MEGAEMPREENDIMENTOS – UM CASO DE (IN) JUSTIÇA AMBIENTAL
A sociedade atual vive em um ritmo frenético e cada vez mais corre em busca de substituir, descartar, consumir. Esse mal é a própria modernidade instalada, que tornou a exploração do meio ambiente algo em escala industrial.
Nesse contexto, Ulrich Beck, discorre sobre a teoria do risco, por meio da qual defende que a configuração social atual se encontra baseada no risco e efeitos colaterais da modernização (BECK, 2010, p. 16).
Do ponto de vista de Beck, a sociedade atual está imersa em uma tendência de produção de riscos, contudo, defende que tais riscos poderiam, na verdade, ensejar em acidentes em escala mundial.
Visando a contextualização da problemática abordada no presente estudo, faz-se necessário compreender a teoria do risco e seus principais pilares, que são eles: i) a sociedade atual tem como fundamento riscos invisíveis; ii) o estilo de vida adotado pela sociedade moderna é o responsável pela assunção de novos riscos e ameaças em nome de possíveis benefícios para “toda” a sociedade; iii) os riscos produzidos pela sociedade moderna são globais e podem atingir a todos indistintamente; iv) os riscos produzidos pela sociedade de consumo são distribuídos de forma desigual.
No que se refere ao primeiro prilar – de que a sociedade atual está fundamentada por sobre riscos invisíveis –, tal argumento se apoia justamente no fato de que a sociedade moderna produz riscos tais como radioatividade, poluentes e toxinas em alimentos, doenças sequer conhecidas pelo homem e que podem ser fruto de experimentos científicos e etc.
Sob tal ótica, não somente o ser humano, mas também a natureza sofre com os impactos da modernização. Para Ulrich Beck (2010. P. 275), os riscos podem ser conceituados como “um produto histórico”, que revela um conjunto de ações e omissõs do ser humano e são “expressão de forças produtividades altamente desenvolvidas”. Ele também aponta que tais riscos estariam de certo modo relacionados ao futuro, que teriam uma extensão para o porvir.
O fato é que o processo de modernização enseja em globalização, desenvolvimento e o crescimento econômico, contudo, tais mudanças desencadeiam na relação “instável e perigosa” de sistemas tecnológicos com a globalização econômica e cultura (FERREIRA, 2007, p. 248).
Nesse sentido, doenças, destruição das florestas, poluição do ar e da água são alguns dos danos ambientais que demonstram os possíveis danos a serem causados à toda humanidade, por conta do modo de vida da sociedade de risco.
O segundo pilar refere-se ao fato de que a sociedade atual possui um estilo de vida de consumismo, que acaba por ensejar em uma verdadeira consciência coletiva de consumo, o que obviamente resulta em degradação do meio ambiente, produção e acúmulo de lixo, poluição da água, do ar, dentre outros.
Ora, em todo esse contexto, os povos indígenas demonstram-se como mais suscetíveis aos riscos, que acabam por suportar nessa cadeia de consumo, por estarem mais dependentes dos recursos ambientais in natura (não industrializados).
Assim, são os povos indígenas e demais comunidades tradicionais que percebem com maior nitidez, os efeitos do desequilíbrio ambiental. A própria intenção das grandes corporações em dominar territórios indígenas para a exploração, reflete a subversão de valores, onde o lucro do produto final é “mais valioso” que a preservação do meio ambiente, a conservação dos recursos naturais e o respeito aos povos originários.
O terceiro argumento principal da teoria do risco baseia-se no fato de que a problemática dos grandes riscos e ameaças diz respeito a todos, não faz distinção quanto à classe social, idade, raça. Trata-se do que Ulrich Beck denomina de “efeito
bumerangue”, pois, segundo afirma, todos podem ser alcançados pelos efeitos e danos colaterais causados pelos riscos produzidos em busca do lucro. (BECK, 2010, p. 44)
Por fim, tem-se o pilar segundo o qual a distribuição dos riscos se dá de maneira desigual, seguindo o mesmo ritmo da desigualdade social e econômica presente na sociedade, de modo que seguindo o mesmo “esquema de classes [...]
as riquezas acumulam-se em cima, os riscos em baixo” (BECK, 2010, p. 41).
Das ideias centrais da teoria do risco, essa é a que mais interessa ao presente estudo, isso porque fazendo-se uma avaliação consciente, tem-se a constatação de que a instalação de megaempreendimentos em territórios indígenas é justamente a transferência de riscos para povos indígenas, que não possuem o mesmo poder econômico que as corporações para enfrentar eventuais danos socioambientais decorrentes das atividades extrativistas decorrentes de megaempreendimentos de mineração.
Em nome do crescimento econômico, grandes corporações buscam instalar-se em territórios indígenas e, com isso, os povos indígenas têm travado lutas para resistir à dominação e ocupação de seus territórios, visto que a implementação de megaempreendimentos, muito mais do que benefícios, traz significativa alteração no modo de vida dos povos indígenas e fortes impactos ambientais, comprometendo a própria subsistência dos povos indígenas no território.
A este respeito nota-se a configuração de um quadro de injustiça ambiental, visto que os povos indígenas que antes desfrutavam de um território livre para o exercício de sua cosmovisão, com a instalação de megaempreendimentos em seu território passam a ficar sujeitos à doenças, poluição da água e do solo, restrições quanto a sua locomoção em todo o espaço ocupado, dentre outros aspectos.
A verdade é que, em busca do desenvolvimento econômico, a sociedade de risco impõe aos povos mais vulneráveis condições restritas, interferindo no modo de vida de tais povos, limitando-os no exercício de sua cultura, ideologias, religião.
Quanto a isso, Boff (2009, p. 55) apresenta uma interessante ponderação:
Deve-se buscar o sentido originário da economia, que significa a gestão das carências, e não, como na economia de mercado, o crescimento linear da produção de bens materiais e dos serviços. De uma economia da produção material ilimitada, deve-se chegar a uma economia da produção humana integral, produção do suficiente para todos, também para os seres vivos da natureza. Caso contrário,
iremos ao encontro do pior, pois a Terra dá inequívocos sinais de cansaço e mostra limites visíveis em sua sustentabilidade.
No que diz respeito ao impacto de megaempreendimentos em povos indígenas e no seu modo de vida, deve-se trazer à lembrança o posicionamento de Milanez e Santos (2014, p. 17):
As atividades extrativistas produzem mudanças significativas nos territórios. Nas áreas rurais tendem a causar poluição atmosférica, contaminação hídrica, desmatamento e erosão; já nas regiões urbanas, os efeitos incluem inchaço urbano, favelização, aumento da violência, exploração sexual e sobre demanda dos serviços públicos de saúde, saneamento e segurança [...] Além dos impactos sociais e ambientais mencionados, outros problemas surgem quando as atividades extrativas implantam enclaves produtivos em áreas remotas. Nessas situações, elas ainda causam a fragmentação territorial, deslocando comunidades locais e inviabilizando formas tradicionais de reprodução social. Problemas dessa natureza são muitas vezes ignorados pelo poder público porque os Estados neoextrativistas, de forma geral, desconsideram demandas não econômicas, tais como aquelas baseadas em valores culturais ou religiosos.
Constata-se que o aos povos indígenas parece ser superior o custo suportado quando da instalação de megaempreendimentos de mineração em seus territórios, isso porque, conforme mencionado, há o comprometimento não somente do ambientel físico natural, mas, do próprio modo de vida e certa interferência na cosmovisão dos povos indígenas.
Sendo assim, entende-se que a instalação de megaempreendimentos de mineração em territórios indígenas longe de possibilitar crescimento econômico ou melhoria na qualidade de vida de tais comunidades, geralmente, possui mais aspectos negativos e ônus a serem suportados pelos povos indígenas. E, ainda, percebe-se que verdadeiramente a instalação de megaempreendimentos em territórios indígenas reflete verdadeira injustiça ambiental a tais povos, posto que são obrigados a suportar diretamente o ônus de atividade extrativista de alto impacto socioambiental, daí a importância de mecanismos que garantam a consulta livre, prévia e informada dos povos afetados.
3.4 EM PROL DE UMA GESTÃO SOCIOAMBIENTAL DE