7.2 Afinação no ensaio: Eles afinam mais uma vez mais uma vez e mais uma
7.2.1 Afinação e a sua relação com a estrutura do ensaio
A afinação foi realizada a partir da nota lá do diapasão, que é um pequeno aparelho, na sua maioria, em forma de ‘garfo’, que vibra com 440 hertz (por segundo). Esse pequeno aparelho é percutido e emite a altura da nota lá3 da escala, e assim os músicos têm uma referência para afinarem as outras notas.
No ensaio da Orquestra Camargo Guarnieri, os músicos desenvolveram um trabalho detalhado de afinação, que compreendeu o afinar antes do ensaio - no início, entre uma obra e outra, entre um trecho e outro entre a primeira e a segunda parte do ensaio. A afinação não se constituiu apenas no ato dos músicos afinarem seus instrumentos no ensaio, mas desempenhou um papel importante na organização não só do ensaio, mas também do comportamento dos músicos nos ensaios. Quando o spalla tocava a nota lá3, da escala musical, os músicos que estavam em pé se sentavam, os que estavam sentados descompromissadamente se arrumavam em suas cadeiras e colocavam o corpo de forma ereta. Dessa forma, pode-se dizer que a afinação no ensaio representa uma forma de organização, que traz os músicos de suas individualidades para estarem no grupo, pensarem no grupo e pensarem no “início oficial” do ensaio, ou retomar o ensaio.
Na preparação para a apresentação da ópera, nos ensaios gerais, a questão da afinação demonstrou ser fundamental, pois ela se revelou necessária para que o concerto fosse realizado. Esse assunto permite refletir sobre o ideal de afinação que foi trabalhado nos ensaios da Orquestra Camargo Guarnieri.
O maestro Kayami Satomi dirigiu a orquestra para um “ideal de afinação” que não estava escrito na partitura, também não seguiu um guia de como afinar e até quando alcançar afinação. A afinação foi trabalhada por Kayami a partir de uma qualidade de som referencial que ele tinha em mente.
Durante os ensaios, o maestro procurou trabalhar, quase que individualmente, cada músico, para conseguir seus objetivos. Algo que ficou evidente foi quando, apesar de nos ensaios anteriores os músicos terem trabalhado intensamente a afinação, Kayami iniciou o ensaio dizendo: “– Faz tempo que a gente não faz um trabalho de afinação” (C.C, Ensaio 19, dia 08/12/10, p. 104). Depois de terem feito,
novamente, um trabalho minucioso de afinação, e terem investido grande parte do tempo de ensaio nessa atividade, quando os músicos começaram a tocar, Kayami anunciou: “– Alguma coisa de melhor teve aí na afinação” (C.C, Ensaio 19, dia 08/12/10, p. 105).
No momento da afinação, o silêncio foi algo que esteve presente, sobretudo nos ensaios das cordas. Como se afinação e silêncio caminhassem juntos, de forma que, no ato de afinação, todos estavam atentos ao som do instrumento. Quando alguém não conseguia chegar à afinação considerada ideal, declarava: “– Não”... [significando que estava errado]. “– Vai”... [significando que era para ir subindo a afinação]. “– Pegou?” [significando se afinaram ou não], ou se comunicavam com gestos, balançando a cabeça. Uma das indagações durante o processo era se os músicos estavam conseguindo chegar à afinação que estava sendo solicitada. Isso porque enquanto estavam afinando, o spalla passava e os músicos olhavam entre eles, viravam o rosto, como se estivessem dizendo que ainda não estavam afinados, davam piscadas e, ainda, o spalla sentava-se ao lado de algum músico, observava e às vezes fazia um gesto com as mãos, indicando que eles mudassem a afinação para mais alta ou mais baixa.
Como foi mencionado, no primeiro ensaio a que assisti, os músicos se detiveram em preparar o repertório. Nele, os músicos assistiram ao documentário El Sistema e não tocaram seus instrumentos. Um dos músicos chegou atrasado, com um sorriso, o maestro o repreendeu: “– Se fosse para afinar você estaria há uns 7 minutos de atraso” (C.C, Ensaio 1, dia 04/10/10, p. 1).
Apesar de nos ensaios da Orquestra Camargo Guarnieri o trabalho de afinação ter sido constante, houve momentos, quando um músico chegava atrasado, o chefe de naipe solicitava-o que afinasse seu instrumento fora da sala, para que não parassem de tocar. Observei que a afinação era algo que “ligava [os unia] e desligava [os separava] as relações dos músicos, nos ensaios” (C.C, Ensaio 15, dia 18/11/10, p. 82).
Quando os músicos começavam a afinar, era como se eles se agrupassem de forma diferente, pois organizavam suas cadeiras, corrigiam suas posturas, ficavam em posturas diferentes das que estavam, anteriormente. Quando deixavam de afinar, observei que alguns músicos voltavam às suas posturas anteriores, movimentavam as suas folhas, deixavam as suas posturas, colocando, muitas vezes, seus instrumentos no colo, para anotarem nas partituras, como se eles
voltassem ao que estavam fazendo, ao deixarem de afinar. Assim que começavam a tocar as obras musicais, eles voltavam às suas posturas.
A afinação não acontecia só no início dos ensaios, os músicos estavam sempre conferindo se seus instrumentos estavam afinados. Em qualquer momento do ensaio, paravam de tocar e o maestro solicitava uma escala musical com o objetivo de afinarem seus instrumentos, novamente. E assim, eu registrei no caderno de campo: “Eles afinam mais uma vez... mais uma vez... e mais uma vez” (C.C, Ensaio 8, dia 01/11/10, p. 43).
Durante a afinação, os músicos ora trocavam ideias sobre a própria afinação, ora ficavam silenciosos. Isso dependia de que tipo era o ensaio. Como, por exemplo: em um ensaio somente dos instrumentos das madeiras, quando o fagotista e o flautista discutiam sobre afinação, o flautista disse: “– Nossa, que desafinado... Quase meio tom acima” e, então, brinca com a situação” (C.C, Ensaio 12, dia 11/11/10, p. 71). Já, no ensaio geral, durante a afinação, eles ficaram silenciosos e no máximo moviam-se os olhos. Em outros ensaios, principalmente nos de naipes, os músicos também caçoavam dos seus próprios resultados, de maneira que, quando tocavam, e se, por vezes, não estavam tocando corretamente, eles se divertiam rindo de si.
Durante a afinação, muitas vezes, alguns músicos tiveram que esperar os outros afinarem para depois prosseguirem no ensaio: “Eles esperam oboé e clarinete [que chegaram atrasados] afinarem” (C.C, Ensaio 16, dia 22/11/10, p. 90). Quando os músicos paravam para afinar, nem sempre era porque todos estavam desafinados, mas apenas alguns. Então, quem estava com algum problema de afinação corrigia e, enquanto isso, os outros músicos aguardavam em silêncio, alguns olhando para baixo.
Diante disso, percebi que a preocupação da afinação perpassava todo o tempo do ensaio. Registrei a seguinte cena no meu caderno de campo:
Os músicos repetem, tocam lentamente o trecho da obra e o chefe de naipe diz: “– Isso é para gente ver o que está mais baixo e corrigir. O dó é sempre mais brilhante... tem alguém pegando por baixo... ouça o dó do piano”. Então, cada estante toca o dó# e vão corrigindo. Ele dá uma dica para a afinação: “– Façam como uma pirâmide” (C.C, Ensaio 7, dia 01/11/10, p. 31).
A indicação para fazerem como uma “pirâmide” era justamente para resolver as diferenças técnicas de cada músico. Entendi que fazer como uma “pirâmide”
significava que os músicos, que estavam à frente dos violinos, nas primeiras estantes, iriam tocar mais forte, e serviriam de base para a afinação dos músicos sentados na fila de trás, que estavam da segunda estante, os quais tocariam menos forte em relação aos violinos da primeira fila, sendo que os músicos das outras estantes iriam diminuindo a intensidade até, que as últimas estantes tocassem bem pianíssimo.
Os músicos investiram parte do tempo dos ensaios na afinação dos seus instrumentos, contudo a afinação não foi algo que aconteceu apenas no horário que foi estabelecido para começar nos ensaios, ou apenas ao som da nota lá, quando o spalla iniciava o ensaio. Afinar os instrumentos perpassou todo o tempo dos vários tipos de ensaios nos quais os músicos da Orquestra Camargo Guarnieri estiveram envolvidos.