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Alas laterais da Igreja Matriz de Batatais

4. Pampulha e Batatais:

4.6 Alas laterais da Igreja Matriz de Batatais

Além dessa Via Sacra, uma série de representações da vida de Jesus Cristo e alguns santos da tradição católica figuram nas alas laterais da Igreja Matriz de Batatais. A começar pelo Batismo de Jesus, onde a cena é descrita na pintura tal qual aparece no texto bíblico: “João Batista fora instruído por Deus sobre o sinal que lhe permitiria identificar o Messias, Filho de Deus, ‘aquele que batiza no Espírito Santo’. E ao batizá-lo, João viu (como lhe fora anunciado) que o Espírito Santo desceu sobre Jesus, em forma corporal, como uma pomba, e permaneceu sobre ele” (cf. Jó 1,32- 34). As cores são vivas e a técnica é realista, sem qualquer deformação expressionista. Nota-se o forte contraste entre a terra seca sobre a qual pisam os pés descalços de João e dos demais personagens, e a placidez da água em que os pés de Jesus estão mergulhados, dando a ideia de alívio ou salvação.

Figura 85: Candido Portinari - “O Batismo de Jesus”, 1952

Já a cena do martírio de São Sebastião é representada mais livremente, e incorpora elementos da iconografia característica de Portinari, como as formas da natureza, geometrizadas, e as figuras agrupadas e distribuídas por todo o espaço da representação. O santo não se encontra sozinho e isolado (como, muitas vezes, é mostrado), mas cercado por suplicantes, tendo, à sua frente, um anjo que retira uma das flechas do corpo inerte do santo. A pintura parece mais uma encenação teatral, distribuindo-se em um amplo cenário de múltiplos planos. O chão é seco e pedregoso, dividido em faixas horizontais, que podem aludir a sombras de objetos que se encontram fora do quadro – servindo, assim, para sugerir um clima misterioso presente em muitas pinturas de Portinari, principalmente na série dos Espantalhos, além de remeter à “pintura metafísica” desenvolvida pelo pintor italiano De Chirico.

Figura 86: Candido Portinari - “São Sebastião”, 1952

(painel a óleo sobre tela, 199 x 299 cm, Igreja do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Batatais, SP)

Mais uma cena da tradição católica é reproduzida em A Transfiguração, igualmente representada de maneira teatral e alegórica. A figura de Jesus se confunde com o sol nascente; Jesus ressuscitado flutua sobre o horizonte, enquanto o grupo de soldados adormecidos repousa sobre tablados que se confundem com as nervuras das rochas (estes, sim, parecem estar mortos). Dois evangelistas, um de cada lado de Jesus, permanecem com os seus pés descalços sobre a terra avermelhada, tendo, nas mãos, as escrituras sagradas.

Figura 87: Candido Portinari - “A Transfiguração”, 1952

(painel a óleo sobre tela, 199 x 299 cm, Igreja do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Batatais, SP)

A referência dessa obra é a Transfiguração, de Rafael Sanzio (1483-1520). Considerada a última obra do pintor italiano, foi baseada na “transfiguração de Jesus”, descrita no Novo Testamento, no livro de Mateus, capítulo 17, versículos 1 a 21, onde se lê: “Seis dias depois, toma Jesus Tiago e João, e os leva, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz”79. Essa obra de Rafael tornou-se famosa por ser uma precursora do estilo Barroco.

Figura 88: Rafael Sanzio - “Transfiguração”, 1516-1520

(óleo sobre tela, 405 x 278 cm, Museu do Vaticano, Roma, Itália)

Portinari pintou ainda uma outra versão de A Fuga para o Egito, bem diferente daquela inspirada em Fra Angelico, que ele reproduziu na parede da sala de sua antiga casa de Brodowski. Nesta versão dedicada à Matriz de Batatais, a geometrização predomina; e, mesmo assim, ele conseguiu criar uma espacialidade bastante convincente. O grau de abstração das formas é bastante elevado: no fundo, os blocos rochosos se distribuem pelo espaço de uma paisagem desértica, dando a ideia das distâncias a serem percorridas pela Sagrada Família (a ideia é de um ambiente hostil e solitário). Embora os personagens desse drama tenham traços europeus, os cabelos do Menino Jesus são loiros e a barba e os cabelos de José são ruivos. Eles representam os refugiados de qualquer parte do mundo, assim como o Menino Jesus, Maria e José foram refugiados nas terras do Egito.

Figura 89: Candido Portinari - “Fuga para o Egito”, 1952

(painel a óleo sobre tela, 137 x 158 cm, Igreja do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Batatais, SP)

Também há uma outra representação desses mesmos três personagens na obra Sagrada Família, onde assumem a postura característica de um retrato, como se posassem para o artista. O fundo é composto pelas mesmas faixas de luz e sombra que se originam de objetos que estão fora de cena, e ajudam a dar a ideia de ampla espacialidade. O ambiente é árido e desolador, mas as figuras são serenas. Ao contrário da pintura feita na parede de sua antiga casa de Brodowski, aqui o Menino Jesus encontra-se descalço, enquanto seus pais vestem sandálias. Ele avança com seu pezinho esquerdo em direção ao observador, sem medo de enfrentar a longa

caminhada pelo deserto, seguro que está do apoio de seu pai e de sua mãe, que seguram as suas mãos, um de cada lado.

Figura 90: Candido Portinari - “Sagrada Família”, 1952

(painel a óleo sobre tela, 137 x 158 cm, Igreja do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Batatais, SP)

Sensível, mais uma vez, à devoção e a subjetividade populares, Portinari pinta também Nossa Senhora d’ Aparecida, que se adequa perfeitamente à religiosidade que predominava naquela época no interior do Brasil.80 Ela traz a pele escura, conforme tradicionalmente é representada nas imagens presentes em inúmeros lares brasileiros, seus olhos grandes encaram diretamente o observador, com altivez e doçura. Uma aura luminosa circunda todo o seu corpo, irradiando uma forte luz dourada. O manto é mais longo do costumeiramente representado nas imagens de Nossa Senhora Aparecida (e cobre totalmente os pés da santa), enquanto a vestimenta colorida lembra a de Nossa Senhora do Carmo, pintada por Portinari para a Capela Mayrink.

Seis medalhões colocam-se lado a lado da imagem centralizada, descrevendo cenas das narrativas de milagres de Nossa Senhora, inclusive o primeiro encontro da imagem no vale do rio Paraíba, num ponto do território entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Conta-se que os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso

80 O culto de Nossa Senhora Aparecida é um dos preferidos pela população, pois existem cerca de 343

paróquias a ela dedicadas, e sua imagem pode ser encontrada em quase todos os lares católicos brasileiros. Em 1904 a santa ganhou uma coroa de ouro e pedras preciosas, doada pela princesa Isabel; em 1930, foi proclamada Padroeira do Brasil e em 1967 recebeu a mais importante honraria concedida pela Santa Sé – A Rosa de Ouro. (BOTELHO, 2003, p.15)

lançaram suas redes no Porto de Itaguaçu, sem resultado. Tentaram uma segunda vez e, com muita surpresa, pescaram uma imagem de Nossa Senhora, mas sem cabeça. Lançaram as redes mais abaixo no rio, encontraram a cabeça da santa. No arco que coroa as cenas, vemos a antiga igreja de Nossa Senhora Aparecida boiando em radiante luminosidade, num céu completamente azul.

Figura 91: Candido Portinari - “Nossa Senhora d’ Aparecida”, 1952

(painel a óleo sobre tela, 119 x 54 cm (aproximadamente), Igreja do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Batatais, SP)

Outro painel representa uma imagem que vem da tradição da religiosidade ibérica e é o santo padroeiro da Matriz de Batatais, o Senhor Bom Jesus da Cana Verde. A figura do Nazareno coloca-se no centro do painel, enquanto dois grupos de apóstolos estão reunidos lado a lado (seis à direita e seis à esquerda). No alto da composição, aparece o Espírito Santo, na figura da pomba divina, centrado num foco de luz que se confunde com os raios do sol, reverberando em faixas concêntricas brilhantes, no céu. Na parte inferior há um sarcófago, ladeado por dois anjos ajoelhados em reverência.

Figura 92: Candido Portinari - “Senhor Bom Jesus da Cana Verde”, 1952

(painel a óleo sobre tela, 248 x 88,5 cm (aproximadamente), Igreja do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Batatais, SP)

Desde 1955, todas essas obras passaram a fazer parte do patrimônio da Igreja Matriz de Batatais e lá deverão permanecer, pois, conforme reza a escritura pública lavrada no Cartório Ofício da cidade, “1) Que o conjunto pictórico ou quadros referidos jamais saiam da Igreja Matriz de Batatais; 2) Que em hipótese alguma, tais quadros poderão ser alienados ou transferidos, seja a que título for”81. Esperamos que se cumpra a vontade de Portinari e, assim, as futuras gerações possam ver, em seu sítio original, as pinturas religiosas realizadas pelo artista na cidade onde ele próprio foi batizado.

81 Cartório do Primeiro Ofício de Batatais, Livro de Notas no. 59, fls 113 a 115, que regula as pinturas