1.4 ALDEIAS: RETOMADAS DE SUCESSO
1.4.1 Aldeia Itapoã
A aldeia Itapoã61, como informado acima, encontra-se na região de Águas de Olivença. Sua localização junto à costa sul da vila de Olivença e com acesso facilitado pela rodovia BA-001 permite aos moradores um trânsito relativamente frequente – e para alguns, inclusive diário – em direção à escola sede (Sapucaeira), à cidade de Ilhéus e também até Olivença. Na entrada da aldeia há placas indicando que não índios sem autorização não são bem-vindos, mas devido a este acesso facilitado e as relações que as pessoas dali estabelecem com os não índios, Itapuã acaba sendo uma das principais referências para a visitação de pessoas de fora – todas com o devido consentimento da cacique ou de alguma de suas lideranças. Estudantes, turistas, políticos (em período de campanha), vendedores ambulantes, funcionários de ONG’s, antropólogos e demais pesquisadores são apenas algumas destas visitas constantes.
Enquanto estava em campo, observei por mais de uma vez a chegada de turistas e estudantes interessados em conhecer a aldeia. Estes contatos são em geral feitos pela cacique ou alguma de suas lideranças. Em razão deste fluxo constante, a produção de artesanato pelas famílias indígenas se coloca como uma das principais fontes de renda. Cheguei a acompanhar também as primeiras conversas entre as lideranças e a cacique que pretendiam organizar uma “trilha orientada” para turistas dentro da aldeia. O projeto em síntese pretendia levar os hóspedes de hotéis da região para conhecerem a mata, o açude, as casas das famílias indígenas, a casa de farinha, para degustar comidas típicas (como farinha, giroba, tapioca, moqueca, beiju) e comprar artesanato.
Esta disposição a estabelecer relações com pessoas de fora da comunidade reverbera em comentários frequentes por parte das lideranças e caciques de outros grupos,que questionam a forma com a cacique conduz suas relações com os não indígenas. De fato, a cacique Jamopoty parece ser uma daquelas que possui e aciona um grande número de relações com pessoas e instituições não indígenas. Seja por intermédio de suas lideranças, ou por articulações e contatos que foi adquirindo ao longo de sua atuação como cacique, ela assume um certo destaque frente as pessoas de seu cacicado e dos demais por disponibilizar aos seus o acesso a recursos e bens materiais que muitas vezes não chegam aos outros caciques. Como exemplo disso, destaco a parceria que Jamopoty e algumas de suas lideranças possuem com a
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De acordo com informações apresentadas no RCID, esta propriedade está em nome do fazendeiro Barreto de Araújo, tem cerca de 250 hectares e sua titulação parece estar irregular (VIEGAS/ RCID, 2009: 287).
ONG Thidewá, gerando para com os outros caciques, motivo para desconfiança e acusações de que tal entidade estaria privilegiando somente algumas famílias indígenas – ligadas a este cacicado – e não o “povo Tupinambá” como um todo.
A aldeia Itapoã foi aquela onde realizei a maior parte de meu trabalho de campo. Isso me possibilitou elaborar um censo das casas e moradores locais. No total das 65 casas vivem pouco mais de 150 moradores, sendo destes 89 adultos e 63 crianças/jovens entre os zero e quatorze anos. As casas são todas de taipa (estrutura de troncos de árvore e paredes de barro) e cobertas com telhas de amianto. Em comparação a outras aldeias, esta apresenta uma disposição espacial das casas que lhe é peculiar. Sob uma área plana, a maioria das moradias (55 do total) está disposta em duas fileiras que se alinham de frente uma para a outra, formando ao centro um caminho amplo que permite inclusive o acesso de carros (vide fotos 3 e 4).
No meio deste caminho se localiza a “cabana” onde acontecem reuniões entre os moradores, a cacique e demais lideranças. O local serve também de ponto de encontros e conversas informais entre as famílias indígenas ou quando chega algum não indígena para visitar a aldeia. A casa da cacique é a última da fileira esquerda de quem está entrando na aldeia. Deste lugar ela consegue visualizar todos os movimentos de chegadas e partidas da aldeia, bem como, boa parte das casas. As moradias que não se aglomeram neste núcleo principal estão dispostas nas redondezas do mesmo, especificamente em uma via lateral que cruza a principal e que também se configura pelo “enfileiramento” das habitações.
Quando indagados sobre a organização deste modelo sócio- espacial, alguns indígenas responderam que teria sido inspirado na forma como antigamente as casas dos nativos eram dispostas na aldeia mãe, isto é, uma ao lado da outra no entorno da praça em Olivença. Vale notar que este modelo incorporado na aldeia Itapoã privilegia, como era no aldeamento jesuíta, um maior controle social entre os moradores do lugar. A proximidade favorece ainda o fortalecimento de vínculos diários entre as casas, a partilha de alimentos, os cuidados com as crianças de uns e outros, o empréstimo de objetos, os momentos de sociabilidade em trabalhos e atividades cotidianas. Em contrapartida, a proximidade pode levar ao distanciamento, pois a predisposição a brigas, desentendimentos e principalmente fofocas entre aqueles que estão mais próximos também pode ser recorrente. Aliás, as fofocas são sempre molas propulsoras eficazes dos rearranjos sociopolíticos desencadeados entre os indígenas. Elas permeiam os contextos das
casas, das aldeias em si e até mesmo o ambiente da escola e das reuniões. As fofocas por sinal devem ser consideradas como matéria- prima do fazer política local, já que é em geral a partir de uma fofoca ou de um comentário que vai sendo passado de uns a outros, que os fatos sociais e políticos vão sendo consolidados e, “assimilados” eu diria.
Em geral, a maior parte dos habitantes da aldeia Itapoã vive nela desde quando ainda era uma retomada (2006), mas há também algumas famílias que estão ali há menos de dois anos. Da época da retomada até o presente momento, a conquista da permanência no lugar foi um grande passo que se sucedeu com a construção das casas, dos roçados (de mandioca, milho, feijão) e da casa de farinha. Contudo, impossível deixar de notar que nestes seis anos a aldeia Itapoã continuou apresentando algumas carências básicas, como o acesso à água potável e ao saneamento residencial. Poucas casas possuem banheiro com fossa – em geral somente aquelas em que as famílias apresentam uma renda mensal comparativamente maior que as demais62 –, sendo a mata no entorno das casas utilizada para estes fins.
Quanto à provisão de água, em 2011 as famílias recorriam a alguma das fontes que se encontram nas redondezas da aldeia. Entre estas alternativas se destacam as pequenas nascentes que brotam no interior da mata, uma bica às margens da rodovia BA-001 que dista em média trinta minutos a pé da aldeia, os tanques de amianto que servem para captar água da chuva e, por fim, as torneiras que um hotel próximo à aldeia disponibiliza para os indígenas coletarem água – com exceção dos meses de verão quando a demanda aumenta muito.
Em um ou outro destes locais, crianças, jovens, mulheres e idosos são frequentemente responsáveis por encherem as grandes latas d’água e transportarem-nas sobre a cabeça até a moradia da família. Mesmo que a qualidade da água de todas estas fontes seja duvidosa, elas são destinadas à ingestão e ao preparo de alimentos63. Já a higiene pessoal e a limpeza de roupas e louças são comumente feitas em um açude na aldeia. Quando realizei a segunda etapa do trabalho de campo em 2012,
62 Os membros das famílias que possuem uma renda mensal um pouco melhor realizam atividades de serviços gerais em algum hotel das redondezas, ou são AIS, professor, merendeira ou motorista da escola.
63 Esta descrição a respeito do acesso precário à água na aldeia Itapoã deve ser estendida para todas as outras localidades de moradia da terra indígena, com exceção da vila de Olivença. Ou seja, em nenhuma outra aldeia, retomada e mesmo área de posse herdada, o provimento da água se realizada de modo diferente, sendo sempre coletada junto a um córrego ou rio próximo. A captação da chuva é uma alternativa para aquelas famílias que conseguem tanques para armazenar e mesmo quando há poços d’água com motores elétricos ou à gasolina, estes raramente são acionados em função dos custos elevados que geram.
os indígenas haviam conseguido fazer uma pequena represa e comprar um motor a gasolina para puxar a água. Porém, este motor era ligado apenas uma ou duas vezes ao dia no máximo, assim a água era racionada e muitas famílias também não possuíam caixa d’água para armazená-la. Por conta disto, as famílias mantinham o hábito de lavar louças e roupas no açude. Já em relação à higiene pessoal, os evangélicos64 abandonaram o costume de irem até o açude e passaram a fazer em suas próprias residências, enquanto os demais moradores mantiveram tal hábito. Mulheres e homens não tomam banhos juntos, sendo que as mulheres em geral são acompanhadas das crianças e aproveitam a ida ao açude não somente para banharem-se como também para lavarem louças e roupas.
O núcleo escolar da aldeia Itapoã primeiramente se encontrava junto à “cabana”, no aglomerado principal das casas. Porém, como a estrutura de taipa acabou se deteriorando, em 2011 foi erguida outra construção agora junto à entrada da aldeia. Pelo que pude conversar e observar, em todas as aldeias e retomadas os núcleos escolares são resultado do esforço individual de cada coletivo de moradores e suas lideranças locais, mesmo que administrativamente estejam vinculados a coordenação da escola sede. Mas, na verdade há pouco ou quase nenhum apoio material vindo da rede estadual de ensino, assim os núcleos escolares que atendem as crianças menores e em fase de alfabetização se constituem como mais um elemento que atesta e legitima o poder e influência do cacique e de suas lideranças na obtenção de recursos para a construção dos mesmos. Tais recursos dizem respeito tanto à estrutura física da escola (madeira e barro) quanto, principalmente, à mão de obra das pessoas envolvidas neste trabalho voluntário. Na ocasião da construção do novo núcleo escolar da Itapoã, além das professoras e crianças estudantes, os demais envolvidos eram homens e mulheres considerados lideranças da cacique e alguns rapazes e moças jovens filhos/as ou netos/as destes.