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4.5 DESAFIOS PARA O PRODUTOR RURAL E AS POSSIBILIDADES DE UMA

4.5.1 Agroecologia: noções, temas, debates e conceitos

Compreender os temas da natureza dos agrossistemas e os seus princípios de funcionamento podem ser passos significativos para os produtores rurais caminharem na direção dos conhecimentos dos ecossistemas e possibilitar-lhes

estratégias produtivas multidimensionais. A agroecologia, segundo Altieri (2008), fornece uma estrutura metodológica de trabalho para essa compreensão. Na sua concepção, trata-se de uma nova abordagem que integra os princípios agronômicos, ecológicos e socioeconômicos à compreensão e avaliação do efeito das tecnologias sobre os sistemas agrícolas e a sociedade como um todo.

Para Gliessman (2001), no trabalho em direção à sustentabilidade, o responsável por qualquer agroecossistema se esforça, tanto quanto possível, para usar o conceito de ecossistema no desenho e manejo do agroecossistema. Onde “O desafio de criar agroecossistema sustentáveis é o de alcançar características semelhantes às de ecossistemas naturais, mantendo uma produção para ser colhida” (p. 79).

Nisso abre a possibilidade de uma estratégia produtiva multidimensional, pois assim “[...] a agroecologia utiliza os agroecossistemas como unidade de estudo, ultrapassando a visão unidimensional – genética, agronomia, edafologia – incluindo dimensões ecológicas, sociais e culturais” (p. 23). Então, os temas, enquanto uma abordagem agroecológica pode, também, incentivar os pesquisadores a aprofundar “no conhecimento e nas técnicas dos agricultores e a desenvolver agroecossistemas com uma dependência mínima de insumos agroquímicos e energéticos externos” (Ibid., 23).

Tais conhecimentos e técnicas insinuam-se nos achados da nossa pesquisa de campo, quando ao visitar a biblioteca do CEIER/VP-ES encontramos as Cartilhas nº 03, 06, 07, 08, 14, 15 e 19 (ver anexos) produzidas pelos seus agentes/atores. Outros saberes-fazeres (TARDIF, 2010), emergem das entrevistas de membros/produtores rurais da sua comunidade. É o caso quando fomos, na comunidade vizinha do São Gonçalo – quase na divisa do Município de Nova Venécia-ES – para entrevistar a Sra. Sueli – mãe da aluna da aluna Patrícia Santos do 1º ano do Curso Técnico em Agropecuária em Nível Médio – moradora da comunidade Cº. Bonito em V. Pavão-ES.

A minha filha chega cansada em casa. Sai de casa cedo às 05h, vai pro CEIER/VP-ES e só chega de volta lá pelas 18h. Já quis tirar ela [sic] do Centro Educacional, mas ela não quer sair. Ela gosta de estudar lá. O “Helin”27

ajudou muito a gente [sic] a gostar de colocar os filhos pra estudar

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lá. Nós fica [sic] contente com que os filhos chega aqui na propriedade e pratica as adubações sem agrotóxico que aprende lá. Aprendemos com nossos filhos que num pode usar veneno, porque prejudica nossa saúde. Né!? (Sueli Ferreira dos Santos em 13.06.2012).

No entanto, há uma discussão teórica, será que a simples adubação sem o uso dos agrotóxicos significa uma agricultura ecologicamente correta? Para alguns estudos, no sentido de entender a Agroecologia como ciência, são apresentados conceitos e debates que tencionam a compreensão de que o não uso dos agrotóxicos não bastaria para se ter uma agricultura sustentável e ecologicamente acertada.

A respeito do que significa a sustentabilidade, por exemplo, em Gliessman (2001) se afirma que, apesar de ser coisas diferentes para distintas pessoas, há uma concordância geral de que ela tem uma base ecológica. “No sentido mais amplo, a sustentabilidade é uma visão do conceito de produção sustentável – a condição de ser capaz de perpetuamente colher biomassa de um sistema, porque sua capacidade de se renovar ou ser renovado não é comprometida” (p. 52).

Já sobre o uso ou não dos agrotóxicos, na concepção de Caporal e Costabeber (2004) “cabe afirmar que não se deve entender como agricultura baseada nos princípios da Agroecologia aquela agricultura que, simplesmente, não utiliza agrotóxicos ou fertilizantes químicos de síntese em seu processo produtivo”.

Na realidade, uma agricultura que trata apenas de substituir insumos químicos convencionais por insumos “alternativos”, “ecológicos” ou “orgânicos” não necessariamente será uma agricultura ecológica em sentido mais amplo. É preciso ter presente que a simples substituição de agroquímicos por adubos orgânicos mal manejados pode não ser solução, podendo inclusive causar outro tipo de contaminação (p. 10).

É preciso ter clareza que a agricultura ecológica e a agricultura orgânica, entre outras denominações existentes, conceitual e empiricamente, para esses autores, em geral, são o resultado da aplicação de técnicas e métodos diferenciados dos pacotes convencionais – que perseveram no tempo e se impõem como escola –, as quais são “normalmente estabelecidas de acordo e em função de regulamentos e regras que orientam a produção e impõem limites ao uso de certos tipos de insumos e a liberdade para o uso de outros28” (p. 9). Contudo, ressaltam que, estas escolas

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No extremo, se encontram tipos de agricultura alternativa que já estão subordinadas a regras e normas de certificadoras internacionais ou usando insumos orgânicos importados, produzidos por grandes empresas transnacionais que encontraram no mercado de insumos orgânicos um novo filão para aumentar seus lucros, para citar alguns exemplos. Isto tem levado a continuidade da

ou correntes da agricultura alternativa não necessariamente precisam estar seguindo as premissas básicas e os ensinamentos fundamentais da Agroecologia. Para confirmar suas convicções os autores buscam o que assinala Nicolas Lampkim,

“é provável que uma simples substituição de nitrogênio, fósforo e potássio de um adubo inorgânico por nitrogênio, fósforo e potássio de um fertilizante orgânico tenha o mesmo efeito adverso sobre a qualidade das plantas, a susceptibilidade às pragas e a contaminação ambiental. O uso inadequado dos materiais orgânicos, seja por excesso, por aplicação fora de época, ou por ambos motivos, provocará um curto-circuito ou mesmo limitará o desenvolvimento e o funcionamento dos ciclos naturais” (LAMPKIN, 1998, apud CAPORAL; COSTABEBER, 2004, p. 10).

Mas, todo esse debate remete ao entendimento do que é ou o que não é Agroecologia afinal. Um debate conceitual que envolve o uso de suas concepções fundamentais. O uso dos conceitos é de primordial importância para que as táticas de desenvolvimento sustentável e, consequentemente pela sua projeção no cenário, “de construção de estilos de agriculturas sustentáveis29

possam lançar mão de todo o potencial técnico-científico que tem a Agroecologia para impulsionar uma mudança substancial no meio rural e na agricultura” (CAPORAL; COSTABEBER, 2004, p. 5). Em anos mais recentes, a referência constante à Agroecologia, que para esses autores, se constitui em mais uma expressão sócio-política do processo de ecologização30, tem sido bastante positiva, pois nos faz lembrar estilos de agricultura menos agressivos ao meio ambiente, que promovem a inclusão social e proporcionam melhores condições econômicas aos agricultores.

Dentre as interpretações mais comuns, que se vinculam com a Agroecologia, citadas em “falas” anotadas pelos autores durante uma reunião realizada no município de Santa Rosa – RS no ano de 2000 registramos as seguintes: “uma produção agrícola dentro de uma lógica em que a natureza mostra o caminho”; “o ato de trabalhar dentro do meio ambiente, preservando-o”; “o equilíbrio entre nutrientes, solo, planta, água e animais”; “o continuar tirando alimentos da terra sem esgotar os recursos

subordinação/dependência dos agricultores em relação a grandes corporações produtoras de insumos.

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A expressão Agriculturas Sustentáveis (no plural) pretende marcar a importância que o enfoque agroecológico dá às especificidades socioculturais dos atores sociais que trabalham na agricultura, assim como a necessidade de adaptação da agricultura aos diferentes agroecossistemas.

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O conceito de ecologização aqui utilizado está inspirado na perspectiva adotada por Buttel (1993, 1994), como a introdução de valores ambientais nas práticas agrícolas, na opinião pública e nas agendas políticas para a agricultura. Ver também Caporal (1998); Costabeber (1998); Caporal e Costabeber (2000; 2001; 2004).

naturais”; “um novo equilíbrio nas relações homem e natureza”; “uma agricultura sem destruição do meio ambiente”. Assim, no entendimento dos autores, “o uso do termo Agroecologia nos tem trazido a ideia e a expectativa de uma nova agricultura capaz de fazer bem ao homem e ao meio ambiente” (Ibid., p.6).

Mas, outros exemplos de frases do tipo: “a Agroecologia é um novo modelo tecnológico” ou “vamos fazer uma feira de Agroecologia”, apesar da provável boa intenção no seu emprego, para Caporal e Costabeber (2004), são equivocadas.

Não raro, tem-se confundido a Agroecologia com um modelo de agricultura, com a adoção de determinadas práticas ou tecnologias agrícolas e até com a oferta de produtos “limpos” ou ecológicos, em oposição àqueles característicos dos pacotes tecnológicos da Revolução Verde (p. 7).