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1.3.1 A instituição escolar: importante fator na organização do pensamento

Com a sua economia apoiada no emprego da mão de obra escrava até o ano de 1888, o Brasil revelava um baixo índice de urbanização, cujo percentual

estava em torno dos 10% da população. Então, uma exígua parcela desta ingressava no curso secundário, sendo ele procurado precisamente por aqueles que aspiravam, isto é, podiam aspirar, ao curso superior.

O interesse em acompanhar como se deram os estudos de um ator social explica-se em razão do relevante papel cumprido pela instituição escolar nas “sociedades escolarizadas”. Segundo Bourdieu (1998a, p. 205), “do mesmo modo que a religião nas sociedades primitivas, a cultura escolar propicia aos indivíduos um corpo comum de categorias de pensamento que tornam possível a comunicação.”

Em seguida, acrescenta o autor: “O que os indivíduos devem à escola é sobretudo um repertório de lugares-comuns, mas também terrenos de encontro e acordo, problemas comuns e maneiras comuns de abordar tais problemas comuns” (Ibid., p. 207). Encontra-se a instituição escolar, portanto, na base das questões que orientaram e organizaram o pensamento de uma época (Id.).

Trata-se, nas palavras de Roger Chartier, em referência explícita a Bourdieu, da incorporação do mundo social e mesmo da posição do indivíduo no interior deste mundo. “Esta incorporação cria os esquemas de percepção e de apreciação a partir dos quais os indivíduos pensam, atuam, julgam e classificam” (CHARTIER, 1999, p. 18). Papel este em grande parte cumprido pelas escolas na sociedade ocidental.

Antes, contudo, de ingressar em uma instituição escolar, propriamente dita, até os nove anos de idade, Vasconcellos permaneceu em sua casa. Nela, seus pais – principalmente sua mãe, que era educadora - se encarregaram de seus primeiros

estudos.22 Momento este em que o jovem agente ouvia sua mãe esclarecer que seu pai encontrava-se ausente, muito distante dali, cumprindo uma nobre missão (CARVALHO, 2004).

Isso também é muito significativo, considerando-se o peso constituído pela educação familiar. Esta, segundo Bourdieu (In ORTIZ, 1983, p. 94-95), cumpre um papel insubstituível “na transmissão dos instrumentos de apropriação e do modo de apropriação legítimo”, tão necessários ao acesso e ao uso legítimo de determinados bens culturais. Particularmente daqueles tidos como mais “nobres”. Entre eles, a possibilidade de acesso ao ensino superior e os desdobramentos a partir dele possíveis.

E esse papel foi cumprido por uma família que se revelava em condições de transmitir a seus filhos um certo montante de capital social e cultural relativamente raros, escassos. Esses capitais se revelariam decisivos na trajetória de Vasconcellos dali em diante, bem como nas possibilidades e nos meios de se apropriar de outros bens culturais, na posterior elaboração de diagnósticos relativos à sociedade brasileira, conforme será analisado nos capítulos seguintes.

Embora isso não signifique que se considere que essa “transmissão” se opere de forma inequívoca. Ela pressupõe um trabalho ativo, realizado tanto pelos pais quanto pelos filhos. Trabalho que pode ou não vir a ser bem sucedido por fatores os mais diversos. E que se faz profundamente marcado pelos procedimentos

22 Até o início do século XX, muitas famílias, evidentemente aquelas dotadas de recursos, optavam pela contratação de preceptores, os quais se encarregavam de instruir as crianças em casa. No caso de Aleixo de Vasconcellos, em lugar de um preceptor, contou ele com os ensinamentos que lhe foram transmitidos pela mãe. Esta certamente encarregou-se quase que exclusivamente de tal tarefa pois, além de ser ela professora, somava-se o fato de seu pai encontrar-se ausente durante longos períodos, viajando a trabalho.

de assimilação, distintos conforme os agentes e totalmente fora do controle dos mesmos.

1.3.2 Colégio Pedro II: o colégio padrão

No ano de 1895, quando estava próximo de completar dez anos de idade, Aleixo de Vasconcellos foi encaminhado ao Colégio D. Pedro II, o qual, naquele período, nos anos iniciais da fase republicana, passara a ser denominado Ginásio Nacional.23 Importava aos governantes republicanos apagar toda e qualquer lembrança do regime anterior, inclusive na denominação de instituições.

O Colégio Pedro II, único estabelecimento de ensino secundário mantido pelo governo imperial, da Independência até a República, e cuja fundação data de 1739, funcionava como colégio padrão do Brasil. Por ele passaram, na condição de jovens alunos, uma série de nomes ilustres: entre outros, o próprio Pedro II, o Barão do Rio Branco, os presidentes da República Rodrigues Alves, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca e Washington Luis (COLÉGIO PEDRO II, 2002).

Ser um colégio “padrão”, neste caso, era sinônimo de excelência e de metas a serem cumpridas, para futuramente passarem a ser adotadas pelas demais instituições de ensino. Instituído como padrão para o restante do Brasil, o Colégio Pedro II deveria ser o primeiro a adotar e praticar, para em seguida difundir, as intenções dos governantes quanto ao ensino secundário no país (TAVARES, 2002, p. 29).

23 Será mantida, no entanto, a denominação em vigor atualmente, ou seja, a de Colégio Pedro II.

No período, uma mínima parcela da população estava em condições de ter acesso ao ensino regular e seriado. Tanto era assim que, embora fosse um estabelecimento oficial da esfera federal do governo, o Pedro II era um colégio pago. Mesmo reservando vagas para alunos pobres, estas sempre estavam disponíveis em número inferior à demanda. Aqueles que, não podendo pagar, não conseguiam uma vaga gratuita, freqüentavam e pagavam um só curso por vez, tentando o ingresso num curso superior.

Segundo Primitivo Moacyr (1941b, p. 53), na instituição também eram aceitos alunos que houvessem recebido instrução no seio da família, como era o caso de Vasconcellos. Contudo, após a implantação da República, estes, bem como os alunos provenientes de estabelecimentos particulares, eram submetidos a um exame de madureza, antes de serem aceitos.

A aprovação no exame de madureza ao final do curso oferecido no Colégio Pedro II dava, por sua vez, direito à matrícula em qualquer um dos cursos superiores de caráter federal na República. Por exemplo, os cursos de Direito e de Medicina.

1.3.3 Colégio Pedro II: Uma escola leiga

O livro O Ateneu tornou-se célebre como registro das experiências do escritor Raul Pompéia (1997) na condição de aluno de dois famosos colégios cariocas: o Colégio Abílio e o Colégio Pedro II - ou Ginásio Nacional.24 Ambos, colocados a serviço das respeitáveis famílias cariocas e mesmo de outros Estados, foram freqüentados pelo autor entre as décadas de 1870 e 1880.

24 A primeira edição de O Ateneu é de 1888, quando foi publicado na forma de folhetim na Gazeta de Notícias.

Das experiências lá experimentadas por Pompéia, resultou uma percepção da escola como o microcosmo de uma sociedade marcada pela injustiça, pela desigualdade e pelo poder arbitrário. Provavelmente uma crítica à decadente sociedade monárquica, produzida ao final desta por Raul Pompéia, defensor do abolicionismo e do modelo republicano (HIGA, 1997).

Contudo, diferente de Raul Pompéia, tendo freqüentado o Colégio Pedro II na segunda metade da década de 1890, Aleixo de Vasconcellos conheceu os primeiros tempos da experiência de laicização do ensino promovida pela República.

Um esforço empreendido no sentido de tornar o ensino republicano distinto daquele dos tempos monárquicos. Pouco antes da matrícula de Vasconcellos no Pedro II, o ensino secundário havia se submetido às reformas propostas por Benjamin Constant,25 ocupante da pasta da Instrução, Correios e Telégrafos entre 1891 e 1892. Benjamin Constant, defensor do modelo republicano, era não apenas seguidor, mas importante divulgador das idéias de Auguste Comte no Brasil.

Sua reforma, sob nítida inspiração positivista, excluía do programa da cadeira de filosofia tanto o ensino religioso, quanto o de teodicéia e moral religiosa, os quais faziam parte do currículo oficial durante o período imperial (MOACYR, 1941b, p. 105). Revelava-se, portanto, um esforço contra o predomínio absoluto da Igreja no campo educacional. Predomínio este verificado desde os tempos coloniais. A reforma reforçava certos princípios republicanos, tais como a laicização, a gratuidade, a liberdade de ensino, sendo que, no entanto, não impediu a permanência dos colégios particulares de feições religiosas.

25 Para um estudo biográfico de Benjamin Constant, consultar Renato Lemos (1999).

Esta reforma afetou particularmente o Colégio Pedro II, introduzindo-se o estudo das Ciências, Sociologia, Moral, Direito e Economia Política. Mesmo assim, seguia-se uma tendência já observada durante a Monarquia, voltada ao enciclopedismo de inspiração iluminista.

Conforme Primitivo Moacyr (1941a, p. 73), quando foi freqüentado por Vasconcellos, o curso oferecido pelo Ginásio Nacional tinha duração de sete anos. Eram as seguintes as disciplinas ministradas: português, latim, grego, francês, inglês, alemão, matemática, astronomia, física, química, história natural, biologia, sociologia e moral, noções de economia política e direito pátrio, geografia, história universal, história do Brasil, literatura nacional, desenho, música, ginástica, mineralogia, geologia, evoluções militares e esgrima.

No colégio, Vasconcellos deve ter tido seus primeiros contatos com o pensamento evolucionista na perspectiva positivista comtiana, se não os tivera antes, por influência de seu pai. Com sua ênfase na ciência, desejando-se obter com a observação e a experimentação as verdades antes buscadas na metafísica e na teologia. Sob a tutela da ciência, desejando orientar as ações humanas, movido pela pretensão de alcançar um estágio caracterizado pela paz, pelo progresso e pela ordem (COMTE, 1996).

E foi exatamente esse o aspecto destacado por Aleixo de Vasconcellos, ao se propor a fazer um histórico da educação no Brasil (VASCONCELLOS, 1923g; 1924p). Suas palavras foram, senão de elogios, ao menos de reconhecimento pelo trabalho empreendido por Benjamin Constant e em relação ao programa positivista.

Segundo seu entendimento, “Sob os auspícios de Benjamin Constant e dentro dos seus ideais positivistas o ensino popular prosperou bastante, tomando

desde então uma feição mais prática”. Posteriormente, por adotar “a orientação de Benjamin Constant e desenvolvendo-a”, também Medeiros e Albuquerque, o qual ocupou a vice-diretoria no Pedro II, teria trazido importante contribuição no mesmo sentido (VASCONCELLOS, 1923g, p. 478).

Percebe-se que, para Vasconcellos, o ideal positivista era o modelo educacional perfeito ao seu país. Mas, será acompanhado adiante, defendia sua adoção também em outras esferas da vida social, política e cultural.

No positivismo, segundo José Murilo de Carvalho (1998, p. 9), a República era percebida dentro de uma perspectiva mais ampla que postulava uma futura idade de ouro. Nesta, os seres humanos se realizariam plenamente no seio de uma humanidade mitificada.

No entanto, ainda segundo o autor, faziam parte da versão positivista de República a idéia de ditadura republicana, bem como o apelo a um Executivo forte e intervencionista. E acrescenta: “Progresso e ditadura, o progresso pela ditadura, pela ação do Estado, eis aí um ideal de despotismo ilustrado que tinha longas raízes na tradição luso-brasileira” (Ibid., p. 27).

Tudo em conformidade com o desejo de alcançar o progresso dentro de um espírito ordeiro. Tal como se podia ler na bandeira nacional: “Ordem e progresso”... Não causa estranheza, portanto, que, segundo Primitivo Moacyr (1941a, p. 72), quando da sua criação, o Colégio Pedro II se apresentasse movido pelos propósitos de “proporcionar a instrução secundária e fundamental necessária e suficiente, assim para a matrícula nos cursos superiores, como em geral para o bom

Aleixo de Vasconcellos, tendo ingressado no colégio naquele contexto, não deixou menções relativas às suas impressões dos tempos escolares, exceto os elogios dirigidos à orientação positivista de Benjamin Constant. Não pretendendo generalizar, pode-se, entretanto buscar por registros deixados por outros agentes em período próximo. Dois médicos contemporâneos de Vasconcellos o fizeram. Ambos, referiram-se de forma elogiosa àquele que foi “o colégio de formação secundária de boa parte dos componentes da Academia Nacional de Medicina” daqueles tempos (CORADINI, 1997, p. 451).

Aluno do Pedro II nos anos iniciais do século XX, as recordações guardadas pelo médico Pedro Nava destacavam aspectos bastante distintos daqueles fixados por Pompéia. Segundo Nava, tudo “o que há de mais ilustre na vida brasileira recebeu seu influxo e criou-se no seu espírito”.

Mais adiante, propôs ainda que “assim como são inconfundíveis, na Inglaterra, os homens que estudaram nos colégios de Cambridge e Oxford, na França, os que foram alunos de Stanislas e de Louis-le-Grand, no Brasil, os que tiveram a honra de passar pelo velho Pedro II, dali trouxemos o espírito da casa”, formando uma “cadeia que nos une numa imensa e secular família espiritual” (NAVA Apud CORADINI, 1997, p. 451, itálicos no original).

Correspondência laudatória recebida por Aleixo de Vasconcellos em 1935, revelava que a percepção de seu amigo médico Heitor Beltrão em certa medida coincidia com a expressa por Pedro Nava, no sentido de enaltecer aquela instituição de ensino. Nas palavras de Beltrão (1935, f. 1): “Orgulhei-me de ser, também, bacharel pelo nosso Pedro II, em tempo ido, quando a pedagogia era, talvez, menos filosofante, mas quando, ao menos, se entrava uma escola superior com a noção

nítida da média coletiva de conhecimentos humanos pós-elementares. Como se estudava! Como era possível a floração de um Aleixo de Vasconcellos!”

Pelo que se pode observar, tendo em vista a pequena amostra analisada, havia uma tendência de ver de forma favorável os tempos do Pedro II, ao menos entre os médicos que o freqüentaram mais ou menos no mesmo período que Vasconcellos.

1.3.4 O aluno gratuito

Os registros disponíveis indicam que, enquanto freqüentava o Pedro II, Aleixo de Vasconcellos foi um aluno que, além de disciplinado, destacou-se por sua dedicação aos estudos.

Leonel Gonzaga, por exemplo, registrou nos Anais da Academia Nacional de Medicina um episódio em que acentuou essa condição. Em palavras carregadas pela emoção de quem fora incumbido de recepcionar um velho amigo no momento

em que ele se tornava membro daquela prestigiada agremiação,26 Gonzaga

detalhou:

Era uma vez um menino que freqüentava um colégio, onde procurava ansioso e sedento de saber os primeiros conhecimentos das humanidades.

O estudante era um modelo de retidão e de amor ao estudo. Certo dia, teve que faltar às aulas, talvez por adoentado.

O diretor do estabelecimento, estranhando a ausência do discípulo prendado e procurando atinar a verdadeira causa do afastamento, imaginou que talvez não dispusesse o pai, embora rico de qualidades, da fartura que as despesas exigiam à

26 Por isso mesmo, convém tenha-se em conta os possíveis exageros laudatórios que tendem a dar o tom das palavras e das pretensões – e obrigações - oratórias daqueles que eram incumbidos de semelhante tarefa.

permanência do filho nos bancos que os ricos alisavam. Escreveu, discreto, à família uma carta. Nela dizia que aquele aluno não se poderia perder. Tratava-se do mais distinto dentre todos e urgia voltasse quanto antes, que grande falta fazia como exemplo para os outros. Daí em diante, o menino passou a ser gratuito até o fim do curso, como prêmio a todas as boas qualidades que tão precocemente exornavam a sua personalidade. A história é simples, mas significativa. É a história dos grandes homens que do nada se fizeram, parecendo mesmo que a carência de recursos é o incentivo necessário à luta e ao triunfo. Os expoentes da humanidade não costumam ter o berço dourado da abastança.

O Colégio era o Internato do Ginásio Nacional, dantes, e hoje, o Colégio Pedro II; o menino, o acadêmico que ora a Academia recebe, entre festas e esplendores. (GONZAGA, 1936, p. 274-275)

Essa dedicação aos estudos parece não ter ficado restrita aos tempos da infância e juventude de Aleixo de Vasconcellos. Os relatos de Paulo Gaertner de Vasconcellos, seu sobrinho, e de suas netas, Teresa e Elizabeth, que o acompanharam ao final de sua vida, são unânimes em afirmar que ele estava sempre às voltas com os livros.27 Sentado em sua poltrona, lendo, estudando: eis uma das imagens a seu respeito que os entrevistados mais intensamente fixaram em suas recordações (CARVALHO, 2005; VASCONCELLOS, 2006). Hábito este, ao que parece, adquirido quando Aleixo de Vasconcellos era ainda bastante jovem.

Talvez seja possível insistir que sua dedicação aos estudos tenha sido estimulada inicialmente no próprio lar. Mas, da fala de Leonel Gonzaga há outro elemento a ser destacado. Gonzaga, assim como faria Raymundo Moniz de Aragão (FRAGA FILHO & ARAGÃO, 1964) muitos anos depois, referiu-se à falta de recursos que teria sido enfrentada por sua família naquele período.

27É de lamentar que sua biblioteca tenha desaparecido. Nada restou dos livros de Aleixo de Vasconcellos na residência no bairro de Copacabana, ainda pertencente à família, e na qual ele passou os últimos anos de sua vida.

A suposta correspondência do diretor do Pedro II, cargo então ocupado pelo intelectual José Veríssimo,28 não foi localizada. A possível escassez de posses nos tempos do colégio é algo que dificilmente se possa sustentar. Pode-se pensar o assunto tendo-se em vista o fato de sua mãe não ter-se dedicado exclusivamente ao lar. Seria uma opção – pouco comum, principalmente entre as classes mais abastadas -, ou seria uma imposição decorrente da “carência de recursos” sugerida por Leonel Gonzaga e Moniz de Aragão? Os vencimentos de seu pai Aureliano teriam se revelado insuficientes para mantê-lo no colégio pago?

No começo do século XX, parcela considerável das mulheres que se dedicavam ao trabalho extra-doméstico era constituída por operárias, oriundas das camadas mais baixas da população. Some-se ainda o fato de as teorias evolucionistas reservarem à mulher – compreendida como um ser inferior, frágil, pouco adaptado – as tarefas ligadas à reprodução e ao cuidado do lar e do marido. O macho, por sua vez, apresentado como o representante forte da espécie.

Ao final do século XIX, estavam razoavelmente bem delimitados os espaços que se reservavam às mulheres das classes altas, sob exigências de um bom preparo e educação para o casamento, tanto quanto as preocupações estéticas, com a moda ou com a casa.

Entre os grupos sociais mais abastados, a preocupação com sua educação visava prepará-la não necessariamente para a vida profissional, fora do lar, mas sim para o exercício da carreira doméstica (RAGO, 1985, p. 62-63). Enquanto isso, às

28 Em 1891, José Veríssimo foi nomeado diretor – ou reitor, como era então denominado – do Colégio Pedro II. Foi destacado crítico literário, amigo de importantes agentes do cenário intelectual, tendo dirigido, a partir de 1895, a Revista Brasileira.

mulheres pobres restava sujeitarem-se aos trabalhos fora do lar, sem o qual tornava-se impossível mantê-lo.

De um lado, o prestígio conferido pela missão cumprida pelo pai na condição de engenheiro. De outro, a falta de recursos para custear-lhe os estudos secundários. Teria sido nessa dupla pertença que Vasconcellos viveu seus primeiros tempos? Talvez explicasse ela, como propôs Leonel Gonzaga (1936, p. 275), seu empenho nos estudos. E poderia ser interpretado este como um esforço diante da possibilidade e desejo de ascensão social.

A escassez de recursos, contudo, dificilmente poderia se comprovar. Quando concluiu o curso no Pedro II, no ano de 1901, Vasconcellos tinha um irmão e duas irmãs. Estas desde cedo dedicaram-se à música, a ponto de mais tarde terem se tornado professoras na Escola Nacional de Música e laureadas com medalhas de ouro por aquela escola. A mais velha, Vera, dedicada ao canto orfeônico. A caçula, Francisca ou “Chiquita”, violinista. Some-se ainda o fato de o filho mais velho, Aleixo, ingressar na Faculdade de Medicina logo em seguida ao Pedro II.

Considerando-se a correspondência que se observa entre o espaço das posições sociais e o espaço dos estilos de vida (BOURDIEU In ORTIZ, 1983, p. 82), dificilmente se poderia pretender que um pai dotado de escassos recursos financeiros se mostrasse capaz de dotar seus filhos de tais capitais culturais, característicos das elites. Nem, tampouco, que houvesse se formado engenheiro ainda nos tempos imperiais.

Mais ainda: quais classes populares revelavam-se/revelam-se dotadas das competências específicas exigidas para a posse e o consumo daqueles bens culturais? Quem, entre as classes populares, poderia aspirar a tanto?29

Isso significa que Vasconcellos não revelava origens onde se observasse