2. Adjunção e Fronteamento
2.2 Fronteamento: a hipótese #XV
2.2.3 Fronteamento e argumentos
2.2.3.1 Sujeitos como fronteados
Argumentarei aqui que tendência a um maior uso de construções que instanciam obrigatoriamente a próclise é um dos elementos em jogo na elevada proporção de sujeitos não expressamente focalizados com configuração SclV nos textos clássicos, em especial no século 17.
Antes de tudo, vamos observar como a freqüência de ocorrência das construções em próclise obrigatória se compara com a freqüência de S-cl-V em cada período (cf. o gráfico 29). Somando os ambientes com próclises obrigatórias, a tendência é de 0,06-0,15-0,22-0,21-0,19-0,13-0,04; a tendência com sujeitos (S-cl-V) é de 0,31-0,14-0,13-0,17-0,16-0,10-0,01. Ou seja: de um modo geral, nota-se que o período em que a proporção de S-cl-V é mais elevada coincide com o período em que as construções com próclises obrigatórias são também mais elevadas (ou seja: o período anterior ao século 18).
No entanto, a tendência das duas ordens não é proporcional: notadamente, o texto da primeira metade do século 16 apresenta uma proporção de S-cl-V bem mais elevada que
a proporção de fronteados típicos (0,31 contra 0,06 respectivamente); já nos textos da segunda metade do 16, a média da proporção de SV cai para 0,14 (tornando-se comparável aos ambientes X-cl-V, com média de 0,15).
Será interessante observar as proporções em cada autor dos séculos 16 e 17 (cf. gráfico 29 em dispersão, e gráfico 30, com os dados agrupados em linha para melhor comparação entre os textos). As proporções S-clV e X-cl-V em cada texto dos séculos 16 e 17 são respectivamente as seguintes: em Couto 0,30 e 0,06; em Sousa 0,17 e 0,18; em Lobo 0,15 e 0,13; em M. da Costa 0,09 e 0,18; em Vieira, Cartas 0,25 e 0,25 e Sermões 0,09 e 0,22; em Melo 0,20 e 0,29; em Chagas 0,12 e 0,25; em Bernardes 0,25 e 0,11; em Brochado 0,36 e 0,21; em Maria do Ceu 0,08 e 0,16; em A. Barros 0,17 e 0,28.
Ou seja, além do texto de Couto, apenas em dois outros casos a proporção de SclV é mais de 10 pontos superior à de XclV com próclise obrigatória (nos textos de Bernardes e Brochado). Nos demais casos, ou a proporção entre as duas é muito próxima, ou a proporção de XclV é superior à de SclV. Notam-se ainda outros contrastes interessantes:
por exemplo, as Cartas de Vieira apresentam uma proporção maior de S-cl-V (0,25) que os Sermões (0,09), mas uma proporção comparável de X-cl-V, isso é, construções com advérbios fronteados e sujeitos expressamente focalizados (0,25 contra 0,22 – mais adiante voltaremos a esse contraste entre os textos, que pode ser explicado pelo fato de acharmos menos sujeitos nulos nas Cartas de Vieira, que nos Sermões).
Ou seja, na maior parte dos casos, os textos com maior tendência a usar S-cl-V apresentam também maior proporção de X-cl-V (a exceção mais notável é o texto da primeira metade do século 16, cujas propriedades serão exploradas mais adiante). E em termos gerais, a proporção de SV com próclises é maior nos textos clássicos que nos modernos, assim como a proporção de seqüências de próclise obrigatória é também relativamente mais freqüente nesses textos, como já vimos (e naturalmente, também as demais construções com próclises, como PP-cl-V – que evolui em 0,07-0,08-0,10-0,14-0,04-0,02-0,01 – cf. grafico 31; e ADV-cl-V, que evolui em
0,06-0,02-0,04-0,02-0,04-0,01-0,00 – cf. grafico 32). Argumentei mais acima que a sintaxe clássica do português se caracteriza fundamentalmente pela produtividade da construção em que um constituinte de VP pode ser fronteado para uma determinada posição pré-verbal (que instancia sempre a próclise): considero que isso pode incluir os sujeitos, muito embora em alguns casos como vimos a proporção de S-cl-V seja mais elevada que a de X-cl-V.
Pois, crucialmente, nos textos do século 16 e 17, um uso mais ou menos intenso de S-cl-V não corresponde a uma oscilação inversa de S-S-cl-Vcl.
Ora, como vimos já na seção 2.1, os textos deste período apresentem muito poucas instâncias de SV com ênclises. Quando olhamos os dados em cada texto, isto se traduz em uma faixa muito estreita de oscilação na proporção de SVcl – entre 0,00 e 0,03 do total de dados em sentenças principais de cada texto dos séculos 16 e 17. Entretanto, vimos agora que os mesmos textos apresentam uma faixa larga de oscilação na taxa de SclV em relação ao total de dados: entre 0,09 e 0,30. Ora: se neste sistema SclV estiver em competição com SVcl, será difícil compreender esta diferença (que é ilustrada pelo gráfico 33, contrapondo a proporção de SV-cl e S-clV em cada texto).
A oscilação dessas duas opções de SV comparadas me parece reveladora: ao menos até o ponto de 1700, o maior ou menor uso de próclises com sujeitos não está relacionado com um menor ou maior uso de ênclises com sujeitos.
Observe-se por exemplo os dois textos de Vieira: enquanto nas Cartas, 0,25 das sentenças principais tem o padrão S-cl-V, nos Sermões apenas 0,09 delas tem esse padrão, como vimos. Os Sermões apresentam maior proporção de sentenças com padrão SV-cl, enquanto nas Cartas esse padrão simplesmente não é atestado; mas a distância entre os 0,00 de SV-cl nas Cartas e os 0,02 de SV-cl nos Sermões não é inversamente proporcional à diferença dos 0,25 contra 0,09 de S-cl-V. Ou seja: onde estão os sujeitos dos Sermões?
Se a generalização que estabelecemos para os complementos puder ser estendida para
os sujeitos, isso significará que ao medirmos a proporção ênclises versus próclises em SV, estamos medindo na realidade não a alternância na colocação dos clíticos, mas a proporção entre as diferentes posições em que o sujeito pode aparecer.
Isso indica que para de fato entendermos a dinâmica das posições do sujeitos, precisaremos verificar o que acontece com os sujeitos pós-verbais e os sujeitos nulos.
De fato, em geral tomamos a alternância entre SV com próclises e SV com ênclises como o fator central a ser focalizado na mudança entre o sistema médio e o sistema moderno.
Isto faz sentido uma vez que sabemos que no PE, SV com próclises deixa de ser possível, e SV com ênclises é categórico.
A questão, aqui, é o problema de como organizar os dados para medir esta substituição.
Podemos considerar de partida que estão em jogo três possibilidades para a posição de sujeitos:
(30)
SV VS nulo
Observe-se que normalmente, restringimos as análises ao contraste entre SV com ênclises e SV com próclises, tomando portanto as ordens SV lineares com ênclises e próclises como estando em variação entre si, à diferença da posição do pronome:
(31)
Eu a tenho por adequada, genuina e litteral... |CTB-15591-3-vis-1608|
”Eu tenho-a por adequada, genuina e litteral”
Isto porque sabemos que no PE, SV com ênclises é a ordem aceite, e SV com próclises não é atestada. Entretanto, nada nos diz, a priori, que a ordem SV com próclises nos textos clássicos esteja “variando” com SV com ênclises. As outras possibilidades para a frase acima seriam:
(32)
“Tenho-a eu por adequada, genuina e litteral” ou ”Por adequada, genuina e litteral tenho-a eu”;
”Tenho-a por adequada, genuína e literal”
Naturalmente, para cada uma destas sentenças pode corresponder uma diferente interpretação em termos discursivos. As propriedades da relação entre ordem de palavras e propriedades semânticas no português são extensamente descritas no trabalho de João Costa55; segundo ele, no PE as ordens VS correspondem à focalizações do sujeito. Também são focos os sujeitos que podem eventualmente aparecer seguidos de próclises no PE. Entretanto, para o sistema anterior, não podemos saber de imediato quais as propriedades semânticas de cada uma das opções acima (SV com próclises, SV com ênclises, VS).
De início, a ordem SV neste caso não impede que este sujeito seja interpretado como focalizado, em especial quando remetemos ao contexto anterior da frase atestada:
(33)
Bem sei que os doutos terão esta exposição por nova, e bem sabem elles tambem, quão duras e difficultosas são as que até agora se teem dado. Eu a tenho por adequada, genuina e litteral.
Para organizar os dados, portanto, será interessante documentar estas posições possíveis para os sujeitos nas sentenças com clíticos e verificar empiricamente a freqüência de cada uma. Conceituar a variação será uma segunda etapa. Aqui estaremos perseguindo a hipótese de que no sistema médio, a sintaxe dos sujeitos, quanto à ocupação das posições pré-verbais, é a mesma dos demais constituintes; ou seja, segundo Galves, Britto e Paixão de Sousa 2003 quando ao sistema médio, Ribeiro 1996 quanto ao PA, e as hipóteses mais generalizadas sobre o romance antigo em geral, considerarei que nos textos médios do português, SV é um sub-caso de XV.
Seguindo portanto a principal generalização a que chegamos na seção 2 acima quanto às ordens XV neste sistema, a partir da hipótese inicial da separação da posição superficial pré-verbal em duas opções estruturais (interna, e externa), conclui-se que também SV,
55Por exemplo em Costa (2000)
neste sistema, pode por hipótese corresponder a duas opções estruturais, que interpreto aqui como adjunção e fronteamento:
(34)
SV posição externa S#V (adjunção) SV posição interna #SV (fronteamento)
Quanto à posição de clíticos, será importante aqui lembrar o problema que vimos mais acima quanto aos constituintes fronteados versus adjuntos, e que se explicita bem no caso de itens que pode ser encontrados nas posições XV com próclises e ênclises e na posição VX, sendo que a cada uma corresponde uma interpretação semântica distinta (como o advérbio assim). Como vimos, não faz sentido medir a “variação” entre ASSIM-CL-V, ASSIM-V-CL e V-CL-ASSIM, pois em cada caso o sentido do advérbio é diferente.
Isto significa dizer que neste caso não estaríamos medindo uma variação no sentido estrito do termo. Aqui tomarei como central a distinção delineada em Morphosyntactic Variation, por A.Kroch56: construções aparentemente idênticas (os duplos sintáticos) mas com diferentes propriedades semânticas comportam-se da mesma forma que os duplos morfológicos: podem conviver em um mesmo sistema, estável, sem competir entre si.
Para Kroch, isto se observa especificamente no que tange os duplos sintáticos que, estruturalmente, correspondem a propriedades distintas quanto às operações nos núcleos funcionais.
Isto é: duas formas superficialmente idênticas, mas cujos termos ocupam diferentes posições estruturais, não competem necessariamente entre si – e portanto não são necessariamente locus de mudança gramatical. Abstraindo a presença do clítico, considero que o que temos nos exemplos com assim são duplos sintáticos neste sentido:
56Kroch (1994)
(35)
Assim disse (=disse deste modo) fronteamento, #XV Assim disse (=então disse) adjunção, X#V
Por hipótese, também os sujeitos pré-verbais se dividem em dois grupos neste sistema:
os que estão na posição de adjunção, e os que estão em uma posição de fronteamento; e também neste caso as opções configuram duplos sintáticos:
(36)
Eu tenho fronteamento, #SV Eu tenho adjunção, S#V
Se consideramos que alguns dos sujeitos em SV são sub-casos de fronteamento, temos aí dois problemas quanto à organização dos dados. Em primeiro lugar, lembrando que o fronteamento dos constituintes de VP é uma opção em relação às ordens VX, para medir os padrões de freqüência de sujeitos em posição de fronteamento, por hipótese temos que incluir no universo de análise os sujeitos não-fronteados – ou seja, as ordens VS. Em segundo lugar, devemos lembrar que os sujeitos são um caso especial em relação aos demais constituintes de VP, uma vez que sempre devem estar presentes na estrutura (em contraste, os advérbios podem ou não aparecer; e os complementos também, no caso de verbos mono-argumentais). Ou seja, além de SV e VS, há as estruturas de sujeito nulo.
Um terceiro problema sobrevém da hipótese de que alguns dos sujeitos em SV são sub-casos de adjunção. Nestes sub-casos, SV não é uma opção a VS, mas uma construção inteiramente independente. O problema, do ponto de vista empírico, é diferenciar SV resultante de adjunção de SV resultante de fronteamento. Como vimos em 2.1, a posição do clítico não pode ser o único fator a guiar a interpretação estrutural desses “duplos”, uma vez que:
(37)
Eu tenho fronteamento, #SV Eu a tenho Eu tenho adjunção, S#V Eu tenho-a, Eu a tenho
A diferenciação entre adjunção e fronteamento poderia ser buscada na análise semântica de cada opção. No atual estágio das pesquisas, entretanto, não me parece que seja possível interpretar cada uma das sentenças em seu contexto com a garantia que a nossa intuição, derivada da nossa língua materna, interfira no processo. Veremos na seção 3.2.1 que uma interpretação objetiva nestes casos é muito delicada.
Justamente por isso, considerarei adequado considerar aqui todas as ordens superficiais em um mesmo plano para iniciar a análise empírica. Assim, irei considerar que as ordens SV com ênclises e próclises devem ser documentadas conjuntamente com as ordens VS e os sujeitos nulos, e que apenas o exame das freqüências de ocorrência permitirá que nos aproximemos, de modo minimamente objetivo, de compreender a relação entre as opções, por meio da verificação de possíveis padrões de oscilações inversas. Veremos a seguir que nos textos dos séculos 16 e 17 com maior proporção de S-cl-V, é o uso do sujeito nulo que é mais baixo (não do sujeito com ênclises); e que a proproção de ordens VS é um dos fatores mais estáveis entre os textos contemporâneos – e que mais claramente contrasta com o padrão dos séculos 18 e 19.