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1. Vida e Arte de Portinari

1.2 Uma experiência transformadora

Entre os anos de 1928 a 1930, graças ao prêmio de viagem pela participação na Exposição Geral de Belas Artes, finalmente Portinari consegue fazer o seu tão desejado estágio na Europa. Antes de partir, Portinari não deixa de visitar sua terra natal no interior paulista para se despedir dos familiares; declarando, em entrevista, quais eram as suas reais expectativas para essa viagem ao exterior:

Entendo que a estadia na Europa não deve ser aproveitada pelo pintor para uma produção intensa e quase nada meditada. Considero-o um prêmio de observação. O que vou fazer é observar, pesquisar, tirar da obra dos grandes artistas – do passado, nos museus, ou do presente, nas galerias – os elementos que melhor se prestam à afirmação de uma personalidade. [...] Prefiro regressar da Europa sem nenhuma bagagem volumosa, aparentando ao julgamento alheio nada ter feito, mas com cabedal profundo de observações e pesquisas. Uma tela só, cem vezes raspada e cem vezes pintada só para o artista, em uma procura incessante de perfeição [...] vale mais, sem dúvida, do que uma centena de telas acabadas, feitas sobre fórmulas alheias, quase mecânicas, que o artista traga da Europa, como documentação de uma inútil operosidade (PORTINARI, 2014, p.35).

Teria então a oportunidade de visitar a França, Itália, Inglaterra e Espanha. Com isso, Portinari passou dois anos absorvendo as técnicas da pintura tradicional europeia, deixando-se influenciar pelos mestres renascentistas, mas também atento às novidades do momento – e demonstrando interesse pela Escola de Paris que, naquele período, encontrava-se em plena expansão.

Na Europa, uma experiência transformadora! Entre 1929 e 1931 viaja com bolsa de estudos pela Itália, Inglaterra, Espanha e fixa residência em Paris. Nesse período pinta apenas quatro quadros, porque seu

tempo é dividido entre os estudos e a frequência a museus, galerias e lugares de reunião artística. Sabe ver os renascentistas – para ele mais modernos do que os acadêmicos – e a pintura de vanguarda. Fica profundamente impressionado pelas resoluções expressionistas com suas formas distorcidas. Volta, para a decepção de muitos, sem uma coleção de novas telas, mas com uma bagagem enorme de novas ideias. A essa experiência soma a visão cubista da forma, a visão picassiana da pintura e a reflexão sobre a concepção muralista mexicana (AJZENBERG, 2012, p.15).

Depois de Paris, Portinari visitou Londres, onde ficou fascinado com tudo o que viu na National Gallery. Em novembro, voltou para a França e tentou estabelecer-se em Paris, porém não foi capaz de encontrar um ateliê adequado que estivesse ao alcance de suas posses. Então, decidido a trabalhar no próprio cômodo onde habitava, sua produtividade era bastante baixa. “Na França, limita-se apenas a pintar três naturezas mortas, pois alegou que lá nada tinha a ver” (BERARDO, 1983, p.55).

Porém, não estava em absoluto desperdiçando seu tempo, nem caiu na boemia parisiense daqueles “anos loucos”, como alguns poderiam imaginar maliciosamente. Ao contrário disso, continuou visitando diariamente o Museu do Louvre pela manhã e fazendo estudos na parte da tarde, que lhe seriam úteis, ao voltar ao Brasil. Também estabeleceu contatos com importantes pintores do período, como Van Dongen (1877- 1968) e Othon Friesz (1879-1949). Desse modo, ele permaneceu fiel a seus planos de viagem, empregando seu tempo na Europa para observar e pesquisar as obras de arte às quais não tinha acesso no Brasil.

Não pretendo fazer quadros por enquanto. Estou cada vez mais antigo; diante das exposições que se realizam quase que diariamente e das coisas do Louvre, a gente, não sendo idiota e tendo mais amor à Arte do que ao sucesso, tem que pender para esse último. Aprendendo mais olhando um Ticiano, um Rafael, do que para o salão de outono todo. [...] Apesar de tudo, o movimento é esplêndido, talvez um pouco dispersivo – tanto que eu agora me limito a ir ao Louvre e trabalhar, estudar, do contrário a gente fica desnorteado (PORTINARI, 2014, p.36).

Em junho de 1930, participou da Expositon d'Art Brésilien, uma mostra coletiva de arte, no Foyer Brésilien; na qual apresentou um retrato e uma natureza-morta. Mesmo assim, continuou com uma produtividade material artística bastante reduzida. Seu excepcional ritmo de trabalho somente haveria de ser retomado no regresso ao Brasil, quando “irá dedicar-se, novamente em sua pátria, à criação, e em seis meses pinta quarenta quadros, cinco dos quais em uma semana” (BERARDO, 1983, p.55).

É difícil dizer o que mais impregnou o espírito de Portinari do muito que observou nessa primeira viagem à Europa. Mas o que podemos intuir é que as inúmeras visitas que realizou aos museus e galerias serviram, sobretudo, para reforçar as ideias que ele já possuía em seu interior. O realismo barroco de Michelangelo Mersi, conhecido como Caravaggio (1571-1610), por exemplo, cuja pintura expressiva apontava para a ética de uma espiritualidade comprometida.

A assimilação de ideais artísticos pode ter sido indireta, mas talvez se engane quem pense que a influência maior sobre as obras de Portinari foi tomada a partir nos pintores de tradição nórdica, como sugeriu Mário de Andrade (CHIARELLI, 2007); pois ninguém, senão os italianos do século XVII, podem ser reconhecidos na modernidade das obras de Portinari.

Em sua vasta produção artística, que construirá ao longo dos próximos anos, após o retorno ao Brasil, será possível perceber quais foram os artistas que mais impressionaram Portinari durante sua peregrinação artística nos dois anos passados na Europa. O que podemos dizer é que o impacto inicial seria muito diferente do caso da pintora modernista Anita Malfatti, que trouxera em sua bagagem obras produzidas na Europa e nos Estados Unidos, prontas para serem exibidas no Brasil, logo após seu retorno. Em lugar disso, longe da pátria e saudoso de sua gente, Portinari prometeu a si mesmo que, ao regressar ao Brasil, pintaria sua terra.

Vai começar agora a carreira propriamente dita do artista. Foi principalmente o estudo dos mestres europeus do passado o que Portinari foi fazer na Europa. No Brasil, de volta da Europa, é que descobre o chamado modernismo. Compreende-se isso: ali estava preocupado sobretudo de ver a maneira, a técnica, a arte dos grandes mestres do passado: percorre os museus para aprender humildemente. Não tem tempo para de se perder em preocupações estéticas ou filosóficas abstratas. (PEDROSA, 1981, p.9)

Figura 18: Candido Portinari - “Retrato de Maria”, 1932

(óleo sobre tela, 101 x 82 cm, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ)