M eMORIal de a IReS
I) QUEM É AIRES?
Aires é o último grande personagem de Machado de Assis. É o coroamento de uma obra que começa “romântica”, passa a “realista” e, segundo alguns críticos, nas duas últimas obras, “pré- -modernista” (há, ainda, quem a rotule “modernista” e mesmo “pós-moderna”, avant la lettre). Aires é também o corolário de uma obra que, paulatinamente, dirigiu-se à rarefação, ao enredo quase invisível2.
Diplomata de carreira, autor e personagem de Esaú e Jacó, narrador-autor e personagem de Memorial de Aires, a figura volátil de Aires se escamoteia, mercurial, em papéis plurais nas narrativas,
1 Publicado, com ligeiras alterações, em Espelho: revista machadiana. Porto Alegre, v. 12/13, p. 45-67, 2006/2007.
2 Dessa progressiva rarefação dá mostras a abordagem de José Paulo Paes, da qual se pinça um trecho: “o Memorial, em vez de aliciar o leitor com a mestria ostensiva de sua fatura, diverte-se em confundi-lo com o descolorido de sua mestria oculta”. PAES, José Paulo. Um aprendiz de morto. Gregos & baianos: ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 14.
embaralhando-os3. Muitos estudiosos teimam em lê-lo como uma espécie de alter ego de Machado – sendo Aires viúvo, sem filhos, ponderado4.
Na “Advertência”, não assinada, de Esaú e Jacó, há refe- rência a ele, como autor de “sete cadernos manuscritos”. Os 6 primeiros comporiam o Memorial; o de nº 7 foi intitulado “Último” e ainda “Ab ovo”, ou seja, “desde o princípio”; “venceu, porém, a ideia de lhe dar estes dois nomes que o próprio Aires citou uma vez: Esaú e Jacó”5. Aparece, como personagem, pela primeira vez apenas no capítulo XII desse livro, intitulado exatamente “Esse Ai- res”, onde se pode colher alguns de seus traços, quanto ao tempe-
ramento, à profissão e ao estado civil:
Trazia o calo do ofício, o sorriso aprovador, a fala branda e cautelosa, o ar da ocasião, a expressão adequada, tudo tão bem distribuído que era um gosto ouvi-lo e vê-lo. (...) Mas este Aires, — José da Costa Marcondes Aires, — tinha que nas controvérsias uma opinião dúbia ou média pode trazer a oportunidade de uma pílula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pílulas. (...) Era cordato, repito, embora esta palavra não exprima exatamente o que quero dizer. Ti- nha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia. (...) Posto que viúvo, Aires não foi propriamente casado. Não amava o casamento. Casou por necessidade do ofício; cuidou que era melhor ser diplomata casado que solteiro, e pediu a primeira moça que lhe pareceu adequada ao seu destino. Enganou-se: a diferença de temperamento e de espírito era tal que ele, ainda vivendo com a mulher, era como se vivesse só. Não se afligiu com a perda; tinha o feitio do solteirão.
Com isso, temos um razoável perfil de Aires, dado por um nar- rador de um “caderno manuscrito” cuja autoria é da própria figura objeto das descrições e dos comentários – Aires, autor do caderno-ro-
3 MAGALHÃES, Pedro Armando de Almeida. Vozes da narração em Esaú e Jacó. ROCHA, João Cezar de Castro (org.). À roda de Machado de Assis. Ficção, crônica e crítica. Chapecó: Argos, 2006, p. 249-269.
4 As biografias são um lugar privilegiado para se verificar esse baralhamento entre o escritor e o per- sonagem, conforme se pode ver em WERNECK, Maria Helena. O homem encadernado – Machado de Assis na escrita
das biografias. Rio de Janeiro: Eduerj, 1996.
5 As citações de Esaú e Jacó, de Memorial de Aires e de outros contos e romances foram retiradas de ASSIS, Machado de. Machado de Assis – obra completa em três volumes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Para a localização exata do trecho dos romances, veja-se o capítulo indicado.
mance, fala, sob a capa de um narrador, de um personagem chamado exatamente Aires, num capítulo nomeado “Esse Aires”. Um autorre- trato enviesado, sob camadas, pura máscara nietzscheana, sem rosto original: um narrador que fala de si mesmo, ora em primeira pessoa, como se falasse de um estranho; ora em terceira, como se não falasse de si mesmo.
Em 1908, Machado de Assis faz 69 anos em 21 de junho e falece em 29 de setembro. No Memorial de Aires – publicado em julho desse ano de 1908, mas cuja história compreende os anos de 1888 e 1889 –, o diplomata está com 62 anos,
experiente das coisas mundanas, cético sem ser dema- siado cínico, cansado do exagero, da ênfase, da retó- rica, e do que ele chama de “o romanesco”; mesmo o fato de que passou os últimos trinta anos longe do Brasil talvez lhe dê uma certa perspectiva dos acon- tecimentos. Todas essas qualidades (além da última) levaram os críticos a identificá-lo em parte com o pró- prio Machado: os dois possuem até o mesmo proble- ma de visão6.
Mas como se deve desconfiar dos narradores machadianos, e, naturalmente, de toda relação direta, sem mediação, entre a criação ficcional e a função autoral, Gledson lembra que o ma- treiro Aires vê até “a sombra da sombra de uma lágrima” da vi- úva Fidélia. Lembra também, páginas adiante, que “Gestos sem importância aparente – um volver de olhos, uma entonação de voz – são observados atentamente por Aires, numa contínua busca de compreensão” (p. 229). É essa mesma observação micrológica, que Aires exerce em relação a tudo, que devemos devolver a ele e, por conseguinte, a seu nome...
O célebre temperamento “cordato” do personagem se ilustra com o que podemos chamar de “filosofia do compasso”: quando criança não brigava com ninguém, ouvia os professores e os colegas e, se estes se altercavam, Aires fazia da própria alma um compasso “que abria as pontas aos dois extremos. Eles acaba- vam esmurrando-se e amando-me” (MA, 18 de setembro / 1888). A importância dessa passagem se comprova na dúvida de Bosi: “O compasso de Aires será a figura ideológica do último Machado? O disfarce estratégico (e, afinal, definitivo) de uma aturada cons-
6 GLEDSON, John. Memorial de Aires. Machado de Assis: ficção e história. Tradução: Sônia Coutinho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p. 225.
ciência social e política?”7. Tal perspectiva, que pede uma abor- dagem historicista, será esboçada numa das análises onomásticas vindouras.
Fique, pois, para Aires, a fluida imagem de um dique que, aos poucos, libera índices ambivalentes, constituindo-se num su- jeito que, por exemplo, na política, vê com certa indiferença a alternância de poderes seja entre o regime monárquico e o re- publicano, seja entre as facções liberais e conservadoras8. O epi- sódio da tabuleta, capítulo XLIX de Esaú e Jacó, ocorrido entre o comerciante Custódio e o nosso diplomata, aponta, com precisão, a ambiguidade do comportamento distanciado e irônico de Aires, fingindo-se às vezes de ingênuo, embora consciente das tramoias político-partidárias e dos jogos de poder no Brasil oitocentista – tramoias e jogos que, guardadas as acacianas diferenças, perdu- ram. Na vida amorosa, outro exemplo, nosso diarista varia entre um casamento diplomaticamente de fachada, um interesse come- dido por Natividade, quando jovem, e estético por Fidélia, já ido- so. O escritor Aires se esconde também, e tão bem, como roman- cista, ora escrevendo um diário, no qual se disfarça personagem secundário (afrontando o gênero), ora escrevendo um romance tradicional, no qual atua também como personagem cujo nome coincide exatamente com o seu nome “real” de autor, conforme a “Advertência” de um anônimo editor deixa às escâncaras. Tanto explícito fingimento dá o que pensar9. Daí ao desafio de desfiar seu nome, duplo que se multiplica, é um pulo.
II) POR QUE ESTUDAR OS NOMES E, EM PARTICULAR,