I | ANÁLISE DO TERRITÓRIO
HISTÓRICO
2.1.3. ALDEIA DA HERDADE DO PEREIRO | ENQUADRAMENTO
HISTÓRICO
O Pereiro, ao contrário das Termas da Fadagosa, possui uma história relativamente mais recente. Parte do edificado da aldeia já existia quando em 1931, João Nunes Sequeira decide comprar parte da herdade em hasta pública à Caixa Geral de Depósitos. Segundo se consta, bastaram dois anos para que o custo da herdade fosse totalmente coberto pelos rendimentos que a mesma gerava. Não existe nenhum documento que comprove na totalidade a finalidade dos edifícios que já existiam na aldeia.
Fig. 21 | Vista aérea da Aldeia. Fonte: Fotografia da autora. Dezembro 2016.
João Nunes Sequeira ficou conhecido como uma das personagens mais emblemáticas do município. A sua capacidade de gestão e inovação promoveram o desenvolvimento de todas as aldeias Marvanenses, de tal maneira que Sto. António das Areias cresceu em torno das indústrias que este foi criando.
Após uma jornada em Lisboa ao serviço do Exército Português, onde atingiu o cargo de Sargento Enfermeiro do Hospital da Estrela, decidiu regressar à sua terra natal. Começou por abrir uma pequena loja para comercializar de tudo um pouco, incluindo produtos que importava da vizinha Espanha, como o pimentão e o papel de mortalha para cigarros. Depois de ter ingressado na vida de comerciante, decide então, em 1920 abrir o seu primeiro armazém em Santo António das Areias. Com o exponencial crescimento do seu negócio, João Nunes Sequeira decide alargar o seu potencial, tendo como primeiro grande passo a compra da aldeia do Pereiro. Inicialmente adquiriu apenas parte da herdade. Com o passar dos anos, foi comprando várias propriedades até formar o que hoje conhecemos como a Herdade do Pereiro com quase oitocentos hectares.
Na história do Concelho de Marvão, o desenvolvimento agrícola está diretamente relacionado com o desenvolvimento demográfico (PDM antigo de Marvão). Inicialmente, a Herdade era composta por apenas um conjunto de edifícios que servia de apoio à agricultura e aos trabalhadores que lá viviam. Com o passar dos anos e com o aumento da intensidade da exploração agrícola, e mais tarde industrial, a Aldeia do Pereiro começou efetivamente a crescer, tanto a nível demográfico como a nível civilizacional (aumento do número de serviços e edifícios), com a finalidade de responder às necessidades de produção.
No seu auge, apesar de propriedade privada, funcionava na sua globalidade como uma aldeia pública, com todos os apoios sociais que naquela época eram fulcrais para o desenvolvimento de uma comunidade e das suas famílias, como serviços de creche, escola primária, guarda-fiscal, trabalho para todos, atividades lúdicas (orquestra), habitação, Capela da Nossa Senhora da Esperança (capela abençoada, pelo que muitas crianças e casais foram batizados e casados na mesma), entre outros. A habitação possuía características diferentes consoante a família ou trabalhador singular a que se destinava. No total, o Pereiro era composto por quatro tipologias distintas. A mais luxuosa destinava-se aos proprietários, designada de Casa Principal, ou como era vulgarmente chamada pelos trabalhadores, o “palácio”; logo de seguida, por ordem de importância, as casas dos encarregados, responsáveis máximos de cada área de trabalho necessária ao funcionamento da Herdade; as casas das famílias, designadas de Bairro dos Justos e destinadas aos trabalhadores efetivos e já casados; e, por último, as cozinhas onde eram confecionadas as refeições serviam de camaratas para os trabalhadores temporários, cujo período de permanência poderia ir de dias a um mês. Uma das camaratas destinava-se aos justos, trabalhadores que recebiam o seu ordenado ao final do mês; a segunda camarata era utilizada por trabalhadores que recebiam ao dia; e por último, a terceira era destinada única e somente às mulheres. Estas camaratas foram pensadas segundo uma lógica bastante funcional – ao centro a zona de confeção funcionava como sistema de aquecimento dos dormitórios que estavam dispostos em todo o seu redor. Por outro lado, funcionavam também como zona de convívio.
Para além das funcionalidades referidas previamente de alguns dos edifícios, o Pereiro é composto por muitos outros: adega, lagar, fábricas, garagens, oficinas de mecânica e carpintaria, espaços técnicos, casa do guarda, estufas de secagem do pimento, queijaria, armazéns, uma loja para a venda dos produtos locais, cantina, e, por último, um pombal.
Segundo testemunhos de ex-trabalhadores do Pereiro e dos respetivos proprietários, a Herdade chegou a acolher em regime permanente duzentos trabalhadores, sendo que para os trabalhos sazonais eram solicitadas colaborações a habitantes das aldeias vizinhas como a Beirã, Barretos, Escusa, Santo António das Areias, São Salvador da Aramenha, Montalvão e Póvoa e Meadas, chegando a atingir mil trabalhadores em simultâneo. Quando tal acontecia, e após a aquisição das Termas da Fadagosa em 1942, alguns dos trabalhadores acabavam por ficar alojados nesses mesmos edifícios, cuja função prévia era destinada ao alojamento dos usufrutuários da estância termal.
As épocas de trabalho sazonal estavam relacionadas com os cultivos, manutenções e apanhas feitas em grande massa, como a da azeitona, das uvas, dos cereais e da cortiça. A exploração do gado era também uma das vertentes mais importantes do Pereiro. No seu auge, chegaram a domesticar cerca de cem porcos, seiscentas ovelhas, cem vacas e duzentas cabras. Esta atividade de exploração permitia-lhes obter produtos de origem animal, melhorando assim a qualidade e variedade da sua alimentação, assim como também estrume para fertilizar a terra, não só nos campos de olivais como também nas plantações dos mais variados tipos de produtos.
Desde que João Nunes Sequeira iniciou a sua atividade profissional na comercialização de produtos, parte dos seus fornecedores eram espanhóis, incluindo os do pimentão. Entre 1936 e 1939 dá-se a Guerra Civil Espanhola, e como tal, Nunes Sequeira acaba por ajudar alguns dos seus fornecedores a fugir da guerra albergando-os no Pereiro. Como forma de agradecimento, estes comprometeram-se a montar uma fábrica de pimentão na Herdade, que mais tarde veio a revelar-se uma das principais fontes de rendimento da mesma. Na verdade, apenas parte dos pimentos eram produzidos na herdade, sendo que a outra parte provinha de outras propriedades que chegavam à Beirã através da linha férrea. O Pereiro, para além de produzir, funcionava também como indústria de secagem, moagem do pimento e esmagamento do pimento para a produção de pasta de pimentão.
Esta indústria acabou por atingir tais dimensões que os Sequeira possuíam terrenos agrícolas e respetivas indústrias em vários pontos do país, tais como: Elvas, Borba, Mora, Cabeço de Vide, Abrantes, Riachos, Torres Novas, Bemposta, Chouto e Chamusca (in Miragem, p. 164).
Para além da indústria do pimentão, o Pereiro servia como base para a moagem, armazenamento e embalamento de produtos que eram importados em bruto, como diversas especiarias. A canela, pimenta, erva-doce, noz-moscada e cravinho foram dos temperos mais importados de Macau a preços altamente competitivos. Todos estes produtos eram comercializados através da marca criada propositadamente para o efeito, designada de “Flor do Pereiro”.
Com um funcionamento à parte da indústria do pimentão, a família Sequeira abriu também várias indústrias em Santo António das Areias, destinadas à indústria das conservas e
da confeitaria, onde eram embalados e conservados os produtos colhidos nos terrenos agrícolas.
Contudo, tal dimensão de negócio seria impossível caso não existisse a estação de caminhos-de-ferro da Beirã, situada a apenas quatro quilómetros (em linha reta) da Aldeia do Pereiro. Esta fazia a ligação entre vários pontos do país e uma das cidades espanholas mais próximas de Marvão: Valência de Alcântara, elegendo a Beirã como uma das estacões mais importantes (sobretudo pelas trocas comerciais que eram feitas na mesma). As facilidades de transporte de mercadoria e pessoas permitiram intensificar e apostar no desenvolvimento das terras dos “termos da vila”, fazendo com que todos os produtos chegassem ao seu destino em menos de um dia.
Após a morte de João Nunes Sequeira em 1968, o Pereiro manteve o seu funcionamento, sob a gestão de um dos seus filhos, Artur Sequeira. Contudo, com o avanço das tecnologias e o aparecimento de fábricas mais modernas, os fornos de pimentão deixaram de ser usados. Passado uns anos, grande parte das ferramentas e máquinas agrícolas já não estavam à altura de competir com o mercado nacional, e mais tarde, internacional. Foi então que a grande fonte de desenvolvimento do município entrou em declínio.
Atualmente, a Aldeia do Pereiro encontra-se em estado de ruína, sendo que ainda existe alguma manutenção a ser feita aos espaços exteriores por um casal (os caseiros) que vive permanentemente numa casa totalmente recuperada. Alguns dos edifícios a norte do conjunto estão a ser explorados como edifícios de apoio à produção de gado ovino.