livre desenvolvimento da personalidade de cada pessoa, à proteção contra o desemprego e à alimentação, vestuário, habitação e cuidados médicos(arts. 22, 23 e 25 da Declaração Universal. Isso demonstra que a noção de justiça distributiva ou social estava firmemente presente por volta do século XX.163
E, no início do século XX, a Noruega, Suécia e Finlândia classificavam um benefício mínimo aos pobres como "assistência compulsória". Em 1900 e 1922, as novas “Poor Laws” norueguesas e finlandesas restabeleceram - o que já havia sido feito na Noruega em 1845 (mas posteriormente revogado) - a assistência obrigatória a todos aqueles que fossem incapazes de prover o próprio sustento; já a “Poor Law” Sueca de 1918, restringia o auxílio a quem não pudesse trabalhar, sendo que as autoridades locais tinham a liberdade de ajudar pessoas capazes de trabalhar, mas que estivessem desempregadas e passando por dificuldades.164
162 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit, p. 119 e 228
163 Id ibidem, p. 121
164 Id ibidem, p. 229
Para o que nos é importante, sobre o argumento de SPENCER165 contra o distributivismo, é que para ele deve o Estado evitar da assistência aos pobres porque: 1-os pobres pertencem a um grupo de pessoas inaptas para sobreviver; 2- que o processo de evolução social, no qual os inaptos perecem, acabará vencendo a pobreza se deixarmos que ela siga seu próprio curso; 3-que a sociedade é incontrolável e, assim, tentativas de solucionar o problema da pobreza provavelmente fracassarão; 4- essas tentativas governamentais corroerão a virtude da caridade; 5- tais tentativas resultarão em problemas legais de todos os tipos, por terem objetivos pouco claros; 6- que elas violarão direitos de propriedade, que o Estado tem por objetivo fundamental proteger.
Os argumentos 3, 4 e 5 foram utilizados por libertários posteriores - como HAYEK166, que enfatizava o 3 -, sendo alguma noção de evolução social também vem a ser importante para a maioria desses pensadores, em especial para HAYEK, ainda que o seja apenas porque a noção d que a sociedade se desenvolve por meio de um processo evolutivo, e não por mudança consciente, o que se subentende na afirmação segundo a qual o planejamento social consciente provavelmente fracassará. Porém, tal versão de evolucionismo social não envolve qualquer sugestão de que os pobres constituem uma classe inferior.
Nesse panorama, aparece a crítica de HAYEK167 – como aponta NOVAK168 - às teorias da justiça social do XX, no sentido de que além da vagueza própria do termo, fala-se da conversão da justiça social num instrumento de intimidação ideológica com o objetivo de conseguir o poder da coerção legal. Ademais, a maioria dos autores afirmam que a utilizam para designar uma virtude(segundo eles moral). Mas a maioria das definições que adjudicam, pertencem a um estado de coisas impessoal – alto desemprego, desigualdade de ingresso no mercado, carência de salário decente, são citados como exemplo de injustiça social.
165 Id ibidem, p. 134
166 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit, p. 135. Nessa linha, HAYEK, Friedrich. “Law, Legislation, and Liberty”, Chicago, University of Chicago Press, 1973, Vol. 1, capítulos 1 e 2
167 HAYEK, Friedrich. “Law, Legislation, and Liberty”, Chicago, University of Chicago Press, 1973, Vol. 1, p. 9 a 16, bem como constante de FLEISCHACKER, Samuel, p. 181-183
168 NOVAK, Michael. Artigo: “Definiendo la justicia social”. Tradução de Adolfo Rivero
Como aponta FLEISCHACKER169, é bem possível que as sociedades sejam aquilo que HAYEK - interpretando SMITH e HUME - denominou
"ordens espontâneas": coleções de eventos e de coisas que têm uma forma discernível, mas que provém de ações que não pretendem produzir dessa forma, a qual não pode ser prevista ou planejada, idéia essa que leva e força à postura do "deixe estar pra ver como é que fica".
HAYEK170 vai direto ao centro do problema: a justiça social é ou uma virtude, ou não. Se o é, só pode atribuir aos atos deliberados de pessoas individuais. A maioria dos que usam o termo, sem embargo, não o atribui a indivíduos, mas sim, a sistemas sociais. Utilizam “justiça social” para designar um princípio regulador de ordem.
Não estão centrados na virtude, mas sim, no poder. O nascimento do conceito em testilha coincidiu com outros: a morte de Deus e o surgimento da idéia de economia dirigida.
Quando Deus morreu, confiou-se na arrogância da razão e na sua inflada ambição de fazer o que o mesmo Deus não havia feito, ou seja, construir uma ordem social justa. A divinização da razão encontra sua extensão na economia dirigida; a razão(ciência) dirigiria e a humanidade seguiria coletivamente. A “morte de Deus”, bem como o surgimento da ciência e da economia dirigida, nos trouxeram o “socialismo científico”.
Disso, se desprende que a justiça social teria seu fim natural em uma economia dirigida. Em efeito, é esta que se diz aos indivíduos que fizer. A “justiça social”
pressuporia: 1-que estamos guiados por diretivas externas específicas em vez de regras de conduta interiorizadas sobre o que é justo; e 2- que nenhum indivíduo deve ser considerado responsável por sua posição na sociedade. Afirmar que é responsável seria lançar a culpa à vítima. Na realidade, a função do conceito de justiça social é “lançar” a culpa a outro, culpar o sistema, a vítima, ou aos que “miticamente” a controlam. Como escreveu Leskek KOLAKOWSKI171, na sua magistral história do comunismo, o paradigma fundamental da
169 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit, p. 235
170 HAYEK, Friedrich. “Law, Legislation, and Liberty”, Chicago, University of Chicago Press, 1973, Vol. 1, p. 9 a 16, bem como constante de FLEISCHACKER, Samuel, p. 181-183
171 NOVAK, Id ibidem
ideologia comunista: você sofre, seu sofrimento é causado por pessoas poderosas, há que destruir esses opressores.
Para HAYEK172, os efeitos das opções individuais e os processos abertos de uma sociedade livre não seriam distribuídos segundo um reconhecido principio de justiça. Algumas vezes, os que agraciados fossem com méritos, seriam tragicamente infortunados. Mas, partindo da idéia de que um sistema que valora tanto o ensaio e o erro, como a liberdade de eleger, não estaria em posição de garantir resultados, nenhum indivíduo(ou partido político) poderia assim “designar regras”, tratando dessa maneira cada pessoa de acordo com seus méritos, ou de acordo com suas necessidades. Entretanto acreditamos ser a necessidade – em respeito à dignidade da pessoa humana como força centrífuga do ordenamento jurídico -, critério a ser “necessariamente” considerado ao combate à exclusão e desigualdades sociais. Afinal, há de se considerar a possibilidade de que, afastando-se do “acaso”, estar-se-ia a fugir do eixo humanista, inato à Constituição brasileira de 1988.
O desenvolvimento da noção de justiça social é muito complexo, devendo ser articuladas diversas idéias para constituir-se. Nas palavras de FLEISCHACKER173, para se acreditar na justiça social “enquanto distributiva”, é preciso ver os pobres como merecedores do mesmo status econômico e social que todas as outras pessoas e ver a sociedade como responsável pela condição dos pobres e, capaz(a nós, solidariamente obrigada) de alterá-la radicalmente e ter justificativas seculares, e não religiosas(às nossas vistas, não apenas “somente” mas principalmente), para esse propósito.
Ademais, ainda de lá das margens do lago Michigan (FLEISCHACKER174), a natureza dos debates atuais a respeito da “justificação” da justiça social, tem-se que o principal obstáculo à emergência da noção moderna não foi, uma
172 HAYEK, Friedrich. “Law, Legislation, and Liberty”, Chicago, University of Chicago Press, 1973, Vol. 1, p. 9 a 16, bem como constante de FLEISCHACKER, Samuel, p. 181-183
173 FLEISCHACKER, Samuel. “Uma breve história da justiça distributiva”, trad. Álvaro de Vitta. São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 173-176
174 FLEISCHACKER, Samuel. “Uma breve história da justiça distributiva”, trad. Álvaro de Vitta. São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 182-183
crença no absolutismo dos direitos de propriedade, mas sim uma crença no valor de se manter os pobres na pobreza. Nessa toada, não foram novos argumentos ou descobertas factuais que levaram as pessoas a ter uma atitude “um pouco mais” simpática em relação às dificuldades dos pobres, mas sim novas maneiras de se apresentar as circunstâncias da pobreza – culminando atualmente talvez no alcunhado capitalismo humanista175.