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DIREITOS HUMANOS ANTE A AUSÊNCIA DE LEGISLAÇÃO NO DIREITO INTERNO SOBRE MINERAÇÃO EM TERRITÓRIO INDÍGENA

Como se viu anteriormente, o texto da Convenção 169 da OIT traz princípios e direitos a serem observados quando da implementação de megaprojetos de mineração em território indígena, sobretudo o direito à consulta livre, prévia e

informada, respeitando-se a boa-fé e buscando-se sempre o consentimento dos povos indígenas afetados.

Acontece que não somente o texto da Convenção 169 da OIT apresenta os parâmetros necessários para a proteção dos direitos indígenas frente a implementação de megaprojetos extrativistas em territórios indígenas.

Em igual sentido, o Relatório da CIDH38 também fixa parâmetros a serem obedecidos quando da implementação de indústrias extrativistas em territórios indígenas, podendo tais critérios serem adotados pelo direito interno, a fim de garantir maior efetividade e proteção dos direitos indígenas.

O Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, conforme já tratado em tópico próprio, trata justamente dos critérios para a atuação estatal diante da implementação de megaprojetos extrativistas em território indígena.

Visando a proteção dos povos indígenas no âmbito do direito interno, entende-se ser possível adotar os parâmetros indicados no Relatório da CIDH, os quais versam sobre a necessidade de adoção de um marco normativo adequado, prevenção de violações de direitos humanos, supervisão e fiscalização das atividades extrativistas, mecanismos de participação e acesso à informação por parte dos povos indígenas, acesso à justiça e reparação adequada em casos de violações de direitos humanos de indígenas. (CIDH, 2015, p. 10).

Nota-se, portanto, que os critérios definidicos no Relatório da CIDH visam justamente proteger os povos indígenas do poder econômico e das articulações de grandes corporações que buscam instalar-se em seus territórios.

Na verdade, mesmo reconhecendo a importância do desenvolvimento econômico de determinadas regiões por meio da implementação de megaprojetos extrativistas, também é perceptível a vulnerabilidade dos povos indígenas frente a tais empreendimentos, isso porque tais corporações detêm poder econômico e força política que por vezes poderiam impedir o exercício de direitos por parte dos povos indígenas.

Por essa razão, torna-se de fundamental importância a consolidação de tais direitos em legislação específica, lei de direito interno (como o projeto de lei n

1.60/96, com os necessários aprimoramentos), a fim de garantir o cumprimento dos princípios e direitos constantes na Convenção 169 da OIT.

38 Vide item 2.3., do Capítulo 2 do presente estudo.

Quanto a isto, deve-se ponderar que é preciso adotar medidas adequadas e efetivas no sentido de assegurar o direito de voz aos povos indígenas, por meio da consulta livre, prévia e informada dos povos afetados, sob pena de violação ao disposto na Convenção 169 da OIT, ratificada pelo Brasil em 2002 e vigente desde 2003.

Ora, no texto do Substitutivo ao Projeto de Lei n 1.610/96 não se encontram critérios claros quanto à exploração extrativista em territórios indígenas. Na verdade, o projeto de lei em questão apresenta um texto genérico sem especificar claramente os mecanismos por meio dos quais os povos indígenas poderiam buscar a efetivação de seus direitos, especialmente o direito de serem ouvidos.

A esse respeito, entende-se, portanto, que o projeto de lei pode ser aprimorado mediante a adoção, em seu texto, dos critérios constantes no Relatório da CIDH, sobretudo, a clara disposição acerca das obrigações do Estado quanto aos direitos humanos dos povos indígenas.

Além disso, outro ponto possível de ser considerado no projeto de lei seria justamente a inserção de garantias aos povos indígenas quanto aos impactos socioambientais das atividades extrativistas desenvolvidas em seus territórios.

Na ausência de lei específica, entende-se ser plenamente possível a adoção dos critérios fixados no Relatório da CIDH, isso porque tal relatório encontra-se em consonância ao disposto na Convenção 169 e em nada a contraria. Ademais, o referido relatório aponta critérios imprescindíveis de serem seguidos, merecendo destaque a possibilidade de responsabilização do Estado em caso de eventual omissão perante a prática de atos de violação de direitos humanos dos povos indígenas, ainda que por empresas particulares.

Por oportuno, destaca-se que o relatório determina como obrigação do Estado que o mesmo supervisione e fiscalize as atividades de extração desenvolvidas pelas corporações em territórios indígenas e, ainda, atue no sentido de prevenir, mitigar e suspender eventuais impactos socioambientais decorrentes de violações de direitos humanos dos povos indígenas. (CIDH, 2015, p. 55).

Outro critério que pode ser adotado no direito interno e que se encontra previsto no Relatório da CIDH é justamente o de que é dever do Estado garantir que as empresas que se instalem em territórios indígenas para exploração extrativista preencham os requisitos legais necessário e respeitem os direitos humanos dos povos afetados, sob pena de restar configurada responsabilidade do próprio Estado.

Além disso, por força do Relatório da CIDH, também é dever do Estado promover a consulta prévia dos povos indígenas e o respeito aos direitos de tais povos, respeitadas as peculiaridades e diferenças culturais de cada um.

O fato é que todos esses parâmetros indicados no Relatório da CIDH podem ser de pronto utilizados no direito interno, isso porque o Brasil é signatário da Convenção Interamericana de Direitos Humanos, e, portanto, está vinculado à Corte Interamericana de Direitos Humanos e suas recomendações por meio das respectivas comissões que a integram.

Frise-se que o Relatório da CIDH poderia ser utilizado como complemento à legislação de direito interno, isso porque a elaboração de norma específica em direito interno se demonstra fundamental, contudo, na ausência de tal norma e/ou na incompletude dessa, entende-se razoável e adequada a aplicação subsidiária das recomendações constantes no Relatório da CIDH, visto que se encontram em plena consonância ao disposto na Convenção 169 da OIT.

Cumpre mencionar que não há no texto do Substitutivo ao Projeto de Lei n

1.610/96 critérios claros quanto à exploração extrativista em território indígena. Na verdade, o projeto de lei supramencionado poderia, em sua redação, apresentar minuciosamente o procedimento, responsabilização do Estado e corporações, bem como demais direitos aos povos indígenas, contudo, percebe-se o silêncio legislativo quanto a tais aspectos tão importantes.

Em relação a isso, oportuno destacar o posicionamento a seguir:

Devem os Estados implementar as reformas institucionais necessárias a fim de que seus sistemas políticos e jurídicos sejam capazes de refletir de forma apropriada a diversidade e a pluralidade existente nas sociedades. Essencial é avançar na reforma do Estado assegurando a devida participação e a justa representação de populações historicamente invisibilizadas. As demandas por redistribuição, reconhecimento e representação devem ser integradas de forma equilibrada. Fortalecer a proteção do valor da diversidade étnico-racial, realçando os princípios da igualdade e da proibição da discriminação, surge como pressuposto e condição para a afirmação do Estado de Direito, da democracia e dos direitos humanos na região, sob o imperativo ético da luta emancipatória por direitos e por justiça. (PIOVESAN, 2016, p. 305)

Observa-se que não é possível, ao Estado, permanecer inerte quanto à necessidade de criação de lei específica relativa à exploração extrativista em território indígena, especialmente considerando-se o fato de que a implementação

de megaprojetos de mineração atinge diretamente os povos indígenas, acarretando em consequências graves, comprometendo, por vezes, a sobrevivência dos povos afetados – que dependem do território para prover seu sustento, bem como manter o exercício da religião, cultura, estilo de vida, etc. –, já que interferem nos ciclos naturais do território explorado.

Sendo assim, percebe-se que é urgente e necessária a criação de lei específica acerca de tal temática, sendo indispensável que tal norma tenha seus limites pautados pela Convenção 169 da OIT e, ainda, estabeleça critérios claros quanto à instalação de megaempreendimentos de mineração e exploração extrativista em territórios indígenas, podendo o Relatório da CIDH ser utilizado para balizar os critérios a serem respeitados pelo poder público e instituições privadas.

3.3 OS ELEMENTOS DA TEORIA DO RISCO E SUA APLICAÇÃO NA

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