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ALEGORIA E DRAMA BARROCO

3.7.  Alegoria: nome e palavra

Para   entender   a   ascensão   e   queda   da   alegoria   no   barroco   alemão   e   sua retomada pela modernidade, Junkes (1994, p. 125), pelo prisma da literatura, em O processo da alegorização em Walter Benjamin, retomar, a  Origem do drama barroco alemão  de Benjamin em sua primeira parte quando trata a crítica ou a teoria do conhecimento.   Sua   sugestão   é   de   que,   no   contexto   técnico­mercantil,   Benjamin restaurou e dimensionou uma abordagem diferenciada do conceito de alegoria no campo da arte:

Tenha­se presente que a concepção benjamineana de alegoria se desenvolveu em dois momentos: primeiramente nos contextos do Barroco — ao contrapor, na  Origem   do   Drama   Barroco   Alemão,   a   questão   da   alegoria   ao   conceito clássico­romântico de símbolo — e, mais tarde, nos estudos sobre Baudelaire, afirmando   que   'a   alegoria   é   a   máquina­ferramenta   da   Modernidade' (JUNKES, 1994, p. 125).

principais.   O  primeiro   ao   analisar   a   situação   barroca,   quando   o  filósofo   coloca   a alegoria   em   oposição   ao   conceito   de   símbolo   dado   pelo   romantismo   alemão.   Em segundo lugar, ao procurar explicitar a alegoria no sentido maquinal encontrado por Baudelaire no mundo moderno. Para Junkes, esse instante primeiro está ligado ao mundo paradisíaco, lugar da primeira Criação, em que as ideias estão entrelaçadas na dimensão   nomeadora   da   linguagem   e   fazem   antítese   à   dimensão   significativa   e comunicativa.   Antes   da   queda   na   linguagem   profana   tudo   estava   vinculado   à linguística. O elemento simbólico fazia parte do mesmo plano das palavras, o homem completava a criação de Deus. Neste plano, criar e conhecer como que se confundiam entre o humano e o divino. Depois da queda, com a expulsão do homem do Paraíso, surge a segunda Criação. Então, a linguagem cai na profanação, redundando num processo   que   termina   em   mero   sistema   de   signos   útil   à   comunicação.   O   nome transforma­se em palavra. A relação entre nome e coisa começa a desaparecer e a objetividade é deixada de lado:

Se Benjamin, na sua teoria da arte, opõe 'alegoria' a 'simbolo', opõe  também, na   sua   teoria   da   linguagem,   'nome'   a   'signo'.   Enquanto   o  'nome',   na   sua transparência divino­paradisíaca, indica a linguagem como 'manifestação', o 'signo'   constitui   decorrência   da   degradação   após   a   queda   e   expulsão, marcando a linguagem como 'instrumento' de comunicação (JUNKES,  1994, p. 125). Junkes destaca a oposição entre a alegoria e o símbolo na teoria da arte de Benjamim. E mais: que, na teoria da linguagem, também reaparece esta oposição entre nome e signo. Antes da expulsão do Paraíso, a linguagem era uma manifestação autêntica e idêntica entre nome e coisa. Com a expulsão do Paraíso, perde o sentido original e passa a destoar do sentido que lhe foi atribuído, tornando­se instrumento mecânico de comunicação ou mero signo linguístico. Segundo esta ótica, Benjamin partiu da tipologia bíblica, pois Adão era quem poderia nomear as coisas sem falseá­ las, e tal nomeação não era jogo ou arbítrio. Esse era o estado inicial de comunicação entre o homem e Deus. Ambos pertenciam ao mesmo plano. Assim, conhecer o nome da coisa significava conhecer a coisa em si mesma, pois o elemento simbólico condizia em essência com a palavra falada. 

De outro modo, conforme Junkes (1994, p. 126), após a expulsão do paraíso, o ser humano perde a identidade entre nome e coisa, e perde a beleza harmônica da primeira manifestação da criação como o próprio Verbo de Deus que cria ex nihillo. A identidade entre nome e coisa, no estado paradisíaco, resguarda a consonância entre o humano e a divindade, Adão e Deus. Com a expulsão do ser humano do Paraíso, a linguagem nomeadora perde o caráter original de nomear o significado da coisa ou a própria coisa. A objetividade dos nomes/coisas dá lugar para a subjetividade humana. Isto   acarreta   a   atribuição   de   um   significado   ou   sentido   impreciso   e   arbitrário.   A ruptura com o mundo primevo adâmico faz surgir o mundo profano, diminuindo o impulso mimético primitivo e a dimensão nomeadora da linguagem. Esse poderoso impulso mimético era a condição indissociável da dimensão adâmica nomeadora da linguagem   no   mundo   antigo.   Ao   diminuir,   deu   lugar   ao   uso   comunicativo   das palavras,   tornando­se   mera   reprodução   simbólica   sem   sentido.   Só   a   admiração filosófica para Benjamin poderá ajudar a interpretar, restaurar e ressignificar a então perdida objetividade dos nomes. 

Por   fim,   paralelamente,   Junkes   (1994)   admite   que   Benjamin   atribui   a degradação da dimensão nomeadora da linguagem, primeiramente depois da queda do Paraíso, e por segundo, quando a burguesia ascendeu ao poder, ao entrar em cena o modo de produção capitalista. Este ponto é fundamental para que se compreenda o antes e o depois da indiferenciação entre palavra e coisa e do surgimento do tipo de alegoria barroca e moderna. Ou seja: de quando a linguagem deixa de fazer parte do Paraíso e  começa a ser usada de forma profana: Em suma, a função comunicativa da linguagem é uma decorrência da perda de identidade entre a palavra­sentido e a coisa­sentido. A palavra deixa de ser nome, tornando­se signo, não se referindo o signo nunca a própria coisa, ao significado. Só na linguagem divina ou do Adão paradisíaco as palavras podiam ser nomes. Na linguagem do mundo histórico, as palavras não estão necessariamente   relacionadas   com   as   coisas   que   denotam,   provindo   seu sentido duma relação arbitrária subjetivamente estabelecida entre palavra e coisa. Na sua teoria da linguagem, são necessários três fatores para constituir­ se significado na linguagem histórica: de um lado as coisas; de outro, as palavras,   intervindo   como   terceiro   elemento   ou   fator   uma   pessoa   que   as relacione entre si, o intérprete (JUNKES, 1994, p. 126­127).

Na sequência, Junkes (1994) se apoia em Erika Fischer­Lichte para detalhar como Benjamin supera essa problemática da linguagem. O caráter semiótico vazio da linguagem   histórica   é   consequência   da   Queda.   E   para   entender   a   proposta   de transcender   a   expulsão   do   Paraíso   por   Benjamin,   os   autores   retomam   a   acepção messiânico­escatológica consignada em seu ensaio A função do tradutor (1987a).  Para Junkes e Fischer­Lichte, no mundo profano dos signos as línguas divergem em suas intenções o que possibilita que o intérprete faça as traduções completando o sentido dessa incompletude ou do que foi solapado. Algumas palavras, em diferentes línguas, ao tenderem para o mesmo objeto, deixam de representar a mesma coisa. O intérprete, em suas traduções, provoca modificações e faz reaparecer no sentido das palavras o sentido das coisas. Com efeito, as palavras deixam de ser signos e voltam a ser nomes. Em sua teoria da arte, então, Benjamin contrastaria alegoria e símbolo; e, na sua teoria da linguagem, nome e signo. Para tanto, ele entenderia que o processo de alegorização faz oposição ao simbólico. 

Os   princípios   da   teoria   do   alegórico,   para   Junkes   (1994,   p.   12),   são encontrados por Fischer­Lichte no ensaio A linguagem como tal e Sobre a linguagem do homem, nas quais a linguagem da arte seria compreendida na relação com a doutrina dos símbolos. O símbolo estaria afinado com o nome, e para demonstrá­lo Benjamin partiria de Görres e sobretudo do pensamento de Creuzer. Assim, o símbolo é parte da objetividade, da emblemática antiga ou de um mundo coletivo,  desde os primeiros hieróglifos antigos. Seu sentido proviria, por um ângulo, do interior de um contexto sociocultural e, por isso, o símbolo antecipa o futuro de uma redenção messiânica, por estar ligado a escatologia; e por outro, o símbolo artístico se torna o constituidor do sentido, ao procurar anular o viés semiótico. Nesta perspectiva, Junkes (1994, p. 128­ 129)   diz   que  Fischer­Lichte   dá   a   entender   que   Benjamin   abandona   o   sentido tridimensional, reduzindo o símbolo a uma bidimensionalidade, ou seja, elimina toda a dimensão pragmática de subjetividade. 

Deste modo, a acepção de obra de arte em Benjamin segue a visão escatológica na busca do sentido, enquanto o sentido na linguagem histórica nunca deixa de ser uma categorização semiótica. A alegoria, então, passa a buscar seu sentido no mundo histórico   ou   no   fazer   semiótico   da   linguagem,   quando   a   natureza   se   separou   da história.   A   separação   entre   natureza   e   linguagem   fez   o   humano   atribuir­lhe   um

sentido impróprio, o que acabou originando a alegoria, portanto o  nascimento da alegoria é resultado da relação subjetiva entre signo e coisa. Isto, de algum modo, intensificou o princípio de subjetividade e os diferentes signos passaram a denotar a mesma coisa. Vinculando a alegoria ao signo linguístico no mundo histórico, as coisas deixaram de ter sentido em si próprias; o "nome" não mais "é" a coisa, mas todos os fatores   da   linguagem   (apenas   'comunicativa'),   as   coisas,   as   palavras   e   o   próprio intérprete estão envolvidos com a historicidade. Representando no mundo histórico, a alegoria subjetiva, como princípio essencial de constituição de sentido, refere­se, da mesma maneira, à historicidade do mundo. 

Desta   forma,   a   alegoria   no   Drama   do   barroco   alemão,   cai   na   exposição mundana da história como história mundial do sofrimento.