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Conforme se acompanhou até o momento, Aleixo de Vasconcellos já trouxe do berço um bom montante de recursos culturais e sociais, cujo volume foi ampliado no decorrer de sua formação médica e, ainda mais, após o início do exercício profissional. Mesmo assim, embora tenha se tornado industrial, não chegou a acumular fortuna. Contudo, sua posição social jamais pode ser confundida com a de um membro dos extratos menos favorecidos. Estas, pobres, sem instrução ou mesmo analfabetas, doentes, marginalizadas estavam muito distantes das condições sócio-culturais desfrutadas por Vasconcellos.

Em situação bastante diversa, Aleixo de Vasconcellos pertenceu a uma parcela da sociedade que não apenas se percebia, mas fazia questão de evidenciar que se encontrava, em vários aspectos, muito distante da realidade da maioria da população: o grupo dos homens de ciência. Se este não se revelava, na sua totalidade, composto por agentes sociais economicamente bem situados, eram eles assim mesmo integrantes de uma elite cultural e social.

Aquelas classes sociais miseráveis, além de viverem marginalizadas e sob as mais adversas condições, conforme interpretação de significativas parcelas da intelectualidade do período, viviam em tal situação devido ao fato de terem o sangue miscigenado. Assim, eram percebidos como miseráveis porque menos aptos, inferiores, degenerados.

É certo que, conforme indicam estudos e de forma que será melhor abordada no capítulo seguinte, ao aproximar-se a década de 1920, essa compreensão da realidade tendeu a ser relativizada, matizada pela percepção da

doença enquanto fator social da miséria, do “atraso” e da “degeneração”. Mas esse foi um processo lento, não isento de contradições, sujeito a avanços e recuos.

Nesse contexto, assumindo os papéis e obtendo reconhecimento como um homem de ciência, Vasconcellos ascendeu à condição de membro de uma elite que se percebia distinta e que não queria se fazer confundida com as demais. Que se apresentava como uma elite da elite, um grupo, o dos homens de ciência, perfeitamente distinto e incumbido de uma missão superior. Uma elite que se apresentava como não necessariamente dotada de privilégios, mas, em lugar disso, que se dizia incumbida da missão de ditar os rumos a serem seguidos pela nação, rumo ao progresso e à civilização.

Por sua vez, as classes pobres enfrentavam ou estavam sujeitas à violência característica dos tempos em que a questão social era pensada como “caso de polícia”. Ou seja, em que os protestos dos mais miseráveis eram entendidos pelas elites e governantes como sinais evidentes de que, assim procedendo, não passavam de perturbadores da ordem, constituindo uma ameaça às “pessoas de bem”. E, por conta disso, deveriam ser exemplarmente reprimidos e, se necessário –

e geralmente se entendia que sim -, exemplarmente punidos.3

Considerá-lo um membro da elite não significa, entretanto, sugerir que Vasconcellos não tenha convivido com as camadas mais pobres da sociedade. Pelo contrário, muito embora, até o momento, tenha-se dado ênfase às suas experiências em meio aos membros das elites social e cultural.

Alguns, entre tantos outros espaços em que Vasconcellos teve inserção e nos quais, além disso, teve contato mais próximo com as camadas mais pobres,

3 Um panorama dessa situação é apresentado por José Murilo de Carvalho (1997). Consultar também Souza Patto (1999).

estavam subordinados ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Num primeiro momento, após sua nomeação para trabalhar no porto da cidade do Rio de Janeiro e, posteriormente, na condição de chefe da Seção de Leite e Derivados. Outro espaço foi a Policlínica de Crianças da Santa Casa, posteriormente denominado Hospital José Carlos Rodrigues. Por isso, uma vez mais ela será objeto de reflexão no presente capítulo.

Não se pode e nem se pretende desconsiderar outras situações em que esse contato possa ter ocorrido, mesmo porque estas, seguramente, eram muito mais corriqueiras do que aqui seria possível relatar. A ênfase é dada à Policlínica de Crianças e ao porto e, com mais intensidade, à Seção de Leite, por considerar-se que aqueles foram espaços em que esse contato entre agentes oriundos de diferentes classes, entre outros pertencimentos diferenciados, possibilitou a Aleixo de Vasconcellos acrescentar mais elementos às suas análises relativas à sociedade e aos homens do período em questão, além daqueles decorrentes de suas leituras e das discussões que tenha mantido com outros agentes oriundos do campo médico, intelectual, político, entre outros. Eram espaços em que Vasconcellos interagia com os dois extremos: homens de ciência e miseráveis trabalhadores.

Espaços que, por isso mesmo, permitem-nos perceber, conforme proposto por Roger Chartier (1990), as práticas diferenciadas, os usos contrastados, a pluralidade dos modos de emprego, as diferentes interpretações de determinados bens cultuais. Em outras palavras, a construção do sentido, a atribuição de significados ao mundo e à realidade social na qual os agentes tem suas experiências de vida.

No que se refere ainda a sua atuação no Ministério da Agricultura, entende-se que foi neste, durante o transcorrer das décadas de 1910 e 1920, que Vasconcellos foi, pouco a pouco, se assenhorando de uma problemática que conseguiu fazer associada ao seu nome. Trata-se do leite bovino, por ele assumido como um legítimo objeto de investigação e a partir do qual expressou seu desejo de intervir na realidade sócio-cultural do país. Não de forma premeditada, nem tampouco calculada ou planejada. Mas jogando com as cartas que tinha em mãos e contando ainda com as alianças anteriormente estabelecidas, além de outras que pode ir estabelecendo e firmando, conforme poderá ser acompanhado em seguida.

4.2 PEDIATRIA, TERAPÊUTICA, EXPERIMENTAÇÃO E REPRESENTAÇÕES