AGENTE CENTRAL con.
2.3. Aglomerações Empresariais e Arranjo Produtivo Local – APL
2.3.1. Aglomerações e arranjos produtivos locais: origens
A partir das políticas dos distritos industriais italianos, que surgiram sem muita divulgação e sem o suporte de uma política governamental, ficou demonstrado o nascimento de um novo setor, de pequenas e médias empresas que emergiram de forma dinâmica e ágil.
Os distritos italianos, por sua alta competência e competitividade, foram destacados nas mais diversas literaturas nacionais e internacionais, evidenciando que esse fenômeno, que ocorreu durante a retomada do desenvolvimento da Itália do pós-guerra, direcionava para resultados positivos nas exportações italianas,
[...] o que surpreendeu e suscitou estudos e pesquisas é que uma miríade de pequenas unidades de produção, aparentemente desfavorecida em termos de estruturas de comercialização, de escala produtiva, de acesso ao crédito e de intervenções nos mercados estrangeiros, conseguiu captar uma parte crescente de mercado (interno e internacional), obtendo maiores lucros e criando empregos. Isto numa conjuntura na qual as maiores empresas italianas, apesar de serem melhores equipadas para se imporem nos mercados mundiais, passaram a perder terreno para concorrentes de outros países. O sucesso das pequenas empresas vinha, ainda, contradizer as convicções solidamente estabelecidas dos economistas de todas as matrizes ideológicas, ou quase, para os quais as chances das empresas muito pequenas eram, estruturalmente modestas e declinariam com o tempo (BECATTINI, 1999, p.45.)
Com a publicação da obra "A vantagem competitiva das nações", a discussão sobre
clusters e distritos industriais passou a ser mais evidenciada e adquiriu maior seriedade, pois
enfatizava a importância dos clusters para a competitividade industrial (PORTER, 1990). O destaque principal neste plano na visão acadêmica e na política de desenvolvimento era baseado na cooperação interempresarial. Este era o ponto fundamental que surgia a partir da pesquisa em distritos industriais na Itália, explicando a competitividade das pequenas e médias empresas e sua presença no mercado internacional (PORTER, 1990).
Outro aspecto de extraordinária importância apresentado nos estudos dos distritos industriais era o fator geográfico e espacial, que foi identificado como de extrema relevância nas aglomerações, tendo em vista que não se pode tratar de aglomeração sem que as empresas estejam geograficamente próximas umas das outras.
A visualização desta teoria de proximidade espacial veio como quebra de paradigma, pois essa questão da localização foi relegada por muito tempo a um segundo plano, diante do pensamento da globalização que surgiu direcionando a mídia para um fato de que os mercados no mundo estariam interligados e mais próximos uns dos outros. Mas, no cotidiano, a administração prática e logística vem, com o passar do tempo, identificar o fator geográfico como um quesito fundamental na redução de custos logísticos, demonstrando a importância da cooperação e da localização geográfica das empresas participantes de uma aglomeração produtiva.
As aglomerações passam, então, a ser formas alternativas das pequenas empresas de se manterem no mercado, capazes de prover às firmas nelas instaladas uma série de produtos e serviços adquiridos a custos competitivos, diante das difíceis condições de sobrevivência no cenário globalizado, através das alianças interempresariais, da busca de novas formas de aumentar a produtividade e de novos negócios, ampliando suas chances não só de
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permanência no mercado, mas também de expandir sua fatia de participação e de lucratividade (YOU, WILKINSON, 1994).
No século XXI, percebe-se que as respostas rápidas em um mercado altamente competitivo são fatores de sucesso no mundo altamente globalizado, e as empresas burocratizadas e ineficientes diante da necessidade social perdem com sua falta de agilidade.
No Brasil não foi diferente: a abordagem de aglomerações produtivas e APLs foram muito divulgadas com o desenvolvimento a partir do final dos anos 1990, uma década evidenciada pelo ângulo de desenvolvimento econômico, articulada com intenso trabalho com
clusters (PORTER, 1990).
A partir desta época, houve muitos esforços direcionados para o seu entendimento e promoção, e uma busca acentuada para o aprendizado e a incorporação de conhecimentos (MCT, 2011).
Passou a fazer pauta das ações do governo os APLs, a partir da formalização nos seus Planos Plurianuais desde 2000, no Plano Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação 2007 a 2010, e na Política de Desenvolvimento Produtivo 2008 a 2013, entre outros. Foi criada uma instância de coordenação das ações de apoio a APLs no país, o Grupo de Trabalho Permanente para APLs (GTP APL), coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), e integrado por 33 instituições públicas e privadas. Com essas ações e adesão dos termos na esfera pública federal, passa a ser estimulada a criação de Núcleos Estaduais de Apoio a APLs em cada uma das unidades da federação, além de iniciativas privadas de organismos de representação empresarial e de agências internacionais (MCT, 2011).
Foi publicado o Plano Nacional de Capacitação em Arranjos Produtivos Locais (PNC/APLs) para o período de 2012 a 2015, que foi discutida e validada pelas instituições que integram o Grupo de Capacitação do Grupo de Trabalho Permanente para APLS do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) (ABDI, 2012, p.5).
Verifica-se que, a partir da noção de aglomerações produtivas e APLs, passam a ser organizadas atividades produtivas com foco no território e com o apoio das esferas governamentais, com destaque na atuação dos bancos, públicos e privados, que reconheceram a importância da disponibilização de crédito em APLs (MCT, 2011).
Uma nova visão sobre a importância dos APL direcionam as ações governamentais e da própria iniciativa privada, tendo em vista o seu valor para o desenvolvimento local, consubstancializado por estudos que expõem sobre a capacidade das pequenas empresas serem mais competitivas do que as grandes empresas com economias de escala. Estas são capazes de alternar seu tipo de produção e especialidade com facilidade, agilidade e maior eficiência,com grande capacidade de adaptação por parte da oferta produtiva à diferenciação e fragmentação existentes na demanda. Possuem um maior compromisso em relação à qualidade dos produtos, tendo condições de alcançar índices mais satisfatórios de lançamento de novos produtos no mercado, bem como de atender a nichos específicos de mercado, pois a sua sobrevivência está ligada ao seu compromisso social com a qualidade do produto.
As mudanças no comportamento social e profissional vêm exigindo posturas diferenciadas e ações impactantes dos governos em suas políticas públicas para proporcionar o desenvolvimento inovativo e a sua difusão, de forma que exista um desenvolvimento social de forma equilibrada e autossustentável (CASTELLS, 1999).É preciso construir não só um desenvolvimento alternativo, mas também alternativas ao desenvolvimento.
Analisar os conceitos pertinentes e considerar essas abordagens é primordial para que se possa ter o entendimento e a compreensão para o estudo do desenvolvimento econômico regional, bem como perceber a situação local e elaborar políticas que venham alavancar estas
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economias e melhorar o nível tanto sócio quanto econômico de uma região e dos atores envolvidos.
O período atual é de intensa transformação, e o direcionamento mundial no processo de globalização faz com que as empresas se estruturem de forma a ampliar e tornar mais complexas suas operações, para que possam produzir de maneira mais competitiva e vender seus bens e serviços num mercado mais aberto e ampliado (PRESSER, 1995).
Os países, por sua vez, tentam buscar de forma constante e equilibrada a estabilização financeira em suas contas. Os mercados estão mais abertos, a competitividade diz respeito às exportações e ao enfrentamento das importações no mercado doméstico, e a capacidade para inovar é a principal arma para a competitividade das empresas (no longo prazo, pois o curto prazo pode-se mexer no câmbio ou contar com financiamentos, dentre outras medidas) e países. A globalização coloca desafios aos governantes nas áreas de qualificação dos seus recursos humanos e na tecnologia, que são fatores chave para o desenvolvimento.
Os estados incentivam e apoiam as aglomerações empresariais e APLs pela sua importância social, financeira e estratégia, identificando o seu valor pela potencialização dos resultados das empresas que as integram.Cassiolato e Lastres (2003, p. 11) definem que:
arranjos produtivos locais são aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais, com foco em conjunto específico de atividades econômicas, que apresentam vínculos mesmo que incipientes. Geralmente envolvem a participação e a interação de empresas, que podem ser produtoras de bens e serviços finais até fornecedores de insumos e equipamentos, prestadoras de consultoria e serviços, comercializadoras, clientes entre outros e suas variadas formas de representação e associação. Incluem também diversas outras instituições públicas e privadas voltadas para: formação e capacitação de recursos humanos (como escolas técnicas e universidades); pesquisa, desenvolvimento e engenharia; política, promoção e financiamento
Neste contexto, Villela (2009a, p. 60) enfatiza que:
estas estruturas produtivas são cada vez mais apontadas como peças importantes para o desenvolvimento econômico e social da região onde estão instaladas. Os APLs são possíveis em regiões de identidade e cultura homogêneas, com base social e política que sustentem sua existência. Sua instalação depende destas pré- condições e, também, sua existência fortalecerá estas características locais, desde que bem conduzidas por um processo de governança democrática e ativa, onde todos os membros participem.
Este processo gera uma eficiência coletiva no contexto estruturado que pode ser visualizado no seu próprio conceito, definindo os arranjos produtivos como aglomerações de empresas localizadas em um mesmo território, que apresentam especialização produtiva e mantêm algum vínculo de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre si e com outros atores locais, tais como, governo, associações empresariais, instituições de crédito, ensino e pesquisa.
A promoção de aglomerações e APL possibilita a competitividade e a sustentabilidade dos micro e pequenos negócios e, de uma forma holística, estimula os processos locais de desenvolvimento, incentiva a conexão do arranjo com os mercados, promove a sustentabilidade por meio de um padrão de organização e a elevação do capital social por meio da promoção e a cooperação entre os atores do mesmo territórios (SEBRAE, 2003).
Os conceitos e a própria prática de APLs enfatizam que a interdependência, articulação e vínculos consistentes resultam em interação, cooperação e aprendizagem, com
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potencial de gerar incremento da capacidade inovativa endógena, da competitividade e do desenvolvimento local (CASSIOLATO E LASTRES, 2003, p. 5).
Esta visão dos APLs destaca uma capacidade de associação em rede de uma grande quantidade de empresas, que podem ser de um mesmo ramo de atividade ou não, que têm a possibilidade de consecução de projetos comuns, tamanha a sinergia envolvida, como a economia de aglomeração e aprendizado por interação, sistemas locais de inovação e eficiência coletiva. Esses arranjos possibilitam uma oportunidade de potencializar a utilização, da proximidade física e de pesquisas desenvolvidas, por meio de processos de transferência de tecnologia de forma coletiva (CASSIOLATO E LASTRES, 2003).
Esta associação em rede é uma forma de organização que permite às empresas responderem de modo eficaz a situações complexas e de grande incerteza, levando se em consideração que as condições que levam ao sucesso dos empreendimentos estão ligadas aos aspectos subjetivos como a motivação e o comportamento dos atores envolvidos, sendo então um fator determinante para o sucesso o engajamento dos atores nas atividades que lhe são designadas (VILLELA, 2006, p.54)
Percebe-se nos próprios conceitos e na visão prática das estruturas dos APLs, que estes proporcionam um direcionamento de aprendizagem, ciência e tecnologia de suma importância para o desenvolvimento de um país. Nesse sentido, Castells (2007, p.119) enfatiza que "a informação e conhecimento sempre foram elementos cruciais no conhecimento da economia, e a evolução da tecnologia determinou em grande parte a capacidade produtiva da sociedade e os padrões de vida, bem como formas sociais de organização econômica".
A dinâmica empresarial é necessária no crescimento social. Moreira (2007, p.3) afirma que "a vantagem competitiva pode advir do tamanho da empresa ou de seus ativos, mas sem dúvida, a habilidade para mobilizar conhecimento e tecnologia e experiência para criar produtos, processos ou serviços está contando cada vez mais". Essa característica é observada e estudada nas pequenas empresas e nos APLs.
Pode-se reforçar a ideia do autor no sentido de exploração temática dos APLs como associações em redes locais, que proporcionam o desenvolvimento do conjunto das empresas a ele ligadas, onde Villela (2006, p. 51) esclarece que "o conceito de rede representa o fim do isolacionismo das organizações, [...] suscita mudanças na forma de estrutura organizacional, no estilo de gestão, na forma de organização das relações entre empresas".
Nesse contexto, percebe-se que os processos que envolvem o desenvolvimento local supõem sempre que existam esforços articulados de atores estatais e da sociedade, que tenham disposição para levar adiante projetos que surjam da negociação de interesses, inclusive divergentes e em conflito. A articulação do desenvolvimento local, portanto, necessita do surgimento e fortalecimento de atores inscritos em seus territórios e com capacidade de iniciativa e propostas socioeconômicas que promovam as potencialidades locais, apostando em uma melhoria integral da qualidade de vida da população (MARSIGLIA, 1996, p.75).
Os APLs são importantes para o desenvolvimento local, para a inclusão social e para a participação dos diversos atores envolvidos, que deverão utilizar uma dinâmica consciente de planejamento conjunto, de ações cooperadas que promovam o desenvolvimento de suas atividades empresariais e locais, entre empresas e o poder público, e outras possíveis combinações entre os atores presentes no APL, por meio de intercâmbio sistemático de informações produtivas, tecnológicas e mercadológicas e programas de capacitação e treinamento, integração de competências, com uma governança que seja adequada para conciliar todos os interesses (SEBRAE, 2003, p.14).
Esta governança precisa estar em rede com as lideranças empresariais, na busca do apoio governamental, e em sintonia com as políticas sindicais, envolvida com a construção de
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centros tecnológicos prestadores de serviços na gestão dos recursos naturais - em particular com preservação e conservação adequada das condições ambientais - garantindo que a atividade produtiva não se torne destrutiva da qualidade ambiental. Deve, portanto, estar envolvida na comunidade e ter a preocupação com a geração de solidariedade, com a confiança mútua e atenção para com os problemas sociais, trabalhando de forma que se possam construir atitudes positivas dos atores envolvidos para alcançar um desenvolvimento técnico, tecnológico, econômico e social, além de estar envolvido com o ator estatal nas questões externas ao arranjo, relativo ao crédito e infraestrutura. A governança é primordial para o sucesso de um arranjo, mas Villela (2009b, p.1070) orienta que:
a capacidade de se construir uma gestão social, verdadeiramente participativa e deliberativa, condutora de uma governança em APLs transformadores, na prática vem se mostrando bastante complexa, quiçá longínqua, e distante do encaminhamento, ora burocrático, ora romântico, que lhe é emprestado por órgãos governamentais e por alguns de seus divulgadores.
Verifica-se que, a partir da noção de APLs, passam a serem organizadas atividades produtivas com foco no território com o apoio das esferas governamentais - com destaque na atuação dos bancos, públicos e privados, que reconheceram a importância da disponibilização de crédito em APLs (MCT, 2012).
Para atuação em APLs, a noção de território é fundamental, e esta ideia de território não se resume apenas à sua dimensão material ou concreta. O território é um campo de forças, uma teia ou rede de relações sociais que se projetam em um determinado espaço. Nesse sentido, o APL também é um território onde a dimensão constitutiva é econômica por definição, apesar de não se restringir a ela (SEBRAE, 2003, p.13).
Uma das proficuidades dos APLs para construção das vantagens coletivas está na interação de um sistema de valor, que permite agregar pensamentos distintos em uma lógica de produção comum ao meio que estimula a inovação, a aprendizagem pela troca do conhecimento e na construção de novas metodologias, proporcionando um resultado que acaba no processo produtivo, criando vantagens mútuas.
Utilizando-se o capital humano através dos conhecimentos, habilidades e competências locais, com a organização e o empoderamento da população, com uma governança bem trabalhada e o uso racional do capital natural, se consegue criar condições de florescer sustentavelmente (SEBRAE 2003, p.10).
O forte estoque de conhecimento oriundo dos diversos atores interligados nessa imensa rede permite um compartilhamento e um fluxo de informações que irão aperfeiçoar a administração local, as mudanças nos processos, nos produtos e a própria organização produtiva que contribui para o desenvolvimento tecnológico do arranjo.
A facilidade de acesso a instituições e órgãos públicos, e a própria melhoria da motivação das empresas pelo estudo e medição da eficiência de cada empresa, ajudam a impulsionar o arranjo.
A capacidade de inovação é grande e está relacionada com a competitividade das empresas, pelas ameaças do ambiente empresarial, e pela necessidade de absorver mudanças que impliquem no desenvolvimento do processo produtivo e nos recursos humanos.
No estado do Rio de Janeiro, foi criada a Câmara Especial de Gestão dos APLs, pelo Decreto nº 40.372 de 28 de novembro de 2006, alterado pelo Decreto nº 44.284 de 3 de julho de 2013, ligada a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviço do Estado do Rio de Janeiro (SEDEIS-RJ). É formada por entidades governamentais e não governamentais, empresariais, financeiras e de capacitação e inovação, responsável pela
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coordenação das ações voltadas para o desenvolvimento dos Arranjos Produtivos Locais do Estado do Rio de Janeiro, cujas propostas principais são elaborar e propor diretrizes apara atuação coordenada, apoiar os APLs existentes no estado e identificar segmentos produtivos que apresentem potencialidades para se constituírem em futuros APLs, além de desenvolver estudos e elaborar propostas de políticas públicas, visando o desenvolvimento dos APLs do estado (SEDEIS, 2013).