2. Questões polêmicas sobre Portinari
2.5 Comprometimento social
Seja pela origem humilde ou pelo humanismo herdado da família de imigrantes italianos, não é de se surpreender que Portinari tivesse grande interesse pelas
52 FABRIS, 1990.
questões sociais agudas, vividas num Brasil assolado por brutais desigualdades sociais e pelo abandono da população brasileira, totalmente carente de recursos.
Numa de suas grandes exposições, realizada no Museu Nacional de Belas Artes, quando sua carreira atingia o auge, nos primeiros anos quarenta, confidenciou que as figuras de seus quadros o surpreendiam, porque eram tão tristes e horrorosas e não davam alegria a ninguém e nem mesmo a ele próprio. “Se pintasse de outro modo, estaria mentindo”. “São elas o resultado de tudo o que vi observei”. “Os meninos de Brodósqui” estampam as pequenas e magras figuras com ventres enormes e pernas finas (BERARDO, 1983, p.53).
A consciência da pobreza existente no Brasil também fica clara em outro episódio, durante uma exposição de suas pinturas na Europa.
Em uma exposição, em Paris, em 1946, o Duque de Windsor, visitando e examinando um a um os quadros que tinham merecido da crítica os melhores adjetivos, vê nordestinos de olhos esbugalhados, lavadeiras de grandes mãos ossudas, moleques descalços numa “pelada” do interior brasileiro. O nobre inglês admira a técnica mas os temas não o seduzem: “O senhor não teria algumas flores?” Pergunta a Portinari. “Flores não”, responde o pintor, ressentido. “Estas existem em pequena escala em meu país, ao contrário da miséria” (BERARDO, 1983, p.54).
Claro que Portinari não estava sozinho em seu idealismo humanitário e interesse pelos graves problemas sociais brasileiros. Escritores, seus contemporâneos, como Graciliano Ramos e Jorge Amado, compartilhavam da defesa da causa da população mais humilde em um país marcado pela desigualdade social. Esses escritores pertenceram à Segunda Geração do Modernismo na literatura brasileira, período também chamado regionalista, que se distinguiu do Primeiro Modernismo por um forte comprometimento social no contexto do autoritarismo do governo Vargas. Tanto que os dois estiveram presos por serem ativistas do Partido Comunista. Portinari também pertenceu ao mesmo partido e foi grande amigo de Graciliano. No entanto, nunca chegou a ser preso. Mesmo assim, o Serviço de Informações da Divisão de Polícia Política e Social do Rio de Janeiro não deixou de classificá-lo, em seus arquivos, nos seguintes termos:
Antigo apologista do comunismo, exerceu, no P.C.B., os mais variados misteres. Foi candidato ao Parlamento pelo Estado de São Paulo, membro efetivo do Partido, conforme “carnet” concedido por Luiz Carlos Prestes a 21.4.1946; membro da comissão promotora do comício de união e solidariedade ao líder vermelho realizado na Esplanada do Castelo; membro do Conselho Consultivo do “Ateneu
Garcia Lorca”, sociedade perfeitamente identificada com o sentimento comunista dos republicanos espanhóis; signatário de uma mensagem de congratulações por discursos pronunciados por Prestes. A 21.11.1947, desembarcou em Montevidéu, onde manteve estreito contacto com próceres comunistas uruguaios (APERJ, doc. D.P.S. No. 07971, 1948).
Na intimidade, Portinari era um humanista, tendo, como alvo, combater a divisão injusta de renda, inconformado com o contraste de um país rico nas regiões Sul e Sudeste em contraponto com um território miserável, mais ao Norte e ao Nordeste.
[...] as questões políticas e sociais tornam-se o material principal da literatura e das artes, de maneira geral. Pois bem, Portinari talvez seja o pintor brasileiro que mais reflete essa mudança, sobretudo nos anos 1940, quando se torna membro do Partido Comunista, pelo qual se candidata deputado e depois senador (GULLAR, 2014, p.52).
Assim, ele se dedicou sistematicamente à questão dos deslocados internos, uma população forçada a abandonar suas terras para buscar a sobrevivência em outro lugar do país. “A série de pinturas que representam retirantes famintos e miseráveis, bem como cadáveres de crianças vítimas da seca e da fome é a fase mais dramática da obra de Portinari” (GULLAR, 2014, p.52), constituíam levas de desesperados que perambulavam pelo imenso território nacional em busca de uma vida melhor.
Em 1942, sob a nítida influência de suas ideias sociais e da miséria do Nordeste, Portinari coloca em suas telas expressionistas da famosa série “Os Retirantes” aqueles brasileiros marginalizados como símbolo da miséria (BERARDO, 1983, p.54).
Pode-se discutir se a política era (ou não) a sua vocação; mas o fato é que ele chegou a se afastar temporariamente da pintura em duas ocasiões, decidindo participar efetivamente da política partidária, usando de seu prestígio pessoal como artista.
Como todo artista rebelde, Portinari (estou certo de que a razão da sólida amizade que o uniu a Graciliano Ramos é que ambos foram levados ao comunismo por um entrenhado desejo de justiça, mas ambos reagindo ao sistema de arregimentação partidária) fez as próprias leis do seu desenvolvimento. Da crítica social imediatista – muitíssimo necessária no Brasil, aliás – passou, nas grandes obras da sua maturidade presente, a uma recapitulação histórica, num tom poético mais alto. Mais alto e mais formal. Da crítica ao presente angustiado, foi em busca do passado heroico – mas ligando-o a um futuro que ainda mal se divisa hoje (CALLADO, 2003, pp. 103-104).
Nesse contexto, primeiramente Portinari foi candidato a Deputado Federal pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e, posteriormente, candidato a Senador pelo Partido Social Progressista (PSP). Ele não ganhou nenhuma dessas eleições e, se chegou à vitória no voto popular na segunda tentativa, foi impedido de tomar posse por manobras desonestas movidas pelos adversários. Porém, ele nunca deixou de praticar a política por outros meios, pois seu posicionamento sempre foi além dos interesses partidários imediatos.
À beira do seu túmulo achavam-se políticos de diversas tendências, inclusive o ex-senador Luís Carlos Prestes e o governador Carlos Lacerda. Um dos oradores que disse adeus a Portinari foi o denodado Carlos Marighella, antigo deputado federal constituinte pelo PC do B (BERARDO, 1983, p.66).
Figura 34: Cartaz de campanha política de Portinari para Deputado Federal, s.d.
(eleições gerais de 1945)
A militância política de Portinari (aliada ao compromisso social expresso em suas obras) fez com que as autoridades policiais no período do Estado Novo, assim como durante a Guerra Fria, vigiassem os seus passos com muita atenção. Em 1947 seu nome aparece num informe da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, descrito como “Propaganda comunista pela arte”, elencado ao lado de outros.
[...] artistas modernos que deveriam ser observados pela polícia, por estarem entregues a “atividade dissolvente” dos mais altos valores sociais: as pintoras Pagu e Tarsila; os pintores Flávio de Carvalho, Paulo Rossi, Arnaldo Barbosa, Gastão Worms, Quirino da Silva, Nonê José Oswald de Andrade Filho, Di Cavalcanti e Candido Portinari; Carlos Prado, “discípulo de Gastão Woms”, o desenhista Lívio Abramo; o escritor Oswald de Andrade; o médico Osório César; os jornalistas Geraldo Ferraz, Gusmão e Galmão [Galeão] Coutinho. Segall e Gregori Warschavchik também constam da lista, sendo apresentados como “pintor russo” e “arquiteto russo”, ambos “genros do milionário judeu Klabin”. (Annateresa Fabris, In: COSTA ; CAIRES, 2018, p.46).
Figura 35: Publicidade de comício realizado pelo PCB, 1947
(campanha de Candido Portinari para senador)