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Lição III. Texto III – A Caçada de Pedrinho (Monteiro Lobato)

4. LIVROS DIDÁTICOS: MODALIZAÇÃO E SENTIDOS EM ANÁLISES

4.1 PROENÇA FILHO, D.; MARQUES, M. H. Português, vol. 1. Rio de Janeiro: Editora

4.1.3. Lição III. Texto III – A Caçada de Pedrinho (Monteiro Lobato)

Imerso em um contexto de modernização da sociedade brasileira e, simultaneamente,

primando pela valorização de aspectos culturais típicos do brasileiro, Monteiro Lobato é

considerado por alguns teóricos como inovador e, ao mesmo tempo, conservador. Num projeto

ousado de abrasileirar, desliteraturizar a literatura, desde muito cedo preocupa-se com os

problemas sociais do Brasil. Em seu fazer literário, era um exímio escritor e reescritor das suas

obras e das obras de grandes nomes da literatura, adequando suas histórias aos leitores em

potencial. Sua preocupação extravasava os limites da linguagem, tocando em questões

ideológicas, políticas e culturais: “ Em busca de uma linguagem diferenciada poderia constituir

uma proposta de rompimento com a rigidez gramatical vigente e a instauração de uma

linguagem mais fluente, mais coloquial e oralizada; em uma postura que se aproximaria a de

um contador de histórias.” (ROCHA, 2006: 25).

Nas palavras de Rodrigues e Sacramento, o Brasil passava por um processo de

americanização de muitos aspectos da sociedade. Para as autoras, Lobato viveu e escreveu num

período em que:

novas perspectivas culturais para o desenvolvimento do país eram colocadas em causa: valorização da dimensão popular da cultura brasileira, revalorização do folclore, da oralidade, ao mesmo tempo que se efetivava uma ‘apropriação’ criativa dos valores estrangeiros. No caso da obra lobatiana, o autor concentrou a sua representação do que esperava do Brasil no espaço privilegiado do sítio de Dona Benta (LAJOLO; ZILBERMAN, 1985). Ali, por meio das tantas aventuras capitaneadas pela boneca Emília, por Narizinho, Pedrinho e muitos personagens que a eles se somam, refletiam-se os valores do autor, suas críticas ao que considerava o atraso da realidade brasileira, suas perspectivas de modernização (RODRIGUES e SACRAMENTO, 2011: 86)

Foi marcante em sua trajetória política o desejo de reestruturar o Brasil a partir dos

moldes americanos. Seja durante o período que esteve nos Estados Unidos, onde exerceu o

cargo de adido comercial na década de 30, seja no Brasil, após ser deposto do cargo por Getúlio

Vargas, algumas de suas obras, a exemplo de Mr. Slang e o Brasil, (1927) América, (1932)

evidenciam a adoção do norte-americano, das cidades, da política, como uma referência para a

reformulação do Brasil. Sem perder de vista a ideia de que se preocupava muito com os

problemas brasileiros e a necessidade de dinamizar a administração pública, conforme afirma

Rocha (2006).

Originariamente denominada de “A caçada da onça”, esta obra de Lobato foi

republicada por Lobato em 1930 com o acréscimo de outras caçadas, como a caçada ao

rinoceronte Quindim, passando a se chamar As caçadas de Pedrinho.

O texto “A Caçada de Pedrinho”, fragmento do texto de Monteiro Lobato, está inserido

como texto-base da terceira unidade do livro de Domício Proença e Maria Helena Marques,

publicado na década de 60 pela Editora Liceu para ser adotado como manual didático. Vamos

à Caçada.

A Caçada de Pedrinho

Pedrinho dispôs tudo para o ataque. Assentou na direção da moita o canhãozinho e

1

ordenou ao artilheiro Rabicó, enquanto desatrelava:

2

__Fique nesta posição. Quando ouvir a voz de “Fogo!”, risque um fósforo, acenda a

3

mecha e dispare.

4

Enquanto isso, a onça deixava a moita e com o andar manhoso dos gatos dirigia-se,

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agachada, para o lado deles. Era o momento. O Visconde ergueu a espada e com voz grossa

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de comandantesuperior deu um berro de comando:

7

__Fogo!

8

Rabicó, todo treme-treme, não conseguiu nem riscar o fósforo. Foi preciso que

9

Pedrinho viesse ajuda-lo. Por fim riscou-o e deitou fogo à mecha. Ouviu-se um chiado e logo

10

depois um tiro soou __Pum! Mas um tiro chôcho, que não valeu nada. A bala de pedra rolou

11

a dois passos de distância, imaginem! Havia falhado a artilharia, na qual eles depositavam

12

tantas esperanças.

13

Pedrinho então disparou a sua espingardinha. Outro tiro chôcho que nada valeu e só

14

serviu para irritar a fera. Viram-na arreganhar os dentes e apressar a marcha na direção dos

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atacantes.

16

A situação tornava-se muito séria e Pedrinho, desapontado com o nenhum efeito das

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armas de fogo, berrou a plenos pulmões:

18

__Salve-se quem puder!

19

Foi uma debandada. Casa qual tratou de si e, como se houvessem virado macacos, todos

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procuraram a salvação nas árvores. Felizmente havia ali um pé de grumixama que dava para

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abrigar o grupo inteiro.

22

Quando a fera chegou, estavam já todos muito bem empoleirados e livres dos seus

23

botes.

24

A onça, desapontadíssima, ali permaneceu, sentada sobre as patas de trás, com os olhos

25

fixos nos caçadores que a tinham logrado. Parece que sua intenção era ficar de guarda até que

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eles descessem.

27

__Espera que te curo __disse Pedrinho, lembrando-se que trazia no bolso um pouco da

28

pólvora dos pistolões. Tomou um punhado e, ajeitando-se no galho que ficava bem a prumo

29

sobre a onça, derramou-lhe a pólvora em cima dos seus olhos.

30

A ideia valeu. Completamente cega pela pólvora, a onça pôs-se a corcovear que nem

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doida, enquanto esfregava os olhos com as munhecas, como se quisesse arrancá-los.

32

É hora! Avança, macacada! __ gritou Pedrinho escorregando pela árvore abaixo.

33

Todos o imitaram. Apanharam as armas e se arrojaram contra a fera com verdadeira

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fúria. Narizinho esfregou-lhe a faca no lombo, como se a onça fosse pão e ela quisesse tirar

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uma fatia. O Visconde conseguiu, depois de várias tentativas, enterrar-lhe no peito o seu sabre

36

de arco de barril. Emília fez o mesmo com o espeto de assar frango. Pedrinho macetou-lhe o

37

crânio com a coronha da sua espingarda. Até Rabicó perdeu o medo e depois de carregar de

38

novo o canhão deu-lhe um bom tiro à queima-roupa.

39

Assim atacada de todos os lados, a onça não teve remédio senão morrer.

Fonte: Monteiro Lobato. Caçadas de Pedrinho. São Paulo, Editora Brasiliense, 1962, págs. 10-13. In.: MARQUES, Maria Helena Duarte; PROENÇA FILHO, Domício .Português 1. Rio de Janeiro: Liceu - Exped, 1968. v. 1.

No prefácio desta unidade, o enunciador convida o leitor para uma aventura divertida

“com personagens fabulosos do mundo do Sitio do Pica-pau amarelo”. Seguindo o projeto

gráfico do livro, o texto está entremeado, a pedido dos editores, com uma arte que representa o

conteúdo do texto. Para “A Caçada de Pedrinho”, a ilustração é de Antônio Sérgio Benevento,

pintor figurativista de temas populares.

Fonte: MARQUES; PROENÇA. (1968:32;35)

A arte retrata a onça pintada deitada aos pés da grumixama e com olhar fixo nos

personagens Pedrinho, Rabicó, Visconde, Narizinho e Emília, após o “tiro chocho” da

espingardinha e a debandada dos caçadores.

A imagem representa uma fase do enredo, que se inicia com as crianças subindo na

árvore - estratégia natural de alguns animais, evidenciando o repensar de suas táticas, pois a

árvore, segundo Chevalier e Gheerbrant (2016:84), representa ascensão, vida, o início de um

novo ciclo natural materializado, aqui, para as crianças, por meio da árvore e, para a onça, por

meio da ação de apoiar-se nas patas traseiras, simbolizando a expectativa de uma nova ação

proveitosa para si.

“A Caçada de Pedrinho” retrata as artimanhas de Pedrinho e de sua turma: Visconde,

Rabicó, Narizinho e Emília. A onça pintada, segundo a história, rondava a casa entre momentos

de euforia, enquanto se prepara para o ataque e a caçada, numa verdadeira operação de guerra,

acompanha o contexto de uma batalha que, no texto, emerge em expressões que contêm o sema

do embate, do ataque: “Pedrinho dispôs tudo para o “ataque” (linha 01), “Assentou na direção

da moita o canhãozinho” (linhas 01); “e ordenou ao artilheiro Rabicó enquanto o desatrelava”

(linhas 02); “Fique nesta posição”. Quando ouvir a voz de ‘Fogo’!, risque um fósforo, acenda

a mecha e dispare” (linhas 03 - 04) e outras expressões mais, a exemplo de espada, comandante,

comando, tiro, bala, espingardinha, nos seguintes trechos “O Visconde ergueu a espada e com

voz grossa de comandante superior deu um berro de comando: _Fogo! (linhas 06 -07) [...]

Ouviu-se um chiado e logo depois um tiro soou” (linhas 10 -11), [...] “Pedrinho então disparou

a sua espingardinha voltada para a onça que dirigia-se agachada, para o lado deles” (linha 05 -

06).

Todo um arsenal foi utilizado, porém, a princípio, sem sucesso: “Pedrinho, desapontado

com o nenhum efeito das armas de fogo, berrou a plenos pulmões” (linhas 17 - 18), o que deixa

a onça mais irritada: “Outro tiro chocho que nada valeu e só serviu para irritar a fera. Viram-na

arreganhar os dentes e apressar a marcha na direção dos atacantes” (linhas 14 - 16).

No fragmento inserido de modo descontextualizado no livro didático em análise, é forte

a construção de uma identidade ofensiva dos sujeitos (representados pelo personagem Pedrinho

e sua turma). Com vimos, eles compõem o grupo de “atacantes”, a “artilharia”.

No grupo, sobressai-se Pedrinho, que não tem medo, que ordena, ocupa posição de

liderança: “Pedrinho dispôs tudo para o ataque...ordenou ao artilheiro Rabicó” e disse: “Fique

nesta posição. Quando ouvir a voz de “Fogo! Risque um fósforo, acenda a mecha e dispare [...]

Rabicó, todo treme-treme, não conseguiu nem riscar o fósforo”. Foi preciso que Pedrinho viesse

ajuda-lo”. (linhas 09 - 10) As primeiras manifestações da liderança de Pedrinho evidenciam-se

por meio do uso de verbos no modo imperativo (ficar, riscar, acender, mexer e disparar); no

entanto, se destacam a bravura e a sabedoria do menino, pois Pedrinho, ao notar o insucesso

das armas de fogo, se utiliza da astúcia e das habilidades, estimulando os colegas a se salvarem

“Pedrinho [...] berrou a plenos pulmões: -Salve-se quem puder!” (linhas 18 -19).

A esperteza de Pedrinho fica evidente em muitas de suas ações, inclusive ao perceber

que, naquele momento, o mais interessante era desmembrar o grupo e subir em árvores. Esse

momento éescolhido pelo artista Benevento para ilustrar o texto e já foi comentado por nós.

Ao aguardar na árvore, Pedrinho pensa na possibilidade de jogar pólvora nos olhos da

onça. “Lembrando-se de que trazia no bolso um pouco de pólvora dos pistolões. [...] tomou um

punhado e, ajeitando-se no galho que ficava bem a prumo sobre a onça, derramou-lhe a pólvora

em cima dos olhos”. (linhas 28 - 30) e age com cautela para o ataque a onça: “É hora, avança,

macacada, escorregando pela árvore abaixo (linha 33), sendo imitado por todos:” Todos o

imitaram.”(linha 34)

Pedrinho e sua turma procuram salvação na árvore, na natureza: “Felizmente, havia ali

um pé de grumixama”, fruta típica da mata atlântica, cujas folhas são brilhantes e os frutos

vermelhos, semelhantemente a uma jabuticaba, porém com sua casca mais fina e sabor mais

adocicado.

Enquanto “a onça, desapontadíssima, ali permanece sentada sobre as patas de trás, com

os olhos fixos nos caçadores que a tinham logrado” (linhas 25 - 26), os então considerados

caçadores - Pedrinho e sua turma - esperam na grumixama. Esse paralelo entre Pedrinho e a

onça traz indícios de que ambos, caça e caçadores, assumem papéis que se intercalam, ora caça

ora caçador. A onça, quando arreganha os dentes, apressa a marcha e aguarda para atacar:

“Viram-na arreganhar os dentes e apressar a marcha na direção dos atacantes”. (linhas 15 - 16)

e “A onça [...] sentada sobre as patas de trás com os olhos fixos nos caçadores que a tinham

logrado. Parece que sua intenção era ficar de guarda até que eles descessem” (linhas 25 -26). O

animal adquire traços identitários de agressividade, passando de gato manhoso a fera, inimiga

das crianças, que de caçadoras passam a caça, conforma denotaa expressão “Salve-se quem

puder!” (linha 19).

Pedrinho e sua turma apresentam indícios de uma desvalorização da tecnologia, “do

improviso” diante dos fracassos com o uso das armas de fogo (“Pedrinho, desapontado com o

nenhum efeito das armas de fogo, berrou a plenos pulmões” (linhas 17 - 19) e uma valorização

das artimanhas: “Foi uma debandada. Cada qual tratou de si e, como se houvessem virado

macacos, todos procuraram a salvação nas árvores” (linhas 20 - 21), o que se reforça pela

instrução de Pedrinho após acertar os olhos da onça com pólvora “É hora! Avança, macacada!

- gritou Pedrinho, escorregando pela árvore abaixo.

A categorização das personagens se desenvolve por intermédio das estratégias de

progressão do referente, as quais podem ocorrem de forma definida,. Para a teoria da

Linguística de Texto, a expressão nominal definida

102

“macacada”, empregado por Pedrinho

102 “Expressões nominais definidas ou formas definidas são as formas linguísticas constituídas, minimamente, de um determinante (definido ou demonstrativo), seguido de um nome” (KOCH, 2002:86)

para se referir aos colegas, representa, dentre as mais diversas culturas, segundo Chevalier e

Gheerbrant (2016: 573), “a consciência que salta de um lado para o outro, o talento, a

habilidade, a engenhosidade, a sabedoria e, talvez por desdém, no extremo oriente, a

pseudo-sabedoria dos homens”

Na cultura indígena, o macaco representa a esperteza, a criancice, a malandragem,

sendo, por esta última característica, em muitos casos, o macaco rejeitado. Na história As

caçadas de Pedrinho, ao que nos parece, o macaco representa a sabedoria humana, a razão, o

raciocínio, a inteligência, a abertura a novas possibilidades, que, no campo político, podem

aludir às propostas apresentadas por Lobato para a reestruturação do Brasil. Vejamos o que

Chevalier e Gheerbrant dizem sobre a simbologia do macaco.

Em um mito dos índios bororos, registrado por Colbacchionie Albissetti, citado por Claude Lévi-Strauss (LEVC, 135), o macaco que, naquela época, era como um homem, aparece como herói civilizador: inventa a técnica de produzir fogo por atrito. O fato de ele enganar o jaguar, que o engole e o desengole novamente, é significativo: o jaguar representa aqui as forças ctonianas; sua boca é a boca dos infernos; a viagem que o macaco realiza é tipicamente órfica e faz dele um iniciado, no momento em que ele acaba de descobrir e de apoderar-se do fogo. Esse mito condensa, portanto, os elementos essenciais do simbolismo do macaco, um mágico esperto, que esconde os seus poderes, dos quais o primeiro é a inteligência, sob traços caricaturais. (2016: 574)

Uma referência às astúcias, as espertezas das crianças, ao passar de um estágio de

reflexão - ação - e posterior reflexão a partir do ocorrido.

A Pedrinho também coube a responsabilidade de esmagar o crânio da onça, o grande

involucro do cérebro dos animais, com uma coronhada de espingarda: “Pedrinho

marchetou-lhe o crânio com a coronha da sua espingarda” (linhas 37 - 38), diferentemente da versão

produzida em 1924, que trazia o termo malhar: “Pedrinho ficou atrás e malhou o crâneo da fera

com a coronha, como quem malha feijão” (LOBATO, 1924), mostrando-se superior à onça.

Analisando a simbologia da palavra crânio, Chevalier e Gheerbrant (2016: 298-9) nos lembram

de que o crânio corresponde à

Sede do pensamento, ao comando supremo, à matriz do conhecimento, ou troféu, demarcando a superioridade daquele que se apodera do crânio do outro[...] Enquanto cume do esqueleto o crânio constitui o que existe de imperecível no corpo, logo, uma alma. As pessoas se apropriam, assim, da sua energia vital [...]. Considerado como troféu de guerra. Pela sua posição no alto

da cabeça, sua forma de cúpula, sua função de centro espiritual, o crânio é, muitas vezes, comparado ao céu do corpo humano. Consideram-no a sede da força vital do corpo e do espirito... decapitando um cadáver [...] e conservando o crânio em seu poder [...] o primitivo alcança diversos objetivos inclusive o de se apropriar da força vital do animal.

Um ato que claramente denota o paralelo entre o animal irracional (a onça) e os animais

racionais (Pedrinho e seu grupo). Estes últimos têm paciência e aguardam o melhor momento

para atacar.

Interessante observar que, a partir do trabalho de Rocha (2006), percebemos, na

comparação entre as versões do texto escritas em 1924 e 1933, que a primeira (As caçadas da

onça) apresenta mais detalhes em relação às atitudes das crianças frente à onça, com um número

maior de elementos de comparação, se fizermos um paralelo com a versão de 1933.

No intuito de desenvolver visualização mais detalhada dos adjetivos, locuções adjetivas

e orações adjetivas presentes no texto “ A caçada de Pedrinho” apresentamos, na tabela abaixo,

as formas remissivas adotadas pelo narrador da narrativa de aventura para categorizar os

sujeitos e suas ações, bem como suas devidas colocações textuais.

Expressões nominais Colocação textual

andar manhoso(onça) “Com o andar manhoso dos gatos”.

(linha 05);

Voz grossa(Visconde) “O Visconde ergueu a espada e com voz

grossa”. (linha 06);

Comandante superior(Visconde) “Com voz gossa de comandante

superior”. (linha 07);

Berro de comando (Visconde) “Deu um berro de comando” . (linha

07);

Rabicó, todo treme-treme (Rabicó) “Rabicó, todo treme-treme não

conseguiu nem riscar o fósforo” . (linha

09);

Um tiro chocho (tiro) “E, logo depois um tiro soou. Pum! Mas

um tiro chocho...”. (linha 11);

Mas, um tiro chocho, que não valeu

nada (tiro)

“Mas, um tiro chocho, que não valeu

nada”. (linha 11);

Bala de pedra (bala) “A bala de pedra rolou a dois passos “.

(linha 11);

Tantas esperanças (esperanças) “Havia falhado a artilharia, na qual eles

depositavam tantas esperanças”. (linha

Havia falhado a artilharia, na qual eles

depositavam tantas esperanças

(artilharia)

“Havia falhado a artilharia, na qual eles

depositavam tantas esperanças”. (linha

12 - 13);

Tiro chocho (tiro) “Outro tiro chocho que nada valeu”.

(linha 14);

Que nada valeu (tiro) “Outro tiro chocho que nada valeu”.

(Linha 14);

Muito séria (situação) “A situação tornava-se muito séria”.

(linha 17);

Desapontado (Pedrinho) “E Pedrinho, desapontado com o

nenhum efeito das armas de fogo”.

(linhas 17);

O nenhum efeito (efeito) “E Pedrinho, desapontado com o

nenhum efeito das armas de fogo”.

(linhas 17);

Armas de fogo (armas) “ Pedrinho, desapontado com o nenhum

efeito das armas de fogo” (linha 18);

Que dava para abrigar o grupo inteiro

(pé de grumixama)

“Felizmente havia ali um pé de

grumixama que dava para abrigar o

grupo inteiro”. (linhas 21 – 22);

Empoleirados (todos/grupo) “Quando a fera chegou, estavam já todos

muito bem empoleirados”. (linha 23);

Livres (todos/grupo) “Quando a fera chegou, estavam já todos

muito bem empoleirados e livres”.

(linhas 23);

Desapontadíssima (onça) “A onça, desapontadíssima, ali

permaneceu”. (Linha 25);

Fixos (olhos) “A onça, desapontadíssima, ali

permaneceu com os olhos fixos nos

caçadores ”. (linha 25 – 26);

Que a tinham logrado (caçadores) “A onça ... ali permaneceu ... com os

olhos fixos nos caçadores que a tinham

logrado”. (linha 26);

Sua intenção (onça) “Parece que sua intenção era ficar de

guarda até que eles descessem”. (Linha

26);

Pólvora dos pistolões (pólvora) “Trazia no bolso um pouco da pólvora

dos pistolões”. (linha 29);

A ideia valeu (ideia/ato de derramar

pólvora nos olhos da onça)

“A ideia valeu”. (linha 31);

Completamente cega (onça) “Completamente cega pela pólvora”.

(linha 31);

Que nem doida (onça) “A onça pôs-se a corcovear que nem

doida,”. (linhas 31-32);

Com verdadeira fúria (todos/grupo) “Apanharam as armas e se arrojaram

contra a fera com verdadeira fúria”.

Como se a onça fosse pão (onça) “Narizinho esfregou-lhe a faca no lombo

como se a onça fosse pão e ela quisesse

tirar uma fatia.” (linha 35);

Várias (tentativas) “O Visconde conseguiu depois de várias

tentativas”. (linha 36);

sabre de arco de barril (sabre) “O Visconde conseguiu, depois de várias

tentativas, enterrar- lhe no peito, o seu

sabre de arco de barril”. (linhas 36 -

37);

De assar frango (espêto) “Emília fez o mesmo com o espêto de

assar frango.” (linha 37);

Da sua espingarda (coronha) “Pedrinho macetou – lhe o crânio com a

coronha da sua espingarda.” (linha 38);

Bom (tiro) “depois de carregar de novo o canhão

deu-lhe um bom tiro à queima-roupa.”

(linha 39);

Atacada de todos os lados (onça) “Assim atacada de todos os lados, a

onça não teve remédio senão morrer.”

(linha 40).

Fonte: Quadro elaborado pelo autor desta tese, tendo por base dados extraídos do texto “A Caçada de Pedrinho”

O texto “A caçada de Pedrinho”, situado entre as páginas 33 e 34 do livro didático de

Domício Proença Filho e Maria Helena Marques, contém adjetivos não axiológicos ou menos

subjetivos e o mais próximo possível da imagem do “real” e dos adjetivos axiológicos, ou seja,

materializadores das intenções e opiniões dos enunciadores, emitindo juízos de valores calcados

em universo cultural diversificado. Quanto aos não axiológicos, que reforçam a objetividade e

a neutralidade ao referir-se às crianças, temos “ comandante superior” (Visconde); “berro de

comando” (do Visconde); “Bala de pedra” (bala); o nenhum efeito e armas de fogo (armas);

“livres(grupo/todos); “olhos fixos (olhos); “sua intenção” (da onça); “dos pistolões”

(pólvora); “completamente cega” (onça), referindo-se ora às armas, ora aos combatentes,

Pedrinho e o grupo ou à onça e aos meios e ações adotados (várias tentativas); “sabre de arco

de barril”, utilizados por Visconde, ou “espeto de assar frango”, utilizado por Emília. Tais

expressões evidenciam a criatividade das crianças e a necessidade de marcar as características

das pessoas, animais e objetos, conferindo-lhes status de realidade pelo uso das locuções

adjetivas ou intensificando seu estado ou modo de estar no exato momento em que se

apresentam, com intuito de gerar suspense.

Os adjetivos axiológicos, que, segundo Kerbrat–Orecchionni, apresentam a visão de

mundo e a expressão do pensamento mais subjetivos, intencionalidades, juízos de valor,

opiniões e valores culturais advindos do convívio social, estão associados à categorização de

Visconde, de Rabicó e da onça.

A onça está representada, a princípio, pelo termo adverbializado manhoso (em “andar

manhoso dos gatos”), que, por si, já carrega traços de malícia, dúvida, astúcia, sutileza e, em

seguida, agachada, que indicia posição de ataque, e desapontadíssima, não apontada, que não

está em estado de funcionamento, marcada pelo superlativo sintético “íssima”

(desapontadíssima), após perceber que os “caçadores” conseguiram se abrigar na grumixama.

Essas caracterizações da onça contribuem para referenciá-la como um animal que se torna mais