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6.3 Formas de ensinar/aprender no ensaio

6.3.1 Do regente

Durante o período em que os músicos estavam nos ensaios eles foram construindo, gradativamente, tanto a execução das obras quanto seus conhecimentos sobre elas. O maestro Kayami Satomi foi um maestro com características marcantes de um professor, sendo que algumas ações indicavam que ele compreendia que era necessário fazer um trabalho de base com os músicos.

Algo que fazia parte do papel do maestro, como líder dos músicos, foi ter certa cobrança, para que os músicos continuassem ensaiando e produzindo nos ensaios. Momentos como quando disse: “– Se a gente é desafiado e não gera esforço nenhum, a gente morre na praia. Se o repertório anterior foi desafiador esse é outro desafio... A gente tem que matar muitos tigres...” (C.C, Ensaio 10, dia 08/11/10, p. 60).

O trabalho do maestro Kayami Satomi, como líder, incluiu brincadeiras bem humoradas, cultivando o ânimo dos músicos, para que eles tocassem com dedicação. Quando ele apresentava desafios e deixava claro que era possível, para os músicos, transporem esses desafios, dizia para eles: “– A gente vai começar o ano tocando” (C.C, Ensaio 18, 01/12/10, p. 100), e ainda: “– Apesar dos pesares, a gente evoluiu muito” (C.C, Ensaio 10, dia 08/11/10, p. 52).

Dessa forma, o maestro Kayami conversava sobre como os músicos deveriam se comportar, e que poderiam se envolver cada vez mais com a orquestra. Em suas falas, ele dizia para os músicos: “– Sempre ouça o spalla, não vai tocando não” (C.C, Ensaio 7, dia 01/11/10 p. 30).

Kayami chamava a atenção dos músicos para a importância da concentração nos ensaios, enquanto preparavam o repertório. Sendo incisivo em muitos momentos, como quando disse ao contrabaixista: “– Tem que ser coladinho com o violoncelo” [...] [sussurrando...], chiii..., rallentando... vai morrendo o violoncelo” (C.C, Ensaio 7, dia 01/11/10, p. 30). Isso também ocorreu quando ele pediu: “– Façam o favor de repetir a nota... Façam o exercício de repetir a nota bem lentinho [...]. Agora um pouquinho mais rápido [...] Não percam a conta não!”(C.C, Ensaio 10, dia 08/11/10, p. 54). Quando precisava de alguma resposta musical, procurava conduzi-

los a alguma concepção musical da obra que ele já conhecia bem: “– Está ok!... De novo. Agora sem as notas repetidas, está atrasando um pouquinho! [...]. A gente tem que começar a corrigir” (C.C, Ensaio 10, dia 08/11/10, p. 54).

Uma de suas características, frente à orquestra, foi realizar estudos detalhados das obras, deixando claro que seu interesse era deixar as “obras limpas” e compreensíveis para os músicos. Para isso, trabalhou com os músicos, o repertório, de forma detalhada e se revelou atento às diferentes formações musicais e aos tempos de aprendizagens musicais.

Sem dúvida, pelas estratégias utilizadas nos ensaios, a afinação esteve claramente em destaque no trabalho do maestro. Em um ensaio, ele declarou: “– Eu estou só apertando a ferida. É como ver um buraco e dizer: – Constrói uma casa aí. Como é que a gente conquista? [Kayami mesmo respondeu]: – Estudando” (C.C, Ensaio 18, 01/12/10, p. 100).

Nas observações da Orquestra Camargo Guarnieri, ficou evidente que era intrínseco trabalhar com os músicos mais do que os conteúdos ligados, ao tocar na orquestra, ou só ao repertório. Era necessário abordar conhecimentos musicais iniciais, para que continuassem a participar da orquestra:

Kayami Satomi pergunta para os segundos violinos: “– Num compasso ternário, qual é o tempo mais fraco?” [os outros músicos demonstravam que queriam responder] Kayami diz: “– Deixa os segundos violinos responderem”. Todos os músicos ficam esperando atenciosamente a resposta. Eles demoraram e ainda responderam por eliminação. Após Kayami dar uma explicação sobre a valsa, tocaram um grande trecho (C.C, Ensaio 10, dia 08/11/10, p. 60). O maestro usou vários recursos para comunicar suas intenções aos músicos, e os músicos foram compreendendo. Com o passar das observações, pude entender que o maestro, às vezes, brincava com eles nos ensaios e, ao mesmo tempo, chamava-lhes a atenção para um detalhe importante, outras vezes, dava uma “bronca” e, enquanto isso, eles foram construindo as músicas e combinando os detalhes para o concerto.

Ele se comunicava com os músicos utilizando gestos e palavras. Nos ensaios de estudo e leitura o maestro desenvolveu um trabalho detalhado e, por vezes, esse trabalho demonstrou ser exaustivo.

Nos ensaios gerais, essa forma de trabalhar ainda era acentuada. Em alguns momentos, ele se dirigiu aos músicos de forma mais individual, foi se aproximando

do músico, dizendo em voz baixa: “– Muito mais som”. Ele ainda disse, olhando apenas para um dos violoncelistas, o mais novo em idade: “– Muito mais vibrato” (C.C, Ensaio 14, dia 17/11/10, p. 79). Era como se ele estivesse dizendo aos seus músicos que eles poderiam tocar, que eles deveriam tocar, e que ele, o maestro, estava contando com eles. Percebi que eram mais do que indicações de som, eram indicações que ele (o maestro) estava confiando neles (os músicos).

Um dos recursos utilizados pelo regente, para mostrar aos músicos o que gostaria de ouvir, foi o canto. Era uma forma de exemplificar o resultado sonoro, que ele esperava que os músicos tocassem. Em outros momentos, ele também contou os tempos dos compassos cantando, enquanto regia.

O canto foi utilizado pelo maestro, enquanto os músicos tocavam, como se ele quisesse ajudar aos músicos na linha melódica, para que eles não errassem, naquele momento. Foi como se estivesse conferindo com os músicos que estavam próximos a ele: “– Pelo menos nota e ritmo certos a gente tem que ter (C.C, Ensaio 7, dia 01/11/10, p. 33).

Dessa forma, o canto possibilitava aos músicos ouvir como as frases musicais deveriam soar e, ainda, gerava compreensão dos ritmos, da sonoridade e da qualidade do som, um exemplo disso foi quando o maestro disse: “– Tem que ser como no canto, a gente tem que ter um pouquinho mais de impostação. Vem de dentro... Não é martelando... Aperta, depois puxa... e com vibrato” (C.C, Ensaio 18, dia 01/12/10, p.103).

Pode-se dizer que Kayami, durante o tempo em que esteve à frente da orquestra, também foi “aprendendo” a reger e a se comunicar com os músicos. Em um dos ensaios de estudo e leitura, o maestro realizou um movimento errado, indicando para os músicos o que deveriam tocar, a violinista chefe de naipe o informou: “– Você entrou antes, ele te acompanhou [ela fala apontando para o spalla] né?”. Então, Kayami respondeu: “– É. Eu o acompanhei, eu estou, aqui..., sabe..., [percebi que ele ainda estava conhecendo aquela obra musical]” (C.C, Ensaio 7, dia 01/11/10, p. 30). Assim, os músicos foram compreendendo o seu jeito de reger, seus gestos, e foram juntos “apagando os incêndios” (C.C, Ensaio 10, dia 08/11/10, p. 52).