4. LIVROS DIDÁTICOS: MODALIZAÇÃO E SENTIDOS EM ANÁLISES
4.2 Texto e Contexto, de Lidio Tesoto e Norma Discini. São Paulo: Editora do Brasil, 1986
Na década de 80, seguindo uma vertente tecnicista, os órgãos responsáveis pela
aquisição e distribuição dos livros didáticos, por meio do Plano Nacional do Livro Didático,
acenam para preocupações com aspectos ligados ao número de livros distribuídos, tendo em
mente as ilustrações e suas funções e a inteligibilidade dos conteúdos. Essa mudança se deve
ao aumento do número de matrículas no 1º grau e à abertura do processo de escolha do material,
que passa a ter a participação dos professores. Os livros didáticos passam, nessa oportunidade,
a não ser consumíveis, o que ocorre a partir
do Decreto nº 91.542, de 19/8/85. Fazendo parte doscompõe-se de quatro volumes (5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries). Decompõe-senvolvido em parceria com Norma Discini,
alcançou grande público, tendo sido utilizado por cerca de 10 anos.
Fonte: TESOTO, Lídio; DISCINI, N. Texto e Contexto, 8ª série (Produção de textos de Norma Discini). São Paulo: Editora do Brasil, 1986.
Nas palavras de Discini
105·, o livro, “suscetível de dobrar-se às políticas educacionais e
de mercado” (DISCINI, 2013:21), apresenta um material muito vulnerável em relação aos
movimentos de consumo. Dessa forma, o livro traz o estudo da gramática desvinculado do
texto, constituindo o contexto a partir do texto, conforme podemos verificar nos tópicos “Estudo
do texto”, “Interpretação”, “Texto e Vida” e “Proposta de Redação”. Este último tópico retoma,
de forma breve, essa questão, promovendo reflexão a respeito e sugerindo a elaboração de um
texto exemplar do gênero.
105 Memorial de Formação Científica. Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – USP, Departamento de Linguística, 2013.
Texto e Contexto possui 20 lições curtas, divididas em texto, estudo do texto, estudos de
gramática e redação. Destas 20 lições, a título de experimentação, analisamos os textos-base
das 03 primeiras lições, as quais se acham arroladas na transcrição a seguir:
Fonte: TESOTO, L. Texto e Contexto. 8ª série. ( produção de textos de Norma Discini) São Paulo: Editora do Brasil, 1986 ( ÍNDICE)
Esta unidade é composta de três textos que se inserem no gênero Poesia (música,
canção),os quais são introduzidos por textos informativos acerca dos períodos históricos em
que vieram a público, cada um deles correspondendo a uma fase diferente do período do regime
militar brasileiro. O material didático de Lídio Tesoto e Norma Discini é de 1980, década em
que o regime militar já divide seu espaço com a ebulição do movimento a favor das eleições
diretas e com a iminência do primeiro presidente civil da década de 1980. É desse período o
terceiro poema desta unidade.
O primeiro bloco de informações - 1964-1968 -, pelo enunciador denominado de Canção
da Liberdade, traz a canção “Ensaio Geral”, de Gilberto Gil.
O segundo, que abrange o período de 1968 a 1974, denominado de Canção do Silêncio,
traz o texto “Apesar de Você”, de Chico Buarque.
O terceiro texto, sobre a fase entre 1974 e 1985, denominado de Canção da Esperança,
traz como texto principal a música “Coração de Estudante”, de autoria de Wagner Tiso e Milton
Nascimento.
Antes de iniciarmos a análise dos textos da lição 1, convém desenvolvermos um breve
comentário acerca da mensagem do Ministro da Educação Carlos Chiarelli, situada na
contracapa do livro Texto e Contexto, e que enfatiza a importância do ato de ler e escrever como
um:
.
instrumento insubstituível na luta pacífica pela libertação tendo a educação como elemento importante para a cidadania, alargando os horizontes intelectuais que capacitem o aluno cidadão a construir valores num mundo cada vez mais dinâmico, compromisso do governo Collor. (CHIARELLI apud TESOTO, 1986)
Chiarelli ressalta o compromisso do governo federal em promover ações que estimulem
a leitura e a escrita enquanto veículos de aprimoramento e evolução preponderantes no processo
de formação da cidadania, ambas, a leitura e a escrita, importantes para a aquisição de valores
no mundo contemporâneo. Para o governo, a leitura e a escrita “serão instrumentos
insubstituíveis na luta pacífica pela libertação” e reconstrução de valores, cabendo ao livro
didático propiciar/atuar como esse instrumento indispensável à aprendizagem.
Como epígrafe do livro temos um texto de Fernando Pessoa:
Sou pelo combate sempre e em toda parte dos três ASSASSINOS
A IGNORÂNCIA O FANATISMO E A TIRANIA
Na epígrafe, o enunciador não está explicitamente representado. No entanto, o pronome
abaixo da frase. Sua localização, logo na abertura do livro didático, evidencia que os autores
Lídio Tesotto e Norma Discini endossam o posicionamento combativo de Pessoa em relação a
esses três maiores responsáveis pelos crimes da/ e contra a humanidade. A esses três vilões é
conferido o mesmo relevo, já a partir da grafia, pois aparecem todos em caixa alta; além disso,
ganham destaque também por serem antecedidos por artigos definidos, que categorizam com
mais veemência esses substantivos. Segundo o texto da epígrafe, esses três vilões devem ser
combatidos em qualquer lugar (em toda parte) ou tempo (sempre, ou seja, no presente, passado
e futuro), pois, como assassinos, “aqueles que causam perda ou ruína, que aniquilam ou
destróem, tiram a vida de alguém” AURÉLIO ( 2004: 212). A ignorância e o fanatismo são
definidos no dicionário da seguinte forma:
A IGNORÂNCIA “[Do lat. Ignorantia] a falta de saber, ausência de conhecimentos.3. Estado de quem ignora, ou desconhece alguma coisa, não tem conhecimento dela.” (AURÉLIO, 2004:1074)
O FANATISMO: indivíduo que é fanático, [...] que adere cegamente a uma doutrina, a um partido; que é partidário exaltado; faccioso; (AURÉLIO, 2004: 877)
Tais ações trazem consequências que podem ser o radicalismo e a intolerância em
relação às diferenças, acabando por gerar o terceiro assassino: “A TIRANIA”, definida como
qualquer governo instituído à margem da legalidade. [...] Governo opressor e cruel. 4.
Violência, opressão” (AURÉLIO, 2004:1969). Desrespeito aos direitos e liberdades de modo
cruel.
A nosso ver, a epígrafe de Pessoa está ocupando o papel de um prefácio, em que se
apresentam os objetivos do livro. Como se, mediante poema, tivéssemos uma ideia do papel da
obra naquele momento posterior à ditadura militar. Abaixo, anexamos o texto da epígrafe:
Fonte: Tesoto (1986:03)