O título Veredas do amor no Grande sertão, de Karina Bersan Rocha, entrega quase tudo: trata-se de uma reflexão sobre o amor – e pensar o amor, eros, é pensar a morte, thanatos – no incomparável romance de Guimarães Rosa. Mas isto bastará para indicar como o texto de Karina desenvolve a questão? Certamente, não.
Diga-se, antes de tudo, que este livro sobre o qual se lan- çam novos sinais, interessa aos dois tipos de leitores existentes, sob certa perspectiva: aos leitores técnicos e aos leigos, em que pese a visível insuficiência dos termos. O leitor especialista em Rosa, provável leitor desta resenha, poderá percorrer, comparar, descobrir veredas insuspeitadas, poderá confirmar a amplitude que o tema amoroso impõe; o leitor leigo, se aqui chegou, terá em mãos um verdadeiro manual (!) para alimentar a curiosidade de quem quer acompanhar os sutis jogos do amor.
Dois estudiosos da obra rosiana emprestam suas palavras ao livro. Alexandre Moraes destaca a “teoria e sensibilidade” em que se escora o texto de Karina Rocha; Eduardo Coutinho, de forma semelhante, aponta a “ampla pesquisa” e o “manancial teórico” que o sustentam. A capa, reproduzindo a belíssima aquarela “Dia- dorim”, de Arlindo Daibert, dá mostras já do bom gosto e do co- nhecimento da autora. Sensibilidade e pesquisa andando juntas no texto que, afinal, é a substâncita por onde o pensamento passeia.
Para fazer jus à clareza e à objetividade do livro, exponha- -se logo a sua ideia basilar: partindo da máxima de Riobaldo de que “tudo é e não é”, também o amor será lido à luz do “mun- do misturado” e da “matéria vertente”. Similar ao romance, que se situa como uma “narrativa-síntese”, na expressão do referido professor Eduardo Coutinho, Karina estudará, de forma original,
1 Resenha de ROCHA, Karina Bersan. Veredas do amor no Grande sertão. Nova Friburgo, RJ: Ima- gem Virtual, 2001. Publicada em Revista Scripta (PUC-Minas), v. 5, p. 473-475, 2002.
a possibilidade de se nomear como “amor-síntese” esse lugar que Diadorim representa, ainda que em diferença quanto a Nhorinhá e a Otacília. Numa palavra: Karina estuda as metamorfoses do amor, pois “Amor é assim – o rato que sai dum buraquinho: é um ratazão, é um tigre leão!” Ou: “O amor? Pássaro que põe ovos de ferro”.
Como se não bastasse o próprio romance para pautar as incursões teóricas e analíticas, Karina Rocha busca o apoio da for- tuna crítica rosiana e uma variada – mas coerente – bibliografia so- bre o tópos erótico. De um lado, pois, Leonardo Arroyo, Eduardo Coutinho, Walnice Galvão, Benedito Nunes, Kathrin Rosenfield, Roberto Schwarz, Francis Utéza são confrontados a partir do nó do amor que move Riobaldo: intuições, inseguranças, descobertas; de outro, Platão, Barthes, Bataille, Octavio Paz, Freud trazem à tona uma história do corpo que Karina saberá verter e concentrar para as suas próprias especulações.
Fruto de paciente dissertação, o livro em foco se apropria com generosidade das pesquisas realizadas em torno de Grande
sertão: veredas, mas a elas não se subordina acriticamente. Ao
contrário, o que um texto quer é ser lido com acuidade e rigor – e é o que faz quando, por exemplo, acata as lições de B. Nunes e de K. Rosenfield até o limite do olhar comum, deles se afastando quando a vereda é já diversa. Isto é feito com elegância e coragem, reverência e autonomia. São escolhas, a saudável heresia da inte- ligência criadora. Afinal, disse Riobaldo, “Todo amor não é uma espécie de comparação?”.
Relevante apontar, mais uma vez, a limpidez de sua escrita, disposta sempre a buscar o esclarecimento, em vez de chafurdar no hermetismo que frequentemente é só a fachada de um raciocí- nio confuso e sem direção. Seu texto vem, gradativamente, não a marteladas, mas com pequenos piparotes, ganhando o leitor, dis- seminando conceitos. Vai pelas bordas – como se toma uma sopa –, até que, domados, o texto e o leitor recebam o prazer de um encontro saborosamente arquitetado.
Sem cair na armadilha de, seduzida pelo canto da escri- ta rosiana, querer escrever à Rosa, o estilo de Karina no entanto se contagia pela ambiguidade inaugural que gera o romance: um constante movimento entre a inevitável “megera cartesiana” e o “altíssimo primado da intuição”, conforme palavras do autor mi- neiro na conversa com Günter Lorenz. Veredas do amor no Gran-
de sertão vai buscar nas reticências da razão riobaldina os fun-
damentos de suas dúvidas e, por que não?, de suas certezas: “Eu sei: quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca
de verdade...” Para se falar do amor, deve-se dele entender, saber jogar-se e sair dos redemoinhos que ele arma.
Se há defeitos no livro que ora se lê – posto que, como um crime, não há livro perfeito –, é o de fazer com que saiamos com a sensação de “saber tudo” sobre o tema amoroso na magna obra da literatura brasileira, Grande sertão: veredas. Não temamos, contudo, essa ilusão (resultado, decerto, do alinhavo paciente dos capítulos às voltas do objetivo perseguido). O homem humano, à semelhança de Riobaldo e de Diadorim, para ficarmos apenas nos protagonistas, traz Deus e o Demo, amores possíveis e impossíveis. A gente nunca tem a precisão de onde o amor pode estar, de onde ele pode vir, se já chegou e de que forma veio.
A sensação de “saber tudo” sobre os movimentos do amor no romance mostra então sua duplicidade: saímos, sim, cheios de amor – suas facetas e potências. Sentimo-nos prenhes de lite- ratura e de vida. Como ao livro de Rosa, o livro de Karina se lê com a entrega do corpo. Feitas as travessias, salta uma revigorada sensação de que “o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”, dita em Tutaméia. E nele não coube, tarefa divina, a história do amor – das cavernas à virtualidade. O livro é tão- -somente, e bastante, um olhar para um modo de amar, ainda que este modo seja plural. O amor no sertão é o amor no mundo, parodiemos nosso herói.
As senhas estão lançadas. Cada um sabe o périplo que per- corre quando abre um livro para a vida. Viver, contar, amar – Rio- baldo, Diadorim, Karina e os leitores descobrimos que tudo isso é perigoso, muito perigoso. Ou não é? Amormente.
aPReSentaçãO
1Apenas um ano após a publicação da obra máxima de Gui- marães Rosa, Antonio Candido previra, em “O homem dos avessos” (1957): “Na extraordinária obra-prima Grande sertão: veredas há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavel- mente realizado. Cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício”2. E, de fato, um pouco e um muito de tudo anda se len- do neste sertão rosiano, em torno do qual têm transitado múltiplas investigações, que partem de perspectivas, às vezes, imprevisíveis.
O lugar do ensaio de Sandra Lima nesta fortuna crítica é, sem dúvida, ímpar: primeiramente, porque seu grau de singularida- de é extremo; some-se a isto a precisão de suas considerações; por fim, a surpresa de descobrirmos que esta singularidade estava na frente de nossos olhos – e não víamos. Vamos, pois, aos detalhes.
Não havia, ainda, para admiradores e especialistas, um livro que explicasse, tintim por tintim, como que, na fala e, portanto, no imaginário de Riobaldo a presença de compadre Quelemém se faz inconteste. E quem é Quelemém de Góis? Amigo espírita de nosso narrador, com a “doutrina dele, de Cardéque”, sua voz apa- rece dezenas de vezes na saga de Tatarana. Quando, como e por que aparece tanto é caso para você, leitor, deslindar pelas páginas que virão. Aqui e ali, no ensaio de Sandra e no romance de Rosa, se desenham as ideias do compadre, com frases lapidares, que a memória do ex-jagunço reconstrói: “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” – aragens de Quelemém.
À pesquisa teórica sobre a doutrina espírita Sandra juntou todo um saber, de experiência própria e prática, um “saber tão bem, na horinha” sobre o kardecismo, sistematizando alguns pressupos- tos dessa filosofia religiosa – a reencarnação, a lei de progresso, a
1 Publicado como “Apresentação” para o livro Uma voz espírita em Grande sertão: veredas, de San- dra Mara Moraes Lima (São Paulo: Annablume, 2008, p. 9-11).
2 CANDIDO, Antonio. O homem dos avessos. COUTINHO, Eduardo (org.). Guimarães Rosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991, p. 294. (Coleção Fortuna Crítica, 6)
lei natural ou divina e a influência dos espíritos no mundo dos en- carnados – e apontando a eficácia e a justeza de tais pressupostos no funcionamento da narrativa ficcional. Para nesses meandros se embrenhar, Sandra se amparou, com propriedade, em reflexões de Mikhail Bakhtin, detendo-se sobretudo nos conceitos de polifonia e da “palavra interiormente persuasiva”.
Em Grande sertão, a certa altura, ao contar dos ciúmes de Dia- dorim, dirá Riobaldo: “Não convém a gente levantar escândalo de co- meço, só aos poucos é que o escuro é claro”. E claro fica, ao lermos o livro de Sandra Lima, que a crítica literária, ao longo de décadas de interpretação, deixou de lado, como se fora secundário, o perso- nagem Quelemém. Talvez, fique a generosa hipótese, grande parte da crítica não tenha mesmo entendido o lugar cardeal do compadre na complexa construção mental (ideológica, filosófica, cultural) do personagem Riobaldo. Não à toa, em carta a seu tradutor italiano, o escritor mineiro ratifica: “sou profundamente, essencialmente religio- so, ainda que fora do rótulo estrito e das fileiras de qualquer confissão ou seita; antes talvez, como o Riobaldo do ‘G.S.:V’, pertenço eu a to- das. E especulativo demais”3. Se, ao lado da questão da sexualidade, o que anima o monólogo do Professor (apelido dado pelo ladino Zé Bebelo) é o famigerado pacto com o demo, torna-se evidente a força de Quelemém no discurso do narrador.
Se “nome não dá: nome recebe”, além do eco de “clemên- cia”, significando “bondade; brandura”, podemos ouvir em Quele- mém um sutil anagrama de “que me lê”, intensificando a ascendên- cia que o compadre exerce sobre o jagunço aposentado. A paz de espírito que Riobaldo busca, após tantas batalhas e após a perda do “amor impossível”, vai encontrar abrigo exatamente na sombra con- fortadora que a palavra de Quelemém traz, porque “compadre meu Quelemém nunca fala vazio, não subtrata”.
Há mais, muito mais no livro de Sandra Lima – o capítulo sobre o Mal a partir de Santo Agostinho, de Kant e de Kardec, bus- cando o contraponto na trama romanesca, é um primor de clareza e de síntese. Utilíssimo, para alimentar futuras pesquisas, é o apêndice que reúne todas as passagens do Grande sertão em que se faz alguma referência a Quelemém.
Em suma, temos em mãos um texto que, em meio à floresta de estudos críticos que o sertão de Rosa germinou, conseguiu um admi- rável feito: resgatar – ali, na superfície em que sempre esteve – o valor
3 ROSA, Guimarães; BIZZARRI, Edoardo. João Guimarães Rosa: correspondência com o tradutor italia-
e a dimensão de um personagem sem o qual, simplesmente, Riobaldo não seria. Com tudo o que Sandra Lima nos ensina, passamos a enten- der mais, muito mais, não só a “extraordinária obra-prima” rosiana, mas também a matéria polimórfica que dá o feitio dos personagens e, ao cabo, de nós mesmos: a linguagem (que a palavra, falada ou escrita, apenas, e de longe, representa).