Quadro: características dos textos até o século 17 no Corpus principal 1) #V
Registra-se algum clítico inicial
(até 5% das ordens #V na 2ª metade do século 17) 2) XV
X#V:
As ordens lineares XV interpretadas como adjunção chegam a até 5% das sentenças principais; a posição preferencial do clítico é a ênclise;
#XV:
As ordens lineares XV interpretadas como fronteamentos chegam a até 27%
das sentenças principais; a posição categórica do clítico é a próclise;
3) SV
As ordens SV com ênclises podem chegar a até 5% das sentenças principais (e é próxima ou inferior à proporção de X#V);
As ordens SV com próclises podem chegar a até 30% das sentenças principais (e é próxima de #XV) ;
A oscilação das proporções de SV com ênclises e com próclises em cada texto não é inversamente proporcional;
A taxa relativa de ênclises/próclises em SV oscila entre 0% a 30% nas sentenças principais.
4) VS
Uma faixa de 20% das sentenças principais apresentam sujeito pós-verbal (em V1, V2 e V3);
O padrão de VS mais freqüente é XVS com próclises (X-clítico-VS);
Registra-se a ordem XXVS (X-X-clítico-VS)
O quadro do conjunto dessas características começa a mudar nos textos do século 18 – mas nem todas as características evoluem no mesmo rítmo.
A propriedade que tomei como central é a taxa de VS nas orações principais, justamente por ser a característica mais estável entre os textos até o século 17, e cuja queda é definitiva desde o primeiro texto do 18. Combinando esta generalização sobre os sujeitos pós-verbais, e o que se viu sobre as posições pré-verbais, seria possível entender que a sintaxe clássica do português pode ser satisfatoriamente descrita como um sistema de tipo V2, uma vez que o movimento para a posição pré-verbal interna é bastante produtivo, e também as ordens VS – em especial, XVSX.
Isto indicaria que a sintaxe dos textos clássicos aqui estudados pode ser descrita em moldes similares ao que se têm proposto para os textos do final do período medieval por diferentes estudos; a idéia geral aqui levada em conta parece-me que captura o espírito das principais análises sobre o português entre o período arcaico e o moderno e sobre a diacronia do romance em geral74.
Há entretanto uma diferença importante que surge aqui: para interpretar os fatos empíricos como eu proponho, é preciso ponderar a questão da restrição ao clítico inicial.
Pois como vimos, nas estruturas de fronteamento, a próclise é categórica; mas nas estruturas de adjunção, atestam-se ênclises e próclises.
Isto configura uma conclusão indesejável: o ambiente em que será mais adequado falar em variação na posição dos clíticos na abordagem aqui proposta, justamente, são os ambientes potencialmente V1, onde deveríamos esperar a ênclise obrigatória segundo as principais análises.
Veja que isto não é indesejável apenas tendo em vista as análises sobre o período medieval, mas também, e crucialmente, levando-se em conta que este sistema médio
74Sobre o Português, em particular Galves et al. (1998), Ribeiro (1995), Torres Morais (1995), Martins (1994); sobre o romance ibérico, em especial Salvi (1992), Benincá (1999) e Fontana (1993).
deve estar na base do surgimento do PE, onde a obrigatoriedade da ênclise em V1 é um fato bem estabelecido.
Ao longo do restante deste trabalho, procuraremos elucidar alguns destes pontos.
Penso que neste ponto será interessante acrescentar novas dimensões a esta análise , abordando os textos de um ponto de vista alternativo, sobretudo quanto à questão de sua representatividade.
Estariam em pauta as seguintes perguntas:
Os padrões atestados nos textos do Corpus Tycho Brahe são fatos característicos da escrita, ou podem ser tomados como representativos também da língua oral? Quais seriam as propriedades da escrita seiscentista em jogo na variação atestada que possam remeter a um distanciamento em relação à língua falada?
Em que medida é seguro supor que o falante médio do português na segunda metade do século 17 esteja bem representado na escrita dos autores do Corpus Tycho Brahe? Isto é:
qual a relevância de se levarem estes fatores em conta nos estudos da mudança gramatical que sela o fim do estágio médio da língua portuguesa (e em tese marca o início de um período de diversificação espacial, formando-se duas variantes modernas, o PE e o PB)?
Minha hipótese de partida para estas questões é que os padrões atestados nas obras literárias do Corpus devem ser interpretados como característicos da escrita seiscentista, sobretudo a escrita culta. Haveria, nessa escrita, propriedades que não estão necessariamente ativas um plano mais amplo da língua da época – e que portanto, não seriam representativas do sistema que dá origem ao PE moderno. A relevância desta hipótese para os estudos da mudança reside nem tanto na constatação de uma diferença entre linguagem escrita-linguagem falada, mas sobretudo no fato de ser possível defender que esta diferença opera em diferentes moldes seja no período seiscentista, seja no setecentista. Os capítulos seguintes exploram estas questões, buscando novas perspectivas sobre a dinâmica dos padrões sintáticos até aqui descritos.
II. S i n t a x e e H i s t ó r i a
“ D
a mudança que as lingoas fazem per discurso de tempo:Assi como em todas as cousas humanas ha continua mudança & alteração,
assi he tambem nas lingoages.
E o que parecia increiuel, tambem isto estaa subiecto
ao arbitrio da fortuna...”
Origem da Lingoa Portuguesa Per Duarte Nvnez de Lião, desembargador da casa da supplicação
natvral da inclyta cidade de Evora
Em Lisboa :
Impresso por Pedro Craesbeck MDCVI
este capítulo busco olhar a evolução dos padrões sintáticos registrados nos textos sob uma luz diferente, à perspectiva da informação histórica, da comparação com textos de outra natureza, e da abordagem de longo prazo sobre a mudança gramatical envolvida na evolução dos padrões. Para justificar essa ótica de análise, remeto aos fundamentos teóricos desta pesquisa tais como apontados na Introdução: os textos encerram uma inter-relação de propriedades gramaticais abstratas e fatores históricos; e o fato de o objeto teórico da sintaxe gerativa se localizar na língua em termos abstratos não redime a pesquisa de buscar contextualizar historicamente seu material empírico de investigação. A dimensão histórica da escrita portuguesa pode ser relevante na interpretação dos padrões sintáticos que atestamos nos textos escritos neste período na medida em que permite uma mediação na nossa interpretação da evolução dos padrões enquanto manifestações de mudanças lingüísticas.
N
Na primeira seção do capítulo, procuro colocar a escrita seiscentista em perspectiva abordando o problema da representatividade da escrita culta, que constitui a fonte principal deste estudo. Inicialmente, comparo os padrões atestados nos textos até aqui com os padrões em textos de natureza sociolingüística diversa; em seguida, contraponho entre si os padrões de alguns autores chaves do Corpus principal: os representantes das gerações da virada dos anos 1600 para os 1700.
Na segunda seção, apresento apontamentos colhidos na historiografia sobre esse período histórico, salientando os aspectos que podem ter relevância direta no estudo da sintaxe dos textos.
Na terceira seção, revisitamos os padrões sintáticos atestados nos textos, levantado o problema da mudança gramatical no seu longo prazo – quanto à formação das variantes modernas da língua, e quanto à relação dos textos seiscentistas com os medievais.