• Nenhum resultado encontrado

No início da década de 1920, um folheto ilustrado impresso em Paris fazia a divulgação do Pertussol entre a população carioca. No folheto, entretanto, não figurava somente aquela vacina, mas também vários outros produtos do laboratório de Aleixo de Vasconcellos. Um deles era o Azurol, corante para trabalhos em microbiologia,31 por ele desenvolvido um ano antes de obter o medicamento contra a coqueluche.

31 Na ocasião, descreveu Vasconcellos (1917c, 1917d), a Grande Guerra, impedia a obtenção dos corantes usualmente empregados na microscopia, especialmente aquela que era reconhecida como a mais eficaz, a Solução de Giemsa, desenvolvida pelo professor de Medicina Tropical de Hamburgo, que Vasconcellos teve oportunidade de conhecer em Manguinhos (BENCHIMOL, 1990, p. 45). A eclosão da guerra atrapalhou sua importação da Alemanha. Isso foi por ele resolvido levando adiante experimentos com um novo corante em torno do qual dedicava-se no período: o Azurol. Atividade esta com a qual já vinha se envolvendo pelo menos desde 1914 (VASCONCELLOS, 1914c). Ao apresentá-lo aos seus pares-concorrentes, afirmou orgulhosamente: “Este precioso líquido está no nosso mercado representado pelo ‘Azurol’. (...) Tem pois todas as aplicações dadas à solução de Giemsa e fornece os mesmos resultados” (VASCONCELLOS, 1917c, p. 43). Por isso, o apresentava

No mesmo impresso, logo abaixo do Pertussol, e acima do Azurol, figurava a Metricidina, destinada à cura das “doenças de senhoras”.32 Seguia-se uma vacina que afirmava recomendada para o tratamento das “enterites, colites e eczemas” e que recebera a denominação de Entero-vacina;33 a Staphilolysina, “vacina ideal contra furúnculos”, apontada por seu sobrinho Paulo de Vasconcellos (2006) como o principal medicamento de seus laboratórios, ao lado do Pertussol; e a

Neisser-vacina, “contra uretrites e complicações” (LABORATORIO DE PRODUCTOS

MICROBIANOS DR. ALEIXO DE VASCONCELLOS, 192-).

A eles, somaram-se em seguida outros medicamentos, assim descritos:

Neisserina, “vacina contra as nefrites e suas complicações” (VASCONCELLOS,

1923l, f. 1-2); Quimiovacina, indicada “em todos estados gripais, nas como um “sucedâneo da Solução de Giemsa”. Um breve relato a respeito pode ser encontrado em Stancik (2002a, p. 39-42).

32 Anos mais tarde, Vasconcellos (1957, f. 2) assim comentou as propriedades do medicamento: “Existe no aparelho genital feminino variada flora bacteriana toda vez que qualquer inflamação altere a sua integridade. Além de infecções exógenas às quais está sujeito, há também as de origem interna chamadas endógenas, subordinadas a germes localizados em pontos distantes (aparelho intestinal, focos amigdalianos e dentários) que em ocasionais bacteriemias podem também localizar-se nos órgãos genitais femininos.

Admitida ser esta uma das muitas causas (felizmente a mais benigna e a mais freqüente) das chamadas doenças das senhoras, foi preparada uma vacina polivalente – Metricidina – baseada na doutrina de Wright, para o tratamento de metrites e anexites crônicas. Nas formas agudas que podem ceder com os antibióticos, mas também podem voltar em breve lapso de tempo, o emprego da vacina simultaneamente, oferece indiscutíveis vantagens. A aplicação da Metricidina não tem contra-indicações”. Como se pode perceber, além de trazer detalhes sobre o produto, Vasconcellos demonstrava já antever o avanço crescente - e ameaçador para seus negócios - da era dos antibióticos.

33 No Formulario de terapêutica infantil, organizado por Santos Moreira, Vasconcellos registrou um episódio em torno daquela vacina. Segundo seu relato: “Dr. E. C., médico, especialista reputado, sugestionado pelas palestras mantidas comigo sobre a terapêutica anti-anafilática deliberou tratar-se de pertinaz colite dolorosa e acabrunhada com injeções de uma vacina de stock que denominei entero-vacina.

Eis que o colega e amigo chega no dia imediato e me anuncia ruidosamente o seu bem estar e a cessação das dores. Prosseguiu no tratamento e está curado” (VASCONCELLOS, 1927b, p. 30, itálicos no original). Nas diversas observações acrescentadas por Dona Lina Pianucci, viúva de Vasconcellos, aos documentos por ele deixados, consta uma que torna possível identificar o “Dr. E. C.”. Trata-se do médico Edilberto Campos. Nas palavras de Dona Lina: “O Dr. Edilberto Campos experimentou [a entero-vacina] em si próprio e falou a respeito dos bons resultados em Sociedade Científica” (Apud VASCONCELLOS, 1957, f. 3).

pneumonias e nas traqueobronquites e bronquites crônicas” (VASCONCELLOS, 195-); Espasmocyl, produto indicado para “as bronquites crônicas e as que sucedem à gripe”; Colodoclasina, recomendada para as “bronquites asmáticas”; Glifitol, apresentado como “um tônico”; Extrato Hepático Tiaminado, produto que conteria vitamina B1 (VASCONCELLOS, 1957).

FIGURA 3 – FOLHETO DO LABORATÓRIO DE PRODUTOS MICROBIANOS DR. ALEIXO DE VASCONCELLOS

Mais tarde, lançou ainda o C. V. 4, denominação com a qual fazia referência ao fato de o produto conter “cálcio e quatro vitaminas”, vendido na forma de comprimidos. Em folheto redigido em espanhol, recomendava-o no combate ”à prostração posterior às enfermidades infecciosas (gripe, febre tifóide,etc.)”, para “remover tumefações ganglionares, aumentar a assimilação do cálcio e do fósforo, aumentar o teor globular do sangue, despertar o apetite, reforçar a memória, fornecer cálcio ao organismo, estimular o crescimento, consolidar fraturas, acelerar a coagulação sangüínea para impedir a ocorrência de hemorragias nas operações de amídalas, fortalecer o sistema nervoso e impedir o aparecimento de cáries dentárias”

(LABORATORIO DE PRODUTOS MICROBIANOS DR. ALEIXO DE

VASCONCELLOS, 193-).

Espécie de elixir, o C.V.4 era prescrito por seu produtor como indicado para males os mais diversificados, embora sempre insistindo que teria propriedades cientificamente comprovadas. Sempre a fé na ciência na solução dos problemas dos homens, com os quais o agente esperava, um dia, construir uma nação moderna e progressista.

Naquele espírito da bacteriologia e da quimioterapia Vasconcellos foi adiante, a partir de seu sucesso com o Pertussol, desenvolvendo novos medicamentos que, ao mesmo tempo em que lhe proporcionavam rendimentos, favoreceram a ampliação de seus laboratórios,34 e um maior acúmulo de capital cultural e social.

34 Inicialmente, funcionando no número 45 da Rua da Assembléia (que durante breve período de tempo passou a se chamar Rua Peru, para então retornar à denominação anterior), o Laboratório de Produtos Microbiológicos e Pesquisas Microscópicas do Dr. Aleixo de Vasconcellos encarregou-se de realizar análises químicas e bacteriológicas e produzir o Pertussol, ao qual somaram-se, em 1923, os demais medicamentos, além do kefir

Não era apenas com a produção de medicamentos que se ocupava o farmacêutico e industrial Aleixo de Vasconcellos. Afirmando que o homem poderia “viver cem anos tomando kefir ou iogurte”, pois “boa alimentação e boa função digestiva prolongam a existência”, Vasconcellos passou a produzi-los e comercializá-los. Teriam ambos tanto propriedades alimentícias, quanto terapêuticas, sendo assim indicados para os “constipados crônicos”.35 E concluía afirmando: “É um índice de cultura de um povo o consumo do iogurte e do kefir, máxime no Brasil, nesta capital, que o calor produz alteração dos alimentos e estados graves de intoxicações” (LABORATORIO ALVAS, 1939).

A “arte de prolongar a vida” proposta por Vasconcellos (1935a, f. 6) passara a se revelar estreitamente associada às proposições da bacteriologia, da quimioterapia, do higienismo, da eugenia, conforme ele viera aprendendo no correr dos anos. Tornar-se médico abrira aqueles caminhos, para os quais, por mais distintos que se revelassem, buscou ele um denominador comum. Não continham todos eles partes da verdade, conforme se supunha? Como abster-se de algum deles? Como optar apenas por um deles?

Pode até parecer que, tendo-se em vista apenas um folheto de propaganda responsável pela divulgação de seus produtos, seria possível simplesmente associar aquelas proposições ao desejo de convencer possíveis consumidores. Mas não era apenas isso. Por trás de todas as afirmações de Vasconcellos, encontravam-se muitos outros fatores. Desde as teorias cientificistas que circulavam pela sociedade, e do iogurte. Estes últimos, a cargo da Empresa Brasileira de Kefir Ltda., instalada na Rua Conde de Bomfim, 233.

35“Constipados crônicos”, segundo Vasconcellos, seriam “indivíduos condenados a uma vida curta”. Teriam eles “mau hálito, má pele, mau gênio, mau fígado”, sofreriam de cefaléias, de pielite, de reumatismo lombar e estariam sujeitos a apendicite. Além disso, envelheceriam depressa, não engordariam, apresentariam eczemas e nunca estariam satisfeitos (LABORATORIO ALVAS, 1939).

às estratégias destinadas ao maior acúmulo de capitais, e ao caráter extremamente social da ciência em ação, do fazer ciência. Tudo isso num quadro sócio-cultural marcado pela miséria, pelo analfabetismo, pelas doenças. Tornar-se médico e homem de ciência implicou, no caso particular de Vasconcellos, posicionar-se diante dessas questões, mesmo naqueles momentos em que se ocupava de justificar a pertinência de seus produtos.

Tornar-se médico e, além disso, reconhecido como um legítimo homem de ciência implicou ainda, embora nem sempre por opção própria, mas tampouco de forma totalmente involuntária, em seguir o exemplo de Louis Pasteur. Este pulou de um domínio a outro. Do estudo da cerveja ao da seda, da dedicação aos fermentos para os micróbios associados ao leite, do vinho às enfermidades que acometiam animais e homens. E, dessa maneira, foi envolvendo os mais diversificados extratos da sociedade: industriais, agricultores, mães, governantes, conforme destacou Anne de Saint Romain (In LE GOFF et al., 1997, p. 88).

Vasconcellos, conforme se prosseguirá acompanhando nos capítulos seguintes, ampliou e diversificou ainda mais os domínios pelos quais transitou e produziu. Embora não tenha, nem de longe, obtido o envolvimento de mais amplas parcelas da sociedade. Mesmo assim e por conta dessa diversificação, sentiu-se suficientemente seguro para, como um legítimo homem de ciência, associar qualidades quase mágicas a produtos como o leite e seus derivados.

Aspectos estes que podem ser antecipados, mas cujo esclarecimento exige maiores detalhes. Essas proposições suas quanto à “arte de prolongar a vida” somente podem ganhar sentido se prosseguirmos acompanhando o agente em mais alguns momentos de sua trajetória.

Infelizmente, o Brasil não é o vasto hospital que tanto se apregoa. A frase, sobre ser imprópria, não me parece verdadeira, nem é original. Hospital significa abrigo, desvelo, proteção; é a dedicação às vezes até ao sacrifício; é a assistência carinhosa que anima e consola; é o remédio sábia e criteriosamente aplicado, que alivia quase sempre, e que muitas vezes cura. Ora, o que ainda existe por estes sertões além é o desamparo, o descuramento, o abandono; o charlatanismo arrogante, vazio e daninho como o sapê bravo junto do qual ele vive; é a indústria mezinheira dos preparados medicinais que “tudo curam”; é enfim, em uma palavra, a doença não remediada, a ignorância satisfeita, a miséria desprotegida e explorada.

Aleixo de Vasconcellos (1919)1 É da feição da ciência a complicada semeadura, a demorada medra, em estufa de laboratório, longe dos olhos leigos, afastada da língua rudimentar das propagandas. Quando, apesar de tudo, chega a ser vista é que se agigantou, excepcionalmente.

Heitor Beltrão (1935, f. 1)2

1 Discurso proferido por Aleixo de Vasconcellos na Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (Apud CUNHA, 1966, p. 31).