6.3 Formas de ensinar/aprender no ensaio
6.3.3 Dos chefes dos naipes
Nos ensaios da orquestra, os chefes de naipe utilizaram diversos recursos para ensinar aos músicos uma forma de tocar, de executar seus instrumentos. Um exemplo disso foi o trompetista chefe de naipe, que nos ensaios de naipe fez colocações diretas aos trombonistas na tentativa de que eles conseguissem uma determinada sonoridade.
Os chefes de naipes exerciam papel importante nos ensaios, não só na organização, mas também nas estratégias utilizadas, para trabalhar o repertório com os músicos. Um exemplo de algo dessa natureza se deu em um dos ensaios de naipes, quando a chegada do chefe de naipe à sala de ensaio mudou a forma como os músicos estavam tocando. No momento anterior à sua chegada, os músicos tocavam seus instrumentos com outro tipo de organização, indicando uma certa
independência em suas ações. A chegada do professor e chefe de naipe fez com que os músicos procurassem mostrar que estavam firmes e dominando seus instrumentos. Quando ele chegou aconteceu
[...] uma mostra de virtuosidade, uma grande escala, um cromático [...]. Agora com sons bem definidos, nada de ensaios ou tentativas, apenas as madeiras sobressaem agora com a pessoa do trompetista chefe de naipe presente, [os músicos] sem palavras e os sons são mais definidos (C.C, Ensaio 3, dia 18/10/10, p. 7).
Cada chefe de naipe possuía sua característica de ensinar no ensaio. O trompetista chefe de naipe utilizava os gestos com os braços e com o corpo, juntamente com a comunicação verbal. Enquanto a violinista chefe de naipe explicou o que e como gostaria que os músicos tocassem, alternando a execução ao violino e à regência com o arco, gesticulava e movimentava o corpo para frente e para trás, como se estivesse mostrando como deveriam sentir a música. Com os braços levemente erguidos, e com o arco fora das cordas, verticalizado, ela tocava seu instrumento, mas também parava e regia os músicos com o arco.
As recomendações da chefe de naipe, aos músicos, era para que eles anotassem tudo o que incluía a arcada, as respirações, a dinâmica. Nos ensaios, de forma geral, a violinista chefe de naipe procurou dar suas opiniões sobre a forma como gostaria que tocassem. Em um dos ensaios de naipes, quando os segundos violinistas estavam tocando bem piano, ela olhou para trás e perguntou a eles: “– Gente, cadê vocês?”. Na repetição, a violinista chefe de naipe, olhando para trás, novamente, observou que, desta vez, os músicos estavam tocando muito forte, logo, fez um pedido de silêncio (chiii), ela queria que eles tocassem mais piano, assim como os segundos violinistas estavam fazendo.
Quando o trompetista, um dos chefes do naipe dos sopros, esteve à frente do ensaio de naipe dos sopros falou para os músicos que era importante que desenvolvessem a escuta. No seu entendimento, a escuta possibilitaria melhor execução. Trabalhou com os músicos não só questões técnicas dos instrumentos, mas também aspectos relacionados à execução, como eles deveriam tocar a obra no estilo do compositor. Em um dos ensaios, o chefe de naipe chamou a atenção dos músicos para que a execução não fosse de forma “verticalizada”. O “tocar de forma verticalizada”, pelo que compreendi, estava relacionado com o pensar a música acorde por acorde, e não fraseologicamente. A sua intenção era que os
músicos pensassem na frase e não nos acordes. Quando disse isso, pegou um instrumento e tocou como gostaria que o trecho musical fosse executado.
Além de utilizar o seu instrumento para ensinar, o trompetista chefe de naipe utilizou de outro recurso, que foi a gravação da obra Fanfarra37. Ele deixou os músicos um instante, virou-se para o computador, procurando a gravação da Fanfarra. Ao encontrá-la, ele a apresentou a todos. Ele destacou a execução dos intérpretes da obra naquela gravação.
Enquanto os músicos dos instrumentos de sopros e da percussão estavam ensaiando, entre uma parada e outra, o trompetista chefe de naipe respondia às dúvidas dos músicos sobre as práticas de como executar a obra de um determinado compositor e como são as características estilísticas daquele compositor. Para exemplificar, ele pegou o instrumento e tocou um trecho da Fanfarra de Purcell, mostrando aos músicos que, dependendo da forma como tocassem uma nota improvisada, ela não estaria no estilo característico de Purcell.
A percussão participou do ensaio de naipe dos sopros, e foram poucos os momentos em que se trabalhou questões sobre suas partes, especificamente. No ensaio em que o trompetista chefe de naipe fez apontamentos sobre questões relacionadas às partes da percussão, dirigiu-se à percussionista que estava tocando tímpano e perguntou: “– Você vai fazer [tocar] na caixa?” Depois o trompetista chefe de naipe respondeu: “Não sei, não é minha área” (C.C, Ensaio 3, dia 18/10/10, p. 8). O fato de não ser um instrumentista que dominasse aspectos ligados aos instrumentos de percussão não o impediu de contribuir na construção da execução dos instrumentos de percussão da obra no ensaio. Ainda se dirigindo ao trompetista chefe de naipe a percussionista propôs, “– Vamos tentar juntos. Depois que tocaram juntos aí, ele disse: Não!!! Tem que ser VRAUUUUU [ele emite um som tentando ensinar como ele pensava o trecho para o tímpano que a percussionista está tocando]”. Outras vezes, também a sua atenção estava em prever a possibilidade do erro, assim: “Ele pediu à percussionista: – Na próxima entrada [o professor fala]... RULUPPP, um, dois, três... para que a percussão entre no espírito” (C.C, Ensaio 3, dia 18/10/10, p. 9).
Outro chefe de naipe dos sopros foi o trombonista. Em alguns momentos parava o ensaio e conversava sobre a profissão de músico, as oportunidades de
trabalho, e também expunha o seu desejo de montar um projeto de educação à distância, utilizando vídeos na internet. Em um dos ensaios em que foi o chefe de naipe, ele aguardou que todos se acomodassem para, então, começarem o ensaio. Enquanto o trombonista chefe de naipe estava trabalhando com os músicos dos instrumentos de metais, ele foi conduzindo o ensaio, e comentou:
– Vamos lá, desde o início... Sempre o segundo trompete. É bravo! Vamos de novo...” Aí tomando decisões: “– Vou deixar essa pra dar mais uma passada depois. Disse ainda: “– Falta algo... Vamos experimentar essa parte...” e ao final disse: “– Vamos dar uma passada pra gente matar o negócio?”. Quando os músicos tocaram ele disse: “– É isso aí gente” (C.C, Ensaio 11, dia 11/11/10, p. 62). O trombonista chefe de naipe desenvolveu com os músicos um trabalho de embocadura, a região do aquecimento, conversando sobre a sonoridade dos instrumentos.