• Nenhum resultado encontrado

5 CEIER: A PRÁXIS E A PERSPECTIVA DE UM PROJETO DE

5.3 PRÁTICAS EDUCACIONAIS E A VIDA NO E DO CAMPO

Os personagens entrevistados e os que buscamos para conversação sobre a história da instituição foram praticamente unânimes em afirmar de modo personificado: “somos um Centro de Educação e não uma Escola”. Em suas

38Como exemplo de busca da aplicação em atividades agroecológica futuras nos CEIER’s vejam a

justificativas falam com orgulho deste passado e a empolgação ainda continua no presente, por exemplo, ao registrarem as origens de uma história como uma identidade, onde “no Centro Educacional além dos estudos, experimentamos, pesquisamos, compartilhamos e socializamos os nossos saberes e as trocas de experiências com os agricultores, os seus familiares e as comunidades locais” (Dulcino Bento Zulcatelli – primeiro diretor do CEIER/VP-ES).

Na pesquisa de campo, buscamos compreender, inicialmente, a origem das práticas educativas fundantes das atividades agroecológicas na PP do CEIER/VP-ES. Foi comum ouvirmos esse tipo de depoimento de ex-alunos, ex-professores e membros das comunidades locais ao falarem sobre o “Centro Educacional”.

O aprendizado que tive no “Centro Educacional” modificou o meu modo de ver o mundo... hoje eu sou incapaz de chupar um picolé na rua [da cidade] e jogar o palito no chão [calçamento]... quando vou varrer o quintal [terreiro de sua moradia], separo o lixo orgânico do inorgânico. Faço um buraco no chão e coloco o inorgânico para queimar, o orgânico aproveito para adubar as plantações. Hoje tenho plantas e sementes nativas que servem até mesmo para o CEIER/VP-ES buscar, porque não tem lá [sic]. (Aulira Lenke Alves Rossini – “Lemoa” – ex-aluna e moradora da comunidade rural).

Depoimento como o que ouvimos, após uma reunião de pais, de uma mãe que há mais de 30 anos reside na comunidade São Francisco de Assis, córrego do Lindemberg próximo ao CEIER/VP-ES:

Na reunião com professores mostrava [sic] que parecia que os filhos estavam em casa. O que eles aprendiam no “Centro” demonstravam em casa [na lavoura]. A gente sentia muito bem [fala com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos], não precisava ensinar [aos filhos], pois eles aprendiam tudo [do manejo com a terra] aqui [no CIER] e inclusive ajudava muito a gente corrigir e inovar na agricultura familiar (Darcília Schuans Cardoso – mãe de aluna – em 13.06.2012).

Um pensamento primordial e um desafio inquietador se fixavam como propósito no trabalho docente. Onde, segundo Jorge Kuster Jacob – ex-professor (1988/1989) do CEIER/VP-ES – todos se afirmavam num propósito: “a realidade local tem que entrar para a sala de aula. Isto é novo e é desafiador a todos os professores”. Ele assegura, ainda hoje, que essa sua mentalidade foi formada por ter estudado muito, no Rio Grande do Sul, as concepções freireanas em que a teoria não se dissocia da prática. Disse: “professores ali [no CIER e na comunidade] eram uma grande família”, por isso, que sente orgulho de ter levado sua filha para estudar na mesma escola que trabalhou e hoje, conclui ele, “ela faz licenciatura em História na UFES”.

O Centro Educacional é ainda hoje a frase utilizada, por exemplo, pelo Sr. Joel Rossim que nasceu e viveu em Vila Pavão e trabalhou no CIER como professor desde 1983 a 2010. A partir dessa experiência ele reafirma:

O Centro Educacional foi o precursor do movimento de defesa do meio ambiente na região. Combateu os métodos tradicionais de queimadas, capinas excessiva e o uso de venenos químicos e agrotóxicos. Provocou os estudos, pesquisas, trocas de experiências em parcerias internacionais e as iniciativas de novas técnicas de produção agrícola, alimentação alternativa e agricultura familiar como os projetos de “Relato de experiência sombreamento parcial da horta com gliricídia” [cartilha nº 03 – anexo L], “Capim Vetiver – a barreira vegetal contra a erosão” [cartilha nº 08 – anexo P] e “horticultura orgânica” [ cartilha nº 06 – anexo M], vários outros que não me lembro os nomes agora [Lista de Cartilhas – anexos X e Z]. (depoimento tomado na entrevista de 10.11.2011).

É interessante observar que essa fala se identifica nas entrevistas que fizemos em outra comunidade, córrego do São Pedro, noutro CEIER, o de Águia Branca – ES, onde já procurávamos, desde 2010, nos primeiros ensaios de abordagem para pesquisa de campo, de fora para dentro da escola, conhecer o histórico do CEIER. A busca na comunidade para construir os dados dessa investigação nos levou até a residência de alguns ex-alunos, membros da comunidade e professores da época em que iniciou a história daquela escola. Lá ouvimos e registramos:

Para a comunidade do São Pedro e para as outras comunidades também o CIER chegou como a fonte de aprender a preservar a natureza, não usar agrotóxicos, aplicar técnicas agrícolas, fazer adubação orgânica, formar as associações dos pequenos agricultores, cultivar fruticultura, suinocultura e piscicultura, pois, antes só sabíamos fazer o convencional: plantar, roçar e colher de modo tradicional. O CIER tornou-se o sentimento de orgulho dos pais, dos alunos e da comunidade por ser o centro de troca de conhecimentos, por nos dar a certeza de que se pode viver no campo, ajudar a manutenção da família junta no campo, fortalecer a união e a amizade, evitar o êxodo rural (Flávio Borges, aluno da 1ª turma – 5ª série de 1984 – morador da comunidade – entrevista de 01.10.2010).

Tive o prazer de ser uma das primeiras alunas do CIER. Fizemos aqui as plantações iniciais, fomos orientados pelo “Joca” [apelido do Professor João Carlos Juliatti]. O “mutirão dos pais” era parceria no preparo das UDEP’s para os filhos matriculados aprenderem o manejo da terra. Desde o início tivemos um ambiente familiar, de comunidade e de integração. Antes do CIER chegar aqui, lá fora [outras comunidades] ninguém sabia o que era a comunidade de São Pedro. Hoje já somos uma comunidade reconhecida na região por causa do trabalho de experiências trazida pelos professores, por isso, em 2006, tive o prazer de matricular meu filho aqui. Fico emocionada, pois sempre acreditei no processo dessa instituição. (Eliana Bolsoni Bortolotti, aluna da 1ª turma – 5ª série de 1984 – moradora da comunidade e atual Secretária do CEIER/AB-ES – entrevista de 07.07.2010).

Aqui [na escola] é como se fosse uma família. Há facilidade para realizar um trabalho [educativo] diferenciado. O CIER era fonte de informação, experimentação e pesquisa sobre as coisas do campo para toda a comunidade. Técnicas de compostagem (adubação orgânica), novas experiências na criação de galinhas, suínos e apicultura [sic] e construção de cercas elétricas são exemplos de aprendizagens vivenciadas aqui e que refletiram na comunidade. Pequenos agricultores utilizavam e divulgavam

nas suas comunidades as mudas de árvores nativas, de café, de frutas, de hortaliças e outras que os alunos aprendiam fazer aqui e socializavam com seus familiares. Manter os filhos próximos da família, se possível na mesma atividade rural, e fixá-los no campo, esses são os propósitos do CIER. (Arlete R. Gobbi de Almeida, Profª de Ciências e Geografia no CEIER/AB- ES desde 1987 – entrevista de 07.07.2010).

Embora sejam esses os propósitos, manter os filhos próximos da família e se possível na mesma atividade rural, ditos por essa professora, o que também se confirma expresso na PP-2009 dos CEIER’s, atualmente as famílias já não se sentem muito bem e nem veem com bons olhos os filhos ficarem o dia todo na escola. Por exemplo, a fala do pai, quando por um lado, mesmo reconhecendo a importância desses propósitos, por outro lado, ressente a ausência do filho no ambiente familiar, quando diz: “O Centro é referência de vida para a comunidade, mas, o dia inteiro na escola não permite [ao filho] o trabalho com a família e a educação familiar. Isto fica muito a cargo da escola”. Em seguida, um pouco pensativo, completa: “o filho chega tarde da escola e não tem tempo de compartilhar o trabalho com a família e nem divertir com os irmãos e primos” (Zé Romildo, como é conhecido, - comunidade do Córrego São Pedro – CEIER/AB-ES).

Na construção dos dados, na pesquisa de campo, por vezes, pesquisador e objeto se encontram. Ao entrevistarmos uma família (pai, mãe e filha) revivemos o tempo em que morava na roça. Na fala que ouvimos na entrevista, era como se ouvíssemos a minha própria mãe, quando saía de casa (na roça) para ir até a cidade estudar o 2º grau (ensino médio), estava ali nas falas daquela mãe: “os filhos ficam a semana inteira à disposição da escola, não têm tempo de socializar com a família os conhecimentos que lá aprendem e colocar em prática aqui na propriedade dos pais” (Luciana Escaldaferro Nandolfo, em 28.08.2010).

Essa mãe estudou o Ensino Fundamental (EF) na 5ª turma (1988-1991) do CIER de Águia Branca – ES, mora na comunidade, é casada com Cedenir Pereira da Silva que também estudou o EF ali, na 3ª turma (1986-1989). Eles têm uma filha estudando o EF lá também. Luciana e Cedenir fizeram depoimentos significativos para a confirmação do Centro Educacional como referência de estudos, pesquisa e troca de experiências, em entrevista que fizemos em sua residência:

No nosso tempo de CIER, eu e Luciana, estudamos com professores que faziam da escola um centro de informações, novidades agrícolas e troca de conhecimentos. Novos métodos de criar porcos, galinhas, gado. Técnicas novas de agricultura, com plantações diversificadas, podas de café,

“consórcio” na lavoura. Os professores eram muito dedicados, compromissados, capacitados mesmo, pois eram técnicos especializados que vinham na propriedade dos pais. Faziam intervenção ativa39. Ajudaram a mudar o comportamento dos agricultores da comunidade, mostravam alternativas para “não às queimadas” e “não aos agrotóxicos”, preservação das fontes de água e o plantio da “bandarra”40

. Os pais sentiam muita honra de dizer que os filhos estudavam no CIER. (Cedenir e Luciana – moradores da comunidade – entrevista de 28.08.2010).

Nesses depoimentos percebe-se o quanto se dava de importância ao trabalho socioeducativo desenvolvido pelos CEIER’s como “Centros” de estudos, pesquisas e formação na troca de experiências dos seus saberes-fazeres. Os resultados da época, enfatizados na produção das Cartilhas, ainda refletem nas comunidades por onde estivemos fazendo a investigação. Foi muito comum ouvirmos estas falas exemplificadas com frequência em praticamente todas as conversações e entrevistas que fizemos.

As práticas educativas, sinalizadas nas falas e pelas observações que fizemos tanto nas histórias narradas pelos entrevistados como nas análises dos documentos que tivemos acesso, parecem-nos a priori, trazer uma percepção diferenciada sobre a forma de realizar as atividades educacionais na região noroeste capixaba. Havia uma preocupação mais latente em preservar a natureza, proteger o meio ambiente e trabalhar a terra, usar os recursos naturais, principalmente na preparação e na produção de alimentos, sem degradar o solo. Uma práxis de comprometimento. Tudo isso, contribuiu para criar uma marca que se constituiria como que uma identidade dos CEIER’s em suas práticas educativas: as atividades agroecológicas. A organização educacional dos saberes-fazeres, a troca de experiência e as parcerias eram sempre pautadas pelas atividades agroecológicas. Esse ideário aplicado no contexto das comunidades rurais, ainda que não tão consciente, ao nosso modo de ver, propiciou à região noroeste capixaba fortes indícios de equilíbrio entre o uso da terra para produção e o “agroecossistema” (ALTIERI, 2008) para enfrentar o outro ideário da “Revolução Verde”.

39

Uma dessas intervenções ativas corporificou-se na Cartilha n º 19 (anexo H) pelo ato de acreditar na sensibilização e buscar na troca de conhecimentos com o agricultor sobre o reflorestamento, utilizando de várias espécies nativas.

40 A bandarra é uma essência florestal de nome científico “Schizolobium amazonicum”, pertencente à

família Cesalpinaceae, é uma árvore caducifólia de tamanho grande de ocorrência natural na mata primária de terra firme, várzea alta e em florestas secundárias e capoeiras (Vieira et al., 2008, Carvalho, 2005; Marques et al., 2004; Ramalho, 1995). De crescimento rápido, a bandarra pode atingir de 15 a 20 m de altura e 60 a 80 cm de DAP entre os 12 e 15 anos (Tonini et al., 2005; Rondon, 2002; Ducke, 1949).