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Adjunção e Complementos: fatos empíricos

No documento Língua Barroca: (páginas 112-121)

2. Adjunção e Fronteamento

2.1 Adjunção: a hipótese X#V

2.1.4 Adjunção e Argumentos

2.1.4.1 Adjunção e Complementos: fatos empíricos

Face ao que se expõe acima sobre as condições para a adjunção de argumentos, trabalharemos com hipótese de que só é possível pensarmos em adjunção com

complementos retomados no interior da sentença. Quanto aos complementos pré-verbais não-retomados, considerarei que estarão sempre fronteados (ou seja, movidos para a posição pré-verbal interna à frase):

(45) As ordens Complemento-Verbo e a hipótese X#V - #XV

Complemento não retomado = #XV

Complemento Retomado = X#V (adjunção – CLLD)

Ressalte-se que não há um volume de dados significativo de sentenças com complementos pré-verbais, sejam ou não retomados: são ao todo 101 sentenças (ou seja 4% dos dados em principais), distribuídas em 0,05-0,05-0,07-0,05-0,02-0,01-0,04 ao longo dos sete períodos (a tabela 28 mostra os números de complementos retomados e não retomados em cada quarto de século, e o gráfico 14 mostra a proporção de Complemento-V em qualquer configuração em relação ao universo de sentenças principais). Entretanto, malgrado a pouca quantidade de dados, alguns fatos interessantes podem ser observados quanto à tendência da construção Complemento-V no eixo do tempo, à luz das proporções de retomada e não-retomada, e da posição dos clíticos.

Antes de tudo, os padrões de freqüência das sentenças com complementos pré-verbais podem representar evidências empíricas interessantes sobre a questão da colocação pronominal nos textos. Pois note-se que nas construções sem retomada, a próclise é a única opção em todo o período (são ao todo 55 casos, todos com próclises, cf. gráfico 15).

Já nos casos de complementos pré-verbais retomados (46, cf. Gráfico 16), atesta-se a alternância, com 25 ênclises para 21 próclises.

Vamos olhar mais de perto a alternância próclises-ênclises nesse ambiente Complemento Retomado-V. As construções com ênclise, comuns a todos os períodos exceto a segunda metade do século 16, são exemplificadas abaixo:

(46) Exemplos de Complemento-Vcl com retomada:

Século 17:

a) A mim e a outros tais , toca-nos chorar e pedir a Deus mova os que sabem e podem, e talvez porque não querem, usam mal do que podem e peor do que sabem; e como eu não tenho serventia para nada disto, não me meto em nada mais que em rogar a Deus comunique seu espírito aos que são cabeças e braços de religião. |CTB-00457-3-cha-1631|

b) A José deu-lhe Jacob por benção, que crescesse: Filius accrescens Joseph, filius accrescens: A Ruben deu-lhe Jacob por benção, que não crescesse: Ruben primogenitus meus non crescas. |CTB-01403-3-vis-1608|; |CTB-01404-3-vis-1608|

Século 18:

c) A uns levava-os, ou a prudência, ou a política humana: a outros arrastava-os, ou a emulação, ou a cobiça, cedendo tudo em ruína espiritual dos Portugueses, e estrago dos Índios. |CTB-00025-4-aba-1675|; |CTB-00026-4-aba-1675|

d) A um meu amigo perguntaram-lhe como faziam lá os homens quando se faziam calvos ? |CTB-00057-5-aco-1714|

Século 19:

e) A mim faz-me o efeito de desaparecer metade da sociedade de Lisboa. |CTB-01004-7-ort-1836|

f) A este pedia-lhe instantemente que me desse informações. |CTB-01060-7-ort-1836|

Listo a seguir a totalidade dos casos de complementos retomados seguidos de próclise37 :

(47) Ordens Complemento-clV com retomada (total de casos):

Século 16, 1ª metade:

a) Aos Turcos lhes pezou muito da morte de Dom Christovão, porque desejavam de o levarem de presente ao Grão Turco, pelo valor, e esforço da sua pessoa; mas sua alma santissima foi-se

37 Observe-se que além destes 17 casos com a configuração (X)-Retomado-clV, há ainda quatro casos com a ordem Retomado-X-clV. Nessa configuração a próclise é facilmente interpretável como relacionada ao constituinte que imediatamente antecede o verbo:

(a) He a guerra hum de tres açoutes, com que Deos castiga peccados neste mundo, já o disse: e porisso traz comsigo grandes trabalhos, assim para quem a faz, como para quem a padece; e hum dos mayores he o dos latrocinios, e pilhagens,

que de parte a parte, e ainda entre si as partes exercitam. |CTB-3-12005-mco-1601|

(b)Como se póde fazer, já o disse no capitulo precedente: como se deve executar direy agora, para que as unhas militares não desbaratem, e malogrem milhoens de ouro, que nella se empregaõ. |CTB-3-12025-mco-1601|

(c) O que lhe ela fora, assaz to tenho explicado, leitor amigo e benévolo: o que lhe ela será ... | CTB-6-09688-gtt- clV|

(d) O mais belo contudo de seus ornatos e glórias suburbanas, ainda o possui a nobre vila, não lho destruíram de todo; são os seus olivais. |CTB-6-09796-gtt-1799|

apresentar na Glória, diante do dador dela, banhada no fresco sangue de seu glorioso martírio, porque entrou formosa, e triunfante aonde recebeo a coroa aureola, que está guardada pera todos os que morrerem por sua Fé, honra, e serviço. |CTB-08424-1-cou-1548|

Século 16, 2ª metade:

b) - A mi me parece (disse Leonardo) que os atributos mais importantes ao Embaixador, e que sempre nêle devem andar anexos, são esfôrço e entendimento, que são como dois eixos em que se resolve o maior pêso e sustância das cousas do Estado; o que se colhe dos exemplos que dissestes e de outros muitos; porque o esforçado e entendido em nada falece, nem àquilo a que seu Rei o manda, nem ao que a si mesmo deve, nem à ocasião de que se pode aproveitar, como aconteceu a Pompílio, Embaixador a el-Rei Seleuco, sôbre conservar amizade com os Romanos, ou romper com êles guerra: que respondendo o Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava milhor, e entendendo o Romano que aquela dilação se fundava em fraqueza e cautela, com o bordão que trazia fêz um círculo na terra, em que Seleuco ficou metido, dizendo-lhe que antes que dêle saísse se havia de determinar na reposta de sua embaixada; e com isto obrigou ao Rei a aceitar a paz que lhe requeria.

|CTB-10736-2-lob-1579|

c) - A mi me parece (respondeu Leonardo) que vós tínheis mui boa razão se a não guardáreis para tão tarde; porém, em a noite de àmenhã se lhe fará justiça, que nesta é razão que se dê ao hóspede lugar conveniente para o repouso, pois há-de ir à Cidade e voltar no mesmo dia. |CTB-11018-2-lob-1579|

d) - A mi me parece outra coisa (disse Solino) em razão daquele provérbio: Antes asno que me leve que cavalo que me derrube. |CTB-10773-2-lob-1579|

e) - A mim me parece (tornou Leonardo) que os títulos é cousa conveniente e necessária; usados porém com moderação conforme ao que tenho dito; que notícia vulgar é ser um homem conhecido por o senhorio e cargo que tem; e assim se há-de escrever de cada um o cargo que tem, e por onde é mais conhecido. |CTB-10536-2-lob-1579|

f) - A mi me parece bem (disse Solino) a razão do Licenciado, que o Doutor tinha jeito de meter os louvores de uma dama em exemplos caseiros, chamando-lhe fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim, clara como a sua fonte e alta como as suas faias; e como os amantes, para encarecer, se não contentam com pouco, todos chegam ao que pode ser: todo o branco é cristal e diamantes; o còrado, rosas e rubis; o verde, esmeraldas; o azul, safiras, e o amarelo, ouro e jacintos; e até as mães dos mininos, a que naturalmente têm excessiva amor, não lhes sabem chamar pouco: quando os tomam nos braços, logo os intitulam de meu duque, meu marquês, meu conde; nas pedras, meu diamante, e, nas flôres, meu cravo e minha rosa; quanto mais louvando mulheres, a quem todo o encarecimento fica curto e envergonhado pola fôrça com que têm cativos os sentidos e as potências dos que hão-de falar nelas. |CTB-10858-2-lob-1579|

g) E que vai nisso? - disse o Arcebispo. - a mi me vai muito (tornou ele), que tenho pai em casa, que pelejará comigo; e tão bom dia se não forem mais que brados. |CTB-1399-2-sou-1556|

Século 17, 1ª metade:

h) Ao senhor Embaixador e a mim nos pareceu que assim estas libras, como as mil e quinhentas, haviam de ser das desta terra, e conforme a esta inteligência pagou Sua Excelência umas, e eu mandei suprir as outras com a segunda letra do ajustamento, que lá haverá chegado. |CTB-15039-3-vic-1608|

i) A mi me encaminhe Deus com eles e vos guarde como desejo. |CTB-12651-3-mel-1608|

Século 17, 2ª metade:

g) Sobjeitaraõ-se as Religiosas, jà à sua persuaçaõ, jà ao seu imperio, que animos nobres, fazem mais apreço do rendimento, que da vontade; às que naõ contradiziaõ estimaua a sobjeiçaõ, as que se escuzavaõ por naõ terem com que comprar os habitos, lhos offerecia, que ao seu grande animo naõ limitavaõ taõ poucas somas. |CTB-06861-4-ceu-1658|

h) A huma pessoa grande que lhe communicou o intento que tinha na escolha de marido, para a herdeyra de sua caza, a persuadia que mudasse de intento, e excluindo ao que se inclinaua, e abraçando ao que excluhia; leuouse a pessoa do seu parecer, desprezando o conselho, e ao depois lhe mostrou a experiência muyto à sua custa, o como os da serva de Deos eraõ illustrados. |CTB-06810-4-ceu-1658|

(48) Ordens X-Complemento –clV (com retomada):

Século 17, 2ª metade:

a) Seja o que fôr, a mi me está tão bem que Vossa Mercê me tenha em boa conta, que não determino por agora mostrar a Vossa Mercê que tem errado as contas no caso que faz de mi. |CTB-3-12784|

[mel-1608]

b) Em Santo Agostinho a agudeza nos argumentos, lha conservou contra os hereges. |CTB-05559-3-ber-1644|

c) Assim em São Guilherme, duque de Aquitânia, as grandes forças e braveza de ânimo que tinha para insultos lhas deixou para extraordinárias penitências. |CTB-05558-3-ber-1644|

d) Assim como os pés se chamam plantas, assim ás pégadas lhes quadra bem o nome de raizes. |CTB-15728-3-vis-1608|

e) Por isso aos Anjos lhes sobejam para explicar-se os conceitos, porque tem mais fino metal de juizo que os homens. |CTB-12931-3-mel-1608|

A proporção de ênclises em relação a próclises com complementos retomados pré-verbais progride em 0,00-0,00-0,68-0,67-1,00-1,00 (cf. gráfico 17). Ou seja, as ocorrências de próclises estão concentradas nos textos representativos dos séculos 16 e 17; na segunda metade do 17 e primeira do 18, predomina a ênclise; e nos textos da segunda metade do 18, a ênclise já é a opção categórica.

Se sustentamos que toda construção Complemento-V com retomada corresponde a um complemento adjunto (ie., externo), a alternância na posição do clítico não seria esperada nesse ambiente, em função da restrição ao clítico em posição inicial (a exemplo do que discutimos acima em 2.1.2 ). Podemos atribuir a ocorrência de próclises com complementos retomados ao enfraquecimento da restrição ao clítico inicial nos textos

do 16 e 1738, na mesma linha de como explicamos, anteriormente, os casos de próclises com Oração-V, por exemplo. Alternativamante, seria possível argumentar que também nestas sentenças o complemento é interno à sintaxe, apesar da retomada – ou seja, a rigor não se tratariam de retomadas, mas de construções de redobro clítico. Seria uma boa explicação para a próclise nestes casos, uma vez que no redobro clítico a relação entre o pronome e o SN complemento é estabelecida no interior da frase (portanto, não estaria em jogo a posição do clítico na fronteira da oração)39.

O ponto de maior interesse na avaliação da alternância ênclises-próclises com complementos pré-verbais, no entanto, não me parece ser a ocorrência de próclises com retomados, mas sim o fato de não se atestarem ênclises com complementos não-retomados nos textos pesquisados:

(49) Ordens Complemento-V atestadas e não atestadas [ (*) ]:

(a) A mim me parece ~ A mim faz-me o efeito complemento retomado-clV ~ complemento retomado-Vcl mas

(b) Isto me agradeceu a estrangeira ~ (*) “Isto agradeceu-me a estrangeira”

complemento retomado-clV ~ (*) complemento retomado-Vcl

Lembrando que nossa hipótese é que aos complementos retomados pode corresponder uma estrutura de adjunção X#V, mas (crucialmente) aos elementos não-retomados não pode corresponder uma estrutura de adjunção X#V, em termos esquemáticos, as

38Um fato que que parece importante ressaltar é que no texto de Rodrigues Lobo (n.1579), a ordem Retomado-V só é registrada com próclises; e em 5 dos 6 casos trata-se da mesma construção: A mi me parece. Não encontrei nos textos casos de “A mim parece-me”, para poder contrastar a expressão; mas a seqüência ordenada das cinco frases de Lobo me levam a dizer que não é seguro, a partir destes dados, analisar a próclise com retomadas como fato generalizado no sistema clássico em contraste com as ênclises. No Capítulo II irei mostrar que, na caracterização que proponho para os textos do Corpus quanto ao estilo literário, o texto de Rodrigues Lobo possui características muito especiais que recomendam uma mediação na interpretação de seu padrão de frase.

39Sobre as construções de redobro nos textos deste Corpus – mais especificamente, nos casos do acusativo preposicionado, como (47h) – remeto a Gibrail, 2003.

seguintes opções se configuram (a partir de uma sentença hipotética com dois complementos do verbo, “Deu a benção a José”):

(50) Esquema - Complemento não-retomado-V:

“Deu a benção a José” >

(c) A José deu a benção >

A José a deu (*) A José deu-a # [A Joséj ai deu tj ] e não: [A José]j # [ai deu ], [A José ]j # [deu-ai ] (a) A benção deu a José >

A benção lhe deu (*) A benção deu-lhe

#[A bençãoi lhej deu ti ]

e não: [A benção ]i # [lhej deu ], [A benção ]i # [deu-lhej ]

Nos exemplos acima o complemento que aparece pré-verbal não remete ao pronome clítico; em (a), está fronteado o complemento dativo, e o complemento acusativo é o clítico; em (b), o oposto. São as construções “sem retomada”; consideramos que nesses casos, não está em questão a estrutura de adjunção. Já nas construções “com retomada”, teríamos:

(51) Esquema - Complemento retomado-V:

“Deu a benção a José” >

(b) Deu-a a José.

A benção deu-a a José ~ A benção a deu a José

[A benção]i # [deu-ai a Joséj ] ~ [A benção]i # [ai deu a Joséj ]

e não: #[A bençãoi deu-ai a Joséj ],

#[A bençãoi ai deu a Joséj ] (c) Deu-lhe a benção.

A José deu-lhe a benção ~ A José lhe deu a benção

[A José]j #[ deu-lhej a bençãoi ] ~ [A José]j #[ lhej deu a bençãoi ] e não: #[A Joséj deu-lhej a bençãoi ],

# [A Joséj lhej deu a bençãoi ]

Nos exemplos acima, temos evidência de que os XP complementos pré-verbais estão adjuntos, uma vez que no interior da frase, as entradas para complementos estão esgotadas – no exemplo (a), o XP é co-referencial ao clítico acusativo; em (b), ao clítico dativo40. Voltanto à questão da posição dos clíticos, já observamos que nos casos como (51) – ou seja, sem retomada – não se atesta no corpus a ocorrência de ênclises; e com casos como (52), com retomada, atestamos alguma alternância.

Portanto, em termos empíricos, podemos dizer agora que embora a próclise não seja indicadora da posição inicial dos sintagmas pré-verbais, a ênclise o é, já que no ambiente Complemento-V, não se atesta a ênclise quando o complemento pré-verbal é por hipótese interno. Note-se que a hipótese da posição interna dos complementos não-retomados não faz referência à posição do clítico; assim, temos aqui um ambiente sintático que representa uma indicação empírica importante da relação entre a ênclise e a posição externa independentemente do estatuto da restrição ao clítico inicial.

Em vista disso considero ser empiricamente justificado afirmar que no corpus considerado, a ênclise aparece como ordem característica das estruturas verbo-iniciais.

40Importa salientar, como já observei, que nos casos como (52b) – ou seja, retomada com complementos dativos – podemos estar diante de construções de redobro clítico, portanto, sem adjunção (com o esquema: “# A José-j lhe-j deu a benção”). Não me parece que isso prejudique a constatação empírica principal neste momento, que é a próclise categórica nos casos em que o XP complemento pode ser interno.

Isso não significa que não se vão atestar próclises nesses tipos de estruturas (como vimos), mas sim que não se vão atestar ênclises nos demais ambientes.

Assim, as sentenças com complementos pré-verbais oferecem indicações empíricas que podem lançar um novo olhar sobre os dados de alternância ênclises-próclises em geral.

A primeira indicação, já vimos, diz respeito à ênclise enquanto indicadora da posição estrutural do verbo. A segunda indicação, vermos agora, remete ao problema mais amplo da quantificação das ocorrências em variação. Pois nessa classe ampla

“Complemento-Verbo”, como se argumenta aqui, reunem-se dois tipos de construção bem diferenciadas, que podem ser identificadas pela questão da retomada pronominal. A rigor, portanto, essas construções com ênclises e com próclises não se encontram em variação:

(52) Esquema - ordens Complemento-V e a “variação”:

(a) [Deu-lhe-j a benção] > ADJUNÇÃO > [A José ]-j [ deu-lhe-j a benção] ~ [A José ]-j [ lhe-j deu a benção]

(a) [Deu-a a José-j ] > FRONTEAMENTO > [A José-j a deu t-j]

Crucialmente, não faz sentido medir tendências de variação na colocação de clíticos no conjunto geral “Complemento-Verbo” abstraindo a questão da retomada. Interessa notar que se o fizermos, chegamos à seguinte progressão da ênclise: 0,00-0,00-0,23-0,31-0,38-0,50-1,00 de (cf. gráfico 18); mas esta “tendência para a ênclise” não é uma maneira adequada de descrever os dados com ordem Complemento-Verbo. Trata-se, obviamente, da soma de duas tendências – a variação ampla da relação ênclises/próclises com complementos retomados (ou a variação entre construções de retomada e de redobro, se quisermos), somada à próclise categórica nas construções sem retomada.

Nesse sentido, o caso dos complementos pode ser uma indicação de que é necessário cuidado na medida da “tendência para a ênclise” em outros casos – crucialmente, o dos sujeitos pré-verbais. Como irei argumentar adiante, também os sujeitos nesse sistema

podem estar na posição interna ou externa. Mas enquanto no caso dos complementos, a retomada por um elemento lexical resolve a ambigüidade das construções de adjunção e fronteamento, não podemos contar com isto quanto aos sujeitos – que por hipótese, quando em adjunção, são retomados por categorias vazias. Em termos estritamente empíricos, é impossível saber, portanto, se a exemplo do que acontece com os complementos, ao medir o crescimento da ênclise em SV estamos também misturando sujeitos fronteados com sujeitos adjuntos.

Uma boa maneira de compreender o que acontece no ambiente SV é comparar as freqüências de SV com ênclises e próclises com as tendências apresentadas pelas construções XV em que temos melhores evidências quanto à posição de X. Na seção a seguir, abordo o problema do estatuto das ordens SVcl (ou seja, das construções com sujeitos pré-verbais seguidos de ênclises); em vista do fato de que só atestamos ênclises com os complementos referenciais que podem ocupar a posição externa (ou seja, não atestamos a ênclise com os complementos que não podem ocupar a posição externa), partiremos da hipótese de que aos sujeitos seguidos de ênclises também corresponde uma estrutura X#V nesse sistema. Veremos como isso se justifica empiricamente nos dados; quanto aos sujeitos com próclises, como veremos em seção posterior, esta seria a mais ambígua das ordens documentadas.

No documento Língua Barroca: (páginas 112-121)