3 EM CENA, OS MANUAIS DIDÁTICOS NO BRASIL, OS GÊNEROS
3.3 Os adjetivos em funcionamento discursivo
Na gramática de Port Royal, uma das bases da gramática filosófica, e por que não dizer,
da gramatica tradicional, publicada anonimamente em 1660, havia um capítulo para tratar da
distinção entre substantivo e adjetivo. Os gramáticos caracterizavam o adjetivo como um
acidente: “foram chamados adjetivos mesmo aqueles que significam substâncias, quando, por
sua maneira de significar, devem estar junto a outros nomes no discurso” (ARNAULD e
LANCELOT),1992: 31 apud CARVALHO e KANTHACK (2012: 164), ou seja, a partir das
noções de denotativo e conotativo, os adjetivos e substantivos se diferenciavam, sendo os
adjetivos oriundos da conotação de um substantivo e vice-versa: “Quando se acrescenta aos
termos que significam as substâncias essa conotação ou significação confusa de uma coisa à
qual essas substâncias se referem, deles se fazem adjetivos” (2012: 164). Abre-se um espaço
para a significação, a intencionalidade dos atores discursivos.
Representando uma classe de palavras responsável pela materialização da
intencionalidade daquilo que se enuncia, o adjetivo desvela realidades sociais construídas ou a
construir no percurso interacional do discurso. Utilizando-nos das palavras de Kleiman, é
perfeitamente possível verificar “a noção de identificação de um objeto a partir de uma certa
perspectiva conseguida através da adjetivação” (1995: 95), pois é através do adjetivo que o
falante categoriza os objetos, os seres, as ações, criando entidades, consolidando ou apagando
conceitos, visando objetivos específicos do autor do texto, expressando uma opinião através da
exploração dos recursos de que a língua dispõe, sendo cabível a nós, como leitores, perceber e
inferir significados em meio a contextos diversos.
Cattelan (2009)
88, ao escrever sobre a utilização dos adjetivos, destaca ter seu emprego
mais que uma função sintático- gramatical :“denuncia uma visão de mundo e um modo de se
posicionar em relação a ele.” Nesse objetivo, a fim de exemplificar, o pesquisador enfatiza
diferenças entre a utilização do adjetivo nos falantes da língua inglesa e da língua portuguesa,
88 Cattelan, J. C. O uso dos adjetivos sob uma perspectiva enunciativa. Revista Especulo. Nº 42. 2009. Disponível em <https://pendientedemigracion.ucm.es/info/especulo/numero42/adjetivis.html. Acesso em 20 de julho de 2016.
revelando-nos, tal posição, o olhar cultural. Segundo ele, a língua inglesa, primeiramente
especifica o objeto, para depois mencionar que objeto é este. Já na língua portuguesa temos um
apresentar do objeto, “inserir o tópico em uma determinada categoria, para, depois,
particularizá-lo”.
A partir das palavras de Cattelan (2009), para seleção de um vocábulo, é preciso que
haja entre os interlocutores um acordo de cooperação que permita que algo seja dito e
compreendido, já que há necessidade de um conhecimento prévio, de mundo e linguístico, por
parte dos atores textuais. Os adjetivos, ao expressarem um juízo de valor pessoal, representam,
ou seja, materializam os valores e posições culturais de um grupo ideologicamente construído.
O que se espera frisar devidamente é que, na atividade discursiva de adjetivar, o locutor se vale de uma voz enunciativa que o antecede e que se imiscui no seu discurso, levando-o a avaliar o objeto posto sob apreciação de uma determinada maneira e a emitir juízos de valor que revelam a sua pertença social e, por consequência, o conjunto de valores partilhados pelos membros do seu grupo social. A adjetivação é, pois, menos uma operação de caráter individual e subjetivo do que uma atividade que ocorre ao sabor dos valores doxais de uma coletividade. (CATTELAN, Revista Especulo, 2009)
Ideologicamente marcada, a adjetivação retrata, materializa as ideias de um grupo
social, explicitando suas atitudes, considerações, visões de mundo acerca das mais diversas
situações, funcionando como modalizadores discursivos.
Neves (2006:152) nos lembra que
do ponto de vista comunicativo pragmático, a modalidade é uma categoria automática da linguagem, já que não se concebe que o falante deixe de marcar de algum modo em termos de verdade do fato expresso, bem como deixe de imprimir nele certo grau de certeza sobre essa marca.
Provavelmente não há discurso que não seja modalizado, ou seja, na relação entre aquele
que enuncia, a quem enuncia e o contexto situacional onde emerge o discurso, toda linguagem
é modalizada.
Advérbios, adjetivos ou pronomes que, além de caracterizarem os seres, expressam
subjetividade ante os fatos narrados, um instrumento de argumentação. Koch (1992:50) afirma
que “a atitude subjetiva do locutor em face de seu enunciado pode traduzir-se também numa
avaliação ou valoração dos fatos, estados ou qualidades atribuídas a um referente”, o que pode
ser evidenciado por meio de adjetivos, expressões adjetivas ou orações subordinadas adjetivas.
Bronckart define os mecanismos de modalização como materializadores de
julgamentos, avaliações “
Os mecanismos de modalização explicitam os julgamentos ou avaliações doconteúdo feitos pelo enunciador do texto ou pelas vozes”.(
BRONCKART, 2001 apud BUENO,
2011: 33), reforçando a concepção de que a língua é uma forma de ação sobre o outro com a
finalidade de promoção de efeitos sobre o interlocutor, “um ato perlocucional, segundo Austin
(1962), com vistas à persuasão”.
Para Ducrot, a conceituação de modal advém da distinção entre o que é objetivo e o que
é subjetivo. O primeiro diz respeito “àquilo que se diz de um determinado objeto, o que ele é e
o que se diz dele - descrições e informações a respeito de determinado fato. O modal diz respeito
às tomadas de posição e atitudes morais intelectuais e afetivas expressas ao longo do discurso”
(NEVES, 2006: 153).
Além da progressão temática de um texto, os adjetivos, as orações subordinadas
adjetivas e até mesmo os pronomes relativos adotados nas orações adjetivas funcionam como
espécies de modalizadores ou mecanismos de textualização e recategorização dos enunciados,
emitindo juízos de valor culturalmente determinados, seja no uso dos adjetivos e expressões
adjetivas, seja nos gêneros textuais adotados no suporte livro didático, pois o sentido, segundo
Charaudeau (2009: 41)
Nunca é dado antecipadamente. Ele é construído pela ação linguageira do homem em situação de troca social. O sentido só e perceptível através das formas. Toda forma remete a um sentido, todo sentido remete à forma, numa relação de solidariedade recíproca
A partir do que nos apresenta Charaudeau, o sentido se produz por intermédio de uma
relação de transformação e de transação. No primeiro processo, o sujeito confere significado ao
mundo, nomeando-o e qualificando-o através de uma avaliação das propriedades, das ações e
dos motivos, modalizando as opiniões para, posteriormente, negociar tais significados com
outro, a fim de que sua verdade seja transformada em verdade coletiva.
Benveniste, ao tocar na subjetividade na linguagem, ressalta serem os modalizadores as
marcas linguísticas deixadas pelo enunciador. Essas marcas, sejam elas lexicais, morfológicas
ou sintáticas, conforme Koch (2002), possibilitam perceber as atitudes, opiniões, intenções,
pontos de vista e, consequentemente, posições ideológicas e culturais dos enunciadores.
Conforme pontua Lima (2010: 18), “a partir dos procedimentos de modalização é possível
perceber um posicionamento do enunciador e uma intencionalidade através da orientação
argumentativa construída no texto”.
Kerbrat - Orecchioni, linguista francesa que tem consideráveis trabalhos na área da
enunciação, destaca ser a subjetividade uma característica inerente à linguagem, pois
“Naturalmente toda unidad léxica es, en un cierto sentido, subjetiva, dado que las ´palabras de
la lengua no son jamás otra cosa que símbolos sustitutivos e interpretativos de las ‘cosas”
89
.(ORECCHIONI,1997: 91-92). Nessa função interpretativa e constitutiva do imaginário
cultural coletivo e da identidade por meio dos adjetivos, locuções adjetivas e orações adjetivas,
Orecchioni, salienta que os adjetivos podem transitar entre aqueles que são mais objetivos e
aqueles que são mais subjetivos.
89 Naturalmente, toda unidade léxica é, em certo sentido, subjetiva, dado que as palavras da língua são símbolos substitutivos e interpretativos das coisas. (Tradução livre deste autor)
A partir do quadro apresentado por Kerbrat-Orecchioni, os adjetivos podem assumir
posturas mais afetivas ou avaliativas conforme contextos de uso. Devem em alguns gêneros
discursivos ser evitados, tendo em vista o caráter mais ou menos objetivo de certos gêneros,
principalmente no tocante à relação entre os interlocutores frente ao contexto de interação.
Os adjetivos avaliativos podem ser classificados entre aqueles que emitem maior juízo
de valor porque deles emanam mais informações, os axiológicos, e aqueles cujos juízos de valor
são menos evidentes, embora existam, já que toda expressão emana de uma relação social e está
carregada de sentidos, principalmente porque tal informatividade será atribuída frente à
presença do interlocutor, que é fundamental para a atribuição dos sentidos no ato enunciativo.
Todos los adjetivos evaluativos son subjetivos en la medida en que reflejan algunas particularidades de la competencia cultural e ideológica del sujeto hablante, pero lo son en grado variable: en primer lugar porque los axiológicos están, en conjunto, más marcados subjetivamente que los otros;luego, porque encontramos diferencias de funcionamiento en el interior mismo de las dos clases (b) y (c), por estar más o menos estabilizada en el seno de una comunidad dada la norma de evaluación en la que se basa el empleo de tal o cual término en tal o cual contexto (ORECCHIONI,1997: 123-4)90
Em resumo, segundo Orecchioni, a atribuição valorativa dos adjetivos será determinada
pelas regras instituídas em sociedade, a qual permite ou não o uso de adjetivos conforme as
situações de interação, podendo umas expressões ser mais ou menos subjetivas frente ao
90Todos os adjetivos avaliativos são subjetivos na medida em que refletem algumas peculiaridades da competência cultural e ideológica do enunciador, mas eles estão em graus variados: em primeiro lugar porque os axiológicos são coletivamente mais subjetivos que os outros, em seguida, porque encontramos diferenças no funcionamento dentro classes (b) e (c), sendo mais ou menos estabilizado dentro de uma ou outra comunidade neste ou naquele contexto.( Tradução livre, deste autor);